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Texto para Estudo
GLOBALIZAÇÃO: MITO OU REALIDADE?
Elimar Pinheiro do Nascimento (1)
Há certas palavras ou expressões que pegam. Ao serem utilizadas, mesmo que sejam incorretas ou imprecisas, permanecem, se generalizam. Outras, mais precisas ou corretas, não conseguem, porém, tanta atratividade ou glamour.
Esse fenômeno ocorre com os termos globalização e mundialização.
O termo globalização, de origem inglesa, está repleto de ideologia, carregado de valor e significado que não traduz, com precisão, o conjunto de fenômenos a que se quer referir, ou o faz de forma imprecisa. Ele tem um duplo sentido. De um lado, refere-se ou nomeia um conjunto de mudanças sociais? no sentido amplo do termo, que o mundo tem conhecido nos últimos vinte anos; de outro, sugere uma visão do futuro como sendo uma realidade já, um presente. Assim, ele se reveste da dupla função descritiva e prescritiva, sem que esta distinção esteja jamais explicitada.
O termo globalização, porém, é mais pretensioso. Ele quer sinalizar o início de uma nova era ou período na história da humanidade.
Dessa forma, vale a pena se perguntar pelo menos três coisas:
a) a qual conjunto de mudanças o termo globalização se refere?
b) qual o cenário futuro que ele pretende transformar no presente?
c) em quê consiste a novidade das mudanças que observamos atualmente?
A quê fenômenos se refere o termo globalização'? Ele pretende descrever um amplo conjunto de mudanças cujos traços mais comuns são:
O termo globalização, porém, indica igualmente que o mercado caminha para ser único, inexistindo fronteiras ou protecionismos; a cultura global está em gestação, esmagando todas as culturas particulares e locais, e, fínalmente, para me reter no essencial, de que os Estados-Nações já são uma invenção do passado completamente superada.
De fato, o sistema de comunicações rápido e universal, desenrolando-se em tempo real, nos trouxe a sensação de que o mundo estava se tornando um; permitiu que as empresas multinacionais acelerassem o seu processo de expansão; tomou o mercado uma variável mundial, independentemente do tamanho da empresa e de sua localização; introduziu um novo processo de definição e redefinição do espaço, assim como do tempo; acelerou a competição no mercado, obrigando as empresas a adotarem padrões de produtividade crescentes com técnicas similares, e possibilitou a produção, e não apenas a comercialização, mundial. Mas, sobretudo, esse conjunto de mudanças nos trouxe, de fato, a enorme sensação de que o Mundo é cada vez mais uma Aldeia Global, de que o mercado torna-se cada vez mais um e uma cultura global parece ser possível. Porém, nada disso é presente, mas futuro. São tendências que se manifestam no mundo de hoje e que podem se realizar plenamente ou não. Podem se realizar em articulação com outras, mudando parte de seu significado e sentido. E, finalmente, não custa lembrar: tendência não é destino.
Pode-se, ao lado dos fenômenos anteriormente sinalizados, ressaltar outros, assim como levantar a hipótese de outro(s) futuro mundial perfeitamente plausível.
Observe-se que nas exposições sobre o tema (termo) globalização não são citados outros fenômenos e mudanças relativamente excludentes aos anteriores, tais como, o crescimento do fundamentalismo no mundo, tanto em sua versão religiosa quanto laica, acirrando as resistências comunitárias aos valores culturais universalizantes; a desagregação de regiões antes integradas ao mercado, particularmente na África; a gestação ou expansão de mercados informais e locais, assim como de relações não mercantis; o surgimento de novos obstáculos ao desenvolvimento do comércio internacional (duping social por exemplo), embora não necessariamente no interior dos blocos econômicos; a formação e o crescimento de grupos sociais relativamente marginais ao mercado de consumo e mesmo ao processo produtivo. Finalmente, contradições entre os vencedores (EEUU) e os perdedores (Japão e Alemanha) da II Guerra Mundial, simultaneamente à emergência de outros, como a China, que poderão desacelerar o processo de integração. Ou pelo menos, sinalizar que a transição a um mundo globalizado não será necessariamente natural e rápida.
