Carta do diplomata norte-americano John Brady Kiesling a Colin Powell
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(Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/ed336/internacional3.htm) |
O Correio da Cidadania publica abaixo trechos extraídos de uma longa carta enviada pelo diplomata John Brady Kiesling, ao Secretário de Estado Colin Powell. O texto completo foi publicado no New York Times. Durante seus vinte anos no Departamento de Estado, John Kiesling serviu em Tel Aviv, Casablanca, Yerevan e Atenas.
Prezado Senhor Secretário,
Estou lhe submetendo meu pedido de demissão do cargo de Conselheiro Político da Embaixada dos Estados Unidos, em Atenas e do Departamento do Estado. Faço-o com dor no coração.
A fé que tinha em meu país e nos seus valores era a arma mais poderosa do meu arsenal diplomático. Inevitavelmente os vinte anos no Ministério deixaram-me mais consciente dos motivos estreitos e egoisticos que algumas vezes determinaram nossas políticas. Mas até a chegada deste governo pude acreditar que, defendendo as políticas do Presidente, eu estava defendendo também os interesses do povo americano e dos povos do mundo.
Não acredito mais nisso. As políticas que temos de defender são incompatíveis, não só com os valores americanos mas também com os interesses dos Estados Unidos.
Nosso obsessivo propósito de guerrear contra o Iraque está nos levando a destruir a legitimidade internacional que tem sido a mais potente arma de defesa e de ataque dos Estados Unidos desde os tempos de Woodrow Wilson. Nossa atual política trará instabilidade e perigo, não segurança. Desde a Guerra do Vietnam não se via tamanha manipulação da opinião pública norte americana.
A tragédia do 11 de Setembro deixou-nos mais fortes do que antes, congregando em volta de nós uma vasta coalizão internacional, pronta para cooperar, pela primeira vez, de uma forma sistemática contra a ameaça do terror. Mas em vez de capitalizar esses sucessos, esta Administração preferiu transformar o terrorismo em um instrumento de política doméstica, convertendo um disperso e derrotado Al Qaeda em seu aliado.
Estamos espalhando terror e confusão na mente das pessoas, ao relacionar arbitrariamente o terrorismo com o Iraque. Talvez o motivo, seja o de justificar um enorme desperdício de riqueza pública em beneficio dos gastos militares, bem como a supressão das salvaguardas que protegem os cidadãos americanos da mão pesada do governo.
Devemos nos perguntar porque não conseguimos persuadir a maioria do mundo de que a guerra ao Iraque é necessária. Nos dois anos passados fizemos muito para deixar claro aos nossos aliados que os estreitos e mercenários interesses dos Estados Unidos prevalecem sobre os valores que nossos aliados prezam.
Eu lhe peço que ouça nossos amigos ao redor do mundo. Quando nossos amigos passam a ter mais medo de nós do que concordância com nossa política, é hora de ficar preocupado. E hoje em dia eles estão com medo. Quem lhes dirá, de forma convincente que os Estados Unidos continuam sendo, como no passado, o guardião da liberdade, da justiça e da segurança no planeta?
Senhor Secretário, tenho um enorme respeito pelo seu caráter e pela sua competência. O senhor conseguiu-nos mais credibilidade internacional do que merece a política que o Sr. está executando. Mas sua lealdade ao Presidente vai longe demais.
Estou me demitindo porque tentei mas falhei na tentativa de conciliar minha consciência com minha habilidade de representar a atual administração dos Estados Unidos.
Acredito que nosso processo democrático seja no limite auto-corretivo, e espero que, embora minimamente, eu possa, do lado de fora, contribuir para formular políticas que sirvam melhor a segurança e a prosperidade do povo americano e do mundo que partilhamos com os demais.