O PONTO DE PARTIDA

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Jared Diamond

(Capítulo I do livro: "Armas, Germes e Aço", pág. 35 a 52,

Editora Record, Rio de Janeiro, 2001)

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 Observação: Ao longo deste livro, as datas utilizadas para identificar os últimos 15.000 ano serão citadas como datas medidas pelo exame de radiocarbonos, e não como convencionalmente. A diferença entre os dois tipos será explicada no Capítulo 5. Datas calibradas são aquelas que, segundo se acredita, mais se aproximam do atual calendário. Os leitores acostumados a datas descalibradas precisarão ter esse aspecto em mente sempre que eu reproduzir datas aparentemente erradas, que são mais antigas do que outras com as quais estão familiarizados. Por exemplo, a data do horizonte arqueológico de Clóvis na América do Norte costuma ser citada como aproximadamente 9000 antes de Cristo (11.000 anos atrás), mas eu uso algo em torno de 11000 antes de Cristo (13.000 anos atrás), porque a primeira é descalibrada.

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Um ponto de partida aceitável, em se tratando de comparar os desdobramentos históricos nos diferentes continente, encontra-se por volta de 11000 antes de Cristo. Essa data corresponde aproximadamente ao surgimento dos primeiros vilarejos em algumas partes do mundo; ao primeiro povoamento pacifico das Américas; ao fim do pleistoceno e à última Era Glacial; e ao início do que os geólogos chamam de Era Recente. A domesticação de animais e o cultivo de plantas começava em pelo menos uma parte do mundo. Naquela altura, será que os povos de alguns continentes já tinham urna vantagem em relação aos de outros continentes?

Se a resposta for positiva, ela soluciona a pergunta de Yali. Por isso, este capítulo vai apresentar uma grande viagem por todos os continentes, por milhões de anos, desde nossas origens corno espécie até 13.000 anos atrás. Tudo isso vai ser resumido em menos de 20 páginas, Naturalmente, terei que passar por cima dos detalhes e mencionar apenas as tendências que me parecem ser mais relevantes para este livro.

Nossos parentes mais próximos ainda vivos são três espécies de macacos: os gorilas, os chimpanzés comuns e os chimpanzés pigmeus. Seu confinamento na África e as abundantes provas fornecidas por fósseis indicam que os primeiros estágios da evolução humana ocorreram naquele continente. A história humana, como algo separado da história animal, começou ali há cerca de 7 milhões de anos (os cálculos vão de 5 a 9 milhões de anos). Mais ou menos nessa época, a população de macacos africanos dividiu-se em vários grupos e um deles evoluiu para os atuais gorilas, outro deu origem a dois chimpanzés atuais e um terceiro resultou nos humanos. A linha do gorila aparentemente dividiu-se, antes de cindir-se novamente para resultar no chimpanzé e no humano.

Fósseis indicam que a linha evolutiva que nos levou a alcançar a postura vertical, por volta de 4 milhões de anos atrás, começou a aumentar o tamanho do corpo e o do cérebro há cerca de 2,5 milhões de anos. Esses proto-humanos são conhecidos corno Australopithecus africanus, Homo habilis e Homo erectus, e aparentemente evoluíram nessa seqüência. Embora o Homo erectus, o estágio alcançado por volta de 1,7 milhão de anos atrás, fosse parecido com o homem moderno em tamanho físico, seu cérebro era, no máximo, a metade do nosso. Os utensílios de pedra tornaram-se comuns há aproximadamente 2,5 milhões de anos, mas eles eram feitos de lascas ou pedaços de pedras. Em termos de distinção ou de significado Zoológico, o Homo erectus era mais que um macaco, mas muito menos do que um humano moderno.

Toda essa história humana, nos primeiros 5 ou 6 milhões de anos a partir de nossas origens, cerca de 7 milhões de anos atrás, permaneceu confinada na África. O primeiro ancestral humano a deixar o continente africano foi o Homo erectus, como foi comprovado pelos fósseis encontrados na ilha de Java, no sudeste da Ásia, que ficaram conhecidos como o "homem de Java" (veja Figura 1.1)

O mais antigo dos fósseis do "homem de Java" - naturalmente, ele pode ser de uma mulher - seria de aproximadamente um milhão de anos atrás. Entretanto, recentemente surgiu uma versão de que ele, na verdade, dataria de 1,8 milhão de anos atrás. (O nome Homo erectus pertence a esses fósseis de Java, enquanto os fósseis africanos classificados como Homo erectus podem receber um nome diferente.) Atualmente, considera-se que a primeira prova da presença de humanos na Europa data de aproximadamente meio milhão de anos atrás, mas existem hipóteses sobre uma presença anterior. Pode-se presumir, certamente, que a colonização da Ásia permitiu a simultânea colonização da Europa, uma vez que a Eurásia é uma única faixa de terra, sem grandes barreiras que a dividam.

FIGURA 1. 1 Como os humanos se espalharam pelo mundo

Isso ilustra um ponto recorrente ao longo deste livro. Cada vez que alguns cientistas afirmam ter descoberto "o mais antigo X" - em que X pode ser o primeiro fóssil humano encontrado na Europa, a primeira prova do cultivo de milho no México ou a coisa mais antiga encontrada em qualquer lugar -, o anúncio desafia outros cientistas a acharem algo ainda mais antigo. Na realidade, deve haver algum verdadeiro "mais antigo X", com todos os demais sendo falsos. Entretanto, corno veremos, para qualquer X surgem a cada ano novas descobertas e um cientista que assegura ter encontrado um X ainda mais antigo, assim como aparecem os contestadores da nova versão. Quase sempre são necessárias décadas de pesquisas para que os arqueólogos cheguem a um consenso sobre essas questões.

