Polêmicas marxistas sobre critérios de aferição das relações sociais de força

 

Nos dizem que os social-democratas com os comunistas “não poderiam tomar o poder”(...) A social-democracia e o Partido Comunista têm juntos perto de 40% dos votos, se bem que as traições da social-democracia e os erros do Par­tido Comunista joguem milhões no campo do indiferentismo e até no do nacional-socialismo(...) Mas tomemos por ponto de par­tida esses40%. Bruening ou Hitler têm mais? E entretanto, só esses três grupos podem governar a Alemanha: o proletariado, o partido do centro ou os fascistas(...) Ao representan­te do capital não é preciso mais do que 20% dos votos para governar: não tem a burguesia os bancos, os "trusts",(...) as estradas de ferro?.”[1]

                                                                    

                                                                        Leon Davidovitch Bronstein, alias, Trotsky

 

PROF.  VALÉRIO ARCARY

professor do CEFET/SP, militante do PSTU, é doutor em História pela USP e autor de As Esquinas Perigosas da História, situações revolucionárias em perspectiva marxista.

 

 

                              Quando uma revolução se coloca em marcha? Duas grandes correntes de opinião dividiram o marxismo sobre o tema da aferição das relações de forças entre as classes. Podemos resumi-las como os objetivistas e os subjetivistas. Os primeiros – como Kautsky - hierarquizavam os fatores mais objetivos, como a proporção do peso social do proletariado sobre a população economicamente ativa, o número de votos dos partidos operários e populares, ou o número de filiados dos sindicatos. Os outros – como Lenin e Trotsky - privilegiavam a capacidade de mobilização, ou seja, as oscilações dos humores e da disposição de luta, em resumo, as flutuações da consciência de classe. Comprendiam, no entanto, que a dimensão mais política da relação de forces se manifesta objetivamente na maior ou menor governabilidade do regime politico. Se uma situação é revolucionária, a crise do regime de dominação já foi aberta. As instituições não conseguem exercer o poder como antes e tendem a ter conflitos entre si, expressão das divisões nas classes proprietárias .

                             Iniciamos este capítulo com um fragmento de Trotsky sobre a Alemanha em 1932, pouco antes da chegada de Hitler ao poder. O tema era a iminência de uma crise revolucionária que poderia ser aproveitada ou perdida. Estava inserido em um debate sobre as dificuldades da luta pelo socialismo em um país central do sistema político mundial. O argumento se resume a uma idéia chave martelada, incansavelmente, ao longo de toda essa obra: não há luta pelo poder sem a solução de um obstáculo decisivo, o político subjetivo da representação dos trabalhadores.

                

                                   Trotsky aceitava que a relação de forças entre as classes tem como uma de suas expressões as relações políticas entre os partidos em disputa na sociedade, embora alertasse que esse era somente um fator, e muito parcial. Tomava como ponto de partida da apreciação, a relação de forças eleitoral, uma tradução distorcida da verdadeira relação de forças, para realizar uma crítica ao que considerava uma subestimação da situação.

                               Esta questão, como sabemos, permanece atual. É muito comum que se tome até a representação parlamentar, um indicador ainda mais unilateral, como expressão da relação de forças políticas em um país. O que, dependendo da legislação eleitoral em vigor, sendo ela mais ou menos antidemocrática, só poderá alimentar conclusões deformadas. Trotsky nos recorda que os partidos burgueses não precisam do apoio da maioria da população para governar, já que sua presença no governo se sustenta, entre outros fatores, no controle da repressão e, não menos importante, no apoio externo do capital internacional e na sustentação dos Governos estrangeiros.

                             Vale a pena conferir, também, o que Trotsky nos diz sobre as manipulações na análise das relações de força, que servem mais para encobrir e ocultar, quais são as possibilidades e os obstáculos que se colocam diante da luta dos trabalhadores, o álibi de todas as correntes políticas que, primeiro fazem as suas escolhas estratégicas, e depois constroem análises para justificá-las:

“O partido comunista ... se nega redondamente a tomar o caminho da luta pelo poder. A causa? “A situação não é revolucionária”. As milícias? O armamento dos operários? O controle operário? Um plano de estatizações? Impossível! “A situação não é revolucionária”. O que se pode fazer? (...) esperar. Até que a situação se torne revolucionária por si mesma. Os sábios médicos da Internacional Comunista têm um termômetro que colocam sob a axila dessa velha que é a História e desse modo, determinam infalivelmente a temperatura revolucionária(...) A situação é  tão revolucionária quanto pode ser com a política  não-revolucionária dos partidos operários. O mais certo é dizer que a situação é pré-revolucionária. Para que ela amadureça, falta uma mobilização imediata, forte e incansável das massas em nome do socialismo. Esta é a única condição para a situação pré-revolucionária se torne revolucionária... A frase habitual sobre a “situação não-revolucionária” atualmente serve apenas para encher a cabeça dos operários, paralisar sua vontade e deixar o inimigo de classe com as mãos livres.” [2]

 

                                Discernir, portanto, se a situação revolucionária já se abriu, ou está em vias de se abrir, não é nada simples: não é incomum, que aqueles que se preparam uma vida inteira para o momento político favorável à mudança social, não o reconheçam, quando o “destino” bate à porta. Mas, como celebrou o ditado inglês: “the postman always rings twice”.

 

Os espelhos mágicos que agigantam a força imaginária da classe dominante

                  

                            A metáfora de Trotsky é um achado: como nos espelhos mágicos dos parques de diversões que fazem os magros parecerem gordos e os gordos parecerem magros, o sufrágio universal é sempre um indicador muito parcial das relações de forças entre as classes. Porque faz o peso social e político das classes populares e das suas organizações aparecer invertido, isto é, muito diminuído em relação à força social que realmente possuem. Inversamente, a força social da burguesia sempre é menor do que o número de votos que seus partidos obtêm, e menor, também, que o número de parlamentares eleitos.

“Tomamos mais acima a relação de força sob o seu aspecto parlamentar. Mas isso é apenas um espelho curvo.  A repre­sentação parlamentar de uma classe oprimida diminui consi­deravelmente a sua força real, e, inversamente, a representação da burguesia, mesmo na véspera do seu desmoronamento, é sempre mascarada de sua força imaginária.  Só a luta revo­lucionária põe a nu a relação real de forças” (grifo nosso)[3]

 

                                 A força social real e a força política imaginária são também um terreno de disputa: cada classe precisa de confiança em si mesma para lutar. Esse elemento subjetivo é um dos maiores obstáculos, senão o maior, que as classes dominadas precisam superar para se colocarem em movimento. A construção da unidade de ação e a perda do medo dos exploradores que os oprimem, ou seja, a crença na possibilidade da vitória, a fé em si mesmos, eis o primeiro passo de toda organização popular independente.

