REFLETINDO FILOSOFICAMENTE SOBRE A CIÊNCIA

 

A ciência tem um grande prestígio no mundo de hoje. As grandes empresas principalmente as grandes multinacionais têm o seu laboratório próprio para desenvolver as suas pesquisas.

No capitalismo de hoje a ciência já é reconhecida como um força de produção, como elemento importante da acumulação e ampliação do capital. Está na base de toda esta tecnologia avançada do nosso mundo de hoje.

Por isso, a filosofia que não tem um objeto próprio, ou seja, tudo pode ser objeto da filosofia, mas que tem um modo de analisar, de investigar específico, não poderia deixar de lançar as suas perguntas sobre a ciência, sobre o conhecimento científico. O que é? Como é? Por que é?

MAS QUAL A IDÉIA QUE TEMOS DO CIENTISTA?

É aquele que, justamente, tem o conhecimento científico que lhe permite revelar a verdade sobre as coisas e por isso pode falar com autoridade e a nós compete aceitar e casualmente obedecer aos seus conselhos.

O cientista chega a se tornar um mito na nossa época. Todos estão atentos às palavras dos cientistas em todos os campos do saber: ouve-se o psicólogo, ouve-se o pedagogo, ouve-se o físico, ouve-se o químico, etc.

Acreditamos que o cientista chega à verdade graças a procedimentos rigorosos que inclui entre outras coisas o método, a observação dos fatos, a experiência.

Oras, tudo isto cai no âmbito do pensar filosófico.

Não é de competência dos cientistas saber o que é a ciência, o que distingue este conhecimento dos outros, o que é o método, o que é a verdade, qual a relação entre os fatos e o sujeito que conhece, o que é a chamada objetividade científica, porque o cientista é um mito. Estes podem até dedicar-se a esta reflexão mas a partir deste momento estão agindo como filósofos e não como cientistas.

VAMOS DAR ALGUNS EXEMPLOS DE QUESTIONAMENTOS FILOSÓFICOS NO ÂMBITO DA CIÊNCIA:

Estes questionamentos filosóficos nos revelam o quanto é importante a reflexão filosófica sobre a ciência pois ela nos ajuda a lutar contra o dogmatismo. E nós sabemos, a aceitação do dogmatismo na história da humanidade sempre colaborou para as guerras, para o ódio entre os homens, para reforçar ideologias perniciosas para a humanidade como o nazismo.

Mas, se há o perigo do dogmatismo por parte da ciência, a reflexão filosófica sobre ela nos ajuda a entender o seu papel positivo no progresso da humanidade.

A ciência nos revela que o homem pode entender e usar racionalmente (isto é, sem destruir) a natureza que o rodeia com o objetivo de maior liberdade humana e maior justiça social.

A ciência revela o homem como criador.

No caso do nosso país. Um maior investimento em pesquisa científica direcionada pelas nossas carências, seria extremamente positivo possibilitando uma elevação do seu desenvolvimento.

Infelizmente isto não acontece. Mais do que nunca estamos subordinados aos resultados da ciência que vem de fora. Esta subordinação está mesclada com a crença na superioridade intelectual dos cientistas estrangeiros. Achamos que eles são melhores do que nós.

Oras, a reflexão que propomos fazer quer revelar que todos nós, inclusive nós brasileiros, podemos ser cientistas capazes. Capazes de descobrir, de desenvolver pesquisas de acordo com a nossa realidade, que façam o Brasil sair rapidamente desta situação de carência social e econômica.

 

1. O senso comum e o conhecimento científico

 Para sabermos o que é ciência, o que é conhecimento científico, precisamos distingui-los do chamado senso comum.

Iniciamos com as perguntas abaixo: 

 

Certezas como esta estão presentes na nossa vida e expressam o que nós chamamos de "senso comum".

 

Porém a astronomia nos revela que o sol é muitas vezes maior do que a Terra e que é a Terra que se move em torno dele.

Já a biologia nos ensina que as espécies de animais se formaram a partir de modificações de microorganismos extremamente simples e isto ao longo de milhões de anos.

 Você, com certeza, já deve ter ouvido alguém dizer: "Dize-me com que andas que eu te direi quem és"; ou: "Mais vale um pássaro na mão do que dois voando".

 Esses dois exemplos nos mostram com o senso comum se manifesta através dos ditos populares, das crenças do povo. É um verdadeiro receituário para o homem resolver os seus problemas da vida diária.

 É um saber não-sistematizado mas muito útil para guiar o homem na sua vida cotidiana.

