VIDA E VONTADE DE POTÊNCIA
(Do Livro: A vida como valor maior - Nietzsche", Alfredo Naffah Neto, F.T.D., 1996, São Paulo, pág. 52 - 74)
Necessitamos de uma crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colocado em questão. Para isso é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias nas quais nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram... (FRIEDRICH NIETZSCHE, Genealogia da moral, prólogo, § 6)
Se os valores morais intoxicam a vida, disciplinando-a, ordenando-a, dividindo-a em Bem e Mal, consequentemente repudiando toda uma dimensão vital básica, e se isso teve como desenvolvimento levar o homem a renunciar à vida terrena e ao mundo real, em prol de uma vida eterna e de um mundo imaginário, inexistente, então é preciso uma investigação minuciosa da constituição desses valores.
Reflexões desse tipo levaram Nietzsche à criação da genealogia, que, de forma geral, pode ser descrita como uma investigação das condições de nascimento, desenvolvimento e transformação dos valores morais. E como os valores morais impregnam, em maior ou menor grau, todas as práticas e produções humanas, a genealogia estende sua investigação crítica a tudo de humano que já foi criado ou que ainda venha a sê-lo.
Mas a genealogia, diferentemente de outras práticas filosóficas, não pode fundar suas investigações num critério de verdade. Vamos tentar entender por quê.
O critério do verdadeiro - De forma geral, podemos dizer que toda a filosofia e também as ciências do mundo ocidental apoiam-se em alguma noção de verdade, seja ela qual for. O critério que define" sempre, se uma afirmação filosófica ou uma afirmação filosófica ou uma lei científica são válidas é o fato de elas poderem ser consideradas como verdadeiras. E aí os critérios de verdade são os mais variados possíveis. Há escolas filosóficas que defendem um critério de verdade fundamentado em observações empíricas e na consistência lógica das proposições, como o positivismo lógico, por exemplo.
Positivismo lógico - Essa corrente filosófica afirma que só é compreensível e possui sentido aquilo que pode ser comprovado pela experiência; que, consequentemente, todas as afirmações metafísicas carecem de sentido. Seu objetivo é constituir uma linguagem científica unificada, por meio de uma lógica simbólica, verdadeira língua comum a todas as ciências.
A Fenomenologia, por sua vez, defende um critério de verdade apoiado na forma como as coisas aparecem e se revelam à consciência e no quanto as afirmações filosóficas possam ser fiéis a essa descrição. De forma análoga, as ciências também assumem critérios de verdade, embora não reflitam sobre eles, como faz a filosofia; essa reflexão acontece num campo denominado filosofia das ciências.
A definição clássica de verdade fala de uma adequação entre a enunciação e o enunciado.
Complicado? Nem tanto: isso quer dizer que é considerada verdadeira a afirmação (reflexão filosófica ou lei científica, tanto faz) que consegue adequar a sua expressão, proposição (seja ela uma construção verbal ou uma fórmula matemática), àquilo que pretende apreender e expressar (seu objeto de estudo). Adequação quer dizer, aí, correspondência ponto por ponto entre os dois campos: o da enunciação (que é a afirmação propriamente dita, tecida no âmbito da linguagem, seja ela verbal ou algorítmica) e o do enunciado (aquilo que é afirmado: uma propriedade ou uma relação articulando fatos, acontecimentos, regulares ou não, do mundo existente).
A crítica nietzschiana à noção de verdade apoia-se, justamente, neste ponto: a afirmação de que é impossível a correspondência entre a linguagem (qualquer que seja ela) e o mundo real. Num belíssimo texto denominado Introdução teorética sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral, ele desenvolve as principais reflexões sobre essa questão.
O argumento central do texto nietzschiano é que qualquer palavra adquire a dimensão de conceito - que é a ferramenta de qualquer forma de pensamento racional - quando abandona e desconsidera as diferenças singulares entre as coisas e os acontecimentos do mundo. Por exemplo, quando pronuncio a palavra "folha", todos imaginam que o som dela se refere a alguma realidade empírica. Entretanto, para poder traduzir todas as folhas reais, tão diferentes umas das outras, por esse som unitário e invariável, é preciso jogar fora todas as características singulares que tornam cada folha uma realidade única, incomparável, intraduzível.
O conceito constrói um esqueleto descarnado do mundo. Esse esqueleto é um signo de reconhecimento, quer dizer, sua utilidade é possibilitar a comunicação entre os homens, diante das utilidades da vida prática, das necessidades de sobrevivência. Todo o contra-senso é pretender que signo como esse e a realidade possa haver alguma correspondência que não seja meramente convencional, portanto arbitrária.
A partir de raciocínios como esse, Nietzsche conclui que não há critérios intrínsecos para avaliar se uma enunciação é verdadeira. Dependendo do critério particular e convencional adotado, qualquer uma poderá ser verdadeira ou falsa. Mais do que isso: os critérios de verdade, quaisquer que sejam, estão sempre ligados a certas forças que detêm o poder e que impõem uma interpretação particular, própria, como se fosse universal.