                                 A sugestão teórica de Trotsky - defendida pela corrente que reivindica a sua herança - permanece perturbadora. Não seria por ausência de crises econômicas devastadoras que poderíamos explicar a longevidade do capitalismo. As crises não faltaram. O que faltou, seria encontrar o caminho para a reconstrução de uma subjetividade revolucionária. Em outras palavras, o que explicaria a permanência do capitalismo seriam as imensas dificuldades do movimento dos trabalhadores de construir uma representação política que não seja cooptada para a defesa do regime do Capital.

 

Kautsky e as premissas teóricas do objetivismo

A teoria política de Kautsky a partir de 1910, na forma politicamente enrijecida de “O caminho do poder”, se sustentava quase inteiramente na premissa de que existiria uma incompatibilidade intrínseca entre a democracia – resumida como o sufrágio universal - e a preservação de uma economia política do imperialismo. O vaticínio estratégico era peremptório e terrível: o capitalismo não poderia conviver com um regime democrático-liberal porque, mais cedo ou mais tarde, os trabalhadores seriam maioria eleitoral. Embora essa hipótese se apóie em um elemento da realidade, a disposição do Capital de se desembaraçar da democracia-liberal, sempre e quando esse terreno o desfavoreça – como no Chile, há trinta anos -  demonstrou-se, no entanto, essencialmente, equivocada. O regime democrático-burguês, na forma do sufrágio universal e da alternância de partidos, revelou-se a forma ideal de dominação, tal como tinha previsto Lênin.

 Kautsky absolutizou como “inexoráveis” duas tendências: (a) previa que, como resultado de um processo gradualista de acumulação de forças, o partido socialista se transformaria em maioria eleitoral, sendo o porta-voz “natural” da maioria economicamente ativa; (b) a burguesia se levantaria em armas contra a democracia diante de um triunfo eleitoral do SPD, porque não toleraria a presença de um partido operário à frente do governo. Por isso defendia que a “estratégia ocidental”, ao contrário da Rússia, por exemplo, onde reconhecia a necessidade das “greves gerais contra a tirania”, era defensiva. Como as águas dos rios correm para o mar, o papel do partido era acumular forças e aguardar, prudentemente, a vitória eleitoral que se aproximava.

 Em 1910, não se renunciava ainda, pelo menos em palavras, à necessidade da revolução. Mas a revolução passava a ser entendida como uma possível insurreição em defesa da democracia, para garantir o resultado da vitória eleitoral. Aonde estava o catastrofismo? Na absolutização de uma contradição temporária, portanto relativa, do regime monárquico-constitucional da Alemanha antes da Primeira Guerra. Depois da revolução russa, o apoio da maioria burguesa à República de Weimar, pelo menos desde 1918 até que os efeitos da crise de 1929 tivessem mergulhado a Alemanha em crise revolucionária, mesmo quando o SPD esteve à frente do Governo, veio a confirmar que a premissa da incompatibilidade burguesa com um governo do partido operário demonstrou-se inteiramente falsa. A burguesia não contraiu nunca, em país algum, matrimônio indissolúvel com nenhum regime político.

A subordinação da estratégia a um cálculo eleitoral não era acidental. Unia, em um mesmo campo político, a ala direita e o “centro majoritário” do partido alemão e da Segunda Internacional. Embora admitissem o perigo da guerra, estavam convencidos que a burguesia européia conseguiria contornar a irrupção do conflito e preservar a “paz armada” do período 1892/1910. Nem Bernstein, nem Kautsky consideravam, seriamente, a probabilidade de uma crise econômica que pudesse precipitar uma situação revolucionária, e viesse a colocar a questão do poder. Ainda que por diferentes caminhos, chegaram a uma conclusão comum. O primeiro afirmando a vigência do prognóstico de uma “crise final” em Marx, para criticá-lo, e o segundo a negando, para defendê-lo.

Na verdade, a posição de Kautsky era esquiva e, freqüentemente, neste como em outros temas, usava e abusava de fórmulas como o “sim, mas”, essencialmente elípticas, que a rigor se neutralizavam. Dependiam muito de uma interpretação de ênfase, ou seja, eram obscuras e estavam condicionadas  pela localização no miolo das polêmicas. Identificar em cada momento, e em função dos adversários, quais eram os objetivos políticos que perseguia, ou qual era o centro do debate, e se a delimitação principal estava sendo buscada à esquerda ou à direita, nem sempre é simples. Nesse sentido, Colletti tem razão quando se pergunta até que ponto se poderia dissociar Kautsky de algum parentesco e responsabilidade com o catastrofismo:

“La más importante toma de posición de Kautsky sobre el problema de las crisis surge en ocasión de una amplia reseña del libro de Tugán-Baranovski(...) El artículo contiene la más rica y madura exposición del punto de vista "ortodoxo" acerca de la perspectiva del desarrollo capitalista y la naturaleza de las crisis en un momento en que todavía eran demasiado vivos los ecos de la Bernstein­Debatte y de la lucha empeñada por Kautsky contra el "revisionismo”. Con su habitual claridad, el autor expone -en el curso de su crítica al libro de Tugán- la teoría marxiana de la baja tendencial de la tasa de ganancia, desplegando al mismo tiempo una explicación de las crisis que individualiza su fundamento en el "subconsumo" de las masas; pero -precisa Kautsky-  "el fundamento ultimo y no la causa directa", lo cual sig­nifica que, además de dar cabida a la contradicción entre producción y consumo, también se hace lugar a las contradicciones internas a la misma producción.[4]

Kautsky continuava confiante que o capitalismo traria mais crises, mas não retirava deste prognóstico outra conclusão senão a necessidade de um processo gradual e linear de acumulação de forças condicionado, em primeiríssimo lugar, à centralidade da Alemanha e da via eleitoral. Se para Bernstein, os meios são tudo e os fins nada, ou seja, o que tem significado político real é o programa mínimo, Kautsky ficava ainda na metade do caminho. O programa máximo - a luta pelo poder - estava separado do programa mínimo - as reivindicações mais sentidas - por um abismo: ele se resumia à defesa propagandística de que o socialismo é necessário, um dia...

 Que razões temos, pois, para crer que esse momento tão desejado aproxima-se agora, que o estancamento político chega a seu fim, e que as lutas ágeis, o ímpeto vitorioso até a conquista do poder político retomará seu curso? Com razão, na Introdução à obra “Luta de Classes em França” de Marx, Engels insistia em que as grandes lutas revolucioná­rias não podem ser realizadas hoje senão por grandes massas conhecedoras das exigências da situação.  Passa­ram os tempos em que pequenas minorias podiam, median­te uma ação enérgica, derrubar de improviso o governo e pôr outro em seu lugar. Isto era possível em Estados cen­tralizados, onde toda a vida política estava concentrada em uma capital(...).Bastava então paralisar ou conquistar o exército e a burocracia da capital para apode­rar-se do governo, para proceder a uma revolução econô­mica se a situação geral a exigia.”[5]

O momento “tão desejado” parece, portanto, muito distante. Engels tinha, de fato, alertado depois da derrota da Comuna de Paris, que revoluções tinham ficado mais difíceis. Nesse terreno, retomava as conclusões de todos os revolucionários da história. As revoluções futuras sempre se tornam, em um nível de análise, mais difíceis que as anteriores. Na medida em que as classes dominantes retiram as suas lições, se reduz a margem de surpresa histórica. Na América Latina, depois da revolução cubana, por exemplo, passou a ser improvável o triunfo de uma revolução política democrática, com o método das guerras de guerrilhas. O argumento é habilidoso, mas não impressiona.

