COLETIVO, LEIS E REGULARIDADES NA SOCIOLOGIA

Desde o século XIX, quando a sociologia foi criada ou reconhecida como campo de conhecimento explorável pelo procedimento científico, até a atualidade, inúmeros estudos se desenvolveram. Como nas demais ciências, estabeleceu-se uma comunicação permanente entre pesquisadores, permitindo um acúmulo de princípios e informações de modo a submeter as teorias a comprovação, questionamento, revisão.

Criou-se também um jargão científico, isto é, um vocabulário próprio com conceitos que designam aspectos precisos da vida social. De tal forma se alastraram os resultados das pesquisas sociológicas que, hoje, boa parte desse vocabulário faz parte da vida cotidiana. Palavras e expressões como contexto social, movimentos sociais, classes, estratos, camadas, conflito social, são usadas no dia-a-dia das pessoas e profusamente veiculadas pelos meios de comunicação de massa.

Nos discursos políticos, referências às "classes dominantes", às "pressões sociais" emergem como se fossem de domínio público, como se todos, políticos e eleitores, soubessem exatamente o que elas designam.

As pesquisas de opinião de qualquer tipo veiculam os resultados de procedimentos metodológicos amplamente usados nas pesquisas científicas, e os leitores percebem de maneira mais ou menos geral seu significado. Quando se diz que um governante conta com o apoio de 60% da população de uma cidade, por exemplo, as pessoas entendem que um grupo de pesquisadores empreendeu uma pesquisa que argüiu um número delimitado de cidadãos a respeito da gestão desse governante e que esses cidadãos expressaram sua opinião. Compreendem que, de cada 100 pessoas argüidas, 60 manifestaram-se favoráveis às medidas tomadas pelo governante.

E, quando se diz, após algum tempo, que a popularidade desse governante cresceu 10%, sabemos que nova pesquisa foi feita nos mesmos moldes da anterior e, de cada 100 cidadãos, agora são 70 que se mostraram favoráveis à atuação governamental.

Esse simples raciocínio, utilizado não só nas pesquisas de caráter político mas em quaisquer outras que pretendem verificar a adesão das pessoas a certas idéias – ou a freqüência a espetáculos, ou o número de espectadores de um programa de televisão -, decorra da aceitação generalizada dos conhecimentos básicos da sociologia.

Isso ocorre porque foi possível constatar e verificar uma REGULARIDADE nos fatos sociais. Essa REGULARIDADE responde às LEIS DA VIDA SOCIAL e essas LEIS CIENTÍFICAS são passíveis de serem observadas e apreendidas. Disso resulta que é também possível prever (o que é diferente de adivinhar) com certa margem de acerto os possíveis eventos futuros de uma determinada sociedade. Abre-se, então, a possibilidade de se poder intervir conscientemente nos processos, tanto para reforçá-los como para negá-los, dependendo dos interesses em jogo.

Queremos deixar claro que o leitor de uma pesquisa de opinião, mesmo desconhecendo a sua metodologia, sabe que existem meios mais ou menos eficazes de se desvendar o comportamento, o gosto e a opinião de uma população pela investigação de uma amostra, listo é, de uma parte escolhida dessa população. O leitor intui a existência de uma REGULARIDADE nesses comportamentos e opiniões; reconhece que, por trás da diversidade entre s pessoas, existe certa PADRONIZAÇÃO nas suas formas de agir e pensar, de acordo com o sexo, a idade, a nacionalidade etc.

Quando lemos em uma notícia ou artigo que Maria, 35 anos, casada, dona-de-casa, brasileira, votará em determinado candidato, não estamos tomando conhecimento apenas da opinião de uma pessoa isolada, mas do grupo de pessoas do qual Maria é o protótipo: o das mulheres de idade mediana, donas-de-casa, casadas e brasileiras.

Portanto, os conhecimentos de sociologia hoje já não estão restritos ao uso dos cientistas sociais. Eles fazem parte de um modo de perceber e interpretar os acontecimentos formado pela disseminação dos procedimentos e técnicas de pesquisa social.

Hoje manifesta-se confiança nessa forma de conhecer a realidade, do mesmo modo como se confia em um termômetro para constatar a temperatura do corpo.

Mesmo que o público desconheça todos os procedimentos de AMOSTRAGEM e de LEVANTAMENTO DE DADOS, assim como pode desconhecer a técnica utilizada na fabricação de um termômetro, já confia nas informações das pesquisas, o que demonstra a utilidade e a popularidade da sociologia. Hoje é mais freqüente comprovar uma afirmação qualquer por meio de DADOS DE PESQUISA do que pela mera importância conferida à pessoa que a declara. Houve tempo em que o prestígio e a autoridade pessoal bastavam para assegurar a credibilidade do público. Hoje se requer comprovação. Atualmente, quando se diz, por exemplo, que "os brasileiros são contra a pena de morte", logo se questiona sobre as bases em que se assenta tal afirmação. Muito mais convincente, nesse caso, é uma manchete de jornal que diga: "75% dos brasileiros são contra a pena de morte".

