O niilismo e "morte de Deus"

("Os Pensadores", Nova Cultural, 1987, fascículo 50, p. 600-604)

Por tudo isso, sob a aparente dispersão dos aforismos vai se desenhando um projeto rigorosamente unitário. A história que Nietzsche traça de nossa civilização não é um simples agregado de temas, mas a tentativa de mostrar que o percurso "ideológico" do Ocidente se estende em três períodos.

Estes três períodos são aqueles indicados pelas metamorfoses do espírito com as quais se abre o Assim Falou Zaratustra: como o espírito se transformou em camelo, como o camelo se transformou em leão e como o leão se transformou em criança.

Compreenda-se: nossa civilização passou primeiro pelo domínio do "tu deves", quer dizer, pelo primado da moral e da religião (= CAMELO); esta primeira etapa do espírito cede seu lugar ao domínio do "eu quero", que designa o eclipse do mundo do dever e a liberação da vontade (= LEÃO) ; enfim, o "eu quero" supera-se no "eu sou", que será uma nova relação do indivíduo com sua existência (= CRIANÇA).

Para apreender do interior estes períodos, vale a pena situar-se na etapa intermediária - domínio do "eu quero" -, que é o período do niilismo europeu. "Quem vos fala", diz Nietzsche, "é o primeiro niilista perfeito da Europa. " O niilismo é antes de tudo o território onde Nietzsche se situa para falar.

O niilismo é um cristal de várias facetas, que designam tanto acontecimentos de nossa civilização quanto um certo modo de se experimentar a existência, humana.

Em primeiro lugar, ele é um episódio de nossa civilização, pois designa o momento histórico em que se desvalorizaram os valores supremos.

Na consciência do europeu do final do século XIX, segundo Nietzsche, já se vive a morte de Deus. E o que os europeus não haviam percebido ainda era que a morte de Deus implicava a desvalorização dos valores morais: o fim do Deus cristão será o fim da moral por ele sancionada e de todos os substitutos laicizados do cristianismo.

Isso já é o niilismo: desvalorização dos valores supremos que, por isso mesmo, torna crepuscular a idéia de "dever".

Mas por que a morte de Deus deve implicar a desvalorização de todos os demais valores?

Para compreendei- isso deve-se levar em conta que, para Nietzsche, a morte de Deus é apenas um capítulo de uma história bem mais longa: a morte do mundo-verdade, ou seja, o fim do platonismo. Assim, o niilismo significará também que nada é verdadeiro, e por isso mesmo tudo é permitido.

É nesse momento do niilismo europeu que Nietzsche se situa: no momento em. que se perdeu qualquer ilusão sobre a, chance de se estabelecer verdades definitivas sobre as coisas. É esta consciência que estará na origem do tipo de análise filosófica de Nietzsche: se não há mais um "mundo-verdade", então o "espírito livre" saberá que existem apenas diferentes "interpretações". E sua tarefa será agora interpretar as interpretações: se o "cristianismo" não é mais a "verdade" mas apenas uma "perspectiva entre outras", é enquanto tal que ele deve ser analisado.

A partir de agora, a nossa "civilização" tornou-se um texto a mais submetido à análise do filólogo.

Senhores e escravos - Esta análise da civilização vai dirigir-se por uma pergunta bem determinada, que já apontará para o niilismo enquanto modo de se sentir a existência humana. Antes de lamentar a morte de nossos Ideais, convém perguntar previamente pelo valor destes valores: eles são um estímulo ou urna barreira para a vida? Será esse, antes de tudo, o tópico de Nietzsche. E se agora os valores morais detiverem mais do que os outros a atenção de Nietzsche, será pela convicção de que eles comandam todos os demais..

Para analisar o valor de nossa moral, Nietzsche vai opor dois universos espirituais: o dos senhores e o dos escravos. Esta oposição designa ao mesmo tempo um contraste entre ideais e entre modos de existência. A nossa moral é de escravos, e seus valores vão se tecendo em torno de um certo ideal de convivência.

O nosso imaginário social desenha como seu ponto ótimo uma convivência isenta de conflitos, onde se pensa que viveremos nossa "felicidade". Nada como o século XIX para procurar este estado idílico onde os conflitos desapareceriam, as "contradições" estariam enfim "superadas" e o rebanho humano poderia viver a paz, o seu sábado dos sábados.

Ora, este ideal de convivência supõe, tacitamente, uma determinada antropologia: se estes indivíduos não entram em conflito, é porque eles não aspiram a mais nada, suas vontades estão paralisadas, e por isso mesmo eles vivem a felicidade espinosiana, definida como um repouso.

Assim, nossa moral vai pregar no seu "tu deves" todas as qualidades que adocicam a vida, como o altruísmo, a piedade, o desinteresse, todo um ideário de "esgotados", que apenas exprime uma vontade anêmica. E é esta mesma vontade anêmica que está na origem de nosso desejo de crenças e convicções, nossa perpétua necessidade de apoio em uma verdade, uma religião ou uma consciência. de partido.