O próprio Engels, na mesma Introdução, mas em sentido oposto, destacou a nova força social das “revoluções de maioria e para a maioria” em países urbanizados, compensando amplamente as dificuldades das insurreições de “minorias enérgicas”. Engels não duvidava que as revoluções “de maioria” conseguiriam os patamares de consciência e organização mais elevados que a nova situação exigia.

Aonde Bernstein já tinha ido até o fim da linha e concluído que, como a época seria de reformas do capitalismo, o programa máximo era irrelevante, e a defesa da socialização da propriedade e do planejamento, além de duvidosos, seriam inconvenientes, Kautsky concede que, sendo a época do imperialismo uma fase histórica de crises, situações revolucionárias podem se abrir:

“Um deslocamento de forças no terreno político, bastante considerável e capaz de impossibilitar a existência de um regime antidemocrático, está sujeito às seguintes condições: 1. É mister que esse regime seja diretamente hostil à grande massa do povo. 2. É mister que haja um grande partido de oposição irreconciliável, que agrupe em suas organizações as massas operárias. 3. É mister que esse partido represente os interesses da grande maioria da população e que possua sua confiança. 4. É mister, afinal, que a confiança no regime exis­tente, em sua força e em sua estabilidade, esteja abalada em seus próprios órgãos, isto é, na burocracia e no exército.”[6](grifo nosso)

Estamos então diante do tema central para Kautsky e para o marxismo das relações de forças. Interessante, em primeiro lugar, destacar a exigência imperativa de que o regime a ser derrotado por uma revolução política seja antidemocrático, o que já estabelece um veto a priori a um desafio revolucionário (restringido ao direito de insurgência) contra uma democracia burguesa.

Em segundo lugar, é importante destacar que, dos quatro critérios, dois dizem respeito ao Estado e dois ao partido: a exigência de que seja uma tirania odiosa e odiada e que esteja em agonia, isto é, que as burocracias - civil e militar - estejam em ruptura e divididas; e a exigência de que o partido de oposição conquiste o apoio da maioria da população, o que está longe de esclarecer quais são as classes e frações de classe que se aliariam à classe operária.

Por último, a defesa da centralidade do partido, curiosamente definido como partido de oposição irredutível, e não como partido operário ou partido marxista. Uma definição ampla, mas admitamos premonitória porque, como a história demonstrou à exaustão, as revoluções políticas exigem, como condição sine qua non, uma direção centralizada e decidida a tomar o poder. Se ela for marxista ou não, depende de fatores que são de outra natureza, e dizem respeito ao programa da revolução: uma organização pode ser revolucionária, sem ser marxista, ou pode reivindicar o socialismo, sem ser revolucionária.

                                Na verdade, todas as revoluções de massas que triunfaram no século XX foram dirigidas, à exceção de Outubro, por partidos exércitos, ou seja, por organizações não só centralizadas, mas militarmente centralizadas. Em outras palavras, o contrário do bolchevismo, nesse terreno, pelo menos. A centralização era política e não de tipo militar, e nunca se censurou a expressão de diferenças, mas se limitava a exposição pública das mesmas, por razões óbvias. Importante recordar, por exemplo, que dois altos dirigentes do bolchevismo - membros do núcleo duro da direção, Zinoviev e Kamenev - fizeram uma polêmica pública contra a insurreição nos jornais de São Petersburgo, e nem por isso foram diminuídos de seus papéis como dirigentes.

O objetivismo é uma lente óptica que subestima a força dos trabalhadores

   O mais importante na fórmula de Kautsky não é tanto o enunciado das condições que definiriam uma situação revolucionária, mas aquilo que foi omitido. O dirigente da II Internacional se abstém de qualquer consideração sobre a luta de classes. Existiu ou não uma disposição revolucionária de luta entre os trabalhadores? Existiu ou não um deslocamento nas camadas médias e um setor se agrupou atrás das reivindicações da classe operária? Existiram ou não divisões irreconciliáveis dentro das classes dominantes? Existiram ou não organizações que as massas reconheceram como suas formas de contra-poder ou poder paralelo, como ocorreu com a Guarda Nacional na Comuna, ou o Soviet de petrogrado em 1905 na Rússia? Vejamos os critérios que Kautsky sugeriu para aferir as relações de forças:

Saídos em grande parte de pequenos burgueses ou de pequenos camponeses, muitos proletários levam durante muito tempo, todavia, as marcas de sua origem; não se sen­tem proletários, têm o desejo de posse.  Economizam para comprar um lote de terra, abrir uma pequena loja ou exercer por sua conta um ofício, em minúscula escala e com alguns infelizes aprendizes.(...) Induzi-los à idéia socialista é uma tarefa indispensável, porém infinitamente difícil em tempo normal, uma tarefa que exige a maior abnegação e a maior habilidade e que, no entanto, não caminha tão ligeiro como desejaríamos. Nosso campo de recrutamento compreende hoje, seguramente, três quartas partes da população e provavelmente mais ainda, enquanto o número de nossos votos não alcança, to­davia, um terço de todos os votantes e a um quarto de todos os eleitores.” [7] (grifo nosso)

O texto não poderia ser mais claro. A relação de forças é determinada, sempre, pelos elementos objetivos: percentual da população adulta que não tem interesses materiais vinculados à defesa da propriedade privada; deslocamentos demográficos provocados pela industrialização; e o mais importante de todos, o número de eleitores da social-democracia na última votação. E os elementos subjetivos da definição das relações de forças? Eles não são citados. Não teriam maior importância? Kautsky não ignorava que os fatores subjetivos são, por essência, os fatores políticos, ou seja, os mais incertos e instáveis, porque expressam o impacto dos acontecimentos sobre o estado de ânimo das classes.

Os fatores políticos estão sobre-determinados, sempre, pela luta de classes: qual é o grau de exasperação dos trabalhadores nas empresas? Qual é o nível de atividade sindical e política a que estão dispostos? Que confiança as massas revelam em relação a si mesmas, e às possibilidades de suas lutas? Qual é o humor e estado de ânimo da classe operária e das outras classes? Qual é a resposta que oferecem às iniciativas políticas dos seus partidos e, em que medida, essa iniciativa pode inverter a relação de forças? Os trabalhadores confiam na sua liderança? Ou ainda, mesmo aceitando a forma mais objetivada, qual é o grau de consciência de classe que, tendencialmente, se traduz em experiência de luta, e se expressa em capacidade acumulada de organização?

