QUANDO A SEXUALIDADE ENGATINHA

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(Fonte: Revista da Folha - Jornal Folha de São Paulo - Domingo, 07/09/2003)

 

Lulie Macedo

Sexualidade e infância são assuntos que não se misturam, certo? Errado. Desde que o mundo é mundo, as crianças não brincam de médico à toa: a aventura do descobrimento começa já nos primeiros meses, quando o bebê experimenta o prazer de explorar o próprio corpo, e se acentua nos anos seguintes, quando sua atenção se volta para o corpo dos pais e de outras crianças.

Quase cem anos depois de Sigmund Freud descrever pela primeira vez o desenvolvimento da sexualidade infantil, o comportamento exploratório dos pequenos continua produzindo uma legião de pais e mães desnorteados diante de perguntas e cenas inesperadas - e aí pouco importa que sejam experiências que eles mesmos já tiveram na infância.

"Sexualidade, para o adulto, tem caráter estritamente erótico e está ligada apenas à realização desses desejos. Essa idéia não é compatível com a imagem que fazemos da inocência infantil, por isso muitos de nós preferem ignorar", explica Marcos Ribeiro, sexólogo e consultor do Ministério da Saúde e autor de diversos livros sobre o assunto.

Mesmo pais que se definem como modernos e liberais "travam" ao ter encarar na prática assuntos como masturbação e brincadeiras que envolvem os órgãos genitais. "Muitas vezes, eles é que precisam de orientação sexual, porque ficam sem saber como lidar com essas questões", afirma o psicólogo Paulo Rennes Marçal Ribeiro, coordenador do Núcleo de Estudos da Sexualidade da Unesp.

Na maioria das vezes, a distância entre a moral do universo adulto e a ausência de pudor infantil resulta em ensinamentos cheios de "tira a mão daí, aquilo não pode, isso é feio" - exatamente a atitude que psicólogos, professores e sexólogos condenam. Os terapeutas são unânimes: tratar o assunto com naturalidade é condição fundamental.

Mas o que fazer, por exemplo, diante de duas crianças de três anos nuas, brincando com seus órgãos sexuais?

"Claro que é um momento muito difícil para os pais, mas vejo dois caminhos:

  1. sair de perto e, se for o caso, comentar o assunto com naturalidade depois, e
  2. aproximar-se e interromper educadamente a cena, convidando a criança para fazer alguma outra atividade", recomenda Marcos Ribeiro. "Pode-se dizer, por exemplo, 'Vamos parar com a brincadeira porque agora o papai (ou a mamãe) precisa da sua ajuda para uma tarefa'. Mas sem tom de bronca", ensina o sexólogo.

Traumatizar a criança com reações extremadas é pior, dizem os especialistas, porque ela dificilmente vai abandonar o que lhe dá prazer, só o fará escondido. "O problema não está na exploração sexual do próprio corpo ou nas brincadeiras entre crianças da mesma idade. Prejudicial é a repressão do adulto a essas atitudes, quando ele grita, proíbe, bate ou põe de castigo. Fazendo isso ele transmite a noção de que aquilo é errado, quando na verdade essas atitudes são tão naturais quanto aprender a andar, falar, brincar", afirma Maria Cecília Pereira da Silva, psicanalista e membro da ONG Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual.

Além disso, jogos sexuais entre crianças da mesma idade não costumam oferecer risco à integridade física de seus envolvidos (antes da puberdade, meninos nem têm ereção suficiente para penetração). "A ameaça de ato sexual está apenas na mente adulta, já que para as crianças menores a brincadeira tem a ver com a sensação que o toque proporciona", diz Marcos Ribeiro.

A dificuldade é conciliar a reação ideal almejada pelos especialistas com os valores morais de cada família. "Eles ficam assustados, perguntam o que pode vir depois, se a criança já faz aquilo naquela idade", conta Sueli Gonçalves Gomes, orientadora da educação infantil do colégio Santa Maria, no Jardim Marajoara, zona sul.

Não virá nada, respondem os especialistas. Por volta dos sete anos, as crianças entram na etapa chamada latência (veja quadro acima), quando a sexualidade perde parte da importância. Com a chegada da fase escolar propriamente dita, a criança começa a se interessar por atividades que antes não estava preparada para desempenhar.

A pais renitentes ou assustados, a psicóloga Maria Cecília lembra a definição da OMS (Organização Mundial de Saúde): "Sexualidade não é sinônimo de coito e não se limita à presença ou não do orgasmo. Ela influencia pensamentos, sentimentos, ações e a saúde física e mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada um direito humano básico".

