http://www.intelecto.net/cidadania/global-1.html

RESPOSTAS DA SOCIEDADE CIVIL À GLOBALIZAÇÃO
Não há escravidão maior do que aquela que nos priva da possibilidade de pensar, criar, ousar com liberdade. Não há dominação maior do que a sujeição a um modo de ver e conhecer que se impõe de forma incontestável. Nada mais trágico do que se mover por visões, desejos e justificativas que se nos apresentam como inevitáveis.
A globalização, mais do que um processo na história da humanidade, parece ser e atuar como uma prisão de mentes e corações, de pensamentos e movimentos. A forma dominante de globalização nos aparece como o único caminho, como se nada pudesse se opor a ela. Dizem-nos que quem não se adapta a tal fatalidade, morre. Ao menos, tende a nos ser transmitida assim a idéia da globalização por governos, homens de negócios e finanças, seus ideólogos.
Precisamos nos rebelar contra este modo de ver. A cidadania planetária exige tal rebeldia no pensar e agir. A primeira resposta à globalização deve ser o reconhecimento de que ela é uma produção nossa, de seres humanos. Não é um monstro a nos dominar, mas invenção que brota de nós mesmos, cheia de limites e possibilidades como é nossa própria condição de vida.
Precisamos pensar diferentemente a globalização, pensar alternativas de globalização. Para isto de pouca utilidade é o pensamento convencional, a forma de pensar hoje hegemônica ditada pelo neoliberalismo, pelo consenso do "livre mercado". Como cidadãs e cidadãos do planeta terra, comprometidos com a democracia, convido-os a construir a nossa própria agenda de pensar, o nosso modo de ver as questões e tarefas, as nossas prioridades. Não podemos ignorar outros modos de ver e suas propostas, mas não nos limitemos a eles. Enfrentemo-los!
1. As várias globalizações e as várias respostas
As formas dominantes de globalização são movidas pela mais desenfreada busca de maximização dos lucros. Abrir as fronteiras, reduzir o Estado e privatizar, desregulamentar, ser eficiente e competitivo, submeter tudo e todos à lei selvagem do livre mercado, tais são as regras e princípios básicos dos atores que estão no centro da globalização econômica em curso. Na prática, instaurou-se a especulação em escala global, o cassino global. As estruturas e processos produtivos se distanciam cada vez mais das necessidades de desenvolvimento humano. Tal globalização traz consigo uma enorme instabilidade econômica e crise política. O seu caráter é profundamente destrutivo e anti-humano. Nunca a desigualdade e a exclusão social atingiram níveis como agora. Há humanidade demais para uma economia feita para poucos e segundo um padrão de uso dos recursos e de consumo que é insustentável. O apartheid é global, sem fronteiras.
Em face desta globalização excludente importa ver outras globalizações. Algumas portadoras de alternativas e de esperança. Na luta contra a globalização que atende aos negócios, surgem atores que forjam as bases de uma sociedade civil planetária, fundada nos direitos humanos, na cidadania ativa. Mas também proliferam no seio das sociedades civis os fundamentalismos de toda espécie, propagadores da intolerância e da violência. A seu modo destroem e excluem.
O mais importante é que os processos em curso põem em cheque o sistema de poder mundial constituído anteriormente. Os Estados nacionais se fragilizam e perdem capacidade regulatória sobre forças econômicas que atuam mundialmente. As organizações multilaterais, por sua vez, estão ainda profundamente marcadas pela sua origem, necessitando de muitas mudanças para os desafios que os processos de globalização criam.
De fato, a ruptura com uma ordem mundial bipolar, com seus modelos hegemônicos e suas periferias, mais do que a vitória de um deles acentua os contrastes no mundo, dentro de cada sociedade particular e no conjunto da humanidade. Descobrimo-nos extremamente diferentes, mas ao mesmo tempo tendo a nossa sorte ligada uns aos outros. Os processos de globalização não nos tiram do local determinado em que estamos, de nossa cultura, de nossa nação ou de nossa região. Mas simplesmente mudam as bases e perspectivas de nossa existência, do modo de pensar e agir. Tanto a nossa aço localizada pode ter repercussões globais de monta, como a dinâmica global, que escapa a nosso controle, redefine as possibilidades e limites do que fazemos localmente. Mais do que nunca se impõe a necessidade de pensar globalmente e agir localmente.
