AMPLIANDO O CONCEITO DE LUGAR

("A alma do Lugar - Turismo, planejamento e cotidiano", Eduardo Yázigi, Ed. Contexto, 2002, págs. 29-49)

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Fui percebendo que as definições de lugar eram insuficientes para o entendimento e para o planejamento nas escalas do cotidiano e do turismo. O que está na berlinda é a alma do lugar - ou, a personalidade, no sentido exposto introdutoriamente. Há mais de meio século, autores como Ralph Linton reconhecem a importância da relação entre cultura e personalidade. Em certos momentos empresto o cômodo substantivo personalidade, porque é facilmente captável pelas pessoas em geral. Emprego-o como na introdução, para designar um conjunto de características, materiais ou não, que marcam um espaço geográfico, independentemente do que um observador possa qualificar de virtudes. Deste ponto de vista, um local cuja atividade econômica seja uma refinaria de petróleo muito poluente ou sede de narcotráfico não deixa de ter sua personalidade, pois ela não se atém a atributos necessariamente positivos.

Usualmente, a personalidade, ou o conjunto de identidades do lugar, na vida cotidiana, tem sido entendida como relações sociais, instituições, arquitetura, urbanismo e toda cultura material; costumes e vários outros itens que se repetem em todas as partes, como bem nos dão conta a sociologia, a antropologia e a etnologia. Neles reconheço importantes e indispensáveis sustentáculos do grupo. Mas, como terei ocasião de demonstrar no decorrer desta obra, os ritmos de mudança, ou até a volatilidade de muitos destes traços, não fixam o caráter de uma certa imagem - importante não só para os residentes como para o turista. A partir desta característica, e sem subestimar os valores listados, fui construindo a idéia de que a geografia física poderia funcionar como urna excelente base imagética, por causa de sua relativa estabilidade. Tanto quanto a essência natural dos lugares, pareceu-me indispensável agregar ao conceito banalidades desconsideradas pelo planejamento. Quando o planejamento ignora a escala do comum, subtrai-lhe a essência, o sal da terra. O próprio Le Corbusier, com todo seu funcionalismo, reconheceu que a alma de uma cidade depende de tudo aquilo que ela tem de fantasioso e não funcional. Não cabe ao planejador fabricar este mundo rico e expressivo, mas reconhecer sua dimensão para não destruí-lo.

Os conceitos clássicos

Alguns conceitos básicos concorrem para uma primeira aproximação dos objetos desta busca: região, paisagem, lugar, identidade, todos eles associados à literatura especializada e bastante explorados por ela e, como não podia deixar de ser, sujeitos a um processo evolutivo de interpretação. É justamente na perspectiva de uma evolução que pretendo trazer algum aporte teórico, principalmente nos pressupostos do cotidiano e do turismo.

Região

A taxionomia começa a se desenvolver com o naturalista sueco Carl von Linné (1707-1778). Efetivamente, as grandes navegações do Renascimento revelaram novos mundos de plantas e animais que a ciência, florescente, precisava classificar. A nomenclatura binominal deste cientista, em gêneros e espécies continua fazendo autoridade até hoje. Neste contexto se firma a geobotânica, primeira disciplina a estabelecer uma hierarquia de espaços, indo da região ao distrito, sua unidade elementar - método mantido pela moderna ecologia, na correspondência zona-biótipo.

Logo se percebeu que um único traço não era suficiente para constituir um região; por isso se passou à prática de adjetivar o vocábulo para qualificá-lo: região natural, histórica, econômica, administrativa e assim por diante. Dito de outra forma, é o reconhecimento de que a superfície da terra é composta de diferentes sistemas e subsisternas. Coube basicamente aos geógrafos a formulação da idéia de região, como categoria de análise e é, seguramente, com Ritter que a geografia regional encontra a base de seus fundamentos. Com ele se reconhece a introdução da história e da identidade no espaço, ou seja, a região passa a ser entendida como uma realidade objetiva. Dos fins do século XIX ao primeiro quartel do século XX, os pressupostos do determinismo ambiental geraram a idéia de região natural, denominada Landschaft por autores de língua alemã e russa.

É um complexo físico-geográfico que associa, em suas relações atuais, fenômeno físicos (e seus efeitos) de natureza intrínseca e dinamismo absolutamente diferentes; é a geologia dando lugar a diferenciações estruturais, estratigráficas, petrográficas; é a geomorfologia provocando a intervenção dos processos da dinâmica superficial recente e atual; é a climatologia associando o conjunto dos dados atmosféricos à distribuição e à modulação dos seus efeitos em função do relevo, da distribuição das terras e dos mares, da distância do mar; é a biogeografia integrando, por intermédio da pedologia, a vida do meio inerte ... (George s.d.: 143).

É, enfim, um ecossistema. Embora tal entendimento tenha se mostrado insuficiente como método geográfico, é muito importante reter suas premissas, tendo em vista que, na segunda metade do Século XX, a consciência ecológica voltaria a reclamar a importância do meio natural, ainda que numa nova perspectiva de interpretação Inicialmente, fora a naturlandchaft, em fins do século XIX, Otto Schluter logo percebeu a necessidade de introduzir o conceito de kulturlandschaft, opondo-se aos que consideravam a paisagem como o estudo das relações homem-meio e das associações espaciais dos fenômenos geográficos (Hettner). É que a redução do estudo aos objetos visíveis exclui o estudo das distribuições humana de natureza não material, assim como fatos sociais, econômicos, raciais, psicológicos ou políticos. Daí Schluter ter insistido na distinção de kulturlandschaft de naturlandchaft, anteriormente corrente. Herbertson, por sua vez, fundamentado no trinômio clima-relevo-vegetação, vem reconhecer seis tipos (polar temperado frio, temperado quente, tropical, montanhoso, subtropical, terras baixa e úmidas equatoriais); 15 subtipos sem contigüidade territorial e 57 regiões naturais em contigüidade.

O possibilismo reconhece a ação do homem através da história, o qual passa de unia fase de adaptação ao meio à sua modelagem, numa oposição ao determinismo. Dá-se mais importância à relação homem-natureza. Um dos que contribuem para este enfoque é o francês Paul Vidal de La Blache (1922: 6 sqq), talvez o primeiro a usar a expressão personalidade da região, Ele reconhece contornos dados pelo clima, solo e vegetação, mas destaca as combinações possíveis que acabam conferindo sua personalidade. Em Princípios de geografia humana, destaca o papel fundamental da fisionomia da vegetação corno traço mais expressivo de uma região, a ponto de marear nossa memória. Não seria a lembrança de coqueiros, araucárias ou seringueiras em particular, mas o conjunto percebido como ondulações, silhuetas, cores etc. - não simplesmente o pitoresco, mas a fisionomia virtual de sua função e necessidades fisiológicas. É assim que este autor busca a singularidade dos lugares a partir da fisionomia.