Cerca de meio milhão de anos atrás, os fósseis humanos tornaram-se um pouco diferentes do Homo erectus, com esqueletos maiores e crânios mais arredondados e menos angulosos. Os crânios dos africanos e europeus de meio milhão de anos atrás eram bastante semelhantes aos nossos, tanto que eles são classificados como Homo sapiens e não como Homo erectus. Essa distinção é arbitrária, já que o Homo erectus evoluiu para o Homo sapiens. Entretanto, esses primeiros Homo sapiens eram diferentes de nós em detalhes do esqueleto, tinham cérebros significativamente menores e eram grosseiramente diferentes em seus artefatos e comportamento. Povos modernos capazes de fazer utensílios de pedra, como os bisavós de Yali, teriam desprezo por essas ferramentas de meio milhão de anos atrás, considerando-as muito toscas. O único acréscimo significativo ao repertório cultural de nossos antepassados que está documentado e comprovado é o uso do fogo.

Nenhuma manifestação artística, nenhum utensílio de osso ou qualquer outra coisa dos primeiros Homo sapiens chegou até nós, exceto seus restos de esqueletos e alguns toscos utensílios de pedra. Ainda não havia seres humanos na Austrália, pelo simples motivo de que seriam necessários navios para transportá-los do sudeste da Ásia até lá. Também não havia seres humanos em lugar algum das Américas, pois isso exigiria a ocupação da parte mais próxima do continente Eurasiano (a Sibéria) e, possivelmente, também a capacidade de navegar. (O atual banco de areia do estreito de Bering, que separa a Sibéria do Alasca, já foi, alternadamente, um estreito e uma ampla ponte intercontinental de terra seca, conforme o nível das águas subia e descia durante as Eras Glaciais.) No entanto, a construção de embarcações e a sobrevivência na gélida Sibéria ainda estavam muito além da capacidade dos primeiros Homo sapiens.

Meio milhão de anos atrás, as populações humanas da África e do oeste da Eurásia continuavam a se diferenciar uma da outra e dos povos do leste da Ásia em detalhes do esqueleto. Os seres humanos da Europa e do oeste da Ásia, do período entre 130.000 e 40.000 anos atrás, são representados pelos esqueletos conhecidos como homem de Neanderthal, algumas vezes classificado como uma espécie diferente, Homo neanderthalensis. Embora sejam descritos como brutos que viviam em cavernas, os homens de Neanderthal tinham cérebros ligeiramente maiores que os nossos. Eles foram também os primeiros humanos a deixar provas de que enterravam seus mortos e cuidavam dos doentes. Mas seus utensílios de pedra eram toscos, se comparados com os machados de pedra polida dos modernos povos da Nova Guiné e, normalmente, não eram feitos em diferentes formatos padronizados, cada um com função claramente identificável.

Os poucos fragmentos preservados de esqueletos de africanos contemporâneos do homem de Neanderthal são mais parecidos com os nossos esqueletos atuais do que com os de Neanderthal. Mesmo com base nos poucos fragmentos de esqueletos de seres humanos encontrados no leste da Ásia, é possível dizer que são diferentes tanto dos africanos quanto dos homens de Neanderthal, Quanto ao estilo de vida daqueles tempos, os resquícios mais bem preservados são de artefatos de pedra e ossos de suas vitimas, encontrados em sítios arqueológicos localizados no sul da África. Embora aqueles africanos de 100.000 anos atrás tivessem esqueletos mais modernos que seus contemporâneos de Neanderthal, eles produziam basicamente os mesmos utensílios de pedra bruta que estes, sem qualquer padrão. Não preservaram uma só manifestação artística. A julgar pelos ossos das espécies animais que capturavam, sua habilidade para a caça não impressionava, direcionando-se sobretudo para as presas fáceis, animais que não eram perigosos. Não conheciam ainda a possibilidade de carnear um búfalo, um porco ou outras presas que oferecessem perigo. Não conseguiam nem pescar um peixe: em seus sítios, mesmo junto à costa, não foram encontrados vestígios de peixes. Assim como seus contemporâneos de Neanderthal, situavam-se ainda um degrau abaixo do que se considera completamente humano.

A história da espécie humana. começou verdadeiramente há cerca de 50.000 anos, na época daquilo que denominei nosso Grande Salto Adiante. Os primeiros sinais desse salto vieram de lugares no leste da África, através de utensílios de pedra padronizados e das primeiras jóias preservadas (contas de ovos de avestruz). Amostras semelhantes surgem a seguir no Oriente Médio, no sudeste da Europa e, mais tarde (uns 40.000 anos atrás), no sudoeste europeu, onde a abundância de artefatos é associada a esqueletos totalmente modernos de um povo chamado Cro-magnon. O que foi preservado em sítios arqueológicos rapidamente torna-se mais e mais interessante, não deixando dúvidas de que estávamos lidando com seres humanos modernos, tanto do ponto de vista biológico quanto do ponto de vista de comportamento.

Os Cro-magnon produziram não só utensílios de pedra, mas também de ossos, e a possibilidade de serem moldados aparentemente não era conhecida por seus antecessores. Esses artefatos eram produzidos em formas variadas e distintas, tão modernas que suas funções como agulhas, furadores, fixadores e outras são óbvias para nós. Em vez de utensílios com apenas uma peça, começaram a surgir os artefatos constituídos de várias peças. Entre as armas multipeças encontradas nos sítios dos Cro-magnon estão arpões, lanças e, finalmente, arcos e flechas, os precursores dos rifles e de outras armas modernas. Esses meios eficientes de matar a uma distância segura permitiram a caça de animais perigosos como o rinoceronte e os elefantes, enquanto a invenção da corda para as redes, das linhas e armadilhas adicionaram à nossa dieta o peixe e os pássaros. Restos de casas e roupas costuradas testemunham a evolução da capacidade de sobreviver em climas frios, assim como os resquícios de jóias e de esqueletos cuidadosamente enterrados indicam acontecimentos revolucionários, em termos estéticos e espirituais.

