(Fonte: Site do Senac-SP: http://www.senac.br/informativo/BTS/222/boltec222b.htm)
Sumário - Este artigo trata dos desafios atuais postos
à formação profissional por um contexto de globalização
econômica, de novas formas de organização da produção
e do trabalho e dos crescentes processos de democratização
da sociedade. Discute as tendências e características do trabalho
e as novas competências dos trabalhadores, seu conteúdo, sua
historicidade e sua vinculação às relações
sociais. Aponta para os riscos da "abordagem das competências"
em sua visão tecnicista e lança questões sobre a problemática
atual da certificação das competências que está
sendo implementada no País.
Os anos 90 têm presenciado a intensificação e o aprofundamento
de mudanças substantivas na dinâmica do capitalismo internacional
gestadas nas duas décadas anteriores. A mundialização
dos mercados, sua crescente integração, a deslocalização
da produção para outros mercados, a multiplicidade e multiplicação
de produtos e de serviços, a tendência à conglomeração
das empresas, a mudança nas formas de concorrência e a cooperação
interindustrial alicerçada em alianças estratégicas
entre empresas e em amplas redes de subcontratação, a busca
de estratégias de elevação da competitividade industrial,
através da intensificação do uso das tecnologias informacionais
e de novas formas de gestão do trabalho, são alguns dos elementos
de sinalização das transformações estruturais
que configuram a globalização econômica.
O avanço deste processo - que transcende os fenômenos meramente
econômicos invadindo as dimensões políticas, sociais
e culturais - , traz, como conseqüências, mudanças no
tamanho e nas atribuições do Estado, a desregulamentação
das economias nacionais, a reestruturação do mercado de trabalho,
novas formas de organização do trabalho, a flexibilização
do trabalho, o crescimento dos empregos precários, o desemprego cíclico
e estrutural, e a exclusão de contingentes de trabalhadores do mercado
formal. A forte segmentação da força de trabalho (incluídos
X excluídos do mercado formal, qualificados X não-qualificados,
trabalhadores de empresas modernas X trabalhadores de empresas terceirizadas),
ocorre num quadro de desmobilização de movimentos reivindicatórios
e de dificuldades de organização e sindicalização
dos trabalhadores. À globalização econômica corresponde,
pois, a globalização do mundo do trabalho e da questão
social.
Ao acirrar a competição intercapitalista, o processo de globalização
obrigou as empresas a buscar estratégias para obter ganhos de produtividade
através da racionalização dos processos produtivos
que podem ser visualizados pelo uso da microeletrônica e da flexibilidade
dos processos de trabalho e de produção, implicando uma generalizada
potenciação da capacidade produtiva da força de trabalho.
O processo de "acumulação flexível"1 gera
o fenômeno paradoxal, de ampliação do trabalho precarizado
e informal e da emergência de um trabalho revalorizado, no qual o
trabalhador multiqualificado, polivalente, deve exercer, na automação,
funções muito mais abstratas e intelectuais, implicando cada
vez menos trabalho manual e cada vez mais a manipulação simbólica.
É, também, exigido deste trabalhador, capacidade de diagnóstico,
de solução de problemas, capacidade de tomar decisões,
de intervir no processo de trabalho, de trabalhar em equipe, auto-organizar-se
e enfrentar situações em constantes mudanças.
É neste contexto que retorna à agenda de discussões
o papel da educação. O trabalhador polivalente deve ser muito
mais "generalista" do que especialista. Para desenvolver as novas
funções, há exigências de competências
de longo prazo que somente podem ser construídas sobre uma ampla
base de educação geral. De fato, algumas das modificações
do processo de produção e da organização do
trabalho não teriam sido possíveis, nos países desenvolvidos,
sem os efeitos produzidos pelos grandes sistemas de educação
de massa. Estes vêm sendo repensados desde os anos 80, em países
como a Inglaterra e a França que têm questionado seus sistemas
de educação formal 2 por serem inadequados ou estarem desvinculados
dos grandes processos de mudanças socioeconômicas, assim como
na Alemanha, que tem se indagado sobre a pertinência da sua formação
profissional dual 3, tendo em vista o acelerado ritmo das mudanças
na sociedade como um todo.