Para quem acha que o discurso é bonito, mas não resolve na hora do susto, a Revista elencou as situações mais comuns e ouviu especialistas sobre a melhor reação diante de cada uma. Confira a seguir.

Masturbação

Na escola infantil, Antônio, 2, roça o pênis no colchão até dormir. Na classe ao lado, a professora percebe que Bernardo, 5, está se masturbando enquanto ela conta histórias. *

Quem trabalha com crianças tem sempre muitos casos como esses para contar. Descobrir o próprio corpo faz parte da tarefa de tentar entender o mundo, e o prazer em manipular os órgãos sexuais é uma das primeiras descobertas.

Em situações que confortam e dão prazer - como a hora da alimentação ou da troca de fraldas - é comum ver bebês de ambos os sexos com ereção; as meninas têm inclusive lubrificação vaginal, explica a sexóloga e hoje prefeita Marta Suplicy no livro "Papai, Mamãe e Eu" (editora FTD, 88 págs., R$ 35,80), lançado em 1999 e até hoje um dos mais indicados pelos especialistas da área. Isso acontece porque olhos, pele, boca, paladar, olfato e órgãos genitais integram um complexo nervoso que tem conexões com o centro sexual do cérebro.

O prazer "inconsciente" do bebê do berçário e a masturbação do garoto mais velho são etapas diferentes do mesmo processo de desenvolvimento. "Pais e professores devem encarar com naturalidade, sem repreender ou transmitir noções de sujeira ou coisa errada. Se acontecer em público, os adultos devem explicar que aquele é um ato íntimo, e portanto deve ser feito em lugar reservado", afirma o psicólogo Paulo Rennes, da Unesp.

Mas nem por isso os pais devem ficar menos atentos ao comportamento. "Se for compulsiva ou obsessiva, a masturbação pode indicar alguma frustração ou situação emocional difícil e é preciso procurar ajuda especializada", alerta a psicóloga Maria Cecília Pereira da Silva, do GTPOS.

Além disso, nem toda manipulação dos genitais é sinônimo de masturbação. "Pode se tratar de algum incômodo físico, como alergias, assaduras e até picadas de inseto", diz Ângela Maria Espínola de Castro, pediatra endocrinologista da Unifesp.

Marcos Ribeiro, consultor do Ministério da Saúde, recomenda cuidado maior no caso das meninas. "É preciso conversar e informar, porque elas podem introduzir objetos na vagina e se machucar."

Jogos sexuais

Júnior, 5, diz para Léo, 4, que um chupar o "pipi" do outro é normal, porque os bebês fazem o mesmo com o peito da mãe. O menor conta para o pai, que, desesperado, procura a professora da escola.

Em situações como essa, os adultos tendem a reagir mal, reprimindo, gritando e até batendo na criança, diz Paulo Rennes. Nada mais equivocado. Logo depois de explorar o próprio corpo, a atenção infantil se volta para o corpo alheio: é a fase em que começam a perceber as diferenças entre meninos e meninas, adultos e crianças. Não faça alarde, nem projete coisas do seu mundo no mundinho deles, recomendam os profissionais.

"Os pais devem tentar agir com naturalidade, explicando que a criança não deve fazer nada que não queira com o próprio corpo - nem com o corpo do outro. É bom aproveitar para dizer que, se ela se sentir desconfortável com alguma brincadeira, deve procurar um adulto de confiança e contar", afirma Maria Cecília. Mas é bom apurar toda a história para conferir se é realmente verdade: "Criança fantasia bastante", ressalva.

O problema pode se tornar mais sério quando ocorre entre crianças de idades muito diferentes - quatro, cinco anos a mais -, porque pode envolver coerção e configurar abuso sexual. Os pais devem dizer que não é errado a criança brincar com amiguinhos da mesma idade, mas nunca com os mais velhos ou adultos.

Também não vale estigmatizar a criança mais velha, transformando-a num quase tarado: nem sempre mais idade significa maturidade maior. Além disso, ela pode estar enfrentando problemas no próprio desenvolvimento sexual e precisar de ajuda profissional.

Brincar de beijo na boca

Cássio, 4, corre atrás de Daniela, 5, e a beija na boca. Depois, chama a menina de "Helena", personagem da novela da Globo.

Em pleno processo de aprendizagem, a criança repete tudo o que vê. "O que esperar de crianças expostas freqüentemente a cenas de beijos e carícias na TV", pergunta Paulo Rennes. "O estímulo à precocidade e a comportamentos sexuais vem desse cotidiano." Marcos Ribeiro afirma que não há necessidade de reprimir a brincadeira, desde que se observe a regra da mesma faixa etária. Também é importante ficar atento para ver se a criança não está sendo forçada a alguma coisa.