Entre os produtos dos Cro-magnon que foram preservados, os mais conhecidos são seus trabalhos artísticos: suas magníficas pinturas; de cavernas, estátuas e instrumentos musicais, até hoje apreciados como arte. Qualquer um que já tenha experimentado pessoalmente o fantástico poder das pinturas em tamanho natural de bois e cavalos na caverna Lascaux, no sudoeste da França, vai entender imediatamente: que seus criadores foram homens de mentes tão modernas quanto seus esqueletos.

Obviamente, algumas mudanças importantes ocorreram na capacidade de nossos ancestrais, entre 100.000 e 50.000 anos atrás. O Grande Salto Adiante apresenta duas importantes questões ainda não resolvidas, relativas a seu ponto de partida e sua localização geográfica.

Quanto à causa, mostrei em meu livro O terceiro chimpanzé a perfeição da caixa de voz e, em conseqüência, a base anatômica para a linguagem moderna, da qual tanto depende o exercício da criatividade humana. Outros sugeriram, ao contrário, que uma mudança na organização do cérebro nessa época, sem qualquer modificação no seu tamanho, tornou possível a linguagem moderna.

Em relação ao Grande Salto Adiante, será que ele começou em uma área geográfica especifica, em um grupo de humanos, que foram capazes de se expandir e de substituir as antigas populações de outras partes do mundo? Ou aconteceu paralelamente em várias regiões e, em cada uma, o povo que habita atualmente o local descende daqueles que lá viviam antes do Salto? Os crânios humanos da África de aproximadamente 100.000 anos atrás, com aparência moderna, podem reforçar a primeira opinião, tendo o Salto ocorrido especificamente na África.

Estudos moleculares (do chamado DNA mitocondrial) eram inicialmente interpretados também em termos de uma origem africana dos humanos modernos, embora o significado dessas descobertas moleculares esteja atualmente sendo posto em dúvida. Por outro lado, crânios de humanos que viveram na China e na Indonésia centenas de milhares de anos atrás exibem aspectos, segundo alguns antropólogos, ainda encontrados nos chineses modernos e nos aborígines australianos, respectivamente. Se verdadeira, essa descoberta sugeriria uma evolução paralela e origens multirregionais dos humanos modernos e não um único jardim do Éden. A questão continua sem resposta.

A prova de uma origem localizada dos humanos modernos, seguida de seus deslocamentos e sua substituição por outros tipos de humanos em outros lugares, parece mais forte na Europa. Cerca de 40.000 anos atrás, os Cro-magnon foram para a Europa, com seus esqueletos modernos, armas mais poderosas e outros traços culturais avançados. Em alguns milhares de anos, não havia mais homens de Neanderthal, que se consolidaram como únicos ocupantes do continente europeu durante centenas de milhares de anos. Essa seqüência sugere enfaticamente que os modernos Cro-magnon de alguma forma usaram sua superioridade tecnológica, assim como suas habilidades para a linguagem e seu cérebro, para infectar, matar ou deslocar os homens de Neanderthal, deixando para trás pouca ou nenhuma prova da hibridização entre os dois.

O Grande Salto Adiante coincide com a primeira comprovação de uma importante expansão geográfica dos humanos desde a colonização da Eurásia por nossos ancestrais. Essa expansão consistiu na ocupação da Austrália e da Nova Guiné, reunidas então em um único continente. Muitos sítios comprovam a presença humana na Austrália/Nova Guiné entre 40.000 e 30.000 anos atrás (além das inevitáveis e velhas afirmações de validade contestada). Pouco tempo depois desse povoamento inicial, os humanos se expandiram por todo o continente e se adaptaram a seus diversos habitats, das florestas tropicais e altas montanhas da Nova Guiné ao seco interior e o úmido sudeste da Austrália.

Durante as Eras Glaciais, a maior parte da água dos oceanos estava nas geleiras e o nível do mar em todo o mundo encontrava-se centenas de metros abaixo do atual. Em conseqüência disso, os mares que existem hoje entre a Ásia e as ilhas indonésias de Sumatra, Bornéu, Java e Bali eram terra seca. (O mesmo aconteceu em outros estreitos, como o de Bering e o Canal da Mancha.) O limite da terra continental no sudeste da Ásia ficava então 1.100 quilômetros a teste de sua localização atual. Apesar disso, as ilhas centrais da Indonésia, entre Bali e Austrália, permaneceram separadas por canais profundos. Para chegar naquela época à Austrália/Nova Guiné, indo da Ásia continental, era preciso cruzar no mínimo oito canais, sendo que o maior deles tinha pelo menos 80 quilômetros de largura. A maioria desses canais separava ilhas visíveis umas das outras, mas a Austrália estava sempre invisível, mesmo das ilhas indonésias mais próximas, Timor e Tanimbar. Portanto, a ocupação da Austrália/Nova Guiné é importante pelo fato de que exigia embarcações, e fornece de longe a mais antiga prova de seu uso na história. Semente cerca de 30.000 anos depois (13.000 anos atrás) aparecem provas do uso de embarcações em algum outro lugar no mundo, a partir do Mediterrâneo.