Por isso, nossa civilização enaltece a obediência e coloca o comando ao lado da má consciência, promovendo como figura do homem alguém preparado apenas para obedecer, um escravo, um ser domesticado, o "animal do rebanho".

Ora, ao lado de nossa moral e de nosso ideal de convivência, que se pensam únicos, existiu segundo Nietzsche, uma outra moral e um outro modo de encarar a existência. É o universo dos senhores que Nietzsche pensa redescobrir analisando a vida grega antes da "decadência" platônica.

Desde sua juventude, quando pesquisava a vida grega no mundo homérico, Nietzsche discernira ali um ideal de convivência exatamente oposto ao nosso: uma vida construída a partir de um elogio do conflito, não de sua supressão.

É o que se depreende, por exemplo, daquilo que seria o "verdadeiro significado" do ostracismo enquanto instituição na Grécia Antiga.

Se os gregos expulsavam da cidade alguém que se sobrepunha aos demais, isto não significava um freio, mas um estimulante: se expulsava o grande, o que sobressaía excessivamente, era para que os mecanismos da luta se restabelecessem, para que a disputa voltasse entre todos. É que um grego do bom período, garante Nietzsche, não conhecia felicidade sem luta, nem vitória sem disputa ulterior.

Sua vida, em suma, era a expressão mesma da vontade de potência. E foi este mundo do conflito permanente que encontrou sua expressão filosófica no vir-a-ser de Heráclito, enquanto representação de um universo onde as tensões e os conflitos perduram pela eternidade. Este homem da luta homérica será o indivíduo sujeito à moral dos senhores, onde a afirmação de si substitui as virtudes cristãs.

O mundo do escravo será agora aquele onde o indivíduo sofre com o mundo, se ressente dele. E o ressentimento será a mola propulsora deste sofredor que desejará agora vingar-se do senhor e negar o seu mundo.

O escravo, filósofo e o sacerdote serão então os personagens de um enredo através do qual se negará o mundo do vir-a-ser, graças à hipótese de três grandes mundos fictícios: o mundo moral, o mundo divino e o mundo-verdade.

Através deles, o escravo quer não abolir a dor, mas encontrar um sentido para o seu sofrimento. E o que Nietzsche nos ensina ao final da Genealogia da Moral: não foi a dor, mas a falta de sentido da dor que atormentou os fracos, e para encontrar este sentido eles inventaram seus ideais. E toda a nossa civilização cristã será um anestésico ideológico para uma existência sofredora.

A superação do niilismo - E exatamente este sentido da dor que desaparece quando ocorre a desvalorização dos valores. E seu resultado será o niilismo enquanto estado psicológico: a experiência de que a existência "não vale a pena". Em outras palavras: o niilismo enquanto desvalorização dos valores faz surgir o niilismo enquanto desvalorização da existência.

Ela é apenas dor, e dor sem sentido. E este fenômeno que Nietzsche pensa ler no pessimismo filosófico do século XIX.

Ora, este mal-estar que irrompe agora não é senão a decadência originária que exigiu o nascimento do cristianismo. O que ressurge é, nua, a experiência da vida que tinham os "fracos", despojada apenas da vestimenta ideológica que lhe dava um sentido. E o niilista será agora uma consciência infeliz: ele sabe que o mundo, tal como deveria ser, não existe, e sente que o mundo que existe não deveria ser.

Nietzsche dirá que esta situação poderá dar origem tanto à debilitação ainda maior da vontade quanto ao seu revigoramento. No fim do mundo do dever, resta um "eu quero" que poderá ser forte ou fraco. "Quem vos fala" diz Nietzsche, "é o primeiro niilista perfeito da Europa. Que superou o niilismo."

Esta superação do niilismo não será equivalente ao encontro de uma nova "meta da existência", um novo "sentido" para o sofrimento. Não será uma reedição do cristianismo. A verdadeira superação do niilismo será antes de tudo o desenraizarnento daquilo que tornava o cristianismo desejável para o escravo: a sua apreensão da existência como sendo uma fonte de sofrimento.

Será através da doutrina do eterno retorno que Nietzsche pensará a sua superação do niilismo. O eterno retorno é uma doutrina cosmológica, que tem um significado existencial. E sua formulação estará condicionada pela idéia de um universo desdivinizado: ela será a conseqüência de dois princípios cuja negação implicaria, para Nietzsche, a aceitação tácita da hipótese de Deus.

São os princípios que afirmam: 1) o tempo é infinito; 2) as forças são finitas.

Destes princípios decorrerá que tudo já retornou, pois as configurações das forças, sendo finitas, já se repetiram. E como o mundo não caminha para um estado final (que, se existisse, já teria ocorrido), então tudo retorna eternamente.

Desta doutrina Nietzsche espera um determinado efeito sobre o existente. Ela deverá operar como um postulado prático que me ensinara a viver de modo a desejar viver outra vez aquilo mesmo que ocorrer - porque assim será em todo caso.

Agora, tal postulado prático levará a uma aprovação integral da existência, ao amor aos fatos, o. dionisíaco dizer-sim à vida. Será o último ato da filosofia de Nietzsche. Que terá como preço o casamento entre a eternidade e o devir.