De volta ao peito

Desmamada desde os nove meses, Luíza, 3, passa a reclamar o seio da mãe com insistência, em casa ou lugares públicos. Ela cede uma vez, mas se incomoda com a freqüência. Quando recusa, a menina chora.

Geralmente, é necessidade de um contato afetivo mais estreito com a mãe, uma forma de voltar a um período gratificante da vida, dizem os terapeutas, e ocorre principalmente quando nasce um irmãozinho, e a criança maior se sente em segundo plano.

"Se a mãe estiver amamentando o menor, pode deixar o maior experimentar, para que ele prove que o gosto não é lá essas coisas. Mas os pais devem reforçar que ela já é grandinha e tem dentes para se alimentar, ao contrário do irmãozinho", aconselha Maria Cecília. Se não estiver amamentando ou não se sentir confortável em dar o seio, deve explicar que não tem mais leite e que o peito é uma parte íntima de seu corpo. "É uma boa hora para reforçar que não se deve deixar que mexam no corpo da gente quando não queremos", lembra.

Marcos Ribeiro levanta outro ponto. "É importante que os pais atentem para o motivo. Em alguns casos, vítimas de algum tipo de abuso sexual tentam 'voltar' a fases anteriores, em que se sentiam protegidas", diz.

Exibir os genitais

Basta chegar uma visita e Vítor, 4, vai para o quarto, tira a roupa e faz uma "entrada triunfal" na sala, totalmente nu.

O "exibicionismo" infantil faz parte da fase de exploração dos corpos. Como um brinquedo novo, a criança quer mostrar aos outros o que já descobriu. Quanto à menina que adora levantar a roupa e mostrar o bumbum, por exemplo, pode estar imitando algo que viu na TV. Em qualquer situação, cabe aos adultos começar a ensinar a noção de intimidade.

"Ela não sabe o que é certo ou errado, quais são os códigos sociais, a diferença entre o público e o privado. Cabe aos pais e educadores ensinar que ali não é lugar para isso", afirma Maria Cecília.

É também a hora de falar sobre respeito. "Alguns pais acham que tudo que seu filho faz é uma gracinha, mas se esquecem de que aquela gracinha vai crescer e viver em sociedade. Pais e professores devem mostrar que vivemos com outras pessoas, temos de respeitá-las e parte desse respeito é não ficar mostrando seu órgão sexual para quem não quer ver", recomenda Marcos Ribeiro.

Ver o ato sexual

A porta do quarto estava só encostada, e Maria, 3, viu os pais transando. No dia seguinte, contou à professora que, quando o casal está no quarto, seu pai fica tentando matar a mamãe. Tiago, 5, assiste a um filme pornô na TV a cabo e depois quer fazer sexo oral com a prima da mesma idade.

Se a criança viu o ato sexual, mesmo que ela não pergunte, é fundamental falar sobre o assunto, para que ela não comece a fantasiar. E não se esqueça: se isso aconteceu, foi por descuido dos adultos.

"Geralmente os pais reagem mal, põem a culpa no filho por ter visto 'algo que não devia'", conta Paulo Rennes.

No primeiro caso, Marcos Ribeiro sugere deixar a conversa para o dia seguinte. "Pai e mãe podem começar, informalmente, perguntando: 'Acho que você viu a gente fazendo amor, tendo uma relação sexual. Você sabe o que é isso?' Fique atento à reação. Se ela disser que sim, descubra o que realmente sabe e complemente, se necessário. Se não, fale brevemente sobre namoro e relação sexual, explique que foi num momento como aquele que ela foi feita. Utilizar um livro infantil é uma boa saída, mas não fale demais nem explique além do que ela quer saber."

No caso do filme pornô, é preciso perguntar o que ela viu e mostrar que a realidade das pessoas não é aquela. "Explique que os filmes são feitos para despertar vontade nas pessoas, mas que sexo não é só aquilo, tem carinho e afeição. É importante que a criança cresça fazendo essa associação", diz Marcos Ribeiro.

2; O caminho da sexualidade infantil

O primeiro a tratar do assunto foi Sigmund Freud, no início do século 20. Para o pai da psicanálise, a sexualidade infantil passa por quatro fases: oral, anal, fálica e de latência. Até hoje esses conceitos formam a base do pensamento sobre a sexualidade na infância, mas foram incrementados por outras linhas de pensamento. As faixas etárias de cada fase não são absolutas, mas aproximadas

a) 0 a 2 anos - Oral

Nos primeiros meses, o prazer da criança se concentra na região da boca, sua atenção está voltada para o que entra e sai de seu corpo via oral: ela suga o seio da mãe, chupa mamadeira, come papinha, regurgita (mas já é capaz de ter sensações agradáveis nos órgãos genitais). A boca é sua forma de comunicação com o meio externo