Este tema está entre os mais difíceis de uma teoria política do marxismo porque concentra toda a discussão sobre os tempos históricos das mudanças. Em Kautsky - e para uma escola política direta ou (indiretamente) herdeira sua - ele serve para tudo, desde que o corolário seja, invariavelmente, concluir que a relação de forças é desfavorável para os trabalhadores. Identificar que o maior perigo  sempre foi, e será, a prematuridade dos combates decisivos, defender o elogio da prudência, insistir no alerta contra as aventuras. A precaução obsessiva com a vertigem das mudanças, e o temor das ameaças de represálias das classes dominantes definem a estratégia.

Mas as relações de forças, não podendo ser aferidas fora do tempo, tampouco podem ser congeladas: a relação política de forças entre as classes é um processo, ou seja, está sempre entre o que foi e o que será, é um vir a ser e um deixar de ser. Assim como avança, pode recuar. Poderá evoluir favorável ou desfavoravelmente à preservação da ordem. O signo das lutas poderá conhecer súbitas e surpreendentes inversões ou reversões. As situações defensivas, mantidas durante anos, podem, no espaço de poucos meses ou até semanas, dar lugar a situações pré-revolucionárias. Mas os elementos subjetivos são sempre os determinantes, porque são eles que definem a dinâmica de um movimento que é ininterrupto, que são os tempos da luta de classes.

 Os fatores objetivos que determinam as relações de força merecem, por suposto, ter o seu lugar em qualquer análise séria. Podemos aferir uma  quantidade significativa de variáveis: pesquisar, por exemplo, se aumentou o número de trabalhadores sindicalizados, ou se diminuiu o peso social dos operários qualificados; estudar se os salários médios estiveram caindo, ou verificar se o desemprego esteve subindo, sem que essas informações, que são importantes, nos indiquem, todavia, qualquer coisa de realmente substantivo sobre as relações de forças entre as classes. Os números e as estatísticas não falam sozinhos. Tudo depende da interpretação que seja feita dos gráficos. Na verdade, os elementos objetivos das relações de forças podem mais obscurecer que esclarecer, mais ocultar do que explicar.

Muito mais relevante que a situação de classe, que é estática, importa a posição de classe, que está em movimento.  Porque em política, isto é, nos tempos curtos, não são as condições de existência das classes, mas a sua disposição para lutar por seus interesses que decide as relações de forças.

Quando surge a disposição para a ação política revolucionária?

Nunca foi somente o agravamento ou a suavização das condições de vida dos trabalhadores, o aumento ou a redução dos níveis de exploração, a exacerbação ou a atenuação das atrocidades a que estão submetidos, que permitiria explicar a agudização da relação de forças. A uma situação ignóbil e desesperada dos trabalhadores, em um determinado país, pode corresponder uma relação de forças mais avançada que a que encontraríamos em um outro, onde as massas foram poupadas aos extremos da miséria “biológica”. Mas o contrário também já ocorreu.

O decisivo, quando o que está em questão é uma apreciação dos tempos na luta de classes, são as vontades dos sujeitos sociais. A disposição que as classes mantêm umas em relação às outras, as pressões recíprocas de todas as classes, inclusive os setores médios, determinam a variação da relação de forças sociais. As revoluções são, em geral, precedidas por significativas perdas materiais das massas populares, que vêm os direitos que consideravam seus, serem usurpados e, por isso, se levantam e buscam nas lutas de classes o caminho de resistência, sem o mesmo temor de represálias que antes as amedrontavam. Este processo se inicia imperceptível, de forma molecular, nos subterrâneos da vida política, e nas camadas mais profundas da vida econômica e social. Quando emerge na superfície, como disposição de luta, mas somente na última hora, é porque está mais do que maduro. Não surpreende que produza assombro social e espanto político.

O catastrofismo pode assumir tanto a forma de cepticismo em relação às perspectivas, como o inverso, uma euforia exagerada. Em geral, podemos dizer que a esquerda mundial tendeu a cometer dois erros simétricos em torno desta questão dos elementos objetivos das relações de forças: nos países atrasados e dependentes, diante dos ataques desapiedados das suas classes dominantes para elevar as taxas de exploração, é comum o impressionismo catastrofista que confunde a miserabilidade das massas com a sua disposição de luta.    

Já nos países centrais, encontraremos, também, a tendência ao impressionismo em relação aos elementos objetivos: como as condições de vida dos trabalhadores, pelo menos durante as três décadas que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial progrediram e, nesta fase, o nível de atividade e combatividade da classe se reduziu muito, persistiu, mesmo depois de 73/4, um profundo desalento diante da capacidade dos trabalhadores resistirem aos ataques que, desde então, ainda que em uma intensidade menor que nos países da periferia, começaram a se abater sobre as massas populares com o início da recessão prolongada. Esse pessimismo não parece justificado. A história sugere que não será necessário atingir o último degrau das condições de vida asiáticas, ou sequer níveis de empobrecimento latino-americanos, para que as classes trabalhadoras na Europa, nos EUA e no Japão comecem a reagir.

Muito antes de verem as suas condições de existência destruídas, as classes trabalhadoras nos países centrais se colocaram em movimento, e iniciaram a resistência, procurando uma saída. As classes lutam, impiedosamente, pela defesa do que já conquistaram e estão ameaçadas de perder, antes de se disporem a reivindicar novos direitos. As bruscas mudanças nas relações de forças se precipitam, em geral, quando os trabalhadores e as massas populares perdem a esperança de que, pelo menos, poderão continuar vivendo como antes, e perdem a esperança de que os seus filhos poderão melhorar de vida. Bloqueada a mobilidade social ascendente, a crise social começa a se complicar.

Quando, em uma dada sociedade fica claro que, em condições “normais” - ou seja, politicamente estáveis - a ordem estabelecida reserva para os que trabalham um futuro ainda pior, abre-se, tendencialmente, uma etapa de lutas mais intensas. Essa percepção é, por suposto, um processo subjetivo que tem os seus ritmos próprios de amadurecimento. Uma revolução se põe em marcha, somente, quando fica claro que o projeto que as classes dominantes impuseram à sociedade fracassou, e que os custos desse desastre desabará sobre as costas das classes exploradas. É mais porque se recusam a perder, do que pelo poderão conquistar, que as grandes multidões se colocam em movimento de luta e deslocam as relações de forças.

                    Pesquisas de opinião e flutuação dos humores políticos

                                 A questão da relação política de forças entre as classes se coloca hoje de uma maneira ainda mais complexa, se considerarmos a crescente importância das pesquisas de opinião. Só nos anos 30 surgiram as técnicas modernas, depois muito aperfeiçoadas, de aferir as opiniões das pessoas sobre um ou outro produto, mas também, sobre as preferências eleitorais.

