O existencialismo cristão

(Fascículos "História do Pensamento", n.º 58. Ed. Nova Cultural, 1987, pág. 689 e 690)

O existencialismo sartriano, ao recusar Deus, nega ao homem a possibilidade da transcendência vertical, isto é, a relação de dependência e de apelo que o homem poderia manter com um ser que encerra-se em si a própria temporalidade humana, pela razão de tê-la criado. Resta a transcendência horizontal, ou a relação intersubjetiva, que Sartre exemplifica com a disputa angustiante do olhar, que objetiva o outro, tornando-o coisa.

O existencialismo cristão procura recuperar a transcendência vertical, na medida em que vê na relação com Deus um dado essencial para a elucidação da situação humana.

Tem como um de seus pressupostos básicos que o homem não pode mais aparecer como evidente para si próprio, como ocorria durante o racionalismo clássico, quando explicava seu destino por via de determinismos de várias espécies, ainda sobreviventes nas categorias de raça ou de classe. O indivíduo não pode se diluir numa determinação abstrata que faz desaparecer sua singularidade. A inquietude é a mediação entre o homem e Deus, e interfere decisivamente na compreensão que o indivíduo alcança acerca de si mesmo. O caráter "problemático" do homem como afirma Gabriel Marcel (filósofo existencialista cristão) o obriga a um questionamento radical de sua existência.

A autonomia da razão conquistada no século XVII e o desenvolvimento científico e tecnológico que se seguiu levaram o homem a colocar-se na posição de absoluto, o que estaria inscrito no sentido da famosa afirmação nietzschiana da morte de Deus. No entanto, a morte de Deus significa apenas a quebra de um determinado modo de relação com o divino, precisamente aquele calcado nas categorias tradicionais que não respondem á complexidade trágica do fenômeno humano. De muito pouco adianta, para a compreensão de minha situação existencial, considerar Deus como causa do homem, pois a categoria de causalidade é muito mais adequada para a explicação de coisas, não de existências.

O homem está frente à transcendência divina numa relação medida pela inquietude, como bem o viram Santo Agostinho e Pascal. Nesse sentido, a filosofia autêntica só pode ser dramática, porque ela tem muito mais mistérios sobre os quais refletir do que problemas a resolver.