Inicialmente, os arqueólogos consideraram a possibilidade de que a colonização da Austrália/Nova Guiné tivesse ocorrido acidentalmente, por algumas pessoas arrastadas para o mar enquanto pescavam em jangadas perto de uma ilha indonésia. Em um cenário extremo, os primeiros colonizadores são descritos como se estivessem resumidos a unia jovem mulher grávida de um menino. Mas os que acreditam na teoria da colonização acidental ficaram surpresos corri as recentes descobertas de que outras ilhas, a leste de Nova Guiné, foram colonizadas logo depois desta, há cerca de 35.000 anos. Aquelas ilhas eram Nova Bretanha e Nova Irlanda, no arquipélago Bismarck, e Buka, nas ilhas Salomão. Buka está fora de vista da ilha mais próxima a oeste e só poderia ter sido alcançada por quem atravessasse aproximadamente 160 quilômetros de água. Portanto. os primeiros seres humanos da Austrália e da Nova Guiné seriam capazes de navegar intencionalmente até ilhas visíveis e usavam embarcações com freqüência suficiente para que a colonização até mesmo das ilhas distantes e invisíveis tenha ocorrido involuntariamente.

A colonização da Austrália/Nova Guiné talvez estivesse associada a outro dos primeiros grandes passos, além do uso de embarcações e da primeira expansão desde que alcançaram a Eurásia: o primeiro extermínio em massa de grandes espécies animais pelos humanos. Hoje, olhamos a África como o continente dos grandes mamíferos. A Eurásia moderna também tinha muitas espécies de grandes mamíferos (embora não com a abundância das planícies africanas de Serengeti), como os rinocerontes, elefantes, tigres da Ásia, alces, ursos e (até os tempos clássicos) leões. A Austrália/Nova Guiné não tem hoje mamíferos tão grandes quanto esses; na verdade, não possui nada maior que um canguru. Mas a Austrália/Nova Guiné teve antigamente os seus grandes mamíferos, incluindo cangurus gigantes; animais chamados diprotodontes, parecidos com os rinocerontes, que chegavam ao tamanho de uma vaca; e outros semelhantes ao leopardo. Tinha ainda enormes avestruzes não-voadores, alguns répteis gigantescos, entre os quais um lagarto de uma tonelada, um imenso píton e crocodilos.

Todos esses gigantes da Austrália/Nova Guiné (a chamada megafauna) desapareceram depois da chegada dos humanos. Devido à controvérsia sobre a data exata de seu desaparecimento, muitos sítios arqueológicos australianos, com datas que se espalham por dezenas de milhares de anos, e com abundantes depósitos de ossos de animais, foram cuidadosamente escavados, mas não se encontrou um só vestígio dos gigantes extintos nos últimos 35.000 anos. Portanto, a megafauna provavelmente foi extinta logo depois que os humanos chegaram à Austrália.

O desaparecimento quase simultâneo de tantas espécies gigantes suscita uma questão óbvia: o que causou isso? Uma resposta possível é que eles foram mortos ou eliminados indiretamente pelos primeiros humanos que chegaram. É bom lembrar que os animais da Austrália/Nova Guiné se desenvolveram durante milhões de anos na ausência dos humanos. Sabemos que os pássaros e os mamíferos das Galápagos e da Antártica, que evoluíram de maneira semelhante na ausência de humanos e não os encontraram até os tempos modernos, ainda não foram domesticados. Eles teriam sido exterminados se os conservacionistas não tivessem imposto rapidamente medidas para protegê-los. Em outras ilhas recentemente descobertas, onde não foram adoradas providências imediatas para protegera a fauna, houve verdadeiros extermínios: uma dessas vítimas, o dodô das ilhas Maurício, tornou-se praticamente um símbolo da extinção.

Também sabemos agora, por meio de estudos, que em cada uma das ilhas colonizadas na pré-história, a presença humana levou à extinção, tendo como vítimas os mamíferos gigantes de Madagascar (semelhantes aos macacos), os grandes moas, pássaros sem asas da Nova Zelândia, e o grande e pacífico ganso do Havaí. Da mesma maneira que os modernos seres humanos se aproximavam sem medo dos dodôs e focas e os matavam, presumivelmente os homens pré-históricos não temiam os grandes pássaros e os mamíferos gigantes, e também os matavam.

Portanto, uma hipótese para o desaparecimento dos gigantes da Austrália e Nova Guiné é que eles tiveram o mesmo destino 40.000 anos atrás. Por outro lado, a maior parte dos grandes mamíferos da África e da Eurásia sobreviveu até os tempos modernos, porque esses animais evoluíram juntamente com os proto-humanos por centenas de milhares ou milhões de anos. Eles tiveram, assim, tempo para desenvolver um certo medo dos humanos, à medida que nossos ancestrais, inicialmente com pouca habilidade para caçar, foram aperfeiçoando lentamente essa habilidade. O dodô, os grandes pássaros e talvez os gigantes da Austrália/Nova Guiné tiveram a infelicidade de ser confrontados repentinamente, sem qualquer preparação evolutiva, com modernos humanos invasores, que já possuíam a habilidade de caçar.

A hipótese de uma matança, entretanto, não foi aceita sem restrições. Os críticos enfatizaram que até agora não há registros de ossos dos extintos gigantes da Austrália/Nova Guiné que comprovem que foram mortos por humanos ou mesmo que tenham convivido com humanos. Defensores da hipótese da matança respondem: dificilmente se poderia pretender encontrar cemitérios, pois o extermínio foi muito rápido e há muito tempo, algo como 40.000 anos atrás. Os críticos respondem com outra teoria: talvez os gigantes tenham sucumbido a uma mudança no clima, como uma seca rigorosa no já cronicamente seco continente australiano. 0 debate continua.

Pessoalmente, não posso compreender por que os gigantes australianos teriam sobrevivido a incontáveis secas durante dezenas de milhões de anos, para depois cair mortos de modo quase simultâneo (pelo menos em um período de milhões de anos) e precisamente quando os primeiros humanos chegaram. Os gigantes desapareceram não apenas na área seca do centro da Austrália, mas também na úmida Nova Guiné e no sudeste australiano. Todos morreram, sem exceção, desde os que viviam nos desertos até os das florestas frias e das florestas tropicais. Portanto, parece mais provável que os gigantes tenham sido de fato exterminados pelos humanos, tanto diretamente (para lhes fornecer comida), quanto indiretamente (como resultado de incêndios e de mudanças ambientais causadas por sua presença).