Essas mudanças sociais indicam, por sua vez? um cenário distinto do que está explicitado na idéia da globalização. Não um mercado único, mas vários, divididos em blocos: o europeu, o asiático, o norte-americano ampliado e o latino-americano. Não uma cultura global, única, mas uma diversidade de culturas em que, em algumas delas, os traços locais tenderiam a se reforçar. E, para concluir, uma redefinição do papel dos Estados nacionais e não sua extinção. Um mundo, portanto, fragmentado e não globalizado.
É claro que esse segundo cenário não nega a disseminação de valores e hábitos ou de padrões de produção ou de consumo, nem o desenvolvimento do sistema de comunicação ou o aumento das transações comerciais, mas @ indica que estas mudanças em processo conduzem a um mundo dividido em grandes interesses regionais.
Dizer qual desses dois cenários tem mais possibilidade de realização é difícil, o futuro, afinal, é sempre a residência das incertezas. Pode-se aventar que a globalização tem mais probabilidade, tendo em vista os dados atuais e as tendências mais fortes dos processos em mudança. Porém, o que é importante neste debate é que existem outras possibilidades. outros cenários.
Outra pretensão dos globalistas é a de querer afirmar que este é um processo inteiramente novo, radicalmente novo, descortinando uma nova era na história da humanidade. É claro que esta argumentação e, em parte, irrefutável, e por isso mesmo, fora do mundo da ciência. Mas é possível analisar esta assertiva, dividindo-a em duas:
a) a globalização é algo radicalmente novo;
b) a globalização abre uma nova era para a humanidade.
É necessário ter presente que a sociedade moderna é assentada em um sistema econômico, com, uma dinâmica social e um imaginário vocacionados ao universal. O capitalismo é a base material da modernidade, e desde os seus inícios a sua constituição e consolidação significaram a apropriação de recursos naturais e humanos que antes não Ihe pertenciam. O capitalismo em sua fase mercantil, nos séculos XV1 e XVI1, teve sua consolidação na primeira expansão européia, agregando parte dos continentes americano, africano e asiático. O capitalismo industrial, nos séculos XIX e XX, consolidou-se na apropriação do restante dos continentes supra citados. A lógica de sua base material foi sempre a de agregar novos recursos naturais e força de trabalho. A dinâmica social, dominante na constituição da sociedade moderna, foi a de destruir os costumes e relações estabelecidas, criando novas. Destruir o espírito comunitário para criar o indivíduo. Destruir os privilégios e as desigualdades políticas para construir a democracia. Destruir o espírito religioso para estabelecer a racionalidade instrumental. E o seu imaginário foi sempre mundial. A sociedade moderna? nascida nos confins da Europa, ergueu-se sob o mito da helenização: tornar todos os homens e todas as terras seus iguais.
Portanto. a mundialização é um elemento intrínseco à sociedade moderna algo que lhe é constitutivo. Se é assim, o que existe, afna1, de radicalmente novo com a globalização?
A pardas possibilidades inerentes ao novo sistema de comunicação, há algo de completamente novo no âmbito econômico nas ultimas duas décadas: agora não apenas a troca pode ser internacional, mas também a produção. Antes havia uma circulação internacional de capital, de mercadorias e de força de trabalho. Mas o espaço da produção era essencialmente nacional. Isto provoca uma revolução de conseqüências imprevisíveis. E a primeira delas é, sem dúvida, o enfraquecimento do Estado nacional como espaço da regulação econômica. Como regular as transações que faz uma empresa francesa para ganhar uma licitação no México, comprar a matéria-prima na Argentina, produzi-la na Tanzânia e dar o seu acabamento no Brasil? De onde é o meu computador, cujo chips foi produzido no Japão, suas placas fabricadas na Coréia e sua montagem realizada no Brasil, com caixas produzidas na Argentina? Além de abrir novas possibilidades empresariais com efeitos diversos sobre os territórios: uma cidade próspera pode se tornar decadente dentro de dez anos na França se o TGV (trem de alta velocidade) escolher passar pela cidade vizinha; uma região prospera em confeções competitivas como Fortaleza pode-se tomar decadente se as autoridades nacionais permitirem o ingresso de similar chinês duas vezes mais barato.