A educação técnico-profissional não se tem colocado
à margem dessa discussão e hoje começa a refletir sobre
a necessidade de estar articulada à educação geral,
para evitar a dualidade histórica entre educação propedêutica
X educação profissional-instrumental, dando respostas à
dupla dimensão dos objetivos educacionais: preparar o profissional
competente e o cidadão socialmente responsável, o sujeito-político
comprometido com o bem-estar coletivo.
Dentro desta perspectiva educacional buscaremos, neste artigo, discutir
uma proposta de formação orientada para o trabalho que leve
em conta os desafios postos por um contexto de globalização
econômica, de novas formas de organização da produção
e do trabalho e dos crescentes processos de democratização
da sociedade.
Os desafios à formação profissional
Diante do modelo da "especialização flexível"
4 e dos "novos conceitos de produção", 5 onde a
divisão técnica do trabalho se tornou menos evidenciada, com
a integração do trabalho direto e indireto, e a integração
entre produção e controle de qualidade, onde o trabalho em
equipe passou a substituir o trabalho individualizado e as tarefas do posto
de trabalho foram eclipsadas pelas funções polivalentes, em
"ilhas de produção" ou grupos semi-autônomos,
o conteúdo e a qualidade do trabalho humano modificaram-se. Não
só na produção industrial, mas no setor de serviços,
o desenvolvimento do conteúdo informativo das atividades profissionais,
a difusão das ferramentas de tratamento da informação
e sua inserção em uma rede de informação e comunicação
tendem a fazer desaparecer as fronteiras tradicionais entre os empregos
da administração e os de outros setores (produção,
armazenagem, distribuição) favorecendo a mobilidade entre
os empregos, até agora separados em categorias isoladas.6
Surgem novas tendências em relação ao trabalho: este
torna-se mais abstrato, mais intelectualizado, mais autônomo, coletivo
e complexo. Cada vez mais as funções diretas estão
sendo incorporadas pelos sistemas técnicos, e o simbólico
se interpõe entre o objeto e o trabalhador. O próprio objeto
do trabalho torna-se imaterial: informações, "signos,"
linguagens simbólicas.
Mas, os sistemas técnicos desenvolvem, simultaneamente, possibilidades
(polivalências) e fragilidades. Com o avanço tecnológico
as tarefas tornam-se indeterminadas, pelas possiblilidades de usos múltiplos
dos próprios sistemas, e a tomada de decisões passa a depender
da captação de uma multiplicidade de informações
obtidas através das redes informatizadas. O trabalho repetitivo,
prescrito, é substituído por um trabalho de arbitragem, onde
é preciso diagnosticar, prevenir, antecipar, decidir e interferir
em relação a uma dada situação concreta de trabalho.
A natureza deste tipo de trabalho reveste-se na imprevisibilidade das situações,
nas quais o trabalhador ou o coletivo de trabalhadores tem que fazer escolhas
e opções todo o tempo, ampliando-se as operações
mentais e cognitivas envolvidas nas atividades mas, ao mesmo tempo, seus
"custos subjetivos".7
Estas características do trabalho nos setores onde vigoram os novos
conceitos de produção, com uso da tecnologia informacional
e mudanças organizacionais, tornam questionáveis noções
como qualificação para o posto de trabalho ou qualificação
do emprego. O trabalho já não pode ser pensado a partir da
perspectiva de um determinado posto, mas de famílias de ocupações
que exigem competências semelhantes aos trabalhadores.
Não se trata mais, portanto, de uma qualificação formal/qualificação
prescrita/qualificação do trabalhador para desenvolver tarefas
relacionadas a um posto de trabalho, definida pela empresa para estabelecimento
das grades salariais, ou pelos sistemas de formação para certificação
ou diplomação, onde as tarefas estavam descritas, codificadas
e podiam ser visualizadas, mas da qualificação real do trabalhador,
compreendida como um conjunto de competências e habilidades, saberes
e conhecimentos, que provêm de várias instâncias, tais
como, da formação geral (conhecimento científico),
da formação profissional (conhecimento técnico) e da
experiência de trabalho e social (qualificações tácitas).