A crítica a La Blache se funda em não se poder conceber uma região harmônica, concluída, sem o papel da sociedade com suas classes sociais (da mesma forma que o moderno pensamento preservacionista das cidades não mais considera o patrimônio ambiental urbano como um dado catalogado e acabado, mas sujeito ao processo social). Percebeu-se que a história humana acaba por predominar sobre os fatores naturais na configuração de regiões. Autores como Vance acrescentam o sentimento de pertença com a consciência da tradição e de ideais comuns, hoje assumido pelos ingleses como belonging e pelos franceses como appartenance. Alguns geógrafos, inspirados na psicologia, concebem ainda a região como um espaço vivido. Para Pierre Gourou, também, as estruturas sociais dependem fundamentalmente das técnicas de produção e organização do território do grupo. Isto é, a região homogênea deixa de ser natural para ser humana - como meio real de ação.

Para a nova geografia, "a região é definida como um conjunto de lugares onde as diferenças internas entre esses lugares são menores que as existentes entre eles e qualquer elemento de outro conjunto de lugares" (Corrêa, 1991: 32). Este mesmo autor lembra que em seu reconhecimento e mensuração introduzem-se técnicas estatísticas, o que pressupõe mais objetividade do estudioso.

Hoje, não só geógrafos, como economistas, trabalham com conceitos de regiões homogêneas e regiões polarizadas ou funcionais. Nesta metodologia, as primeiras se caracterizam pela identidade e repetição de certos traços (paisagem, produção, composição social, cultura etc.); as segundas são definidas pela existência de fluxos e de relações de poder, organização ou complementaridade. Mas será que por aí se chega a entender a realidade social com clareza? Não será a organização territorial uma combinação do homogêneo e do funcional, visto ser impossível entender o Estado ou nação unicamente de um ou outro ponto de vista? Na geografia crítica dos anos 1970 a região é então novamente repensada. O método de La Blache impede novos entendimentos sobre a divisão da Terra. Comentando este autor, Alain Lipietz (1994: 9) diz que:

esse enfoque pode voltar se à estrutura interna do território para explicar as suas relações com os outros territórios, mas não é globalmente estruturalista. Pelo contrário, os enfoques partindo do global definem as regiões pelo seu lugar numa estrutura mais global ou abrangente. A região, as suas características são, portanto, o produto da inter-regionalidade.

A região é entendida como o modo de articulação dos modos de produção. Deve-se dizer, ainda, que as transformações mundiais do pós-guerra foram tão vertiginosas que a entidade regional atingiu níveis de complexidade jamais experimentados pela história.

Roberto Lobato Corrêa (1991: 45 sqq) defende a idéia de que:

a região deve ser vista como um resultado da lei do desenvolvimento desigual e combinado (Trotsky), caracterizada pela sua inserção na divisão nacional e internacional do trabalho e pela associação de relações de produção distintas... é uma entidade concreta, resultado de múltiplas determinações, ou seja, da efetivação dos mecanismos de regionalização sobre um quadro territorial já previamente ocupado, caracterizado por uma natureza já transformada, heranças culturais e materiais, e determinada estrutura social e seus conflitos. A região assim definida assemelha-se em vários aspectos à vidaliana, podendo em muitos casos ser idêntica nos seus limites. Conceitualmente, no entanto, não é a mesma região, pois as diferenças vistas são numerosas. Ela não tem nada de preconizada harmonia, não é única no sentido vidaliano ou hartshorniano mas particular, ou seja, é a especificação de uma totalidade da qual faz parte através de uma articulação que é ao mesmo tempo funcional e espacial.

O entendimento de região, com toda a sua complexidade, torna-se muito importante à ótica deste trabalho, porque mais adiante será discutido como fica a autonomia de certas identidades locais ante o regional, nos âmbitos do cotidiano e do turismo. Em outras palavras, serão discutidas questões pertinentes um novo parâmetro que se introduz com a região turística.

A região turística corresponde a uma área com certa densidade de freqüentação, serviços e equipamentos turísticos e com uma imagem que lhe caracteriza. Às vezes se confunde ou se identifica com um conjunto natural, em cujo interior se circunscreve, como nos núcleos urbanos ou focos de frequentação turística litorâneos, localizados em diversos municípios limítrofes e pertencente a um mesmo conjunto geográfico. É possível distinguir pelo menos três tipos de regiões turísticas: a) os âmbitos espaciais considerados a priori, onde existem atividades turísticas suscetíveis de serem analisadas; b) as regiões homogêneas; e c) as unidades administrativas consideradas regiões turísticas.

Paisagem

Ao se pensar na estrutura da personalidade do lugar, a paisagem assume especial destaque, pois é precisamente dela que nos chega muito da percepção. Como externalidade, resulta sempre do casamento do que uma sociedade herda e se apropria, com aquilo que suas necessidades praticam. Ou seja, é o conjunto de formas num dado momento e por isso mesmo algo que está sendo sempre refeito na mesma matriz. Para Milton Santos ela se distingue do espaço por não ter animação, embora outros autores não concordem com isso. Seu estudo se constitui em ciência que não pode ser entendida; sem alusão às condições ambientais, com ações e reações dinamicamente recíprocas.

Duas são as tendências: uma primeira ela é ponto de partida que, corno testemunho, remete-nos à questão social e sua dinâmica; no segunda, ela é um objeto em si, como esfera de interação de vários fatores de transformação. Não deve ser confundida com ecossistema, mias com lugares transformados pelas civilizações. A paisagem dos geógrafos é um termo e uma noção de uso fundamentalmente pedagógico. Para o turista ou para o cidadão comum, ela é objeto de contemplação e dos mais diversos significados. Oportuno ainda lembrar que a natureza (assim como o meio) não é paisagem: a primeira existe em si, enquanto a segunda só existe em relação ao homem e segundo sua forma de percebê-la. O fato de a paisagem ser patrimônio cultural, coletivamente percebido com memória e imaginário, não deixa de ser também uma porção do espaço que determina um envelope e um conteúdo de todas as representações paisagísticas desta porção do espaço.

O processo paisagístico se comporta como um "polissistema" que reagrupa sistema natural. sistema de representação etc.: cada um desses sistemas funcionando por conta própria e a um passo do tempo distinto; com o todo interagindo, com inércias aqui e ali, com contradições, defasagens e superatividades. (Rougerie, 1991: 83).

Nesse sentido, é preciso reconhecer uma multiplicidade de formas e tempos presentes na paisagem. Geomorfologia, vegetação, sistema hidrográfico, arquitetura, publicidade e outras entidades paisagísticas possuem tempo e dinâmica próprios. Eqüivale entender que, na perspectiva do planejamento, cada item requer estratégia diferenciada para intervenção, com técnicas, tempos e políticas adequados.