Mas, independentemente de ter ocorrido a matança ou de terem sido vítimas do clima, o desaparecimento dos animais gigantes da Austrália/Nova Guiné teve, como veremos, grandes conseqüências para a história posterior da humanidade. Esse extermínio acabou com todos os grandes animais selvagens que poderiam, em outras circunstâncias, ser candidatos à domesticação, deixando os nativos da Austrália e da Nova Guiné sem um único animal nativo para domesticar.

Desta forma a colonização da Austrália/Nova Guiné só se efetivou na época do Grande Salto Adiante. Uma outra expansão geográfica dos humanos surgiu logo depois nas partes mais frias da Eurásia. Embora os homens de Neanderthal que viveram nos tempos glaciais tivessem se adaptado ao frio, eles não foram além do norte da Alemanha e da altura de Kiev. Isso não surpreende, já que os homens de Neanderthal aparentemente não tinham agulhas, roupas costuradas, casas aquecidas nem outras tecnologias essenciais para sobreviver nos climas mais frios. Os povos anatomicamente modernos que possuíam efetivamente essas tecnologias rumaram para a Sibéria há cerca de 20.000 anos (existem outras versões que falam em muito mais tempo), Essa expansão pode ter sido responsável pela extinção do mamute e do rinoceronte lanudos da Eurásia.

Com a colonização da Austrália/Nova Guiné, os humanos ocupavam agora três dos cinco continentes habitáveis. (Neste livro, considero a Eurásia um único continente e omito a Antártica porque os humanos s6 chegaram lá no século XIX e ela nunca teve uma população que se auto-sustentasse.) Restavam, assim, apenas dois continentes, a América do Norte e a América do Sul. Elas foram, seguramente, as últimas a serem habitadas, pelo motivo óbvio de que chegar às Américas a partir do Velho Mundo exigia embarcações (das quais não há indícios, nem mesmo na Indonésia, antes de 40.000 anos atrás) para atravessar por mar, ou a ocupação da Sibéria (que só ocorreu há 20.000 anos), que permitiria cruzar a ponte de terra de Bering.

Entretanto, ainda não se sabe exatamente em que momento, entre 14.000 e 35.000 anos atrás, as Américas começaram a ser colonizadas. Os mais antigos e indiscutíveis traços da presença humana estão no Alasca e datam de 12.000 anos antes de Cristo, seguidos de diversos outros nos Estados Unidos, ao sul da fronteira do Canadá, e no México, nos séculos que antecederam o ano 11000 antes de Cristo. Os últimos encontrados são chamados de sítios Clóvis, por causa do tipo existente junto à cidade de Clóvis, no Novo México, onde suas lanças características, com grandes pedras na ponta, foram identificadas pela primeira vez. Centenas de sítios Clóvis são conhecidos hoje, abrangendo praticamente todos os estados do sul dos EUA até o México. Provas inquestionáveis da presença humana aparecem logo depois na Amazônia e na Patagônia. Esses fatos sugerem a interpretação de que os sítios Clóvis documentam a primeira colonização humana das Américas, que rapidamente se multiplicou, se expandiu e povoou os dois continentes.

Alguém pode se surpreender com fato de os descendentes de Clóvis terem chegado â Patagônia, situada 12.800 quilômetros ao sul da fronteira entre os EUA e o Canadá, em menos de mil anos. No entanto, isto representa uma expansão média de apenas 12,8 quilômetros por ano, uma proeza trivial para caçadores-coletores de alimentos, acostumados a percorrer essa distância em apenas um dia.

Podemos nos surpreender também com a velocidade com que as Américas foram povoadas, a ponto de motivar uma expansão para o sul em direção à Patagônia. Mas se considerarmos os números reais, veremos que esse crescimento populacional não foi tão surpreendente. Se as Américas abrigavam caçadores-coletores em uma densidade populacional média de uma pessoa para cada 1,6 quilômetro quadrado (um índice alto para os modernos caçadores-coletores), então toda a área das Américas teria aproximadamente 10 milhões de pessoas. Mesmo que os primeiros colonos constituíssem uni grupo de apenas 100 pessoas e que seu número tenha crescido apenas 1,1% ao ano, seus descendentes chegariam a uma população de 10 milhões de pessoas no período de mil anos. Um crescimento populacional de 1,1% ao ano também é insignificante: taxas de 3,4% ao ano foram constatadas nos tempos modernos, quando foram colonizadas terras virgens, como ocorreu quando os amotinados do navio britânico Bounty e suas esposas taitianas colonizaram a ilha Pitcairn.

A profusão de sítios de Clóvis caçadores nos primeiros séculos após sua chegada se assemelha à profusão, arqueologicamente documentada, de descobertas mais recentes na Nova Zelândia, pelos ancestrais maoris. Uma grande parte dos primeiros sítios humanos também está bem documentada no que se refere a colonizações muito antigas dos modernos humanos na Europa e na Austrália/Nova Guiné. Isso evidencia, corno tudo o que diz respeito ao fenômeno Clóvis e seu crescimento através das Américas, o que se constatou em outros locais, onde terras virgens foram colonizadas ao longo da história.