                                  Elas ofereceram um novo sentido à idéia de uma opinião pública. As pesquisas de mercado, por amostragem, e as sondagens de opinião política, em especial as pesquisas de intenção de voto, passaram a ser os oráculos contemporâneos. A governabilidade das democracias-liberais seria impensável sem esses recursos. São tão recentes quanto imprescindíveis para as empresas, como para os governos. Freqüentemente, todavia, é desprezado o fato de que elas só permitem conclusões satisfatórias, sempre e quando exista uma seqüência homogênea de pesquisas com um universo bem delimitado de perguntas, e um intervalo entre elas, que sugira uma visão em perspectiva. São um poderoso indicador de tendências, considerados e respeitados certos limites.

                                 O principal, entre esses, é saber se os entrevistados compreendem as perguntas que lhes são dirigidas, se elas foram bem formuladas, o que não poucas vezes é desprezado. Mais importante, contudo, seria saber se as pessoas se sentem confortáveis e seguras em responder, sem sofrer represálias. O medo de perseguições não pode ser nunca ignorado porque, desde sempre, é o sentimento mais intenso nas classes populares. Essa é uma das razões que explicam as reviravoltas, aparentemente incompreensíveis, dos humores das multidões captados pelas pesquisas: quando não se sentem seguras, as massas mentem diante das pesquisas.

                                 Também é muito comum que se esqueça que, para as massas, a intenção de voto, pode não ter o significado transcendental que os liberais pretendem lhe atribuir. É mesmo muito provável que amplas parcelas da população, mesmo nos países centrais, não se sintam representadas pelas instituições políticas. Uma ação de massas é uma forma de aferir a vontade popular tão significativa, senão mais, do que um boletim de voto que se coloca em uma urna, de tanto em tanto tempo. Ainda mais se considerarmos que, quando ocorrem mobilizações de massas, é preciso considerar os milhões que apóiam a causa, mas que, pelas mais variadas razões, não saíram às ruas.

 

Rosa Luxemburgo  e a articulação dos fatores subjetivos e objetivos

Para Marx, a aferição das relações de forças políticas, em cada país, deveria ser contextualizada, tanto histórica, quanto internacionalmente. Em cada momento, elas se alteram como resultado da ação de causas de distintas naturezas em distintos níveis de análise que se determinam, uns aos outros, em diferentes graus de intensidade. O peso relativo dos fatores que definem a relação de forças à escala de uma época, ou seja, um período histórico longo, secular, é essencialmente objetivo. Já na medida de uma situação ou etapa - que pode se estender, à escala internacional, por décadas, e na escala nacional, por anos - ainda que eles sejam muito importantes, estão mediados e, em certa medida, neutralizados, pela incidência dos elementos mais subjetivos; já nos curtos prazos - que se mantém por meses - os elementos subjetivos se impõem, na definição das conjunturas.

Os tempos da luta política, no entanto, são sempre os tempos da conjuntura, porque as classes não lutam com a perspectiva dos longos prazos. Não é possível, portanto, uma apreciação das relações de forças sem uma referência às temporalidades. Não existem seqüências necessárias de tempos na História. Eis aqui, em um trecho que extraímos de Greve de Massas, Partido e Sindicatos, como Rosa Luxemburgo era capaz de trabalhar dialeticamente com as temporalidades e, em um curto parágrafo, construir uma síntese histórica brilhante, sobre a contraditoriedade das longas durações sobrepostas na escala de época e situação.

En la Gran Revolución Francesa las contradicciones internas de la sociedad burguesa, apenas desarrolladas, dieron lugar a un largo periodo de luchas violentas en el que los antagonismos que germinaron y maduraron al calor de la revolución se desenca­denaron, sin trabas ni restricciones, con un radicalismo desaforado. Un siglo después, la revolución de la burguesía alemana, que estalló cuando el desarrollo del capitalismo habia llegado a mitad de camino, ya se encontraba trabada de ambos lados por el antagonismo de intereses y el equilibrio de fuerzas entre el capital y el trabajo. Se ahogaba en una especie de compromiso bur­gués-feudal que la redujo a un breve y miserable episodio que quedó en palabras. Pasó otro medio siglo. La Revolución Rusa actual se encuentra en un punto del camino histórico que ya está del otro lado del punto culminante de la sociedad capitalista, en el que la revolución burguesa ya no puede ser ahogada por el antagonismo entre bur­guesía y proletariado sino que, por el contrario, abrirá un nuevo periodo prolongado de luchas sociales violentas, en el que la rendición de cuentas del absolutismo parecerá insignificante al lado de las numerosas cuentas abiertas por la propia revolución.”[8]

Rosa retirou da caracterização de época uma conclusão premonitória muito semelhante à de Trotsky, depois de 1905. A época das revoluções burguesas democráticas na Europa já tinha se encerrado. Seria muito improvável que a burguesia russa se arriscasse a derrotar o arcaico Estado Czarista com métodos revolucionários. Sugeria que, uma segunda revolução russa, no país mais camponês da Europa, que ainda não tinha visto sequer uma revolução burguesa triunfante, teria um curto intervalo histórico de separação de uma revolução proletária. Apoiava este vaticínio na incapacidade da burguesia russa de ter um protagonismo independente.

Esta conclusão rompia com o esquematismo etapista que previa uma revolução burguesa na Rússia czarista dirigida pela burguesia, abrindo uma situação de parlamentarismo republicano, como pré-condição para um aprendizado sindical-eleitoral dos trabalhadores que seria insubstituível para que o proletariado pudesse se colocar o objetivo do poder. A partir do conceito de época revolucionária à escala da Europa que, por sua vez, estava sobre-determinado pelas posições da classe na Alemanha, Rosa chegava à conclusão que, uma situação revolucionária na Rússia, colocaria na ordem do dia a revolução proletária.

Reconhecia que as tarefas pendentes na Rússia eram burguesas. Mas alertava que, na história, não se deve colocar um sinal de igual entre a natureza de classe das forças de impulso de uma revolução, e seus sujeitos sociais. Se a burguesia russa tivesse mais temor das massas em luta, do que da preservação tardia do Czarismo, poderia ocorrer um substitucionismo de classe. A necessidade histórica poderia operar por vias inesperadas.

 A lição metodológica é clara. A história não se repete. Assim como seria infrutífero ignorar a relação de forças à escala de época, para a compreensão das conjunturas, seria estéril generalizar uma caracterização de situação para a de etapa. Não só porque os tempos históricos não se desenvolvem de maneira homogênea, mas porque se manifestam sempre como desigualdades. Um país pode viver uma conjuntura reacionária no marco de uma etapa pré-revolucionária continental, inserido numa época revolucionária.