Passarge deu ênfase aos elementos individuais que compõem a paisagem: clima, água, terra, plantas, fenômenos culturais e a forma como se agrupam, formando unidades hierarquizadas. Para Fochler-Haucke, a paisagem pode ser definida como:

a realidade espacial de um tipo de espaço delimitado, com todo seu conteúdo material, isto é, uma espaço com um determinado sistema de forças. de uma determinada estrutura espacial, sendo seu conteúdo, em geral, submetido a mudanças temporárias. Uma paisagem definida de tal modo muda, fora de seus limites, em outra fisionomia e estrutura. O típico da paisagem é formado pela integração de numerosos fenômenos particulares. Segundo este conceito, a paisagem é independente da extensão no espaço (apud Capel: 350).

Sorre completa a definição, lembrando que uma região é caracterizada pelo domínio de uma paisagem, pela combinação definida de paisagens, reconhecendo a dificuldade em se estudar a paisagem humana. Hoje é a grande voga do ecologismo.

Milton Santos (1996; 83) usa a bela figura do palimpsesto para definir a paisagem: "é o conjunto de elementos naturais e artificiais que fisicamente caracterizam uma área. A rigor, a paisagem é apensa a porção da configuração territorial que é possível abarcar com a visão... a paisagem é transtemporal, juntando objetos passados e presentes, uma construção transversal..." Finalmente, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro dá uma abertura ao sentido da paisagem que muito convém ao espírito deste livro, conforme anotações de aula por ele ministrada:

a paisagem é uma entidade delimitada segundo um nível de resolução do pesquisador, a partir dos objetivos centrais de análise, de qualquer modo sempre resultando da integração dinâmica, portanto instável, dos elementos de suporte, forma e cobertura (físicos, biológicos e antrópicos) e que expressa em partes delimitáveis mas individualizadas, através das relações entre elas que organizam um todo complexo (sistema). Um verdadeiro conjunto solidário e único em perpétua evolução.

Mas o que são os lugares sem pessoas? Hoje impossível de imaginar, senão em contextos intergalácticos. Toma forma, então, tudo aquilo que se falou sobre a noção de espaço-palimpsesto, de tecnologia, de história enfim. A paisagem tem atributos expressivamente simbólicos. O homem e suas construções - a arquitetura, quer se queira ou não, fica sendo o grande marco da paisagem. Sem negar, é claro, as desconstruções, as cicatrizes... Num mundo globalizado, a personalidade do lugar encerra múltiplas identidades, produto dos movimentos de migrantes, fluxos de objetos e informações que, praticamente, puseram um ponto final a quase todas as comunidades isoladas da terra. Como se reencontrar neste cipoal que o mundo moderno tende nivelar? É assim que o trabalho, por ser estrutural do cotidiano das pessoas, e por muitas vezes manifestar-se visivelmente no espaço geográfico, converte-se numa marcante forma de identidade. É assim também que o próprio turismo, como prática social e econômica, também é identidade, dependendo da intensidade e forma como se organiza, no contexto em que está inserido.

Amos Rapoport (1972) revelou-nos uma sugestiva sistematização da Arquitetura tradicional do mundo, mostrando como variados fatores (isto é, sociedade, crenças, clima, materiais disponíveis no lugar, tecnologia e sobretudo cultura) criaram séries e mais séries de formas de morar. Há tempos que a globalização foi se formando. Muitos se aperceberam que a divisão do trabalho, os novos materiais de construção, como as novas tecnologias, foram fazendo tabula rasa dos lugares, que não tinham ou não sabiam como oferecer resistência seletiva. Mesmo porque tornou-se necessário dispor de certas somas para viver com dignidade. Assim, numa perspectiva voluntária e a par do papel da natureza, a arquitetura, o urbanismo e o paisagismo ressurgem como possíveis formas de reversão ao está ficando tudo com a mesma cara. Com a ressalva de fugirem da fetichização, de não serem meras carcaças, para se configurarem como estilos de vida e partes de seu movimento. Parte dessas opções são da alçada do planejamento territorial.

Para que uma imagem exista, é fundamental que seu objeto não seja percebido só em sua individualidade, mas no contexto. Por isso a arquitetura, gerando urbanismo, desempenha um importante papel no que as imagens coletivas produzem como intervenções de mudança (Ledrut). Na linha de Auguste Comte, Maurice Halbwachs (1990) lembra que o equilíbrio mental depende, em primeiro lugar, da estabilidade dos objetos materiais de nossa vida diária, que proporcionam uma imagem de permanência. Eles trazem nossa marca e a dos outros. O grupo transforma seu espaço à sua imagem e a ele se adapta. "Assim se explica como as imagens espaciais desempenham um papel na memória coletiva" (1990: 133). Diz ainda que "quando um grupo vive por longo tempo num lugar adaptado a seus hábitos, não somente os seus movimentos, mas também seus pensamentos se regulam pela sucessão das imagens que lhe representam os objetos exteriores" (1990: 135).

A esses entendimentos mais conhecidos da paisagem, acrescento um outro, de importância fundamental para meu modo de entender o cotidiano e o turismo: a paisagem como teatro. Nisto, um emérito professor da Escola Politécnica de Milão destaca a prioridade do representar sobre o agir, do homo figurans sobre o homo faber. Eugenio Turri explica a paisagem como um teatro, no qual indivíduo e sociedade recitam. Esta paisagem subentende que homem e sociedade agem de dois modos no território: transformando-o em atores, no sentido ecológico de ambiente da vida, imprimindo o sinal da própria ação e, comportando-se como espectadores que sabem olhar e entender o sentido operado. Assim, nosso agir é sempre um recitar para os outros e para nós mesmos. A paisagem seria o momento comunicativo entre dois sistemas, o social e o territorial.

Claro que a paisagem urbana já é história, sem excluir outras formas de história em objetos, ou campos não materiais de menor visibilidade: ou seja: história como conhecimento, consciência, objetos móveis ou artes menores. Como paisagem ou modo de vida, o espaço construído representa uma alternativa mais a gosto e alcance do conhecimento comum, na medida em que se reveste de dramaticidade com formas, cores, luzes, movimentos, seduções, conflitos... E mais, todas relações humanas públicas, semiprivadas e até privadas acabam se revelando como diferenciadas ou não, em cada lugar. É neste ponto que às modernas definições de lugar, conviria acrescentar o sal da terra. A paisagem também faz parte da identidade do lugar. Como muitos leitores costumam associar a idéia de paisagem com os cenários naturais, sempre que quiser me referir ao contexto arquitetônico, para fins de diferenciação, usarei a qualificação de paisagem urbana.