Qual poderia ser a importância dos sítios Clóvis que atravessaram séculos pouco antes de 11000 a.C. e não antes de 16000 ou 21000 a.C.? É preciso lembrar que a Sibéria sempre foi fria e que o gelo perpétuo constituía uma barreira intransponível, da largura do Canadá, durante boa parte da Era Glacial pleistocênica. Já vimos que a tecnologia necessária para lidar com temperaturas muito baixas só surgiria depois que os modernos humanos invadiram a Europa, há cerca de 40.000 anos, e que a Sibéria só seria colonizada 20.000 anos depois. Esses primeiros siberianos cruzaram para o Alasca por mar, através do estreito de Bering (com apenas 80 quilômetros hoje em dia), ou a pé, nos tempos glaciais, quando o estreito era terra seca. A ponte terrestre de Bering, durante seus milênios de existência intermitente, teria chegado a uma largura de 1.600 quilômetros, que podia ser percorrida facilmente por pessoas acostumadas ao frio. A ponte de terra foi depois inundada e o local voltou a ser um estreito, quando o nível do mar subiu, por volta de 14000 a.C. De qualquer modo, quer os siberianos tenham caminhado ou remado até o Alasca, a mais antiga prova da presença humana na região data de aproximadamente 12000 a.C.

Logo depois, um corredor gelado norte-sul foi aberto, permitindo que os habitantes do Alasca atravessassem pela primeira vez para o Canadá e chegassem às Grandes Planícies, onde hoje se localiza a cidade de Edmonton. Esse corredor eliminou a última barreira real entre o Alasca e a Patagônia para os seres humanos. Os pioneiras de Edmonton teriam encontrado as Grandes Planícies, prosperado, crescido numericamente e, gradualmente, se espalhado em direção ao sul, para ocupar todo o hemisfério.

Um outro aspecto do fenômeno Clóvis se enquadra em nossa expectativa sobre a presença dos primeiros humanos ao sul da cadeia de montanhas geladas do Canadá. Como na Austrália/Nova Guiné, as Américas, originalmente, estavam cheias de grandes mamíferos. Há cerca de 15.000 anos, o Oeste americano se parecia muito com a planície Serengeti, na África atual, com manadas de elefantes e cavalos perseguidas por leões e leopardos, e convivendo com espécies exóticas como camelos e preguiças gigantes. Assim como na Austrália/Nova Guiné, nas Américas a maioria dos grandes mamíferos foi extinta. Enquanto eles desapareciam da Austrália provavelmente há mais de 30.000 anos, nas Américas isso ocorreu entre 17.000 e 12.000 anos atrás. Pelos ossos desses mamíferos americanos que estão disponíveis para estudos e que tiveram suas épocas bem definidas, pode-se acreditar que sua extinção ocorreu por volta de 11000 a.C. Talvez os dois datados com mais precisão sejam o da preguiça gigante Shasta o do cabrito montês de Harrington, na região do Grand Canyon. Essas duas populações desapareceram no período em torno de 11000 a.C. Coincidência ou não, a data é idêntica à da chegada dos C16vis caçadores h área pr6xima do Grand Canyon.

A descoberta de numerosos esqueletos de mamutes; com lanças de Clóvis entre suas costelas sugere que essa simultaneidade de datas não é apenas coincidência. Os caçadores se espalharam para o sul, através das Américas, encontrando grandes animais que nunca tinham visto seres humanos antes e podem facilmente tê-los matado e exterminado. Outra teoria diz que os grandes mamíferos desapareceram devido ás mudanças climáticas no final da última Era Glacial, o que (para confundir a interpretação dos modernos paleont61ogos) também ocorreu por volta de 11.000 a.C.

Pessoalmente, tenho o mesmo problema com a teoria climática sobre a extinção da megafauna nas Américas e na Austrália/Nova Guiné. Os grandes animais americanos já haviam sobrevivido a 22 Eras Glaciais anteriores. Por que motivo a maioria deles escolheu a 23 para desaparecer em conjunto, na presença de todos aqueles humanos supostamente inofensivos? Por que desapareceram de todos os habitats, não somente daqueles que foram reduzidos, mas também dos que se expandiram bastante no fim da última Era Glacial? Por isso, suspeito que os caçadores Clóvis os mataram, mas a questão permanece aberta. Qualquer que seja a teoria correta, a maior parte das espécies selvagens de mamíferos que poderia ter sido mais tarde domesticada pelos nativos americanos foi exterminada.

Também não está esclarecido se os caçadores C16vis foram realmente os primeiros americanos. Corno sempre acontece quando alguém alega ter descoberto o primeiro de alguma coisa, constantemente surgem informações sobre a descoberta de sítios anteriores aos Clóvis nas Américas. Todo ano, algumas novas versões parecem convincentes e empolgantes logo que são anunciadas. Depois, surgem, inevitavelmente, problemas na interpretação dos dados. Os utensílios supostamente feitos por seres humanos não seriam apenas formas naturais das pedras? As datas fixadas pelo exame de radiocarbono estariam corretas ou seriam invalidadas por qualquer uma das numerosas dificuldades enfrentadas por essa forma de aferição? Se as datas estão corretas, elas se refeririam realmente a produtos humanos ou seriam apenas restos disformes de carvão vegetal de 15.000 anos encontrados pr6ximos a ferramentas de pedra feitas, na verdade, 9.000 anos atrás?

Para ilustrar esses problemas, é preciso levar em consideração os seguintes exemplos típicos, supostamente dos tempos pré-Clóvis. Em uma caverna brasileira conhecida como Pedra Furada, arqueólogos encontraram pinturas inegavelmente feitas por humanos. Descobriram também, entre as pilhas de pedras junto à base do penhasco, algumas cujas formas sugerem a possibilidade de que sejam utensílios primitivos. Além disso, eles encontraram supostas lareiras, cujo carvão vegetal queimado dataria de aproximadamente 35.000 anos atrás. Artigos sobre Pedra Furada foram aceitos para publicação na prestigiosa e internacionalmente respeitada revista Nature.