A qualificação real dos trabalhadores é muito mais
difícil de ser observada e constitui-se mais no "saber-ser"
do que no "saber-fazer". O conjunto de competências posto
em ação em uma situação concreta de trabalho,
a articulação dos vários saberes oriundos de várias
esferas (formais, informais, teóricos, práticos, tácitos)
para resolver problemas e enfrentar situações de imprevisibilidade,
a mobilização da inteligência para fazer face aos desafios
do trabalho constituem características desta qualificação
real.
Este conjunto de competências amplia-se para além da dimensão
cognitiva, das competências intelectuais e técnicas (capacidade
de reconhecer e definir problemas, equacionar soluções, pensar
estrategicamente, introduzir modificações no processo de trabalho,
atuar preventivamente, transferir e generalizar conhecimentos), para as
competências organizacionais ou metódicas (capacidade de autoplanejar-se,
auto-organizar-se, estabelecer métodos próprios, gerenciar
seu tempo e espaço de trabalho), as competências comunicativas
(capacidade de expressão e comunicação com seu grupo,
superiores hierárquicos ou subordinados, de cooperação,
trabalho em equipe, diálogo, exercício da negociação
e de comunicação interpessoal), as competências sociais
(capacidade de utilizar todos os seus conhecimentos - obtidos através
de fontes, meios e recursos diferenciados - nas diversas situações
encontradas no mundo do trabalho, isto é, da capacidade de transferir
conhecimentos da vida cotidiana para o ambiente de trabalho e vice-versa)
e as competências comportamentais (iniciativa, criatividade, vontade
de aprender, abertura às mudanças, consciência da qualidade
e das implicações éticas do seu trabalho, implicando
no envolvimento da subjetividade do indivíduo na organização
do trabalho).8
Entretanto, se essas competências são necessárias ao
sistema produtivo, não são suficientes quando se tem como
perspectiva a expansão das potencialidades humanas e o processo de
emancipação individual e coletivo. No processo de construção
destas competências, é preciso, pois, propiciar uma formação
que permita aos trabalhadores agir como cidadãos produtores de bens
e de serviços e como atores na sociedade civil, atendendo a critérios
de eqüidade e democratização sociais. Neste sentido,
ao conjunto das competências profissionais acrescem-se as competências
políticas, que permitiriam aos indivíduos refletir e atuar
criticamente sobre a esfera da produção (compreendendo sua
posição e função na estrutura produtiva, seus
direitos e deveres como trabalhador, sua necessidade de participação
nos processos de organização do trabalho e de acesso e domínio
das informações relativas às reestruturações
produtivas e organizacionais em curso), assim como na esfera pública,
nas instituições da sociedade civil, constituindo-se como
atores sociais dotados de interesses próprios que se tornam interlocutores
legítimos e reconhecidos.
É preciso, entretanto, ressaltar que a qualificação
real do trabalhador, o conjunto de suas competências individuais e
coletivas, não se constitui como estoque de conhecimentos e habilidades,
fixo no tempo, mas como fluxo,9 pois são mobilizadas e desmobilizadas
em um processo seqüencial de ajuste no mercado interno e externo de
trabalho. Desta forma os saberes tácitos, incorporados ao longo da
trajetória profissional, têm uma historicidade, e vêm,
de certa forma, sendo utilizados e apropriados pelas empresas desde o modelo
taylorista/fordista. O problema que se coloca, hoje, é a necessidade
das empresas e do próprio sistema formador de formalizar essa qualificação
real, esse conjunto de competências que está muito mais ao
nível da subjetividade/intersubjetividade do trabalhador do que as
qualificações anteriormente prescritas. A busca de referenciais
para apreender as competências, detectar os seus conteúdos,
captar sua dinâmica, os mecanismos como se articulam diante da necessidade
de resolver problemas e o modo como são postas em ação
em uma situação concreta, têm sido o desafio de pesquisadores,
formadores e gerentes de recursos humanos das empresas.