Vivemos no meio de propostas e lutas concretas muito confusas. Mais do que uma nova ordem mundial, assistimos a processos extremamente contraditórios de destruição e criação de uma nova civilização. A humanidade passa por momentos de incerteza, indefinição, de falta de grandes projetos utópicos que lhe apontem caminhos. A tarefa é exatamente reconstruir tais projetos, em novas bases. Precisamos desenvolver alternativas de globalização que possam submeter o mercado e o poder estatal às demandas dos cidadãos do mundo.
2. Uma tarefa prioritária: fortalecer a perspectiva democrática no seio da sociedade civil
Mudanças fundamentais na história da humanidade podem ocorrer quando muda a economia ou quando muda o poder. Isto, porém, não implica que eles devam ser alvos exclusivos e prioritários na estratégia de mudança, de construção de outra globalização. Significa, sim, que eles são uma condição necessária, mas não suficiente. Afinal, quem constitui a economia e o poder estatal? Geneticamente, somos nós mesmos. A própria condição humana de vida em sociedade nos leva a inventar formas econômicas e de poder. Portanto, não são as economias e nem os Estados que criam as sociedades civis, mas estas são as constituintes daqueles.
Vendo as coisas deste modo sou forçado a reconhecer que a principal resposta da sociedade civil à globalização, a mais estratégica e fundamental, é ela se reinventar a si mesma. São as elas que tem que se pensar na globalidade, permitindo a cada habitante perceber-se e atuar como membro do mesmo planeta terra. Antes de mais nada, são as sociedades civis, somos nós mesmos que devemos nos redefinir como cidadãos de um mundo globalizado. E esta é uma tarefa maior do que aparece a primeira vista.
Na verdade, estou aqui propondo que a mudança cultural, no seio da sociedade civil, é condição indispensável para uma mudança tanto da economia, dos mercados, como do poder, dos Estados. Entendo a mudança cultural como uma mudança no modo de ver e atuar dos diferentes atores sociais que compõem determinada sociedade, em determinado momento histórico. Felizmente, porém, isto não é algo vago, distante, mas concreto, ao alcance de cada um e de todos nós. Falo de processos reais em nossas sociedades e no plano internacional que podem e devem merecer nossa atenção aqui e agora. Identificar tais processos e intervir sobre eles, potencializando suas possibilidades democratizadoras, é nossa tarefa prioritária, a mais urgente.
Aponto aqui alguns exemplos que me parecem contundentes. O movimento ecológico tem as potencialidades de mudança cultural que aqui quero salientar. Hoje pensamos radicalmente diferente nossa relação com a natureza graças a um modo de ver a destruição ambiental e os desafios da sustentabilidade que foram sendo forjados por grupos determinados de cidadãos, em situações muito concretas, específicas. Sua capacidade de identificação da questão, formulação de propostas e mobilização, gerando o primeiro grande movimento global, é, até aqui, uma das barreiras mais claras à globalização econômica. Da tomada de consciência e do debate público até ações concretas sobre empresas e governos, resultou a possibilidade de repensar o próprio modelo de desenvolvimento. Isto é suficiente? Não! Mas sem o movimento ecológico as sociedades civis estariam privadas de instrumentos fundamentais para enfrentar a globalização imposta pelos pregoeiros do livre mercado.
Ainda sobre o movimento ecológico, é importante ver como a partir dele e com ele o local e o global se interligam. Tomo o exemplo do movimento dos seringueiros e dos povos da floresta no Brasil. Eles se mobilizaram e passaram a lutar pela defesa de suas condições imediatas de trabalho e vida, ameaçadas pela destruição das florestas para a formação de pastagens e implantação de grandes estabelecimentos agropecuários. Quem identificou em sua luta a dimensão globalizaste, de alternativa à destruição ambiental dos processos econômicos dominantes, foram grupos ecológicos mundo afora. A luta se internacionalizou pelo seu caráter simbólico e o assassinato de Chico Mendes foi percebido como um atentado à cidadania planetária.
Na mesma linha se situa o movimento feminista e todo o repensar das relações de gênero e da situação das mulheres no mundo. Os últimos 20 anos, que culminam com a recente conferência de Beijin, permitiram a emergência de uma questão que ainda é um dos maiores desafios para as sociedades civis. Afinal, é no seu seio que reside o problema e a solução, antes que se materialize em novas relações de poder e produção. Estamos diante de um processo de mudança cultural nas relações de gênero apenas iniciado, mas indispensável para mudar radicalmente e democratizar de fato a humanidade. Este processo já atuante nas sociedades civis, de forma extremamente diversa de um lugar a outro do planeta, contem grandes potencialidades na construção de uma outra globalização.
