O eterno retorno
Nelson boeira
(Do livro: "Nietzsche". Jorge Zahar Editor, ano 2002, pág. 41-43)
O mais importante - e o mais controverso e obscuro - dos conceitos que Zaratustra vem anunciar é o do "eterno retorno" O conceito fora anunciado no aforismo 341 de A gaia ciência: "E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: essa vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terá de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida haverão de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência..."
Em primeiro lugar, a idéia de um eterno retorno nos convida a um experimento mental: representar para nós mesmos o "mundo" - a totalidade dos seres - sem recorrer a qualquer instância metafísica, a um "mundo por trás deste mundo" um mundo "mais verdadeiro e mais real" do que o acessível à nossa experiência natural.
O "mundo" pensado como eterno retorno é realidade em constante mudança, sem causas nem finalidades, sem forças ou deuses que lhe imponham uma direção definida, à exclusão de outras. Com o eterno retorno, o "mundo" é pensado como entregue ao jogo infinito do tempo e à sucessão caótica de suas forças em luta por afirmação. Dado que o tempo é infinito e as formas de existência que a realidade é capaz de assumir são finitas, pode-se conceber que estas se repetirão indefinidamente e, portanto, retornarão perpetuamente, não importa quão grande seja sua diversidade e número.
Subjacente a esse experimento, está a idéia de que, dado o eterno retorno do mesmo, cada ocorrência particular de nossa existência supõe todas as ocorrências anteriores, inclusive suas versões prévias. Em outras palavras, suposto o eterno retorno, tanto nossas experiências positivas como negativas não poderiam deixar de ocorrer senão da maneira que ocorreram. Neste caso, cada momento de nossa existência implica toda a série de antecedentes passados que o tornaram possível (e também as séries futuras). Se assim é, não podemos seriamente desejar ou aprovar qualquer aspecto de nossa existência sem desejar igualmente todos os seus antecedentes.
Portanto, a aceitação de nossas experiências felizes implica na aceitação de nossas infelicidades, pois a aceitação de qualquer parcela de nossa existência supõe a aceitação de toda a nossa existência. Desejar que parcelas de nossa existência tivessem sido diferentes e desejar que o curso da realidade tenha sido distinto do que é ou do que foi. Isto seria desejar o impossível: negar a realidade.
Eis o experimento moral que Nietzsche nos convida a fazer: desejar viver como se cada momento de nossas vidas fosse retornar. Amor fati, amar o que nos acontece, desejando o nosso destino - esta é a indicação mais aguda de que, de fato, nossa vontade e nossas forças estão inteiramente investidas no que fazemos, coincidentes com o movimento da realidade.
"Minha fórmula para a grandeza no homem é o amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo - todo o idealismo é mendacidade ante o necessário - mas amá-lo." O amor pela totalidade de minha experiência deve, pois, derivar do meu reconhecimento e minha aceitação da realidade que a constitui. Devo mostrar apreço à realidade tal qual existe e existiu, pois ela é, nestes termos, a única fonte possível da experiência humana e, portanto, da plenitude humana possível. Qualquer forma de negação da realidade, direta ou indireta, expressa ou oculta, é uma negação do ser humano que efetivamente sou. Em outras palavras: é preciso estar à altura do que nos acontece.