O sentido das conjunturas está sempre em aberto e, freqüentemente, acontecem reversões, gerando amálgamas desproporcionais, combinações surpreendentes, sobreposições contraditórias entre épocas e etapas, e entre estas e as situações. A simultaneidade de temporalidades diferentes explica a necessidade de análises com recortes em níveis de abstração distintos, articulando a dimensão das longas durações, com os tempos das conjunturas.

O mesmo critério deve ser considerado, quando se busca uma elaboração tendo como referência a situação nacional ou internacional. Os tempos históricos não coincidem em sintonia com os tempos políticos. Ao contrário, a descontinuidade é mais a regra do que a exceção. As etapas e situações se alternam em ritmos e proporções desiguais que resultam no descompasso de desenlaces, que se determinam em um processo vivo e ininterrupto na luta de classes. As arenas políticas são sempre nacionais, mas indissociáveis de processos integrados em uma dimensão internacional, com formas que nunca são proporcionadas: um país que estava atrás em termos de mobilização, tradição de luta e capacidade de organização, poderá, mais adiante, estar na vanguarda. Um movimento operário historicamente atrasado, pode queimar etapas do processo de aprendizado e, no espaço de meses, superar o que em outros países exigiu décadas de lutas parciais. Rosa Luxemburgo insiste:

“La revolución actual concreta, en el marco de la Rusia absolutista, las consecuencias generales del desarrollo capitalista internacional. Aparece, no tanto como sucesor de las viejas revoluciones burgue­sas, sino como precursora de una nueva serie de revoluciones proletarias en Occidente. El pais más atrasado, precisamente por­que su revolución burguesa llegó en momento tan tardío, le mues­tra al proletariado de Alemania y de los países capitalistas más adelantados los nuevos métodos de la lucha de clases.” (grifo nosso) [9]

A relação de forças só pode ser aferida a partir de uma análise da dinâmica, do movimento, da tendência, de uma avaliação complexa da realidade como totalidade o que envolve, em particular, uma análise da situação do Governo de plantão. Se tomarmos a organização do movimento operário, ou de qualquer movimento social, como condição sine qua non da mobilização, como um critério “absolutizado”, estabelecemos em um falso dilema. Rosa Luxemburgo foi uma arguta observadora dos impasses evolucionistas das fórmulas de Kautsky:

 “Por otra parte, los sindicatos, como cualquier otra organización de lucha del proletariado, no pueden subsistir en forma permanen­te si no es a través de la lucha. Y no hablamos de luchas como las que se dan entre las ranas y los ratones en la charca del periodo parlamentario burgues, sino de la lucha en los períodos revolu­cionarios de la huelga de massas. La concepción rígida, mecánico-burocrática, sólo puede concebir la lucha como producto de una organización que cuenta con cierto nivel de fuerza. Por el contra­rio, para la explicación viva, dialéctica, la organización surge como resultado de la lucha. Ya hemos visto un grandioso ejemplo de ese fenómeno en Rusia, donde un proletariado casi totalmente desor­ganizado creó una red global de apéndices organizativos en un ano y medio de lucha revolucionaria tempestuosa(...) Si examinamos más de cerca la situación de Alemania y de los distintos sectores de la clase obrera, resultará claro que el próximo periodo de grandes luchas políticas de masas no provocará la tan temida destrucción de los sindicatos alemanes Sino que, por el contrario, se les abrirán perspectivas insospechadas para extender su esfera de poder; y esta extensión avanzará a pasos agigantados(...) Por ello, un ano de revolución le ha dado al proletariado ruso el "entrenamiento" que treinta años de lucha parlamentaria y sindical no le pudieron dar al proletariado alemán.(grifo nosso)[10]

A revolução na Rússia, o mais asiático dos países europeus, anteciparia a revolução no Ocidente. A qualidade da organização expressa, em geral, a acumulação de experiências anteriores e é, portanto, um critério chave de apreciação dos níveis de consciência de classe. A densidade das organizações sindicais e políticas dos trabalhadores pode ser considerada, também, o mais objetivo dos fatores para um julgamento das relações de forças entre as classes. Conduz, no entanto, quase sempre, a conclusões unilaterais. Nenhum movimento operário da Europa poderia ser comparado, em termos de organização, com o movimento sindical da Alemanha.

Mas o atraso tem suas vantagens. As condições repressivas na Rússia inibiam a consolidação de uma poderosa burocracia sindical, e favoreciam uma ação menos controlada do proletariado, e esta mobilização mais espontânea, mesmo se partia de um repertório de experiências inferior, poderia depois evoluir por saltos, e gerar patamares de organização mais ágeis e mais eficazes que na Alemanha.

Na verdade, o problema teórico consiste no equacionamento das relações entre ação, consciência e organização. Assim como não há ação humana sem consciência, não existe consciência sem organização, e tampouco é possível organização sem direção. A questão mais complexa está em estabelecer quais são os graus de consciência, os níveis de organização e a qualidade da direção que correspondem às necessidades da luta. Os três elementos estão freqüentemente desenvolvidos de forma desigual e desproporcional, e se condicionam mutuamente. A natureza da luta define os graus de organização prévia que ela requer, incondicionalmente, como condição mínima de vitória: não é o mesmo uma greve contra demissões, ou um combate para derrubar um ministro, por exemplo.

 Não há, por outro lado, no início de qualquer luta, qualquer possibilidade de aferir, a priori, quais são as chances de vitória. Toda luta é, por definição, um combate em aberto. No seu curso, as relações de forças se alteram de forma vertiginosa, e nunca se encerram tal como se iniciaram. Não há mão única nessas causalidades. A ação de massas pode se iniciar com um enorme ímpeto, não encontrando os graus de organização que correspondem à força da energia liberada na mobilização. Mas a luta será, ela mesma, um fator de impulso na nova situação aberta, para que o processo de auto-organização dê um salto: permitirá que surja uma nova geração de vanguarda que será o material humano para a formação da direção das lutas futuras.

                                 Sempre ocorreu um processo de disputa pela direção, porque os movimentos sociais são em várias dimensões heterogêneos. Setores mais privilegiados e setores mais sacrificados, setores mais jovens ou idosos, e inúmeras outras condicionantes materiais e culturais que se traduzirão, necessariamente, em grupos ou correntes variados e, se o grau de amadurecimento for maior, em partidos em conflito. Mas, é nos momentos de luta que se potencializa a possibilidade de emergência de uma nova direção. A ironia da história se manifestou na peculiar contradição de que, o mais bem organizado movimento operário do início do século  - o alemão - tinha como calcanhar de Aquiles, o peso de inércia de sua impressionante organização. Por outro lado, sem o impulso de uma vaga de ascenso, demonstrou-se muito difícil para a classe trabalhadora elevar os patamares de sua experiência e, portanto, de sua capacidade de organização.