Por outro lado, a "abordagem das competências" não
pode desconhecer o fato de que essa qualificação real dos
trabalhadores, é histórica, contextualizada no processo de
globalização econômica, de reestruturação
produtiva e de mudanças no conteúdo e natureza do trabalho
e impactada pelos aspectos integradores e desintegradores deste processo.
Além de condicionada pelo contexto econômico, social e político
atual, é expressão das relações sociais e resultante
de negociações e embates entre interesses nem sempre convergentes
do capital e trabalho. Trata-se aqui de ressaltar, que as competências
não surgem como desdobramentos "naturais" das tecnologias
e das novas formas de organização do trabalho (como se novas
tecnologias induzissem, necesssariamente, a novas competências e estas
a novas formações) e que, portanto, não podem ser "deduzidas"
diretamente do conteúdo do trabalho, mas refletem relações
de poder entre interlocutores sociais envolvidos no processo de produção
de bens e de serviços, cujos contornos variam, historicamente, de
país para país.
Desta forma, as qualificações dependem da conduta e estratégias
empresariais (evidenciada pelos métodos de gestão da força
de trabalho) e da consciência e organização dos trabalhadores
(refletida no grau de intervenção na concepção,
no ritmo e forma como se dará a implantação dos programas
de reestruturação das empresas). O uso da tecnologia não
implica, necessariamente, em maior ou menor qualificação dos
trabalhadores, esta vai depender das relações de força
e de poder que se estabelecem não só no interior das empresas,
mas na própria sociedade, onde os atores sociais envolvidos possam
expressar-se de forma integral.
Deste raciocínio deduz-se que poderão existir "variantes"
de polivalência dos trabalhadores, cuja amplitude abarca a polivalência
espúria, onde ocorre apenas reagrupamento de tarefas pela supressão
de postos de trabalho, ou pelo enxugamento dos quadros das empresas com
demissões, o que acarreta a intensificação do trabalho.
A polivalência é, neste caso, associada à multifuncionalidade,
na qual o trabalhador opera duas ou três máquinas semelhantes,
que exigem os domínios dos mesmos princípios ou as mesmas
habilidades sem significar uma qualificação maior. Neste caso
incluem-se, igualmente, a rotação de tarefas dentro de uma
mesma atividade, o exercício de diferentes atividades com o mesmo
nível de complexidade ou, ainda, de uma atividade principal e outras
de complexidade menor.
Uma outra forma de polivalência é associada à multiqualificação,
onde o trabalhador opera diferentes equipamentos, com diferentes métodos
e instrumentos, sem restringir-se à alternância em vários
postos de trabalho. Implica aumento da qualificação, incorporação
e transferência de conhecimentos, trabalho em equipe, auto-organização
e participação, incluindo a questão do conteúdo
inovativo do trabalho, abrindo espaços para a criatividade do trabalhador.
Num último sentido a polivalência aproxima-se do conceito de
politecnia, onde o trabalhador não apenas domina diferentes técnicas,
equipamentos e métodos, mas conhece a origem destas técnicas,
os princípios científicos e técnicos que embasam os
processos produtivos, apreende as implicações do seu trabalho,
seu conteúdo ético, compreendendo não só o "como
fazer," mas o "porque fazer." Neste caso, a autonomia do
trabalhador e sua participação no processo são enfatizados.
Se a construção de competências pertence aos trabalhadores
como sujeitos deste processo, a sua mobilização e articulação
em situações concretas dependerá da possibililade da
constituição de "organizações qualificadoras".10
Este tipo de organização do trabalho não somente usa,
utiliza as competências dos trabalhadores, mas as fabrica, produz
essas competências. Como a organização poderia contribuir
para construir novas competências? Dando possibilidades aos trabalhadores
de intervirem na gestão do trabalho e nas decisões que afetam
o processo produtivo, propiciando-lhes espaços para participação,
para propor modificações e sugestões de melhoria, permitindo
a discussão sobre concepções, métodos e procedimentos
de trabalho, estimulando o aumento da autonomia e do poder de decisão.