Estou dando estes exemplos para assinalar a importância das mudanças na própria sociedade civil, como condição primeira para outras formas de globalização. Devo reconhecer, também, que radicam no seio das próprias sociedades civis grandes obstáculos e forças limitantes da democratização em escala global, como alternativa. Os movimentos fundamentalistas, tanto de inspiração religiosa como étnica, ou em suas combinações, prosperam porque encontram seguidores e ativistas em nossas sociedades. Não é a afirmação da diversidade cultural que explica o seu potencial destrutivo, gerador de violências e exclusões. Pelo contrário, é a não aceitação da igualdade na diversidade que leva ao isolamento, fragmentação e falta de tolerância. Está nas mãos dos grupos da própria sociedade civil criar condições para enfrentar os fundamentalismos como visão de mundo e suas práticas destrutivas. Trata-se de um embate entre cidadãos, acima de tudo. O recente assassinato do primeiro ministro israelense, no conflagrado Oriente Médio, é revelador da natureza do problema.
Mas é em torno da questão da miséria e da pobreza, da exclusão social enfim, que se formam hoje grandes desafios para as sociedades civis. Os processos de globalização podem ser vistos, também, como de revelação e acirramento das lógicas de desigualdade e exclusão no mundo. A pobreza e a miséria viram fenômenos globais, que não poupam nenhuma sociedade. E o que é pior ainda, separa-se radicalmente o econômico do social: as economias se globalizam, mas se nacionaliza o social. O crescente controle das migrações, maior atestado dos estreitos limites da globalização econômica, são o melhor indicador. Derrubam-se todas as barreiras para a circulação de mercadorias, mas impedem-se seus produtores de circular livremente! Além do mais, nas próprias sociedades se forjam visões e vontades que excluem os trabalhadores estrangeiros, que lhes negam direitos básicos de cidadania. São os contrastes e impasses da globalização.
Temos um movimento, no Brasil, particularmente eloqüente das potencialidades de mudança cultural em torno da questão da exclusão social e miséria, gestado pela própria sociedade civil. Apesar de suas marcas bem brasileiras, é um movimento de dimensão universal. Ele se soma a movimentos semelhantes em outras partes do mundo e, a seu modo, contribui para forjar um novo modo de ver e atuar de grupos da sociedade civil, de se relacionar com o Estado e com o sistema empresarial. Afinal, ele apela para a consciência e atuação dos cidadãos como base da mudança. Trata-se da "Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida". De março de 1993 até hoje, em sucessivas ondas de mobilização, a Ação da Cidadania vem pondo a sociedade diante de si mesma, buscando nela as idéias e a energia necessárias para desencadear um processo de mudanças no quadro de fome e miséria existente no país.
Não cabe aqui entrar na descrição deste movimento cívico. Chamo atenção para seu caráter. Trata-se de um movimento de aprendizagem da cidadania com base numa indignação ética. Não é para lembrar os miseráveis e famintos que eles são responsáveis pela sua própria sorte que se constituiu a Ação da Cidadania. Ela se dirige aos que têm meios, aos integrados no desenvolvimento que aí está, para que vejam os outros e assumam sua própria responsabilidade de cidadãos pelo seu destino. Resgatam-se, assim, valores básicos de convívio humano, fundamentos da democracia. Não se trata de lutar pelos próprios direitos, mas pelos direitos de cidadania que são negados aos famintos, miseráveis e excluídos de toda espécie. Afinal, não pode existir plena cidadania se ela não for de todos. Nossa cidadania é limitada se ela supõe a negação da cidadania para os outros. Democracia e miséria são eticamente incompatíveis.
Na Ação da Cidadania não se nega a importância do Estado, dos governos e suas políticas, da responsabilidade social das empresas. Mas o que se busca é a força de empuxe, capaz de desencadear mudanças. E ela é vista como a mudança da própria atitude dos cidadãos e cidadãs em face do problema. Eles e elas, soberanamente, podem inventar, tomar iniciativas, organizar-se em comitês, de forma descentralizada, sem pedir licença a ninguém, sem copiar modelos. Podem mobilizar forças e recursos, promover parcerias, fazer a sua parte. Assim agindo, eles criam um clima cultural, um movimento político-cultural propício à mudança. Da Ação da Cidadania, no Brasil, extrai-se a lição que o potencial de mudança que contem a sociedade civil é enorme e decisivo. Mas ele deve ser ativado.