                                O objetivismo foi, portanto, desde Kautsky, a metodologia de todos os reformismos havidos e por haver no movimento operário contemporâneo, e justificou uma tendência em pensar os tempos das conjunturas com os óculos das situações, e estas com as lentes das etapas e a redução, finalmente, de toda realidade concreta às determinações de época. Ou seja, em dissolver as mudanças repentinas, as inflexões bruscas, as viradas súbitas, nas permanências longas das etapas de tempos mais estáveis. Uma relação de forças sempre desfavorável cumpre uma função de álibi teórico muito útil.

Situações revolucionárias podem se manter abertas durante alguns anos

                             Embora seja excepcional, historicamente, uma situação revolucionária pode até se manter em aberto por vários anos, como um impasse político indefinido, quando nenhuma das classes em pugna consegue oferecer uma saída para a crise. No seu interior podem ocorrer várias mudanças de conjuntura. Em uma situação revolucionária, a questão do poder está colocada, mas pode permanecer sem solução e ser adiada, enquanto a crise revolucionária não se precipitar, ou a contra-revolução não conseguir derrotá-la.

                              Foi o que aconteceu na Alemanha sob a República de Weimar – entre 1918/1923, e depois entre 1929/1932 - e na Espanha - nos anos 30 - depois da derrocada da Monarquia, com a permanência de uma situação revolucionária em aberto por vários anos, apesar de inúmeras mudanças de conjunturas. A resolução do impasse, em uma situação revolucionária, só pode ser resolvida no terreno da luta de classes. Mas isso não quer dizer que todas as derrotas sejam, necessariamente, sangrentas.

                             A contra-revolução pode assumir muitas e variadas táticas. O golpe de Estado bonapartista que levou Castelo Branco ao poder no Brasil em 1964, ou Videla na Argentina em 1976, é somente uma das suas formas. Inversões não menos dramáticas das relações de forças podem ocorrer, como foi o caso na revolução portuguesa, e em muitos outros processos posteriores, por uma acumulação de pequenas derrotas, sem um momento de confronto decisivo e sangrento como no Chile em 1973.  Uma situação revolucionária pode se fechar sem que aconteça um banho de sangue. Uma derrota desta natureza é sempre, no entanto, uma derrota histórica que exigirá um intervalo longo para que uma recuperação possa acontecer, freqüentemente, o espaço de uma geração.

                                 Por políticas contra-revolucionárias devemos entender o emprego, em larga escala, de métodos de guerra civil contra as massas em luta, isto é, os métodos do terror de Estado. Ocorre, no entanto, que uma situação revolucionária pode se fechar, dando origem tanto a uma situação contra-revolucionaria quanto a uma situação reacionária. Mas os regimes políticos que correspondem a essas duas situações são muito diferentes. Porque a revolução também pode “se afogar” no pântano da “reação democrática”, quando uma inversão geral da correlação de forças se altera por métodos políticos, sem que a burguesia recorra às armas. O sufrágio universal tem sido um terreno especialmente perigoso para as massas em luta, porque permite às classes proprietárias a ampliação de sua base social, junto aos setores mais desorganizados e atrasados das classes populares. 

                             Mesmo em uma situação revolucionária, as classes dominantes podem se apoiar com sucesso nas urnas. De Gaulle se amparou no referendo para que a França “profunda” se manifestasse contra os “arruaceiros” de Paris; o PS de Mario Soares se apoiou no sufrágio universal (o norte “cristão” contra o sul “comunista”) para chantagear o país, com o “a Europa está conosco”.  Se o PS não fosse ao Governo, não viriam recursos para resolver a crise econômica. Os sandinistas convocaram eleições, enquanto os EUA fomentavam a guerra dos “contras”, e sofreram a chantagem de Violeta Chamorro: “ou nós ou a guerra continua”. Recordemos que os bolcheviques ficaram, também,em minoria nas eleições para a Constituinte, já depois de Outubro, apesar de terem conquistado uma votação muito alta e, finalmente, não a reconheceram, sob pena de perder a revolução. Por outro lado, as situações contra-revolucionárias, também não são homogêneas. A experiência do século indica que podem existir mais de um tipo de situações contra-revolucionárias, e o fascismo é uma das respostas, mas não é a única.  

                          Toda contra-revolução é na nossa época socialmente burguesa, mas não é politicamente fascista. A contra-revolução do pós-guerra só excepcionalmente  conseguiu uma mobilização ativa da pequena burguesia e do lumpen, para destruir as conquistas democráticas. Foi no entanto, o que ocorreu no Brasil, antes de 1964, com a TFP, e a marcha pela Família, Pátria e Propriedade. A segunda metade do século XX demonstrou que um regime contra-revolucionário pode se sustentar baseado na unidade da classe dominante, na sustentação internacional do imperialismo, e no apoio passivo da pequena burguesia, sem maiores bases sociais.

                         Antes de 1945 a contra-revolução assumiu, quase sempre, a forma do fascismo. Mas, depois, mesmo quando usaram métodos brutais de repressão, predominou a forma dos golpes militares e dos regimes bonapartistas, fossem militares ou civis. Foi, por exemplo, o caso do autogolpe de Fujimori no Peru, nos anos 90. Essas novas bases sociais se explicam pelas dificuldades agravadas de mobilizar as camadas acomodadas ou mais abastadas da pequena-burguesia proprietária, e pela redução da sua expressão econômica e social.

                              Existiu, por último, mais recentemente, um renascimento político do neo-fascismo, em especial nos países centrais. Permanece sendo, essencialmente, um fenômeno eleitoral. Já em alguns países periféricos, ocasionalmente, a ação terrorista de bandos de para-militares, quase sempre recrutados entre os lumpens e a polícia, opera como uma força de repressão auxiliar, como no caso dos jagunços que no interior do Brasil perseguem os sem-terra. Nos EUA, na forma das Igrejas fundamentalistas cristãs, uma das bases sociais mais sólidas da cruzada de Reagan e seu discurso político paranóico sobre a iminência do “Armagedom”, a histeria anticomunista que pregava a “Guerra nas estrelas”, o canhão de laser orbital “Excalibur”, etc... Uma recuperação recente desses sentimentos ultraxenófobos veio ocorrendo desde 2001, agora pela mão de George W. Bush, que reacendeu a chama da cruzada contra o “mal”, identificado, mais sofisticadamente, por Samuel Huntington como um “choque de civilizações”, a última versão ideológica para justificar uma contra-ofensiva recolonizadora do Império. Na Europa, os sentimentos nacionalistas de extrema-direita se manifestam na forma do chauvinismo racista antiimigrante: tanto na França, quanto na Alemanha, na Inglaterra ou na Áustria, os partidos neonazis têm obtido algo que flutua, no mínimo,  entre 10% e 15% dos votos.