Mas nenhuma dessas pedras na base do penhasco é uma óbvia ferramenta humana, como são as lanças de Clóvis e os utensílios dos Cro-magnon. Se centenas de milhares de pedras caem de um alto penhasco ao longo de dezenas de milhares de anos, muitas delas vão se quebrar ou se despedaçar ao atingirem as pedras lá de baixo, e algumas vão adquirir a aparência de utensílios toscos produzidos por humanos. Na Europa ocidental e em algum lugar da Amazônia, os arqueólogos conseguiram determinar a data dos pigmentos usados nas pinturas das cavernas, mas isso não foi feito em Pedra Furada. Incêndios florestais ocorrem freqüentemente em suas proximidades e produzem carvão vegetal, que é regularmente jogado dentro das cavernas pelo vento e pelas correntes. Não há provas de uma ligação entre o carvão de 35.000 anos atrás e as pinturas nas cavernas de Pedra Furada. Embora os primeiros escavadores continuem convencidos, um grupo de arqueólogos que não participou das escavações, mas que é receptivo às afirmações de que se trata de um registro pré-Clóvis, visitou recentemente o sítio e não se convenceu.

O sitio norte-americano que atualmente reúne as mais fortes credenciais como um possível local pré-Cl6vis fica na caverna de Meadowcroft, na Pensilvânia, onde a presença humana dataria de 16.000 anos atrás. Nenhum arqueólogo nega a existência de um grande número de artefatos produzidos por humanos em Meadowcroft, porém os registros mais antigos não fazem sentido, porque as espécies animais e vegetais associadas a eles viviam na Pensilvânia em tempos recentes de temperaturas amenas, e não na Era Glacial, 16.000 anos atrás. Portanto, deve-se suspeitar que as amostras de carvão vegetal, que datam da mais antiga ocupação humana, são na verdade pós-Clóvis, infiltradas por carvão ainda mais antigo. O mais forte candidato a pré-Clóvis na América do Sul é o Monte Verde, no sul do Chile, datado de pelo menos 15.000 anos atrás. Este sítio parece ser convincente para muitos arqueó1ogos, mas recomenda-se um pouco de cautela, em função de decepções anteriores.

Se havia realmente povos pré-Cl6vis nas Américas, por que é tão difícil provar que existiram? Os arqueólogos escavaram centenas de sítios americanos que, inegavelmente, datavam do período entre 2.000 e 11.000 anos antes de Cristo, incluindo dezenas de locais de Clóvis no oeste norte-americano, em cavernas nos Apalaches; e na costa da Califórnia. Em todos os sítios onde há presença incontestável de humanos, foram feitas escavações posteriores, até camadas mais profundas e antigas, para encontrar restos de animais, mas não foi achado nenhum vestígio de humanos. A fragilidade das provas da existência de povos pré-Clóvis nas Américas contrasta com a força dos indícios na Europa, onde centenas de sítios atestam a presença de humanos modernos bem antes do surgimento desses caçadores nas Américas, por volta de 11000 a.C. Mais impressionantes ainda são as provas disponíveis na Austrália/Nova Guiné, onde há no máximo um décimo dos arque61ogos existentes nos Estados Unidos, mas onde esses poucos profissionais mesmo assim descobriram mais de unia, centena de inequívocos sítios pré-Cl6vis espalhados por todo o continente.

Os humanos primitivos certamente não voaram de helicóptero do Alasca para Meadowcroft e Monte Verde, passando por cima de todos os obstáculos existentes no caminho. Defensores da colonização pré-Clóvis sugerem, que, durante milhares ou dezenas de milhares de anos, os humanos daquela época não eram muito numerosos e deixaram um pequeno legado, do ponto de vista arqueológico, por razões desconhecidas e sem precedentes em outras partes do mundo. Considero essa idéia infinitamente mais improvável do que a de que Monte Verde e Meadowcroft serão finalmente reinterpretados, como aconteceu com outros supostos sítios pré-Clóvis. Tenho a impressão de que, se houve realmente urna colonização pré-Clóvis nas Américas, a esta altura isso já teria sido comprovado em diversos lugares e não estaríamos mais discutindo o assunto. No entanto, os arqueólogos continuam divididos no que diz respeito a essas questões.

As conseqüências para nossa compreensão do final da pré-história americana continuam as mesmas, não importa qual seja a interpretação correta. Pode ser que as Américas tenham recebido seus primeiros colonizadores por volta de 11000 a.C. e logo depois se encheram de gente; ou pode ser que os primeiros humanos tenham chegado um pouco antes (a maioria dos defensores de urna colonização pré-Clóvis sugere algo entre 15.000 e 20.000 anos atrás, talvez 30.000, e poucos pensariam em urna data muito anterior a isso), mas tenham permanecido pouco numerosos, passando despercebidos até 11000 a.C. Em qualquer caso, entre os cinco continentes habitáveis, a América do Norte e a América do Sul são as regiões que têm a pré-história humana mais curta

Com a ocupação das Américas, as áreas mais habitáveis dos continentes e as ilhas continentais, assim corno as oceânicas, da Indonésia até o leste de Nova Guiné, tinham humanos. A colonização das ilhas remanescentes prosseguiu até os tempos modernos: nas mediterrâneas Creta, Chipre, Córsega e Sardenha, entre 8500 e 4000 a.C.; no Caribe, por volta de 4000 a.C.; na Polinésia e na Micronésia, entre 1200 a.C. e 1000 da Era Cristã; Madagascar, em algum momento entre 300 e 800; e a Islândia, no nono século da Era Cristã. Os nativos americanos espalharam-se através do Polo Ártico por volta de 2000 a.C. Com isso, as únicas áreas que permaneceram desabitadas, à espera dos exploradores europeus, ao longo dos últimos 700 anos, foram apenas as ilhas mais remotas do Atlântico e do oceano Índico (como os Açores e as Seychelles), mais a Antártica.