NO CORPO - Até cerca de um ano, o bebê produz os mesmos hormônios da puberdade, em menor quantidade: meninas fabricam estrogênio, meninos, testosterona, e ambos produzem hormônios hipofisários, responsáveis pela estimulação de ovários e testículos. A partir de um ano, essa produção fica em "repouso" para retornar de forma intensa na adolescência

b) 2 a 3 anos - Anal

Quando começa a deixar as fraldas, a atenção da criança se volta para suas necessidades fisiológicas: ela começa a perceber que pode controlar o esfíncter (músculo envolvido na evacuação), cujos movimentos também proporcionam sensação de prazer. Ficam orgulhosas do que seu corpo produz, algumas nem querem dar a descarga. Pais e professores também colaboram para o aumento de atenção nessa etapa, perguntando o tempo todo se a criança quer fazer cocô ou xixi

NO CORPO - O crescimento físico desacelera em relação à fase anterior, fica mais lento, porém constante, e volta a se intensificar na puberdade

c) 4 a 6 anos - Fálica

Começam a descobrir/explorar seus órgãos sexuais e a perceber as diferenças anatômicas entre meninos e meninas. A curiosidade estimula a masturbação e as brincadeiras sexuais com outras crianças. O orgasmo é possível, embora os meninos não ejaculem. Nessa fase a criança já tem total consciência de sua identidade sexual (noção sobre seu sexo, diferente de orientação sexual, que pode ser homo, bi ou hétero). É também a fase das perguntas sobre sexo e a origem dos bebês

NO CORPO - Aos seis anos, intensifica-se a produção de um hormônio da glândula supra-renal, que pode provocar leve odor no corpo e nascimento moderado de pêlos superficiais

d) A partir dos 7 - Latência

Época que antecede a puberdade e a criança está se preparando psiquicamente para as intensas mudanças que virão. Nessa fase, que coincide com o início da vida escolar, a sexualidade fica em segundo plano, em detrimento de novas descobertas, especialmente no terreno intelectual. A curiosidade sexual não desaparece, mas fica latente

NO CORPO - Atualmente, a precocidade pode fazer com que a latência se misture à puberdade (principalmente nas meninas), inaugurada pela maior produção hormonal e alterações físicas, como nascimento de pêlos, desenvolvimento dos seios, polução noturna (as primeiras ejaculações)

Dúvidas cruéis

Quem responde às dúvidas sobre sexo, mãe ou pai?

Os dois. É importante que os pais tenham um discurso coerente, e para isso é preciso que conversem antes entre si. Deve-se evitar que mães assumam respostas para um tipo de questão e pais, para outras, com frases do tipo: "Isso é com seu pai", ou "Sua mãe é que entende dessas coisas de mulher". Ambos devem ter a mesma autoridade e demonstrar igualdade em suas funções.

Até quando ficar nu na frente das crianças?

Enquanto os pais se sentirem à vontade e os filhos encararem com naturalidade, não há problema. Vale lembrar que a partir de uma certa idade, geralmente por volta dos 7, 8 anos, a criança começa a querer privacidade e isso deve ser respeitado.

Meu filho quis tocar em meus órgãos sexuais. Devo permitir?

Desde que os pais não fiquem constrangidos, sim. Esse pode ser um bom momento para explicar o que são e para que servem ("Esse é o pênis do papai, serve para fazer xixi e brincar com a mamãe. Você não deve deixar ninguém mais velho mexer no seu pênis"). Se os pais ficarem constrangidos, é melhor dizer com delicadeza que não querem que o filho mexa em seu corpo. É melhor do que permitir contra a vontade, porque as crianças percebem.

Posso deixar meu filho dormir na minha cama?

Uma vez ou outra, sim. Mas não é um hábito aconselhável, porque pode erotizar a criança, principalmente quando um dos pais não está (simbolicamente, é como se o filho estivesse assumindo o papel de um dos dois). Se ele estiver com medo de ficar sozinho, é melhor acompanhá-lo até o seu quarto e ficar com ele até dormir.

Posso cumprimentar meu filho com beijinho na boca?

Se esse é um hábito familiar, tudo bem. O limite está em perceber se a criança não está erotizando essa atitude, provocando o beijo e fazendo de outras maneiras.

Posso me referir aos órgãos genitais por apelidos engraçadinhos?

Sim, mas não deixe de ensinar os nomes científicos: pênis e vagina. Por que apenas os órgãos sexuais devem ter apelidos? Não se chama nariz ou braço de outra coisa. Usar nomes "sérios" também confere naturalidade ao assunto.