Os espaços formativos, quer sejam de educação geral
ou profissional, deveriam, em igual forma, propiciar a construção
destas competências, e isto implica em rediscussão dos seus
métodos de gestão e da formação dos docentes.
Alguns riscos da "abordagem das competências"
O conceito de competência começa a ser utilizado na Europa
a partir dos anos 80. Não é um conceito preciso nem é
empregado com o mesmo sentido nas várias abordagens. Origina-se das
Ciências da Organização e surge num contexto de crise
do modelo de organização taylorista e fordista, mundialização
da economia, exacerbação da competição nos mercados,
exigências de melhoria da qualidade dos produtos e flexibilização
dos processos de produção e de trabalho. Neste contexto de
crise, e tendo por base um forte incremento da escolarização
dos jovens, as empresas passam a usar e adaptar as aquisições
individuais da formação, sobretudo escolar, em função
das suas exigências. 11 A aprendizagem é orientada para a ação
e a avaliação das competências é baseada nos
resultados observáveis.
Dentro desta perspectiva:
Competência é inseparável da ação e
os conhecimentos teóricos e/ou técnicos são utilizados
de acordo com a capacidade de executar as decisões que a ação
sugere. A competência é a capacidade de resolver um problema
em uma situação dada. A competência baseia-se nos resultados.
12
A pedagogia das competências13 começa a ganhar forma nos anos
80, na Europa, e na França é definitivamente implementada
na Charte des Programmes de 1992, que enuncia os princípios diretivos
dos programas de ensino para todos os ciclos da educação geral.
Este documento pode ser considerado como a expressão da passagem
de um ensino centrado sobre os saberes disciplinares a um ensino definido
para e visando a produzir competências verificáveis nas situações
e tarefas específicas.14
Trata-se de uma pedagogia voltada para objetivos de referências (no
ensino geral), referenciais (para o ensino profissional) e referenciais
de atividades (nas empresas). O ensino técnico-profissional é,
assim, voltado para objetivos definidos em termos de competências
terminais a serem adquiridas ao final do curso, do ano, ou da formação,
que são explicitamente detalhados e descritos em termos de saberes
e ações. Essas competências devem ser avaliadas através
de critérios de desempenho altamente especificados.15
A identificação das competências requeridas pelos empregos
é operada por referenciais construídos na mesma lógica
utilizada no ensino técnico e profissional, a partir das mesmas categorias
de saberes, saber-fazer e saber-ser cuja posse é medida em termos
de "ser capaz de." As competências são consideradas
como propriedades instáveis que devem ser submetidas à objetivação
e validação dentro e fora do exercício do trabalho,
para serem reconhecidas. A certificação das competências
surge, então, como forma de reconhecer as competências dos
trabalhadores, que são sempre provisórias e devem ser constantemente
avaliadas por organismos constituídos para tal fim. Neste caso, a
educação continuada na empresa e a formação
em alternância em instituições de formação
profissional, representariam uma maneira de manter atualizada uma "carteira
de competências".16
A experiência francesa demonstra, finalmente, uma tendência
à individualização sinalizada de um lado, pela mudança
em direção a um sistema de aprendizagem centrada no aluno,
ator do seu percurso escolar e, de outro, pelas empresas, que são
incentivadas a se transformar em "organizações"
valorizadoras, criadoras de competências para o trabalhador no seu
percurso profissional.
A adoção do conceito de competência de maneira acrítica
pode implicar, entretanto, em alguns riscos. O primeiro é a visão
adequacionista da formação, voltada para o atendimento exclusivo
às necessidades da reestruturação econômica e
às exigências empresariais. Os critérios de eqüidade,
bem-estar coletivo, democratização da sociedade devem estar
presentes e orientar não só a educação geral,
mas o ensino técnico-profissional e a educação permanente.
