ENTREVISTA

Professor parte das idéias de Nietzsche e Foucault para pensar a educação

Para Jorge Larrosa, sua função é preservar a memória espiritual da humanidade

CLÁUDIO CORDOVIL

 

 

(Fonte: http://www.estado.estadao.com.br/edicao/pano/99/11/05/ca2892.html)

Sábado, 6 de novembro de 1999

Em um mundo globalizado e com seus olhos voltados para o futuro é ainda possível falar em educação e formação da personalidade ou em uma Bildung, como definem os alemães? O que significa preparar os jovens para um pensamento crítico em tempos de consumismo desenfreado, crise de valores morais e capitalismo turbinado? Ele ainda é viável? É com o auxílio do legado teórico do pensador francês Michel Foucault, em sua vertente afirmativa, nietzschiana, que Jorge Larrosa, professor de filosofia da educação da Universidade de Barcelona, pretende enfrentar esse verdadeiro mal-estar da pós-modernidade.

Conferencista convidado do Colóquio Foucault, realizado na Universidade do Estado do Rio e encerrado no dia 29, Larrosa sustenta que o discurso pedagógico dominante, dividido entre a "arrogância dos cientistas e a boa consciência dos moralistas'', há muito deixou de conceber a educação como prática da liberdade, como queria o educador Paulo Freire.

A proliferação dos discursos contemporâneos sobre o futuro no limiar do fim de milênio inviabiliza, segundo Larrosa, a possibilidade de uma Bildung, a construção da personalidade a partir da formação. Fascínio pelo futuro alardeado pelas mídias e lições do passado, combustível da educação, são excludentes: mistura inflamável, segundo Larrosa, no que se convencionou chamar de pós-modernidade.

"Como dizia Nietzsche, o futuro produz barulho e essa é uma das razões da atual crise da noção de Bildung; além disso, o filósofo alemão nos lembrava que o que importa `vem com passos de pomba'", afirma. "Eu diria que para ter uma escuta apurada para perceber o que importa no presente temos de silenciar essa barulheira sobre o futuro."

Para Larrosa, a função da educação é preservar a memória espiritual da humanidade. É a partir de Nietzsche e sua filosofia iconoclasta, esculpida a marteladas que despedaçam nossas mais caras convicções na modernidade, e das atuais ruínas de crenças no valor intrínseco da razão, da verdade e da história, que Larrosa vai buscar tijolos para construir a proposta de formação crítica do professorado em um jogo franco com o "ceticismo da liberdade e a liberdade do ceticismo" , tão bem materializadas na obra do filósofo francês Michel Foucault.

Na opinião de Larrosa, que falou no Rio sobre Foucault e a liberdade, a humanidade e os intelectuais do establishment acadêmico contemporâneo ainda sofrem com os efeitos de um hegelianismo degenerativo a ser superado, uma espécie de doença que nos faz insistir na construção de modelos filosóficos acabados que revelariam uma verdade totalizante do mundo.

 

Momentos cruciais - "É um falar sobre a crise, de olhar o social como um todo, de dar alternativas, de prever o curso do mundo a partir de um olhar totalizante e totalitario", observa. "Às vezes, a mídia e os intelectuais criam a noção de que estamos vivendo em momento crucial, mas é importante que se diga que todos os momentos são cruciais e que os nossos não são mais cruciais do que os do passado", prossegue.

"Vivemos em tempos ruins como já o fizemos antes; só um olhar retrospectivo poderia nos fazer crer que o tempo passado possui uma clareza. Pensar no presente é fazê-lo na incerteza. Não devemos pensar a crise, mas pensar na crise de nossas palavras, de nossas idéias e de nossos valores'', afirma Larrosa.

Ecos do pensamento de Nietzsche - ou de sua recepção francesa, segundo alguns -, para quem a verdade era apenas uma outra forma de mentira composta de um batalhão móvel de metáforas. Larrosa acredita que só um pensamento forjado a partir da consciência de nossa condição de seres contingentes, mortais, falíveis, que valorize o conceito de experiência no sentido artístico, e não científico, poderá recompor o ideal perdido de uma Bildung humanista. Para isso, é necessário erradicar o hegelianismo epidêmico na contemporaneidade e assumir de vez o preceito foucaultiano que afirma: "Pensar não consola nem traz felicidade."

Com seu fascínio por visões globais e totalizantes, o homem hegeliano, arrogante, pré-foucaultiano, e ainda dominante, segundo Larrosa, brinca de ser Deus. "O homem hegeliano tem a pretensão de ser imortal, mas o intelectual cético que tem em Foucault seu principal modelo é aquele que não pode e não quer controlar o efeito de suas palavras, que deve pensar sem certezas e sem garantias de que o pensamento esta do lado do futuro", sentencia.

 

Tensão, vontade, desejo - Sob essa perspectiva, para Larrosa, "o professor não é aquele que oferece uma fé, mas uma exigência". "Ele não oferece uma verdade da qual bastaria apropriar-se, mas oferece uma tensão, uma vontade, um desejo", explica. "A ele não convém a generosidade enganosa e interessada daqueles que dão algo (uma fé, uma vontade, um saber) para oprimir com aquilo que dão, para, com isso, criar discípulos ou crentes; e tampouco não lhe convém os seguidores dogmáticos e pouco ousados que buscam apoderar-se de alguma verdade sobre o mundo ou sobre si mesmos, de algum conteúdo, de algo que lhe é ensinado."

E conclui: "O professor domina a arte de uma atividade que não dá nada; por isso, não pretende amarrar os homens a si mesmos, mas procura elevá-los à sua altura ou melhor levá-los mais alto do que eles mesmos. O professor puxa e eleva, faz com que cada um se volte para si mesmo e vá além de si mesmo, que cada um chegue a ser aquilo que é."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

--------------------------------------------------------------------------------

Copyright 1999 - O Estado de S. Paulo - Todos os direitos reservados