Qual a importância, se é que tem, da data de colonização dos vários continentes para a história posterior? Suponhamos que uma máquina do tempo pudesse transportar um arqueólogo de volta no tempo, para um passeio pelo mundo de 11000 a.C. Considerando o modo como se vivia naquela época, será que ele teria previsto o curso seguido pelas sociedades humanas nos vários continentes, desenvolvendo armas, germes e aço, até o ponto em que se encontra o mundo hoje?

Nosso arqueólogo poderia levar em consideração as possíveis vantagens de uma liderança inicial. Se isso contasse para alguma coisa, a África estaria numa ótima posição: pelo menos 5 milhões de anos a mais de existência separada dos proto-humanos do que qualquer outro continente. Além disso, se é verdade que os modernos humanos proliferaram na África por volta de 100.000 anos atrás e se espalharam pelos outros continentes, isso deveria representar muito e resultar em uma grande vantagem para os africanos. Para completar, a diversidade genética humana é maior no continente africano; talvez seres mais diversificados produzissem coletivamente invenções mais diversificadas.

Mas nosso arqueólogo poderia então refletir: o que essa suposta vantagem inicial realmente significa para o objetivo deste livro? Não podemos adotar literalmente a metáfora das pegadas. Se por vantagem inicial considerarmos o tempo necessário para povoar um continente após a chegada dos colonos pioneiros, ele é relativamente curto: por exemplo, menos de 1.000 anos para ocupar todo o Novo Mundo. Se por vantagem inicial, ao contrário, você quer dizer o tempo necessário para a adaptação às condições locais, garanto que alguns locais em condições extremas exigem tempo: por exemplo, 9.000 anos para ocupar o Pólo Ártico, depois do povoamento de todo o resto da América do Norte. Mas os povos teriam explorado e se adaptado rapidamente à maior parte das outras regiões se a inventividade dos modernos humanos já tivesse aflorado. Depois que os ancestrais dos maoris chegaram à Nova Zelândia, por exemplo, não foi necessário mais de um século para descobrirem todas as utilizações possíveis para as pedras; precisaram de apenas alguns séculos para matar o último dos grandes pássaros gigantes sem asas em um dos terrenos mais difíceis do mundo; e apenas alguns séculos para se dividirem em uma série de sociedades diferentes, que iam desde os caçadores-coletores de alimentos da costa até os agricultores responsáveis por novos tipos de armazenamento de comida.

Nosso arqueólogo poderia então olhar para as Américas e concluir que os africanos, apesar de sua enorme vantagem inicial aparente, teriam sido superados pelos primeiros americanos em, no máximo, um milênio. Portanto, a maior área das Américas (que é 50% maior do que a África) e sua imensa diversidade ambiental teriam representado uma vantagem para os nativos americanos sobre os africanos.

O arqueólogo poderia então se voltar para a Eurásia e raciocinar da seguinte maneira: trata-se do maior continente e foi ocupado antes de qualquer outro continente, exceto a África. A longa ocupação do continente africano, antes da colonização da Eurásia, um milhão de anos atrás, poderia ter pouca importância., já que os proto-humanos; se encontravam em um estágio muito primitivo. Nosso arqueólogo talvez olhasse então para o Paleolítico Superior que florescia no sudoeste europeu entre 20.000 e 12.000 anos atrás, com todos aqueles famosos trabalhos artísticos e ferramentas complexas, e imaginasse até que ponto a Eurásia não estaria obtendo uma vantagem inicial, ao menos localmente.

Por fim, o arqueólogo se voltaria para a Austrália/Nova Guiné, observando inicialmente sua pequena área (é o menor continente), boa parte da qual é coberta por um deserto onde poucos humanos conseguem viver, seu isolamento e sua ocupação tardia, posterior à da África e da Eurásia. Tudo isso poderia fazer com que o arqueólogo previsse um lento desenvolvimento para a Austrália/Nova Guiné.

Mas devemos lembrar que os habitantes da Austrália e da Nova Guiné tiveram as mais antigas embarcações do mundo. Eles fizeram pinturas em cavernas aparentemente tia mesma época em que os Cro-magnon as faziam na Europa. Jonathan Kingdon e Tim Flannery observaram que a colonização da Austrália/ Nova Guiné, a partir das ilhas do continente asiático, exigiu que os humanos aprendessem a lidar com os novos ambientes que encontraram nas ilhas da Indonésia central - um labirinto de costas com os mais ricos recursos marinhos, recifes de corais e mangues do mundo. À medida que os colonizadores atravessaram os estreitos que separavam cada ilha indonésia da próxima, mais ao leste, eles se adaptavam novamente, ocupavam aquele território e seguiam para a seguinte. Foi, até aquela altura, uma era de ouro de sucessivas explosões da população humana. Talvez esses ciclos de colonização-adaptação-explosão populacional tenham sido os responsáveis pelo Grande Salto Adiante, que depois se propagou na direção oeste, para Eurásia e a África. Se esse cenário for correto, então a Austrália e a Nova Guiné ganharam uma importante vantagem inicial, que poderia ter impulsionado o desenvolvimento humano ali bem depois do Grande Salto Adiante.

Portanto, um observador que recuasse no tempo até 11000 a.C. não poderia prever em que continente as sociedades humanas se desenvolveriam mais rapidamente, mas teria condições de apostar em qualquer um deles. A posteriori, naturalmente, sabemos que a Eurásia tomou a dianteira, Ocorre que os motivos para isso não foram exatamente aqueles que nosso arqueólogo imaginário poderia prever. O restante deste livro é uma investigação para descobrir os motivos reais dessa evolução.