Lugar

A idéia de lugar, consubstanciada no entendimento de Milton Santos (1994:36) é assim entendida: consiste da extensão do acontecer homogêneo ou do acontecer solidário, a partir de duas construções: a configuração territorial e norma, mesmo que efêmera. A estrutura é tão importante quanto a duração do fenômeno. Mas como são as pessoas e os lugares que se globalizam, o espaço se torna único. A globalização tenta impor uma única racionalidade ao mundo. Para este autor, a diferença entre lugar e região é hoje menos relevante do que antes,

quando se trabalha uma concepção hierárquica e geométrica do espaço geográfico. Aí, a região pode ser considerada como um lugar, sempre que se verifique a regra da unidade, e da contigüidade do acontecer histórico. E os lugares - veja-se o exemplo das grandes cidades - também podem ser regiões, nas quais o tempo empirizado acede como condição de possibilidade e a entidade geográfica como condição de um espacialização prática, que cria novos limites e solidariedades sem respeitar as anteriores... Os lugares se definem, pois, por sua densidade informacional e por sua densidade comunicacional cuja função os caracteriza e distingue. Essas qualidades se interpenetram mas não se confundem. (Santos, 1996: 145).

Revela que mais importante do que a consciência do lugar é a consciência de mundo que se tem por meio do lugar.

Hoje em dia, além da geografia, muitas disciplinas têm contribuído com aportes significativos no entendimento do espaço e do cotidiano. Destaco, entre outros, os papéis relevantes da psicologia ambiental, do desenho ambiental, da antropologia e da ecologia. Amos Rapoport (1978: 178 sqq) é um dos grandes divulgadores; do referencial humano na definição do lugar, ao chamar a atenção para o papel dos sentidos, no qual a visão é a dominante pela quantidade de informações que permite (distância, textura, luz, cor, forma, contrastes etc), mas sofre influências de cada cultura. Já a ambigüidade emotiva do olfato valoriza e dá identidade ao lugar, ainda que com significados sociais: cheiro de capim-gordura, de fábrica de biscoitos, de álcool combustível... Em cada volume da trilogia de Jorge Americano sobre São Paulo, este autor registra longas listas dos cheiros de sua cidade, inclusive na perspectiva temporal que os modifica. O som tem o papel de enfatizar o espaço, mas é transitório. O tato serve não só para perceber a textura, mas sobretudo o tipo de espaço que existe no solo, tão importante para os cegos. Além destes, Rapoport destaca a importância da cinestesia que permite as mudanças de posição e novas percepções.

André Frémont considera os lugares como a trama banal e elementar do espaço, onde é possível detectar funções que não são idênticas por toda parte. Para ele, a análise geográfica deveria contribuir para a decriptagem dos lugares (1980: 144). Yi-Fu Tuan, repete que a experiência do lugar depende da cinestesia, da visão e do tato, endossando Santo Agostinho, para quem o valor do lugar depende da intimidade de uma relação humana (1983: 156). Por esta mesma razão, Yves Lacoste lembra que o espaço vivido não é sinônimo de região. No Brasil, a televisão vem prendendo as pessoas em casa há décadas, Depois, violência e depreciação do espaço público remeteram a população aos shoppings, reconhecidos, à revelia de muitos teóricos, como o novo paradigma. Isto tudo considerado, até os subterrâneos podem ser considerados lugares.

Reconheço o lugar como uma arrumação que produz o singular, mas estimo que de modo algum se poderá entendê-lo ou trabalhá-lo sem a consideração da extensão de seus sistemas. Ele tem uma personalidade sim, mas não é sujeito.

Refletindo sobre a vida cotidiana e o olhar turista, vi-me na necessidade de intensificar a busca, com vistas a repensar o conceito, ampliando-o para o reconhecimento de outros valores. Sob a moda de tudo explicar pela globalização, alguns autores exageram dizendo que se um cidadão viaja e encontra os mesmos objetos que seu cotidiano, ele efetivamente não teria viajado... Se encontrarmos um McDonald's em Pequim, ou a possibilidade de lá entrar na internet, não quer dizer, absolutamente, que não saímos do lugar: ele não é assim tão sumariamente eliminável, pelo menos na ótica do contexto mais denso. Em duas palavras, ao pensar nas definições correntes de lugar, achei-as insuficientes para entender o cotidiano e o turismo, mas sem ousar esquecê-las! Pareceu-me que deviam se entendidas como certos enunciados de Newton para a física, que continuam válidas para certos segmentos da realidade, mas não se aplicam ao infinitamente pequeno - que é minha escala de trabalho, no conjunto do espaço percebido.

Convenci-me de que esta seria uma ampliação importante de ser incluída nas práticas do planejamento, já que a desconsideração por outras dimensões do lugar, aniquilam-no, esterilizando a vida cotidiana e, por conseqüência, o sítio turístico. Exceto, os profissionais que lidam com o espaço, inúmeros ficcionistas têm deixado claro seu entender sobre o lugar, explorando-o como jamais se viu nos meios acadêmicos. Dada a presença multitudinária de autores, que escapa à catalogação, procurei explorar aspectos que me pareciam relevantes da expressão ocupar lugar - no seu duplo sentido... Diante da condição humana de busca da estabilidade, considerei os destaques do lugar, na ótica do mais duradouro, mas sem cercear as mudanças.

Primariamente estão os componentes fisiográficos, pois as variações de superfície criam séries de lugares no relevo (planície, planalto, montanha, variações de altitude etc.). Do mesmo modo, a água cria configurações específicas (mar, rio, lago, igarapé, cachoeira, ilha, península, fiorde, promontório etc.). O tipo de vegetação consagra a roupagem em várias extensões da terra. A estação do ano, dada pela posição em relação ao sol, cria diferenciações climáticas e de luz, sem falar de sua importância em vários aspectos da vida humana. Aliás, o grego Estrabão, em sua preciosa Geografia, já nos tempos de Jesus Cristo, afirmava que a natureza era permanente, enquanto os atributos nela inscritos sofrem mudanças. Por ser o primeiro a não usar o recorte geométrico no espaço, é considerado um marco no conhecimento da região, entendida em suas relações com o processo civilizatório. Entre as referências medianamente estáveis temos a arquitetura, o urbanismo, o sistema político, as instituições, o sotaque, o movimento e nicho dos animais, o caráter, os costumes, o relacionamento grupal, o calendário de festas, as crenças.... Já os bastante móveis comporiam o movimento de pessoas e objetos; os objetos móveis da cultura material; os tipos de trabalho e de lazer; os rituais cotidianos. Desses, não mais que um certo número são passíveis de tratamento pelo planejamento físico-territorial.