Uma questão que cabe lembrar aqui é referente à emergência da ética como resposta das sociedades civis à visão e propostas neoliberais de globalização. A defesa pura e simples de um convívio humano baseado na lei do livre mercado nos condena à barbárie. O seu potencial destrutivo - social e ecológico - reside no fato de negar qualquer primado de valores ou considerações éticas nas relações entre seres humanos, entre povos. Pior ainda, é um pensamento cínico, porque nega qualquer possibilidade de existir alternativa a si mesmo. Pensamento profundamente conservador, que se autodenomina de moderno. O desafio que coloca para cada sociedade em particular e para a sociedade planetária em processo de formação é o de renunciar à possibilidade de avanço da civilização. Autoritário e tecnocrático, o pensamento neoliberal privilegia o econômico em detrimento da política e da cultura. Seu utilitarismo rasteiro nega a centralidade de valores e direitos que a humanidade tanto sofreu para identificar e afirmar. Ver além da onda neoliberal e afirmar o primado da ética e dos seres humanos é um dos maiores desafios para todos os humanistas e democratas neste limiar do século XXI.
É possível uma outra globalização, que se forje no seio da sociedade civil. Para isto, precisamos reafirmar o primado dos princípios éticos constitutivos da democracia: igualdade, liberdade, participação, diversidade e solidariedade humanas. Princípios capazes de mover corações e mentes dos diferentes grupos e setores da sociedade civil. Princípios reguladores do poder e do mercado, afirmados e praticados em escala mundial. A tarefa prioritária é contrapor à (dês)ordem mundial neoliberal um processo de aprofundamento da democracia em escala global, de mudança cultural em escala planetária.
3. Uma estratégia possível: combinar mobilização social com pressão política
Tendo fixado a proposta básica é possível, de fora tentativa, considerar a estratégia em seu conjunto. Vivemos num mundo concreto, datado e situado, com processos reais em desenvolvimento. Queremos intervir na moldagem da globalização, considerando que ela pode conter possibilidades novas para a humanidade. Isto não só é desejável como necessário. Mas como as sociedades civis podem redefinir os rumos da globalização?
A estratégia que proponho vai no sentido de dar atenção prioritária aos modos de ver e pensar, às atitudes e valores vigentes nas próprias sociedades civis e que cercam a globalização. No embate político-cultural, através da aço e debate público, forjam-se as percepções e propostas dos diferentes grupos civis, os seus movimentos e as suas grandes mobilizações. A criação de um ambiente propício, a formação de articulações e redes no seio da sociedade civil, no plano nacional e internacional, é condição para que funcione o outro lado da proposta: a pressão, o lobby, a cobrança sobre governos, organizações multilaterais, sistema empresarial.
Não cabem aqui análises sobre as amplas possibilidades que existem hoje de ação política para os diferentes atores da sociedade civil planetária em gestação. Nós todos já demonstramos que nossa intervenção em espaços de negociação, como as grandes conferências internacionais, quando baseada no pressuposto da mobilização local concreta, muda a qualidade das negociações, tanto no seu conteúdo como nos compromissos que governos assumem. Mas sabemos, também, que as conferências em si são apenas um ponto de partida. Os planos de ação, para se concretizarem, exigem novo esforço de pressão, de lobby. Novamente, o engajamento mais amplo dos diferentes setores sociais e de um clima favorável passam a ser decisivos.
A nossa estratégia, portanto, deve combinar ações e propostas para fortalecer a sociedade civil, mobilizá-la, e para empurrar governos e organizações multilaterais no caminho aberto pelo que já está na agenda internacional. O balizamento de nossa ação, porém, não deve se limitar ao dado pela agenda oficial. Precisamos ampliar nossos espaços independentes de ação política, com agenda própria, inclusive no plano internacional. As conferências de ONGs e movimentos sociais, os debates, os fóruns, as redes, usando inclusive os recursos eletrônicos, devem ajudar na tarefa de emancipar as sociedades, dar-lhes autonomia e capacidade de exercer seu papel constituinte.
Precisamos libertar-nos de perspectivas nacionais e locais estreitas ou da hegemonia de governos, organizações multilaterais, grandes corporações e capital financeiro na formulação de propostas de globalização. Não desprezemos, porém, este palco de luta. Mas a possibilidade de nossa intervenção, aí, reside não só em nossa competência e criatividade. A nossa ação política junto ao sistema de poder e de mercado, por uma globalização democrática, supõe, antes de mais nada, o fortalecimento das próprias sociedades civis em que nos inserimos. O desafio é combinar estes dois pólos. O seu enfrentamento certamente moldará uma outra globalização.
(1)Cândido Grzybowski, sociólogo, é Diretor Executivo do Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais - IBASE