Desta forma, ao ignorar a formação do sujeito-político,
uma abordagem restritiva das competências torna-se instrumentalizante
e tecnicista. No caso brasileiro, a dualidade entre educação
geral e educação técnico-profissional leva à
desvinculação entre a compreensão e o domínio
das bases e princípios científicos que regem as tecnologias
e a sua operacionalização, aprofundando-se a separação
entre a concepção e a execução. Sem a ampliação
da base de educação geral, com a garantia de 9 a 10 anos de
escolaridade (o que significaria forte investimento no sistema regular de
ensino) a formação profissional corre o risco de formar trabalhadores
descartáveis pela rápida obsolescência de conhecimentos,
adquiridos de forma imediata e sem os aprofundamentos necessários.
Ao construir competências para as necessidades estritas do mercado
de traballho ou para as exigências das tecnologias, a formação
profissional estará desconhecendo que as competências dos trabalhadores
são também fruto das relações sociais e que
existem, portanto, limites e possibilidades de colocá-las em ação
no processo produtivo. O exercício da problematização,
da autonomia, da discussão, da negociação e da participação
nos espaços das instituições de formação
profissional (formação valorizadora) poderá propiciar
aos alunos uma experiência a ser buscada e conquistada, também,
nos seus espaços de trabalho, com exigências de constituição
de uma organização de trabalho qualificadora.
O segundo risco da apropriação acrítica da noção
de competência constitui-se na abordagem individualizada e individualizante
que se faz dela. É preciso ressaltar que as competências, se
têm um conteúdo subjetivo, individual, são construídas
ao longo da trajetória da vida profissional do trabalhador, o qual
partilha de experiências e práticas coletivas. No contexto
do trabalho em grupo, em equipe, parece paradoxal que a avaliação
das competências e a sua certificação se concentre nos
resultados meramente individuais sem que se atente para o fato de que algumas
das competências dos trabalhadores só poderão ser mobilizadas
e articuladas dentro de coletivos de trabalho e em situações
grupais. Por outro lado, os acordos particulares entre empregador e empregado
em termos de uma "carteira de competências" enfraquece a
negociação coletiva em proveito do individual e desmobiliza
a ação sindical.
Finalmente, um terceiro risco é a preocupação com o
produto (resultados) e não com o processo de construção
das competências. Como se estruturam? Como se adquirem e como se transmitem?
Quem determina quais as competências necessárias ao trabalho
e quais os seus conteúdos?
Ainda algumas questões em aberto
Embora a discussão sobre o conceito de competência tenha penetrado
em diversas esferas como a economia, o trabalho, a educação
e a formação, desde a década de 80, nos países
desenvolvidos, no Brasil começa-se a pensar a noção,
tanto no mundo acadêmico como nas empresas, a partir dos anos 90.
Se nos países europeus esse conceito vem substituindo o de qualificação
(mesmo sendo considerado pouco preciso e assumindo vários sentidos
e significados), estamos longe de compreendê-lo em sua abrangência,
com suas vantagens e limitações.
Como construção social e histórica, o conceito remete-se
a uma realidade dinâmica, onde convivem as exigências de eficácia
e produtividade do trabalho e a necessidade de um trabalhador qualificado,
competente, com o aumento da seletividade no mercado de trabalho, o desemprego,
a precarização do emprego e a diminuição do
poder de negociação dos trabalhadores.
É neste quadro que se insere a problemática atual da certificação
das competências. Desdobramento do processo de avaliação
e validação das competências, a certificação
passou a ser uma exigência internacional decorrente da difusão
de normas de qualidade como a série ISO 9000 e a ISO 14000.17 Já
difundida na Europa, Estados Unidos e América Latina (Chile, México
e Argentina), a certificação começa a ser implementada
no Brasil, no contexto do PBQP (Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade),
através da criação de um Sistema Brasileiro de Certificação,
cujas normas objetivam avaliar a conformidade de produtos, serviços,
sistemas e pessoal.