Como a seqüência do texto irá sugerir, quando vulgarmente se evoca um território com alguma coesão, em geral administrativa, está se falando de múltiplos lugares interligados. Uma cidade ou um município sempre conta com distintos lugares, como componentes de uma família maior. Do ponto de vista do cotidiano ou do interesse turístico, o objeto está tio tipo de amarração entre essas partes. Pode-se mesmo dizer que o lugar absoluto de um só tipo de acontecer não pode existir, na medida em que sabemos que ele depende do resto: não existe o todo sem as partes. o lugar corresponderia ao holon, magistralmente definido por Arthur Koestler - isto é, tem um grau de autonomia em relação ao conjunto mais amplo.

No entanto, não podemos negligenciar o ponto de vista humano sobre o espaço banal. Em poucas palavras, o lugar só existe com a reunião (e organização) de vários aspectos. Mas dada a efemeridade destas construções (memória coletiva, modismos da arquitetura e do urbanismo, a atual prevalência do individualismo no gosto etc.), a geografia física poderia ser o fator mais estável na definição da essência do lugar, o vetor de mediação de certas categorias construtivas. já sabemos que o espaço é constantemente modificado pela história. A questão estaria em se buscar manter os traços ditos naturais, o mais próximo possível de suas formas originais, numa perspectiva bastante preservacionista, de forma que uma montanha sempre fosse percebida como tal, assim como a forma de um rio, a fauna ou até o clima - mesmo sabendo que suas configurações e significados mudam. Trata-se de resistir. A importância dos traços naturais se reforça, diante da constatação de que enquanto nas restaurações arquitetônicas pode-se até reconstruir o modelo original, na natureza isso ficaria muito mais difícil, senão impossível. É sua relativa irreversibilidade, diante de certos tipos de deformação.

Apesar de cada vez mais as construções coletivas não conseguirem fixar o lugar, não significa que sejam desconsideradas, apesar de muitas delas nem dizerem respeito a um lugar, mas a uma idéia. Elas serão sempre estimadas. Porém, numa atitude voluntarista do ponto de vista de políticas públicas, teriam de ser redirecionadas, incorporando, também, maior valorização da geografia física. Em outras palavras, significa que o vetor do meio natural poderá sugerir (sugerir, não determinar) novas séries, na cultura material - perspectiva esta que se casa muito bem com a preocupação contemporânea, universal, de preservação da biosfera. Um lugar construído ou reconstruído, sob perspectivas verdadeiramente ecológicas, aliado à criatividade, significará, aí sim, um novo paradigma. Ele se distinguirá dos demais, com maiores ou menores nuanças, conforme a geografia física poderá sugerir. Daí a possibilidade de personalização.

Lugar seria também a geografia física, na extensão apropriada pelo homem. Perguntar-se onde estariam os limites fisiográficos de uma região seria tão difícil quanto estéril: não se pode buscar limites naturais abruptos porque a natureza do mundo não é assim - da mesma forma que não existem limites bem definidos no conjunto de ciências que se avizinham. Temos de nos habituar ao que ensina um prisma de cristal, ao revelar o fluxo da passagem de uma cor para outra, sob efeito da luz! O importante de se destacar é que no conjunto da biosfera podemos distinguir variações marcantes.

Entretanto, o mundo físico natural não pode ser entendido somente em suas grandes formas - um vulcão, uma floresta ou um rio. Segue-se então a apropriação da geografia física, em suas infinitas minudências, em que transitam vida, sons, texturas, cores etc., como sugerido a seguir.

Sinais líricos e místicos

Entretanto, as definições dos melhores acadêmicos, tendo em mira metodologias, resultam insuficientes para o entendimento do lugar, tal como literatos, poetas e pintores têm sido únicos a perceber. Eles chegam a sutilezas próprias da alma, da essência das coisas que passam despercebidas nos textos acadêmicos. Como já disse o físico John Barrow em seu livro Teoria de tudo, nenhuma explicação não-poética da realidade pode ser completa... É a cantilena de Gaston Bachelard em sua Poética do espaço (1993). Quando um cidadão vive seu lugar ou quando um viajante se detém para considerar aquilo que gostaria de levar consigo", aí então se capta uma essência. Carl Gustav Jung (p. 29 sqq) vai mais longe, consagrando um capítulo inteiro à relação mente-terra, lembrando as distinções chinesas de alma-shen e alma-kwei, reportando-se, respectivamente, ao céu e à terra. Toda alma teria sua terra. Mas como os ocidentais pouco sabem da mente, sugere que esta seja entendida antes, como um sistema de adaptação determinado pelas condições do meio ambiente terrestre. Eis por que me vi na necessidade de chegar mais perto de outros "lugares do lugar" - para não reduzi-lo. Um elenco que se perdido, aí sim, a globalização se consuma.

Vejo o lugar como um dos referenciais indispensáveis à vida, nas esferas do cotidiano, do trabalho, dos afetos e dos ideais, mas, desoladamente, com perdas indizíveis. A personalidade é composta de vários suportes. Nesse caso, estou pensando em algo que teria a ver com o mais amplo sentido da ecologia, isto é, as relações mútuas do meio e com o homem: a biosfera, a cultura material, a memória, as animações e as cognições. São áreas com múltiplas ramificações que tem de ser trabalhadas, numa perspectiva de formar resistência às forças aplainadoras da globalização. Parece-me, entretanto, que carecemos de referenciais que não se volatilizem facilmente, constatação que me conduz aos dados naturais locais, como sendo os mais vigorosos, num mundo de mudanças aceleradas. Isto não só se prestaria à reconstrução dos lugares e suas identidades, como imprimiria um sentido mais conseqüente à urbanização. Certamente, uma opção não sem obstáculos a serem enfrentados.

Algumas características se evidenciam. Talvez fosse lícito retomar a geografia física-regional: o solo, o relevo, a hidrografia, o clima, a flora e a própria fatura: podemos imaginar o Pólo Sul sem pingüins ou o Saara sem camelos? E Santos sem o vento noroeste? E lugares do Rio Grande do Sul sem o Minuano? E o Mistral? E os lugares que são roteiro ou pouso de aves que migram? E os lugares de cabra montes, jacamins, tuiuiús e arapongas? O que são fazendas sem cheiros de cavalo e vaca? Sobre desertos, sabe-se que são um continuum sem sublugares, que não sejam oásis. Neles, ao contrário, experimenta-se o céu como parte do grande lugar - donde o provérbio árabe: "Quanto mais você entrar no deserto, mais perto de Deus chegará". Não sem razão, aliás, esta foi a receita que Jesus usou nos quarenta dias em que se retirou no deserto para orar. Cada enumeração pode ser objeto de rigorosas explorações, mas aqui quero destacar o sentido de quando o solo deixa de ser terra vermelho-escura, como a de Londrina, produto da decomposição de rochas efusivas basálticas, para converter-se no suplício dos colarinhos ou quando os alíseos deixam de ser meros ventos, para configurar-se como canto de casuarinas. Criticamos os consumismos de hoje, mas estamos perdendo a sensibilidade para as pequenas coisas de nosso cotidiano e só acordamos e reclamamos quando elas não mais existem.

