O QUE É O PÓS-MODERNISMO

(Harvey, David. A condição pós-moderna. Edições Loyola. SP, 1996 - trechos escolhidos)

 

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Charles Jencks data o final simbólico do modernismo e a passagem para o pós-moderno de 15 h 32 min. De 15 de julho de 1972, quando o projeto de desenvolvimento da habitação Pruitt-Igoe, de St Louis foi dinamitado como um ambiente inabitável para as pessoas de baixa renda que abrigava.

A "cidade-colagem" é agora o tema e a "revitali7aÇão urbana" substituiu a "renovação urbana" como a palavra-chave do léxico dos planejadores.

"Não faca pequenos planos" , escreveu Daniel Burhnham na primeira onda da euforia planejadora modernista no final do século XIX, ao que um pósmodernista como Algo Rossi pode agora responder mais modestamente: "A que, então, poderia eu ter aspirado em minha arte?, Por certo, as pequenas coisas, tendo visto que a possibilidade das grandes estava historicamente superada."

No romance pós-moderno, a fronteira entre ficção e ficção científica sofreu uma real dissolução, enquanto as personagens pósmodernas, com freqüência parecem confusas acerca do mundo em que estão e de como deveriam agir com relação a ele, A própria redução do problema da perspectiva à autobiografia, segundo uma personagem de Borges, é entrar no labirinto. "Quem era eu? O eu de hoje, estupefato. O de ontem, esquecido: o de amanhã, imprevisível." Os pontos de interrogação dizem tudo.

Na filosofia. a mescla de um pragmatismo americano revivido com a onda pós-moderna e pós-estruturalista que abalou Paris de 1968 produziu o que Bernstein (1985, 225) chama de "raiva do humanismo e do legado do Iluminismo". Isso desembocou numa vigorosa denúncia da razão abstrata e numa profunda aversão a todo projeto que buscasse a emancipação humana universal pela mobilização das forcas da tecnologia, da ciência e da razão.

A crise moral do nosso tempo é uma crise do pensamento iluminista. Porque, embora esse possa de fato ter permitido que o homem se emancipasse "da comunidade e da tradição da Idade Média em que sua liberdade individual estava submersa", sua afirmação do "eu sem Deus" no final negou a si mesmo: já que a razão. um meio fio deixada, na ausência da verdade de Deus, sem nenhuma meta espiritual ou moral. Se a luxúria e o poder são "os únicos valores que não precisam da luz da razão par ser descobertos", a razão tinha de se tornar um mero instrumento para subjugar os outros (Baltimore Sun, 9 de setembro de 1987). 0 projeto teológico pós-moderno é reafirmar a verdade de Deus sem abandonar os poderes da razão.

O pós-modernismo representa uma ruptura radical com o modernismo ou é apenas uma revolta no interior deste último contra certa forma de 'alto modernismo" representada, digamos, na arquitetura de Mier Van der Rohe e nas superfícies vazias da pintura expressionista abstrata minimalista?

Terá ele um potencial revolucionário em virtude de sua oposição a todas as formas de metanarrativa (incluindo o marxismo, o freudismo e todas as modalidades de razão iluminista) e da sua estreita atenção a "outros mundos" e "outras vozes" que há muito estavam silenciados (mulheres, gays, negros, povos colonizados com sua história própria)? Ele solapa a política neoconservadora ou se integra a ela? E associamos a sua ascensão a alguma reestruturação radical do capital, à emergência de alguma sociedade "pós-industrial", vendo-o até como a "arte de uma era inflacionária" ou como a lógica cultural do capitalismo avançado como Newman e Jameson propuseram)?

Os planejadores "modernistas" de cidades, por exemplo, tendem de fato a buscar o domínio da metrópole como "totalidade" ao projetar deliberadamente uma forma "fechada" enquanto os pósmodernistas costumam ver o processo urbano como algo incontrolável e caótico, no qual a "anarquia" e o "acaso" podem "jogar" em situações inteiramente "abertas" .

O pós-modernismo aceita o efêmero, o fragmentário, o descontínuo e o caótico que formavam uma metade do conceito baudelariano de modernidade. Mas ele não tenta transcende-lo, opor-se a ele e sequer definir os elementos.

O pós-modernismo nada, e até se espoja, nas fragmentárias e caóticas correntes de mudança. corno se isso tudo fosse o que existisse. Portanto, na medida' em que não tenta legitimar-se pela referência ao passado, o pós-modernismo remonta à ata do pensamento de Nietzsche, que enfatiza o profundo caos da vida moderna e a impossibilidade de lidar com ele com o pensamento racional.