Instituições como o Senai participam do PNQC (Programa Nacional
de Qualificação e Certificação) vinculado ao
PBQP, e vêm implantando Centros de Exames de Qualificação
para a certificação ocupacional em diversas áreas industriais
em vários estados do País. Por outro lado, pensa-se em implementar
a Certificação de Competências, através de exames
realizados pelos sistemas federais e estaduais de ensino, para fins de reconhecimento
de estudos e dispensa nos respectivos cursos técnicos, tal como preconiza
o artigo 14, cap. III do Projeto de Lei 1603 de 1996, 18 que dispõe
sobre a educação profissional.
Desta forma, estamos diante de um contexto que nos leva a indagar sobre
as vantagens e os riscos da abordagem das competências e da sua validação
e certificação. Como vantagens visualizamos a possibilidade
de construção de competências ampliadas, abrangendo
várias dimensões, antes não reconhecidas ou não
valorizadas na organização do trabalho. Sua certificação
tem, como aspecto positivo, o reconhecimento dos saberes dos trabalhadores,
que são provenientes de várias fontes, validando-os independentemente
da forma como foram adquiridos (no sistema educacional formal, no sistema
de formação profissional ou na experiência profissional).
Como riscos deixaríamos algumas questões em aberto: do ponto
de vista do sistema formador, indagaríamos em que medida a construção
e a certificação de competências voltadas estritamente
para as necessidades empresariais deixariam em plano secundário os
saberes e conhecimentos não diretamente ligados a essas demandas?
O processo formativo restringir-se-ia à dimensão informativa
e instrumental, desprezando a dimensão educativa? Que reformulações
deveriam ser feitas no sistema educacional e no de formação
técnico-profissional em termos curriculares, de metodologias de ensino
e de formação de docentes diante da abordagem das competências?
Poderia haver transferibilidade de um setor educacional a outro, no sentido
de que se o trabalhador tem competência reconhecida numa área
técnica poderia voltar ao sistema educacional para continuar os estudos?
Que mecanismos e instituições assegurariam a certificação
inicial e as futuras reaprendizagens? Qual seria o papel do sistema educativo,
das instituições de formação profissional, dos
trabalhadores e das empresas na definição e construção
das competências? O sistema formador ficaria submetido ao atendimento
às exigências das normas internacionais de certificação
de produtos, sistemas e pessoas?
Da perspectiva do mercado de trabalho, até que ponto este, em um
quadro de crise e de desemprego, e na ausência de políticas
públicas de emprego e de geração de renda, tornar-se-ia
ainda mais seletivo, agora segmentando a força de trabalho entre
aqueles que têm certificação e os que não têm
certificação? Em que medida a responsabilidade pelo desemprego
recairia sobre o trabalhador, na medida em que não dispõe
de uma moeda válida (a sua certificação) para oferecer
no mercado? Poderiam surgir interesses corporativos, de feudalização
do mercado de trabalho, que impediriam a entrada de novos contingentes de
trabalhadores que não portassem as certificações? A
certificação de pessoas poderia constituir-se em um mecanismo
de maior controle da força de trabalho, no sentido da apropriação
e formalização dos saberes tácitos pelas gerências?
As certificações de competências poderiam ser reconhecidas
transversalmente nos sistemas ocupacionais, para que houvesse correspondência
entre um setor e outro, uma empresa e outra, ou uma área e outra?
Sob a ótica das políticas públicas, qual o papel do
Estado na definição do sistema de certificação
de competências e qual a sua articulação com as outras
instituições do setor privado que já vêm fazendo
a certificação? Quais as políticas públicas
já implementadas (política industrial, de emprego, de educação,
de educação técnica e formação profissional)
e como elas se articulam no que diz respeito à construção
e certificação de competências? Qual a visibilidade
que o sistema de certificação de competências tem para
os atores sociais envolvidos: trabalhadores, empresários, governo?
Qual o seu grau de participação e interferência neste
sistema?
Estas são algumas das questões sobre as quais é necessário
refletir para fazer face aos desafios postos à formação
profissional diante do contexto de globalização e de novas
políticas microeconômicas ao nível das empresas, e de
crescentes processos de democratização da sociedade.