Eis que o chão e seus adereços naturais se convertem em verdadeira vanguarda, com o nome, não muito apropriado, de "Ecologia". Deste ponto de vista, então, as associações dos elementos físicos acabam por se configurar em ecossistemas que são partes da personalidade do lugar. No ser humano, a personalidade não é um componente isento de mudanças; assim, também, o próprio espaço físico transforma constantemente suas paisagens junto com a história. No entanto, dada a força de sua substância - os movimentos do mar, os volumes montanhosos, a aridez dos desertos, as planícies ou a decisão de preservar florestas e relevos - os acidentes mais notáveis, não só se mantêm mais fiéis a seus passados estruturais, como, dada a orientação preservacionista do presente, tendem a ser reforçados. Sem se falar nas forças telúricas... Hoje temos ampla consciência de que tudo muda com velocidade. Mas quiçá certos atributos sejam os mais fixos referenciais, ainda que a roupagem mude: as presenças fortes ainda conseguem guardar sua personalidade, dependendo de como a história as tratou.

Podemos, assim, entender a própria luz como participante do lugar. Já não falava disso Van Gogh sobre a luz de Arles? E a aurora boreal dos pólos, que a mitologia esquimó diz ser a tocha dos espíritos conduzindo as almas para o céu?

E as miragens, possíveis tanto nos desertos como nos pólos? E o magnetismo? E o "astral" que nunca aparece num texto científico mas que todos sentem reconhecem, impregnado do meio e das gentes? A luz, mesmo sem ser a de Arles, modifica os lugares a cada estação e diuturnamente na escala de um dia. E onde as estações são normalmente mais diferenciadas, mudam-se rituais, ritmos, cores, costumes, aparências... Para construir uma civilização o homem tem de ser cúmplice e amigo da natureza, tem de pactuar com as benesses ou até com os revezes naturais.

As ordens naturais seriam então os primeiros referenciais, pontos de escanção na superfície da terra. Sem eles, não seria possível buscar uma poética do espaço tudo seria reduzido ao sistema científico e as intenções deste falar perderiam sua razão de ser. Mas até a luz o homem é capaz de alterar: a poluição pode transformá-la em roxo-hematoma... Uma pessoa pode andar na avenida Paulista e não sabe que está em cima de um espigão. Foi-se o tempo em que São Paulo era da garoa. Mas certas paragens ainda mantêm suas neblinas como parte da identidade.

Conforme existam sotaques peculiares na língua falada ou ainda presença de culinária específica, a personalidade se tempera ainda mais. "Ora", me dirão "mas com a internacionalização do mundo, exporta-se, difunde-se o mesmo gosto em todas as partes..." Acho que não. Tomem uns goles da aguardente uzo numa ilha grega e o resto da mesma garrafa em lugares de outro continente num restaurante grego em Ribeirão Preto, por exemplo. Se você não perceber a diferença, dificilmente entenderá a essência deste livro. É aí que o sujeito sintoniza a alma do lugar. Eis por que certos traços contextuais da cultura são menos suscetíveis de serem globalizados, ainda que não sejam isentos. Outros atributos, como altitude, graus de limpeza, ordem e pacificidade; humor ou o que mais seja, somam-se na definição do lugar. Mais que o simples olhar, como enfatizam alguns autores, a amplitude do que se entende por alma permite, inclusive, uma experiência sensual bem maior,

Não menos relevante é a toponímia, e que pena, nomes que se apagam de Serra do Quebra-Bunda para Aclimação - versão paulistana do Jardin d'Aclimatation... No entanto, é preciso não se deixar trair pelos nomes, pois são modificados pelo tempo, marcando mutações de identidade. Nomes tupis merecem profunda revisão: os índios não davam tantos nomes quanto os portugueses, que dominavam correntemente a língua indígena durante os séculos XVI e XVII. Ao despertar para a vida citadina, os séculos XIX e XX procedem à abolição de nomes nativos, cheios da presença do lugar e enveredam louvando estranhos personagens, alguns até suspeitos.. Quem já foi a Portugal há de saber que os portugueses foram exímios batizadores de lugares, com ingênuos nomes cheios de significado, que não tiveram vergonha de conservar até hoje. Creio que a toponímia seja uma forma de captar o lugar, ainda que apenas por suas origens.

Em suma, atrevo-me a afirmar que muitas interpretações sobre globalização tornam-se reducionistas ao ignorarem aspectos da lírica espacial. Não é porque uma parte da população de um lugar usa computador que está tudo globalizado. Não se perde o sotaque carioca só por isto; ainda que a língua se acresça de anglicanismos da informática, do mercado, da moda. Perdendo-se de vista os atributos desta escala, perde-se a chance de entender que só a cultura particularizada e organizada pode criar mais uma frente contra os efeitos desinteressantes da globalização.

A evocação de uma poética do espaço significa uma atenção redobrada na reorganização do espaço. É assim que um aspecto trivial, como o roteiro de certas aves ou o valor afetivo de um bem comum, um adro por exemplo, podem ser arrasados pelo planejamento territorial. Várias cidades do interior do Brasil já mandaram cortar árvores de suas praças centrais por causa "do barulho" das andorinhas (que, perdendo este pouso, evadiram-se ou desnortearam-se, acabando por morrer). Em incontáveis casos abateram-se árvores frondosas para apagar a idéia de "mato" em cidades supostamente "prósperas", em detrimento da expressão espacial local. No Brasil, fatos dessa ordem formam um anedotário jamais catalogado.

Desejo ainda relembrar algo mal colocado por alguns autores que desprezam a necessidade de se dispor de recursos naturais ou patrimoniais necessários ao turismo. De certo modo, isto já aconteceu algumas vezes: pode-se fabricar um lugar turístico com base no deserto, como foi Las Vegas. Entretanto, se mapearmos o conjunto dos lugares mais turísticos do mundo, veremos que há, inquestionavelmente, o dado patrimonial (geográfico ou cultural) agindo como grande detonador de movimento turístico, enquanto as periferias desavisadas terão de esperar pelas calendas gregas para terem seu lugar ao sol turístico. Considero a posição desses teóricos nociva em três sentidos: subestimando os bens naturais e patrimoniais, induzem a seu abandono ou descaracterização; negando seu valor intrínseco para o habitante do lugar, alienam ainda mais a prática turística, como algo que não precisa disso; eliminando um dos principais fatores de concorrência de países periféricos, desarmam-nos ante a globalização.

