O GRUPO DE OPOSIÇÃO AO TALEBÃ: A ALIANÇA DO NORTE
Texto de Fiona Symon
(Fonte:BBC Brasil - 23 de setembro de 2001)
A Aliança do Norte é formada por grupos rebeldes com características étnicas e religiosas diferentes unidos apenas pelo desejo depor o Talebã, milícia que controla 90% do Afeganistão.
A aliança, que conta com cerca de 15 mil homens, recebia apoio do Irã, da Rússia e do Tadjiquistão.
O general Ahmed Shah Masood era o líder da Aliança do Norte, até ser assassinado no início de setembro.
Ele costurou uma série de alianças com antigos inimigos, ampliando a oposição contra o Talebã.
Composição
A aliança é formada atualmente por três grupos principais:
O principal deles é o grupo étnico Tajik Jamiat-I-Islami, liderado pelo sucessor de Masood, o general Mohammed Fahim Khan.
O grupo étnico Uzbek Junbish-I-Milli-yi Islami, o segundo mais importante, é liderado pelo general Abdul Rashid Dostum, um antigo opositor do general Masood que se uniu à Aliança do Norte no início deste ano.
O terceiro elemento da aliança é o grupo étnico Hazara shia, liderado por Karim Khalili e Mohaqiq.
Além disso, alguns comandantes, que seguiam o líder da etnia pashtu Gulbuddin Hekmatyar, estão agora lutando junto com a aliança.
Estrategista
Considerado um estrategista, o general Masood se superou na tarefa de coordenação militar e política dos diferentes integrantes da guerrilha.
Esse sucesso em costurar alianças, no entanto, não se traduziu em sucesso militar nos campos de batalha.
Nos últimos meses, uma série de ataques organizados pela guerrilha na parte central e oeste do Afeganistão conseguiu apenas evitar que a milícia do Talebã atacasse a base da aliança, no norte do país.
Até agora, faltaram homens e armas para que a Aliança do Norte fizesse algo mais do que se proteger contra o Talebã.
Controle reduzido
A aliança controla menos do que 5% do Afeganistão: o vale do Panjshir, base do grupo e local onde nasceu o general Masood, além de um pequeno enclave na área montanhosa no nordeste do país.
A morte do general Masood poderia significar o fim da aliança se os atentados contra o World Trade Center e o Pentágono não tivessem aumentado as expectativas de um ataque americano contra Osama Bin Laden e o Talebã, acusado de proteger o dissidente saudita.
Os líderes políticos da aliança estão confiantes que, agora, seus inimigos serã eliminados e alguns já disseram estar dispostos a lutar contra o Talebã, ao lado dos americanos.
Apesar desse possível apoio, um dos principais nomes do movimento anti-Talebã, Gulbuddin Hekmatyar, declarou que os americanos erram ao culpar Osama Bin Laden pelos ataques.
Contra-ataque
Ele disse que os americanos não têm direito de atacar o Afeganistão e disse que, se isso acontecer, o seu grupo vai lutar contra os Estados Unidos.
Hekmatyar e o seu partido, o Hizb-e Eslami, tiveram um papel fundamental na luta contra a ocupação soviética e na disputa interna de poder no início da década de 90.
Zahir Tanin, especialista em Afeganistão da BBC, diz que a aliança espera o colapso do Talebã.
Segundo ele, é essa expectativa que une os diferentes grupos sob a liderança do general Fahim Khan, sucessor de Masood.
Oficial
Ao lado da liderança de Fahim Khan, está o líder oficial da Aliança do Norte: o presidente deposto Burhanuddin Rabbani.
Ele faz parte do grupo étnico Tajik e é um ex-professor de lei islâmica na Universidade de Cabul.
Rabbani é uma das pessoas mais experientes no movimento, representa o país na ONU, e pode desempenhar um papel de mediador entre os diferentes grupos.
A Aliança do Norte segue uma corrente menos radical do Islã que o Talebã.
Direitos
Em Faizabad, onde funciona o governo de Rabbani, mulheres podem trabalhar e estudar em instituições de nível superior.
No entanto, durante a presidência de Rabbani, antes de ser deposto, ele não se destacou pelo respeito aos direitos humanos.
O especialista da BBC Zahir Tanin acredita que, embora as pessoas estejam cansadas do Talebã, a Aliança do Norte não se mostrou capaz de unir o país quando esteve no poder, logo após a expulsão das forças soviéticas do Afeganistão.
Segundo ele, a população afegã está procurando uma "terceira via" que possivelmente poderia ser seguida com a restauração da monarquia, com a volta do rei Zaher Shah, deposto em 1973.