O QUE FOI O POSITIVISMO

O positivismo é uma corrente filosófica surgida na primeira metade do século XIX através de Auguste Comte (1798-1857).

"O positivismo se originou do "cientificismo", isto é, da crença no poder exclusivo e absoluto da razão humana para conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais. Essas leis seriam a base da regulamentação da vida do homem, da natureza como um todo e do próprio universo. Seu conhecimento pretendia substituir as explicações teológicas, filosóficas e de senso comum por meio das quais – até então – o homem explicava a realidade.

O positivismo reconhecia que os princípios reguladores do mundo físico e do mundo social diferiam quanto à sua essência: os primeiros diziam respeito a acontecimentos exteriores aos homens; os outros, a questões humanas. Entretanto, a crença na origem natural de ambos teve o poder de aproximá-los. Além disso, a rápida evolução dos conhecimentos das ciências naturais – física, química, biologia - e o visível sucesso de suas descobertas no incremento da produção material e no controle das forças da natureza atraíram os primeiros cientistas sociais para o seu método de investigação. Essa tentativa de derivar as ciências sociais das ciências físicas é patente nas obras dos primeiros estudiosos da realidade social. O próprio Comte deu inicialmente o nome de "física social" às sus análises da sociedade, antes de criar o termo Sociologia.

Essa filosofia social positivista se inspirava no método de investigação das ciências da natureza, assim como procurava identificar na vida social as mesmas relações e princípios com os quais os cientistas explicavam a vida natural. A própria sociedade foi concebida como um organismo constituído de partes integradas e coesas que funcionavam harmonicamente, segundo um modelo físico ou mecânico. Por isso o positivismo foi chamado também de organicismo.

Podemos apontar, portanto, como primeiro princípio teórico dessa escola a tentativa de constituir seu objeto, pautar seus métodos e elaborar seus conceitos à luz das ciências naturais, procurando dessa maneira chegar à mesma objetividade e ao mesmo êxito nas formas de controle sobre os fenômenos estudados."

(Cristina Costa, Sociologia: Introdução á ciência da sociedade, Editora Moderna , São Paulo, 1997, pág. 46 e 47)

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"Ao equiparar o estudo da sociedade ao estudo da natureza, toma como modelo a ciência natural e, mais especificamente, a Biologia. Desta , advém muitos dos conceitos que marcam a Física social, ou a Sociologia, como os de hierarquia, consenso, órgão, função, estática, dinâmica, enfim, as idéia de fenômenos interdependentes dentro de um sistema funcional, organicamente composto.

Essa identificação do estudo da sociedade ao estudo da natureza, que leva a primeira à busca de leis sociais análogas às leis da Física (entende-se aqui uma interpretação estática desta ciência), elimina o papel da prática social como elemento gerador de mudanças na sociedade. "a prática social, especialmente no que se refere à transformação do sistema social, fora assim suprimida pela fatalidade. A sociedade era concebida por leis racionais que funcionavam com necessidade natural." (Marcuse, Razão e Revolução, Rio de Janeiro, Ed. Saga, 1969, p. 310)

A sociedade tem uma ordem natural que não muda e à qual o homem deve submeter-se. Essa posição de submissão aos princípios das leis invariáveis da sociedade leva a uma posição de resignação grandemente enfatizada na obra de Comte. A consideração de que "o espírito positivo tende a consolidar a ordem pelo desenvolvimento racional de uma sábia resignação diante dos males políticos incuráveis" (Morais Filho, Auguste Comte: sociologia, São Paulo, Ática, 1983, p. 31) revela bem que isso. A pregação da resignação facilita a aceitação de leis naturais que consolidam a ordem vigente, justificadora da autoridade reinante e facilitadora da proteção dos interesses – riqueza e poder – hegemônicos naquele momento histórico.

Os fenômenos econômicos são muitas vezes apontados por Comte como expressão dessas leis sociais naturais invariáveis, por coincidência, referindo-se, principalmente, ao caso da concentração de capital.

Com o objetivo de fortalecimento da ordem social combate-se qualquer doutrina revolucionária e todas as forças se concentram numa renovação moral da sociedade. A mudança da sociedade passa fundamentalmente por um refazer dos costumes, uma reforma intelectual do homem, e menos pela transformação de suas instituições. A sociedade se modifica através da visão de PROGRESSO como um mecanismo da própria ORDEM, sem destruição da ordenação vigente, num processo evolutivo. Como afirma Marcuse: "o positivismo está, pois, interessado em ajudar a ‘transformar a agitação política em uma cruzada filosófica’ que suprimiria tendências radicais que eram afinal de contas incompatíveis com qualquer sadia concepção da história" (Marcuse, p. 312). O citado autor continua, buscando mostrar que o progresso é, em si, ordem – não é revolução, mas evolução.