Os dois exemplos supra citados são interessantes porque mostra como, de um lado, os Estados nacionais tornam-se débeis,, de outro conservam um peso fundamental. Dependendo do ritmo e do grau de abertura de nossas fronteiras, podemos ter resultados completamente adversos: destruição ou modernização de amplos setores produtivos.
Do ponto de vista da dinâmica social é possível que algo completamente novo também se esteja introduzindo. Trata-se da inversão do sentido da dinâmica social. Na Europa, desde o século XVIII. pelo menos, há um processo claro de integração social: tanto a luta de classes quanto o Estado nacional nascente criaram um conjunto eficiente de instituições, mecanismos e instrumentos que deslocavam o homem do campo para a cidade e reduziam o mundo das "classes perigosas" enquanto ampliavam o mundo das "classes laboriosas,'. Isto também se observou em outras partes do mundo e no Brasil, desde os finais do século passado. Porém, desde os anos 1980, na Europa e no Brasil, e 1960, nos EEUU, há sinais claros que este processo se esgotou conhecendo uma inflexão. Gradativamente, as instituições, mecanismos e instrumentos anteriormente criados mostram-se ineficientes no processo de integração, dando nascimento a um crescente processo de exclusão.
Finalmente, do ponto de vista do imaginário, a convenção que fundou a invenção da democracia, a do espaço de iguais, se encontra ameaçada. Internacionalmente, vastas regiões sob o domínio da lei do mais forte tem sido deixadas a sua própria sorte. Nacionalmente. há indícios de que a representação social do pobre está em mudança, com risco de exclusão. É possível, como disse em outro texto (2), que uma nova exclusão social esteja em construção, na qual o personagem central é um indivíduo nesnecessário economicamente, perigoso socialmente e incômodo politicamente. Portanto, passível de eliminação física.
Assim, apesar dos adversários dos globalistas não quererem reconhecer que as mudanças hodiernas são revistas de novidade, as há, e em grau considerável. O que não significa, porém, necessariamente/que uma nova era esteja em gestação.
Essa hipótese aproxima-se muito de uma outra corrente do pensamento social nascida, de f`ato, no final dos anos 19,0, quase que simultaneamente à corrente globalista: trata-se da corrente da pós-modernidade. Ela também trouxe a tese de que nossos tempos atuais são grávidos de uma inflexão fundamental: o fim da modernidade. E, para alguns, o fim da história.
Não se pode afastar completamente esta assertiva como uma hipótese, embora sua discussão seja sempre relativamente inócua. Sua veracidade demanda um tempo que poucos de nós o terá. De toda forma, pode-se avançar que sua realização depende da transformação dos alicerces sobre os quais a sociedade moderna ergueu-se: o indivíduo, a racionalidade instrumental e a democracia. E de seu instrumento de realização, o Estado nacional. Há indícios de que cada um destes elementos esteja em questionamento, senão em fase de esgotamento. O Estado reduz, a cada dia, as suas funções essenciais, principalmente a de regulador econômico. A democracia é claramente ameaçada com o crescimento da exclusão social e a internacionalização da política. Afinal, a exclusão nega o espaço de iguais e no campo internacional não existe cidadania. Finalmente, o desenvolvimento do holismo e das lutas culturais colocam em xeque a racionalidade instrumental. Resta o indivíduo, sobre o qual já escrevia Foucault: é como um traço escrito recentemente na praia, prestes a ser apagado pela primeira onda mais violenta.
(1) Sociólogo, professor na UnB e atualmente secretário-adjunto de Comunicação do Governo do Distrito Federal.
(2) Globalização e exclusão social: a crise de representação do futuro. XX Encontro Anual da AN POC S, Caxambú, 1996.