ETERNO RETORNO: PROVA MAIOR
(Do livro: Nietzsche: a vida como valor maior, Alfredo Naffah Neto, FTD, São Paulo, 1996, p. 76-83)
Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser.
Tudo morre, tudo refloresce, eternamente transcorre o ano do ser.
Tudo se desfaz, tudo é refeito;
eternamente fiel a si mesmo permanece o anel eternamente constróí-se a mesma casa do ser.
Tudo se separa, tudo volta a se encontrar;do ser.
Em cada instante começa o ser; em torno de todo o "aqui " rola a bola "acolá ".
O meio está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade.
FRIEDRICH NIETZSCHE, Assim falou Zaratustra, "0 convalescente", § 2.
Quando Nietzsche se pergunta o que é o mundo, ele assim o descreve (l978: 397): "como força por toda parte, como jogo de forças e ondas de forças, ao mesmo tempo um e múltiplo, aqui articulando-se e ao mesmo tempo ali minguando, um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias, eternamente recorrentes [... ], abençoando a si próprio como aquilo que eternamente tem que retornar, como um vir-a-ser que não conhece nenhuma saciedade, nenhum fastio, nenhum cansaço."
Uma usina em ebulição - Esse mundo descrito por Nietzsche, como "um mar de forças tempestuando e ondulando", que em muitos aspectos evoca os quadros de Van Gogh, é como uma usina: eternamente se produzindo, se rompendo, se recompondo, se reconstruindo. Aí, cada instante traz em torno de si todo o passado e todo o futuro que ele projeta: enlaça-os e os agita como num caldeirão, lançando-os, em seguida, como num jogo de dados ou de búzios. Assim, cada instante retraça a sorte e o destino, fazendo retornar o mundo com tudo o que ele tem de bom e de ruim, de grande e de pequeno, de cintilante e de opaco. E, no fundo desse caldeirão, cada um de nós é enlaçado, agitado e recriado, em cada instante em que o ser recomeça, em cada um dos múltiplos anéis em que retorna.
O eterno retorno é a grande prova, o grande teste de vida pelo qual cada homem tem de passar, como nos conta Nietzsche em A gaia ciência (1978: 208):
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "esta vida, assim como tua avives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência- e do mesmo modo essa aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!" Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes"" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou, então, com terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
Amor ao destino - É imponderável o quanto cada um de nós necessita estar bem consigo próprio e com a vida para dizer: "Quero isso inúmeras vezes, quero isso eternamente!". Por isso, o eterno retorno é posto por Nietzsche como um imperativo ético, seletivo. Para passar por essa prova, qualquer homem deverá ter vencido todos os ressentimentos, azedumes e depreciações com relação à vida, deverá estar imbuído daquilo que Nietzsche denominou amor fati (amor ao destino), que significa não querer nada de outro modo, nem para diante nem para trás, nem em toda a eternidade, conforme disse o filósofo em um de seus derradeiros escritos.
"O mundo e o "eu" que retornam, em cada instante, trazem consigo todas as pequenezas e todas as grandezas que lhe são próprias, o que não poderia ser de outra forma, desde que não existe nenhum outro mundo, assim como nenhum outro "eu". Poder-se-ia, entretanto, argumentar que todos os entes do mundo (incluindo os inúmeros "eus") estão em contínuo devir, ou seja, transmutando-se ininterruptamente em 'outros mundos', 'outros eus'."
De fato, esse é o pensamento de Nietzsche. Contudo, esse devir não torna o mundo ou o "eu" entes mais perfeitos, mais ideais; ele somente faz retornar aquilo que é terreno, mundano, imperfeito por natureza. Isso significa que todas essas transformações carregam, elas também, as pequenezas e as grandezas que caracterizam a esfera humana.
Por isso, o ato de acolher e amar tudo o que retorna e desejá-lo repetidamente envolve um tal nível de aceitação da vida, do mundo e de si próprio, que atingir tal estado implica uma transmutação total dos valores morais, ultrapassando a cisão que normalmente fazem entre Bem e Mal. Nesse sentido, aquele que for capaz de tal proeza não será mais um homem comum, terá atingido urna condição sobre-humana, além do homem.
A noção de além-do-homem (muitas vezes mal traduzida como super-homem) designa o valor mais alto no ciclo de transvalorações envolvido no projeto nietzschiano (belamente descrito em Assim falou Zaratustra). Como valor, designa una nova maneira de estar no mundo: inocentemente, sendo capaz de assumir a existência como puro jogo e aventura, tendo-se livrado dos pesos morais e se tornado um dançarino das linhas da vida, a encarnação de urna força afirmativa, capaz de dizer "sim" ao destino humano e, assim, ultrapassá-lo em direção a formas mais altas.
Aqui encontramos, talvez, a grande importância de Nietzsche para este final de século XX: a possibilidade de redescoberta do valor da vida. Num mundo onde a vontade de potência se degrada em vontade de domínio e o poder criador em poder normalizador, homogeneizante; onde os valores vitais cedem o lugar principal a valores de sobrevivência, seja pelas condições materiais cada vez mais difíceis, seja pelo torpor comodista a que nos incita o mundo do consumo, é fundamental poder alçar a vista para horizontes menos estreitos, menos medíocres, menos conformados, perceber que existem outras maneiras de viver, não importando quão distantes elas possam estar da existência concreta de cada um. Pois cada gota desse néctar, conquistado a duras penas, pode valer uma eternidade.
A felicidade de estar vivo - Num excelente ensaio denominado "Pensamento nômade" (cf. MARTON, 1985: 56-7), Gilles Deleuze se pergunta:
Quem é hoje o jovem nietzschiano? Será aquele que prepara um trabalho sobre Nietzsche? É possível. Ou bem será aquele que, voluntária ou involuntariamente, pouco importa, produz enunciados particularmente nietzschianos no decorrer de uma ação, de uma paixão, de uma experiência?
Não sei falar dos outros. No meu caso, descobrir Nietzsche na época em que vivia uma intensa paixão por um filho recém-nascido.
E continuo redescobrindo-o, cada vez que mergulho de forma exuberante em alguma experiência, qualquer que seja ela: a dor da perda de um ente querido, a energia revitalizadora de uma relação amorosa, o entusiasmo rítmico de uma dança, a atmosfera inebriante de uma música ou, simplesmente, a pura felicidade de estar vivo.
Então me pergunto, como José Miguel Wisnik, em sua música Mais simples:
A vida leva e traz,
A vida faz e refaz,
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?
ATIVIDADES
VAMOS REFLETIR
Faça a prova do eterno retorno com você mesmo. Leia o desafio do demônio, depois responda: você aceitaria o desafio de viver sua vida inúmeras vezes, exatamente da mesma forma? Justifique