Encontramos Foucault atacando qualquer noção de que possa haver uma metalinguagem, uma metanarrativa ou uma metateoria, às quais todas as coisas possam ser conectadas ou representadas. Condenando as metanarrativas (como as produzidas por Marx ou Freud) como totalizantes, insiste na pluralidade de formações de "poder-discurso". Lyotard define o pós-moderno simplesmente como Incredulidade diante das metanarrativas".

Foucault pode ser analisado como uma fonte fecunda de argumentação pós-moderna. Nela, a relação entre o poder e o conhecimento é um tema central. Foucault rompe com a noção de que o poder e o conhecimento é um tema central e nos conclama a conduzir uma análise ascendente do poder, começando pelos seus mecanismos infinintesimais mais, cada qual com a sua própria história, sua própria trajetória, suas próprias técnicas e táticas, e ver como esses mecanismos de poder foram e continuam a ser investidos, colonizados, utilizados, transformados por mecanismos cada vez mais gerais e por formas de domínios globais.

Foucault vê que há uma íntima relação entre os sistemas de conhecimento (discursos) que codificam técnicas e práticas para o exercício do controle e do domínio social: a prisão, o asilo, o hospital, a universidade, a escola, o consultório do psiquiatra. O que acontece com os microscosmos de poder não pode ser abarcado por alguma teoria geral abrangente.

O único caminho aberto para "eliminar o fascismo que está nas nossas cabeças" é explorar as qualidades abertas do discurso humano, tomando-as como fundamento, e assim, intervir na maneira como o conhecimento é produzido e constituído nos lugares particulares em que prevaleça um discurso de poder localizado.

Para Foucault, é somente através de tal ataque multifacetado e pluralista às práticas localizadas de repressão que qualquer desafio global ao capitalismo poderia ser feito sem produzir todas as múltiplas repressões desse sistema numa nova forma. Suas idéias atraem os gays, étnicos e religiosos. autonomistas regionais etc.

Fica patente a questão do caminho pelo qual essas lutas localizadas poderiam compor um ataque progressivo, não regressivo, às formas centrais de exploração e repressão capitalista.

Para Lyotard, apesar do "vínculo social ser lingüístico, ;'não é tecido com um único fio!', mas por um "número indeterminado" de jogos de linguagem", e não estabelecemos necessariamente 'combinações lingüísticas estáveis, e as propriedades daquelas que estabelecemos não são necessariamente comunicáveis.

Lyotard emprega Wittengenstein (o pioneiro da teoria dos jogos de linguagem) para iluminar a condição do conhecimento pós-moderno." A nossa linguagem pode ser vista como uma cidade antiga: um labirinto de ruelas e pracinhas, de velhas e novas casas, e de casas com acréscimos de diferentes períodos; e tudo isso cercado por uma multiplicidade de novos burgos com ruas regulares retas e casas uniformes."

Lyotard como Foucault aceita as qualidades abertas potenciais das conversas comuns, nas quais as regras podem ser flexibilizadas. Ele (Lyotard) atribui muita importância à aparente contradição entre essa abertura e a rigidez com que as instituições ou "domínios não discursivos" de Foucault) circunscrevem o que pode e como pode ser dito, mas seus limites nunca são estabelecidos de uma vez por todas. Não devemos reificar as instituições, mas reconhecer a diferenciada escala de jogos de linguagens que cria linguagens e poderes institucionais em primeiro lugar. Se "há muitos diferentes jogos de linguagem - uma heterogeneidade de elementos", também temos de reconhecer que eles só podem "dar origem a instituições em pedaços - determinismos locais,

A idéia de que todos os grupos têm o direito de falar por si mesmos com sua própria voz, e de ter aceita uma voz como autêntica e. legítima, é essencial para o pluralismo pós-moderno."

Foucault elabora o conceito de heterotipia como a "coexistência, num espaço impossível", de "um grande número de mundos possíveis fragmentários", ou mais simplesmente, espaços incomensuráveis que são justapostos ou superpostos uns aos outros. As personagens já não contemplam como desvelar ou desmascarar um mistério central, sendo em vez disso forçadas a perguntar: "Que mundo é este? Que se deve fazer nele? Qual dos meus eus deve fazê-lo?"

A maioria dos pós-modernos localiza seus argumentos no contexto e novas tecnologias de comunicação e. usando as teses de Bell e Touraine sobre a passagem para uma sociedade "pós-industrial" baseada na informação, situa a ascensão do pensamento pós-moderno no cerne do que vê como uma dramática transição social e política nas linguagens da comunicação em sociedades capitalistas avançadas.