É obtido geralmente pelas observações realizadas pelos sentidos. A bela letra desta música abaixo, de Ivan Lins e Vitor Martins, deixa isto claro :

 

Daquilo que eu sei

Nem tudo me deu clareza

Nem tudo foi permitido

Nem tudo foi concebido

 

Daquilo que eu sei

Nem tudo foi proibido

Nem tudo me foi possível

Nem tudo me deu certeza

 

Não fechei os olhos

Não tapei os ouvidos

Cheirei, toquei, provei

Ah! Eu usei todos os sentidos

Só não lavei as mãos

E é por isso que eu me sinto

Cada vez mais limpo...

 

(Ivan Lins e Vitor Martins. In: Lins, Ivan. Daquilo que eu sei. Rio de Janeiro: Polygram/Philips,1981)

 

 Há, pois, uma grande diferença entre nossas certezas cotidianas e o conhecimento científico.

Diríamos que o senso comum não se caracteriza pela investigação, pelo questionamento, ao contrário da ciência. Fica no imediato das coisas, caracteriza-se pela subjetividade. É ditado pelas circunstâncias. É subjetivo, isto é, permeado pelas opiniões, emoções e valores de quem o produz: "Quem ama o fio, bonito lhe parece" e "Nossa amiga que rouba é cleptomaníaca; o trombadinha é ladrão e marginal!"

JÁ O CONHECIMENTO CIENTÍFICO:

Mas apesar destas diferenças é uma verdade que no senso comum há elementos do conhecimento científico.

 

Vamos dar alguns exemplos:

 1. Você está guiando um automóvel e de repente ele para.

 

 

2.  Evans-Pritchard, um antropólogo, estudou profundamente a crença de um grupo africano na feitiçaria. Assim ele descreve uma situação do cotidiano deste grupo:

 

"A princípio achei estranho viver entre os Azande e ouvir suas ingênuas explicações de infortúnios que, para nós, têm causas evidentes. Depois de certo tempo aprendi a lógica do seu pensamento e passei a aplicar noções de feitiçaria de forma tão espontânea quanto eles mesmos, nas situações em que o conceito era relevante. Um menino bateu o pé num pequeno toco de madeira que estava no seu caminho – coisa que acontece freqüentemente na África – e a ferida doía e incomodava. O corte era no dedão e era impossível mantê-lo limpo. Inflamou. Ele afirmou que bateu o dedo no toco por causa da feitiçaria. Como era meu hábito argumentar com os Azande e criticar suas declarações, foi o que fiz. Disse ao garoto que ele batera o pé no toco de madeira porque ele havia sido descuidado, e que o toco não havia sido colocado no caminho por feitiçaria, pois ele ali crescera naturalmente. Ele concordou que a feitiçaria não era responsável pelo fato de o toco estar no seu caminho, mas acrescentou que ele tinha os seus olhos bem abertos para evitar tocos – como, na verdade, os Azande fazem cuidadosamente – e que se ele não tivesse sido enfeitiçado ele teria visto o toco. Como argumento final para comprovar o seu ponto de vista ele acrescentou que cortes não demoram dias e dias para cicatrizar, mas que, ao contrário, cicatrizam rapidamente, pois esta é a natureza dos cortes. Por que, então, sua ferida havia inflamado e permanecido aberta, se não houvesse feitiçaria atrás dela?" (E. Evans Pritchard. Witchcraft, Oracles and Magic among the Azande. P. 64-67 – citado por Alves, Rubem. In: Filosofia da Ciência – Introdução ao Jogo e suas Regras, pág. 17)

 

 

  1. Coloco à sua frente várias peças de um quebra-cabeças, vamos supor que sejam mais de 1000 peças. Você terá que armá-lo. Não lhe é dado o modelo.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

  1. ALVES, RUBEM. Filosofia da Ciência - Introdução ao jogo e suas regras. Editora Brasiliense. 1981. São Paulo
  2. CHAUÍ, MARILENA. Convite á Filosofia. Editora Ática. 1994. São Paulo
  3. LUCKESI, CIPRIANO CARLOS e PASSOS, ELIZETE SILVA. Introdução à Filosofia - aprendendo a pensar. Cortez Editora. 2ª Edição. 1996. São Paulo
  4. FOUREZ, GÉRARD. A construção das ciências - introdução à filosofia e à Ética das Ciências. Editora Unesp. 1995. São Paulo
  5. SÁTIRO, ANGÉLICA e WUENSCH, ANA MIRIAM. Pensando melhor – Iniciação ao filosofar. Editora Saraiva. 1997. São Paulo


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