Em suma, a afirmação da personalidade do lugar, composta do arranjo de múltiplas identidades humanas e do mundo natural, se justifica como significativos referenciais para a vida cotidiana; como meio de vida e de sentimento de pertença que permitem resistir a diversos aspectos da globalização. Obviamente, uma vez que este arranjo se der com uma boa dose de arte, será bom para o turismo também. Qualquer cidadão sabe que a sociedade brasileira está se organizando em vários níveis, o que já é sintoma claro da afirmação de personalidades. Sucede porém que, despreocupados com os reflexos no território, o que se tem como resultado é sua degradação galopante. O binômio homem-meio ainda não foi incorporado como uma das grandes dimensões da identidade. Num encontro sobre políticas culturais, realizado no México em 1982, a Unesco afirmava que:

Cada cultura representa um corpo único e insubstituível de valores, posto que as tradições e formas de expressão de cada povo se constituem em sua maneira mais efetiva de demonstrar sua presença no mundo. Por isso a afirmação da própria identidade contribui para a liberação do povos. Mas, ao contrário, qualquer forma de dominação constitui uma negação ou impedimento de alcançar tal identidade.

Pode-se então raciocinar que reconhecer a personalidade (isto é, composta de múltiplas identidades) como indicador do planejamento representa uma forma mais refinada de democracia, na medida em que reconhece o direito a formas diferentes de ser, mesmo que algumas normas possam ser generalizadas para todos, justamente em vista da melhor sobrevivência de todo o grupo. É óbvio que a identidade tem de incluir a reconstrução sobre bases progressistas, isto é, a conquista da cidadania e não o congelamento de "formas típicas" por culto ao folclore.

Após esta exploração preliminar, sou levado a reconhecer que a personalidade do lugar se apóia num amplo conjunto de identidades - história; costumes; arquitetura; urbanismo com suas ruas, barrancos e bocas malditas; detalhes e adornos; tipos humanos e suas relações com o meio e a região; pertença; formas lingüísticas; mitos; fantasmas e aparições da santa; esconderijos; sons específicos; astral; segredos e todos diferenciais próprios do meio ambiente (relevo, hidrografia, fauna, flora, clima, luminosidade etc.). Ainda que dois lugares possam ter os mesmos ingredientes, a disposição de suas formas pela comunidade produz algo necessariamente diferente. É quando a ordem dos fatores altera o produto. Homem apaixonado pelo meio cria a alma do lugar. Quem já navegou por muitas plagas percebeu muito disto... O próprio planejamento, ao ignorar ou não querer reconhecer essas dimensões todas (naquilo que é seu campo), torna-se cúmplice da estepização dos lugares, isto é, da mesmice que vaga pelo território sem cara nem alma. Ou como Frankenstein, feito de pedaços. Esbarrando na questão das representações, não se pode ignorar o sentido dos lugares sagrados, encontrados em todas as civilizações de todos tempos e lugares (hoje também profanamente reinterpretados como "santuários" naturais dos ecologistas). Muitos dos atuais templos religiosos foram edificados em antigos sítios naturais e sagrados. Para várias crenças, os lugares sagrados funcionam como porta para a experiência transcendental. "Ao atravessar as fronteiras, as pessoas podem compartilhar da energia do lugar e manter comunhão com a sacralidade" (Sheldrake, 1997: 179). A geomancia, técnica que significa adivinhação pela terra, encontra no feng shui chinês, os sentidos do alinhamento dos homens com os lugares, em busca de melhor harmonia, sinalizando para a orientação arquitetônica ou de colocação de móveis...

Onde então buscar a fonte de inspiração mais segura? Reinventando o chamado estilo colonial, que representa nosso mais marcante passado? Ou será isso nova forma de fantasia que tanto se critica? Se o passado escolheu seu padrão, por que não podemos afirmar o nosso presente, a partir de criatividade baseada numa diretriz que não engana: a preservação da paisagem natural (que jamais seria brasileira e russa ao mesmo tempo ... )? A partir dessa premissa, como decorrência, haveria a possibilidade de criação de padrões de arquitetura e urbanismo, coerentes com o meio e a valorização do aparentemente pequeno, por meio de seu refinamento. Trata-se de uma nova busca formal. pois não há existência sem forma. Forma fatalmente ligada à sua função, porém mexível, senão a criação não seria possível. Forma à qual seria lícito - se assim convier socialmente - modificar inclusive o significado de alguns conteúdos. Nem o conforto da moderna tecnologia fica excluído. Não por isso.

Identidade

O uso do termo identidade tem sido muito difundido, ainda que nem sempre salvaguardando todo o seu alcance. Aqui importa conhecer sua natureza, contextualizando-a no cotidiano e no turismo. Grosso modo, podemos entendê-la sob dois prismas: o inato e o adquirido. Nascemos com identidade genética dada pelo DNA que regula todas as nossas características orgânicas (e que hoje em dia podem ser expressivamente modificadas). Aí perfilam, desde os velhos métodos para modificar a cor dos cabelos até a engenharia genética que intervém no próprio código, dando origem ao transgênico. Do mesmo modo, socialmente, podemos dispor de identidade, como a nacionalidade (também modificável) e outras em permanente construção, o são a cidadania, o pertencimento a qualquer agrupamento humano. Nunca somos uma única coisa, mas sim um vasto conjunto de atributos. Na perspectiva deste estudo, a valoração e o arranjo desses atributos selam uma tal personalidade percebida. Construir uma identidade, isto é, dar-lhe urna forma, é legitimar a própria vida, porque é a forma que dá fundamento à existência.

Construir a identidade deveria ser também uma arte porque redefine nossas relações com outras pessoas, grupos, lugares, coisas... Mas, historicamente, ela está muito mais voltada para a ideologia e, como tal, remete-nos à ambigüidade: quando nos valorizamos colocamos os outros em questionamento...

A questão do tempo colocada por Milton Santos enseja-nos refletir acerca da duração das identidades, muito cambiáveis no tempo, porque significados e práticas são amplamente mutantes. Na área do presente estudo, basta evocar um exemplo: Campos do Jordão se firma antes de tudo como lugar de tratamento de doenças pulmonares, onde o turismo era exceção de elite. Depois é que se expande para lugar turístico por excelência, sua nova identidade.

Andemos mais longe. De acordo com a etimologia grega, identidade significa semelhança consigo mesmo, tanto do ponto de vista biológico, como das esferas psíquica e social. É a afirmação do nós diante dos outros. Como a busca da estabilidade faz parte da natureza humana, a mudança, a introdução da diferença sempre representa algum tipo de ameaça. Eis por que Renato Ortiz alerta que a busca de identidade nacional disfarça os conflitos. "A memória nacional", diz ele, "opera uma transformação simbólica da realidade social, por isso não pode coincidir com a memória particular dos grupos populares. O discurso nacional pressupõe, necessariamente, valores populares e nacionais concretos, mas para integrá-los em uma totalidade mais ampla" (1994: 138). Distinguir, pois, o local-regional, de natureza cotidiana, do nacional. Aliás, como bem notou Paula Montero, os intelectuais sempre procuraram um sentido nobre nas manifestações populares, como na jovem República da era Vargas: era preciso "resolver" o divórcio entre as elites e o povo, domesticando a cultura popular, retirando-lhes a autonomia própria e sua excessiva alteridade: foi preciso torná-la mestiça. Como hoje, quando intelectuais negros e brancos retrabalham a capoeira, respectivamente, como esporte e luta.