A idéia de ORDEM e PROGRESSO (lema de nossa bandeira), em Comte, vem de sua visão dos fenômenos da sociedade. Para ele, todo ser vivo pode ser estudado sob uma dimensão estática e uma dinâmica, que apreciaram a sociedade em repouso e em movimento. Relaciona essas duas dimensões á anatomia e á fisiologia.

A visão de ordem tem sua origem na noção de ESTÁTICA, que estuda a existência, suas condições e a estrutura que a gera. Corresponde á compreensão da existência naquilo que ela oferece de fixo, de estrutural. ("família, religião, propriedade, linguagem, direito etc. seriam responsáveis pelo movimento estático da sociedade", in: Cristina Costa, op. Cit., pág. 51)

A Sociologia dinâmica se preocupa com o entendimento do movimento, do desenvolvimento, da atividade da vida coletiva, correspondendo á noção de PROGRESSO. Essa dimensão da dinâmica social é o que vai distinguir, marcadamente, a Sociologia da Biologia, ou seja, "a idéia-mãe do progresso contínuo ou, antes, do desenvolvimento gradual da humanidade". (Morais Filho, p. 134). Em última instância, torna-se necessário melhorar as condições de vida das classes menos favorecidas, sem incomodar a ordem econômico-política da sociedade. O desenvolvimento histórico dá-se portanto, pela evolução organizada, regida por leis naturais, ou seja, PROGRESSO HISTÓRICO É ORDEM.

A lei dos três estados de Comte demonstra essa visão do desenvolvimento histórico da sociedade. Para ele, essa grande lei explica o "desenvolvimento total da inteligência humana em suas diversas esferas de atividade", destacando que essa e todos os conhecimentos passam sucessivamente por três estados históricos distintos: o teológico, o metafísico, ou abstrato, e o científico, ou positivo. Esses três estados se expressam não apenas nas formas por que, sucessivamente, toda investigação passa, como também pela própria evolução da humanidade. Assim se expressa Comte: "(...) ora, cada um de nós contemplando sua própria história, não se lembra de que foi sucessivamente, no que concerne ás noções mais importantes, teólogo em sua infância, metafísico em sua juventude e físico na sua virilidade".

No estado teológico, predominam as criações espontâneas, não sujeitas à prova; no metafísico, a dominância é das abstrações e de princípios racionais e, no positivo, o alicerce está numa apreciação firme da realidade externa , enunciando-se as relações entre os fenômenos.

Assim, tanto a determinação das leis naturais e eternas como agora, a visão de evolução da sociedade e da história sob a ótica positivista aniquilam a prática social dos homens, transformadora da sociedade.

Esta idéia dos três estágios combinada com a transposição de teses do Darwinismo para a sociedade originou o que ficou conhecido como Darwinismo social.

No campo da Biologia Darwin afirmava que as diversas espécies de seres vivos se transformam continuamente com a finalidade de se aperfeiçoar a garantir a sobrevivência. Em conseqüência, os organismos tendem a se adaptar cada vez melhor ao ambiente, criando formas mais complexas e avançadas de existência, que possibilitam, pela competição natural, a sobrevivência dos seres mais aptos e evoluídos.

Tais idéias, transpostas para a análise da sociedade, resultaram no DARWINISMO SOCIAL, isto é, o princípio de que as sociedades se modificam e se desenvolvem num mesmo sentido e que tais transformações representariam sempre a passagem de um estágio inferior para outro superior, em que o organismo social se mostraria mais evoluído, mais adaptado e mais complexo. Esse tipo de mudança garantiria a sobrevivência dos organismos – sociedades e indivíduos – mais fortes e mais evoluídos.

Estava criada assim o suporte teórico para justificar no século XIX o domínio colonialista de nações européias sobre povos da América, da África, da Oceania e da Ásia.

Os principais cientistas sociais positivistas, combinando as concepções organicistas e evolucionistas inspiradas na perspectiva de Darwin, entendiam que as sociedades tradicionais encontradas nos continentes citados acima não eram senão "fósseis vivos", exemplares de estágios anteriores, "primitivos", do passado da humanidade. Assim, as sociedades mais simples e de tecnologia menos avançada deveriam evoluir em direção a níveis de maior complexidade e progresso na escala da evolução social, até atingir o "topo": a sociedade industrial européia. Porém essa explicação aparentemente "científica" para justificar a intervenção européia nesses continentes era, por sua vez, incapaz de explicar o que ocorria na própria Europa. Lá, os frutos do progresso não eram igualmente distribuídos, nem todos participavam igualmente das conquistas da civilização. Como o positivismo explicava essa distorção?"

(Consuelo Quiroga, Invasão Positivista no Marxismo: manifestações no ensino da Metodologia no serviço Social, Cortez Editora, São Paulo, 1991, pág. 49-52)