 

As crises revolucionárias: quando soa a hora da luta aberta pelo poder

                                   Uma das regularidades na história do século XX foi confirmar, portanto, que as revoluções despertaram uma impiedosa contra-revolução, mas nem sempre na forma do golpe de Estado “cirúrgico”. Admitir que estes confrontos podem se manter incertos durante anos, não deve nos levar a ignorar os limites de uma situação tão dramática. As classes em luta não podem suportar, indefinidamente, a fadiga da tensão máxima. Sobre o conceito de crise revolucionária, como iminência da revolução - o agir imediatamente, esta noite, porque amanhã pode ser demasiado tarde - e a originalidade do pensamento de Lenin, que estabelece alguns critérios para a compreensão dos momentos em que a vertigem da política desafia a lentidão da História, as palavras de Bensaïd são uma referência, sugerindo a idéia da crise nacional, para evitar a confusão com outras crises políticas de menor envergadura:

“Il faut donc agir «ce soir, cette nuit». L'élaboration de cette problématique au cours des années de guerre et l'opposition consciente à l'orthodoxie régnante sont liées chez Lénine à la relecture de la Logique de Hegel. Dès 1915, il rumine l'idée de crise révolutionnaire qui l'obsède tout au long de l'année déci­sive de 1917. Cette idée rend concevable la conquête improbable du pouvoir par une classe soumise ordinairement au cercle de fer de l'ex­ploitation et de l'aliénation. Elle fournit la clef de la question vertigi­neuse: comment de rien devenir tout? Mais qu'en est-il au juste de la crise?”[11]

                                 Nessas circunstâncias, toda hesitação ou vacilação pode ser fatal, porque a questão do poder se coloca de forma inadiável: é o momento de máximo tencionamento histórico, de uma gravidade insuportável para todos os sujeitos sociais. A sociedade é toda convulsionada até às suas entranhas, e exige de maneira imperativa que alguma solução política se imponha. É a hora do aqui e agora, porque senão estará tudo, irremediavelmente, perdido. O que caracterizou, portanto, as crises revolucionárias, aquele momento decisivo da situação revolucionária, foi a abertura de um período necessariamente breve, de semanas ou poucos meses, em que a conquista do poder, ou a derrubada do governo, se coloca, não só como possível, mas como “incontornável”: essa é a hora da insurreição ou da inversão gerla da relação de forças. De novo, Bensaid:

 Lénine n'en donne pas une définition précise. Il énumère plutôt ses conditions algébriques gênerales: quand ceux d'en haut ne peuvent plus...; quand ceux d'en bas ne veulent plus...; quand ceux du milieu hésitent et peuvent bascu­ler... Les trois conditions sont indissociables et combinées. Il s'agit alors, non d'un mouvement social qui s'approfondit, mais spécifique­ment d'une crise politique de la domination, une crise d'ensemble des rapports sociaux, dont la forme est celle d'une «crise nationale». Pour­quoi «crise nationale»? Il faut détruire l'Etat en tant que corps séparé. Mais par quoi le remplacer? Pratiquement, la dualité de pouvoir inhé­rente à la situation révolutionnaire ne peut se dénouer victorieusement que si certaines fonctions vitales (ravitaillement, transports, sécurité) du vieil appareil d'Etat paralysé ou partiellement disloqué sont rem­plies par des organes nouveaux plus démocratiques et plus efficaces : la Commune de Paris, les soviets de 1905, les conseils ouvriers de Turin.”. (grifo nosso)[12]

                               No calor de uma situação revolucionária a crise pode se reabrir, até mais de uma vez, se a contra-revolução não conseguir, entretanto, uma vitória acachapante. Por outro lado, mais de uma vez, inúmeras situações revolucionárias foram bloqueadas, antes da precipitação da crise revolucionária. Mas é preciso dizer que essas definições, embora úteis, permanecem excessivamente gerais, e continuam insuficientes. Apresentemos o problema: as crises revolucionárias que precedem os Fevereiros são, para o fundamental, um processo semelhante às crises revolucionárias que precedem os Outubros ou não? Quais as articulações entre as revoluções políticas e as revoluções sociais?  Para começar a enfrentar essa questão, vale a pena lembrar algo simples, porém essencial: todas as revoluções sociais, se iniciam como revoluções políticas.

                                   A revolução russa, por exemplo, não esqueçamos, foi um processo que uniu de forma ininterrupta quatro revoluções: (a) a revolução política de Fevereiro,  democrática-burguesa na forma (porque a maioria popular quer derrubar o governo, mas é “inconsciente” da necessidade de tomar o poder) e nos resultados (porque derruba o regime do Czarismo), mas anticapitalista na substância (porque tem como sujeito social o proletariado e os camponeses, na forma da rebelião dos regimentos militares); (b) a revolução político-social de Outubro, anti-capitalista na forma (porque os bolcheviques se apóiam em uma maioria conquistada nos soviets, “consciente” da necessidade de ser governo), e socialista no conteúdo (porque produz uma mudança social no controle do Estado, que deixa de ser um Estado ao serviço do Capital); (c) a revolução econômico-social, de julho de 1918, porque inicia a expropriação capitalista, e as relações sociais deixam de ser burguesas, e passam a ser pós-capitalistas, portanto, transicionais (não mais capitalistas; ainda não socialistas); (d) a revolução militar-social, que só se concluiu com a vitória sobre o exército dos “brancos” em 1920.

                                A questão se coloca mais apropriadamente se considerarmos, também, que na História não ocorrem processos “quimicamente puros”, e portanto as revoluções políticas, mesmo as mais limitadas, têm conseqüências econômico-sociais.

                

                 

 


 

[1] Leon TROTSKY, Revolução e Contra-revolução na Alemanha. São Paulo, Livraria Editora Ciências Humanas, Coleção História e Política 6, 1979, p.145)

 

[2]. (TROTSKY, Leon. Aonde vai a França?, São Paulo, Editora Desafio, 1994, p. 61-62.)

 

[3] Ibidem

[4] (COLLETTI, Lucio. El marxismo y el derrumbe del capitalismo. Mexico, SigloXXI, p.187

[5] KAUTSKY, Karl. O caminho do poder. Trad. Moniz Bandeira. São Paulo, HUCITEC, 1979.  p.53

 

[6] KAUTSKY, Karl. O caminho do poder.  p.54.

 

[7]. KAUTSKY, Karl. O caminho do poder. Trad. Moniz Bandeira. São Paulo, HUCITEC, 1979.  p.61.

 

[8] (LUXEMBURGO, Rosa. “Huelga de massas, Partido y Sindicatos” In Obras Escogidas. Bogotá, Pluma, 1976, p.253

[9] LUXEMBURGO, Rosa., Ibidem., p. 253

[10] (LUXEMBURGO, Rosa. “Huelga de massas , Partido y Sindicatos” In Obras Escogidas, Bogotá, Pluma, 1976. p.245/6/9)

[11] BENSAÏD, Daniel, Le pari mélancolique: métamorphoses de la politique, politique des métamorphoses. Paris, Fayard, 1997.p78/9

[12] BENSAÏD, Daniel, Le pari mélancolique: métamorphoses de la politique, politique des métamorphoses. Paris, Fayard, 1997.p78/9