Benedict Anderson (p. 23) propõe à definição de nação o caráter de comunidade política imaginada, como inerentemente limitada e soberana, porque mesmo nas menores nações, seus membros jamais conhecerão todos os outros membros, mas conservarão sempre a idéia de comunhão com eles. Ele cita Ernest Renan, para quem a essência de uma nação é que todos os indivíduos tenham, muitas coisas em comum, mas que todos tenham, também, esquecido muitas coisas... Dessa forma, a memória, como sustentáculo da identidade, é ideologia, reconstrução permanente, e não um elenco de valores definitivamente classificados. Daí por que, como diz Ulpiano T. de Meneses (1990: 31), "não existe o menor sentido em se buscar o resgate da memória: resgate é coisa de bombeiro , não de historiador... não se pode resgatar o que está sendo sempre refeito".

Por outra mão, ao pautar-se na semelhança, a identidade acaba por se exacerbar e se opor ao que não é semelhante. De acordo com Meneses (1993: 209), "o semelhante é inofensivo, inócuo. É o diferente que encerra risco, perturba. Assim, a diferença está na base de todas as classificações, discriminações, hierarquizações sociais. Em outras palavras, não se precisam as diferenças apenas para fins de conhecimento, mas para fundamentar defesas e privilégios." Essas afirmações conduzem-nos a refletir que uma identidade de geografia física seria, por princípio, isenta de construções antagônicas.

A idéia de personalidade do lugar levanta a questão do grau de independência de uma identidade humana local. Sobre isto, convém lembrar que antes da expulsão dos holandeses do Brasil, ninguém no Brasil se pensava brasileiro. Até então, as câmaras municipais se consideravam portuguesas tanto quanto as de Portugal. Hoje a literatura especializada e de ficção estão repletas de regionalismos evocativos (o gaúcho, o pantaneiro, o paulista...) e localismos (o carioca, o ituano, o pelotense ... ), tanto numa busca descritiva real, como heróica ou de anedotário. Parece não haver dúvidas de que todos esses tipos e outros ainda jamais poderão ser entendidos à risca dos limites de um adjetivo qualificativo: incorporamos uma soma local, nacional e mesmo mundial de valores. Entre tais esferas, parece-me que a nacional seja a mais forte hoje em dia, em virtude da nivelação das instituições, códigos, costumes, modas, meios televisivos e facilidades de comunicação interpessoal. Vale citar como ilustração, o bonito estudo de Helcion Ribeiro, denominado "A identidade do brasileiro: 'capado, sangrando e festeiro'...porque sempre viveu na senzala" - atributos dados por Capistrano de Abreu. Este autor compilou vários atributos consagrados, segundo o qual o brasileiro é

resultado de três raças, condicionado pelo meio físico, cordial, pacífico, tolerante, altruísta, apegado ao passado europeu e português, religioso mas sem profundidade, emotivo, mais coração que razão, resignado, imitador de estrangeiro, mestiço, afetivo, apegado ao maternal, machista, sensual, apático, patriota, saudosista, colecionador de títulos, amante de vaidades, hospitaleiro, boa-vida, malandro, conciliador, moreno, misto de Jeca Tatu-Macunaíma-e-Pedro Malasarte (Ribeiro, 1994: 15).

Reafirma que a identidade do brasileiro é sempre transitória e não necessariamente acabada, sendo indispensável associá-la à questão racial. Daí ser de opinião que, em nosso caso, "as combinações só fazem sentido se forem amplas e flutuantes (pelo 'mais, ou menos'), capazes, de admitir variações regionais e do tempo social, sem descaracterizar aquilo que mantém a unidade nacional" (Idem, p. 90). Talvez por isso, Roberto Cardoso de Oliveira (1976: 3) entenda que o grupo étnico espalhado num dado território de variações ecológicas deva, necessariamente, apresentar diversidades culturais de comportamento institucionalizado. Há, desse modo, uma interconexão entre o individual e o social.

Considerados os pontos de vista sobre identidade e introduzindo minhas preocupações com o cotidiano e o turismo, sou levado a complementar a idéia identitária de lugar como uma diferenciação espacial que reúna um conjunto de características, fundamentadas na geografia física (e sua fauna); em suas instituições; sua vida econômica, social e cultural (com destaque para a paisagem construída). Trata-se de um fenômeno total, não reduzível a uma única propriedade, sob risco de perda de seu caráter. Uma região pode ter muitos lugares e até coincidir com um deles. Considero que o lugar está para o espaço, assim como a periodização está para o tempo. E na perspectiva desta análise, pautada na importância da identidade paisagística para o turismo, diria que a identidade regional é acentuada pela natureza e a identidade local por todas as formas de construção arquitetônico-urbanística, com tudo que comportam em si.

A estrutura de um lugar não pode ser eterna. Mas isto não significa que sua personalidade deva se perder, porque o homem busca a estabilidade do lugar. Como ficamos, então, perante a dinâmica da mudança? Ao se questionar a respeito, Christian Norberg-Schulz acha que cada lugar tem a capacidade de receber componentes diferentes, dentro de certos limites, porque se assimilasse um único propósito se perderia. Igualmente, o lugar poderia ser "interpretado" de outros modos. Daí que para ele, a proteção do caráter do lugar consiste na concretização de sua essência, em qualquer contexto novo. Dito de outro modo, um lugar compreenderia variados graus de invariabilidade (p. 18). Senão se transforma numa coisa totalmente diferente!

Sob o entendimento processual das definições aqui colocadas tentarei perceber o que seja a personalidade do lugar, nos dois capítulos seguintes. Como já assinalei, este trabalho pretende revigorar o lugar do cotidiano das pessoas, condição esta que pode, em princípio, representar fator de motivação turística, já que o turista busca sempre um meio diferente do seu. Esta possibilidade pode causar perplexidade, já que o comércio turístico acaba por desvirtuar o que poderia ser uma condição mais espontânea de ser. Entretanto, não deve ser olvidado que nem tudo de uma sociedade passa pela arrumação turística - que pode, inclusive, melhorar o lugar. Incontáveis campos seguem em órbita imperturbável... Ou, se preferirem, tão afetados pelo turismo quanto o seriam por outros eventos distantes. A crítica é sempre nossa; a escolha do grupo social é livre para realizar suas construções, turísticas ou não.