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EXEMPLOS

1. Na reportagem "A multidão atrapalhou o socorro", da Folha de São Paulo, de 02 de fevereiro de 1974, acerca do incêndio do edifício Joelma, podemos entender um pouco do que é o comportamento coletivo, sua força e a maneira como se distingue do comportamento individual. Leia o texto:

"O maior problema do deslocamento do Corpo de Bombeiros e das equipes médicas que socorreram as vítimas do incêndio do edifício Joelma foi a grande multidão que se postou nas proximidades do prédio, tornando inteiramente as ruas. Essa multidão invadiu áreas isoladas, impediu a passagem das ambulâncias mobilizadas e não ajudou em nada.

A entrada dos carros de bombeiros e ambulâncias só foi possível pelos fundos do edifício, pela garagem. Esses veículos iam até o último pavimento da garagem, para onde eram transportadas as pessoas feridas e os corpos carbonizados. Mas, à saída, o público, que lentamente se avolumava, bloqueava as passagens e dificultava o socorro.

Além das ruas Santo Antônio, João Adolfo, Vale do Anhangabaú, Avenida 9 de Julho e Ladeira e Largo da Memória, a multidão ocupou também pontos estratégicos do centro da cidade, de onde se avistava o edifício incendiado. Os viadutos 9 de Julho, Jacareí e Dona Paulina, de um lado, e o Viaduto do Chá, do outro, foram literalmente tomados pela multidão.

Somente depois das 10 horas da manhã é que a polícia conseguiu afastar um pouco os curiosos que se mantinham na Avenida 9 de Julho e Rua João Adolfo. Par isso foi necessária a presença de cavalarianos da Polícia Militar, de sabre em punho. Mesmo assim, alguns curioso ainda conseguiam se infiltrar entre os cavalos e ocupar novamente seus postos de observação.

O outro lado da tragédia foi a grande solidariedade demonstrada pelos paulistanos ante mais um abalo em sua vida. Milhares de pessoa atenderam aos apelos feitos pelas autoridades nos microfones das emissoras de rádio e tevê que cobriam o fato, procurando contribuir para diminuir o sofrimentos das vítimas do incêndio.

Durante a tarde inteira, formavam-se filas nos hospitais e prontos-socorros. Nessas filas, homens e mulheres disputavam um lugar para fornecer o sangue pedido necessário para o salvamento de uma vida.

No pátio defronte ao Hospital das Clínicas, tudo foi usado para acomodar os doadores voluntários. Eles se distribuíram nos bancos dos jardins e até nas calçadas."

Folha de São Paulo, 1991, "20 textos que fizeram história"

 

- Em grupo, procure as regularidades dessas pessoas ou da multidão de que fala o jornalista e elabore uma reportagem aplicando esse conhecimento e descrevendo um comportamento coletivo.

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2. Letra inédita do grupo Mamonas Assassinas, autoria de Dinho:

ONON ONON ONON

Onon era trabalhador, tirava hora de almoço prá comer,

Da marmita um pão com dois oião

e um copo geladão de leite C.

Onon gostava de badalação.

 

No Faustão ele queria aparecer,

Percebendo que não tinha nem um pão,

Então político resolveu ser.

 

Onon, tome cuidado, lhe dizia sua avó,

Não gaste todo seu dinheiro no forró,

Meu Deus do céu quando esse moço vai crescer.

 

Onon, você precisa mesmo é se casar,

Tomar juízo e aprender a me respeitar.

Oh Onon Onon.

 

Onon gostava de criança,

Então um dia um anjo lhe falou:

O programa Porta da Esperança a presidente da República ganhou.

Onon sabia que era importante,

Agora é presidente do Brasil,

Sua vida já não é como era antes:

Passou roupa, passou fome, passou frio.

Onon, tome cuidado, lhe dizia sua vó.

Oh Onon Onon.

 

Onon com essa cara diferente, Onon, agora é presidente Onon.

Sujeitinho indecente Onon

Na boca não tem um dente

Onon, Onon, Onon para presidente,

Onon para presidente.

 

De que maneira percebemos na letra dessa música a busca de regularidades da vida social em relação a grupos sociais como trabalhadores e políticos?

 

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(Do livro: Sociologia – Introdução à ciência da sociedade, de Cristina Costa, Editora Moderna, São Paulo, págs 9, 10, 14 e 15)