Portanto, qualquer verdade sempre traduz a relação dos homens com o mundo, a forma como se apropriam e se utilizam das coisas; seu ângulo de visão, perspectiva, está sempre articulado por códigos, interpretações de mundo dominantes, que são as forças que dão forma a tudo o que os homens comuns vêem, tudo em que acreditam.
As verdades são, pois, segundo Nietzsche (s.d.: 94), "um conjunto de relações humanas poeticamente e retoricamente erguidas, transpostas, enfeitadas, e que, depois de um longo uso, parecem a um povo firmes, canoniais e constrangedoras: as verdades são ilusões que nós esquecemos que o são". Essa é a razão pela qual a genealogia não pode fundar-se sobre um critério de verdade.
A vida: critério dos critérios e valor dos valores - Se é preciso uma crítica radical dos valores, se é necessário avaliar o valor de todos os valores humanos, sem ter mais à mão um critério de verdade, então é fundamental um outro critério que seja válido e inquestionável, que esteja acima de todos os outros.
Esse critério, segundo Nietzsche, é a vida. Só ele pode decidir se um valor é bom ou ruim. Como?
Partindo do critério vida, só se podem avaliar como bons os valores que estiverem servindo à sua expansão, intensificação e enriquecimento. E como ruins aqueles que estiverem criando condições para sua despotencialização, enfraquecimento, empobrecimento. Isso significa considerar vida como nunca se fez antes.
É preciso diferenciar vida da sobrevivência. Grosso modo, a sobrevivência descreve um empobrecimento da vida; quando meramente sobrevivemos, isso quer dizer que estamos vivendo de forma bastante precária, incipiente. A vida é um fluir de intensidades que se apropriam de mundo e se expandem em novas intensidades, num movimento crescente e inesgotável. Sem dúvida, ela engloba a sobrevivência, mas como sua dimensão mais baixa, seu alicerce, esse funcionamento adaptativo que pode ser o ponto de apoio para movimentos de maior expansão, criativos, transformadores. A sobrevivência depaupera a vida quando a reduz a seus horizontes utilitários, toscos.
Por isso, diante do critério vida, um ato suicida pode até ter um valor importante, na impossibilidade de uma sobrevivência mesquinha expandir-se numa vida mais potente: por exemplo, um prisioneiro político que se suicida, ao se saber fadado a uma morte lenta e humilhante nas mãos dos inimigos.
Há, também, ocasiões em que a luta pela sobrevivência pode gerar valores de vida bastante preciosos: por exemplo, quando uma pessoa com uma doença grave é levada, na luta pela sobrevivência, a se defrontar com a morte e, a partir daí, a reavaliar a própria vida.
A morte como parte da vida - É importante ressaltar que o valor vida implica o valor morte como sua condição. Uma vida só adquire plena potência se é capaz de se desdobrar numa morte e num renascimento constantes, ou seja, a perda, a privação, o ocaso, são ocasiões de fortalecimento e de enriquecimento de tudo que, de vivo, floresce a partir daí. Mais do que isso, a morte é, para o herói trágico, "o julgamento, livremente escolhido", que dá valor à existência. Isso é o que Nietzsche (1988: 431) diz num dos fragmentos póstumos em que faz o elogio de Wagner, como poeta trágico:
"Mas sob que luz ele [Wagner] vê todo o passado, tudo o que se cumpriu? É aqui que é preciso pôr em realce a admirável significação da morte: a morte é o julgamento mas o julgamento livremente escolhido, desejado, pleno de uma horrível sedução, como se ela fosse mais do que uma porta aberta sobre o nada. (Sobre cada um dos passos mais firmes que a vida dá sobre o palco, ressoa surdamente a morte.) A morte é o selo batido sobre toda grande paixão e sobre toda existência heróica; sem ela a existência não tem valor. Estar maduro para ela é a coisa mais alta que se pode conseguir, mas também a mais difícil, que só se atinge através de combates e sofrimentos heróicos. Cada morte desse gênero é um evangelho do amor; e toda a música é uma metafísica do amor; ela é uma aspiração e um querer num domínio que aparece ao olhar comum como o domínio do não-querer, um banho no mar do esquecimento, um jogo de sombras espantoso de uma paixão desaparecida."
É evidente que, nesse texto, Nietzsche está falando da forma como Wagner-poeta-trágico constrói seus enredos e seus personagens no palco e como esses personagens se relacionam com a vida e com a morte. Assim, nos conta em que medida o valor vida implica o valor morte, o que reforça a idéia de que, no vocabulário nietzschiano, vida e sobrevivência jamais se confundem, pois se, por um lado, vida implica morte, por outro, sobrevivência e morte são valores antagônicos.
Como conseqüência, jamais se confundem, também, quaisquer avaliações feitas a partir de valores vitais com aquelas feitas a partir de valores de sobrevivência. No primeiro caso, o que é avaliado é se as forças em foco geram movimentos de expansão, intensificação, potencialização ou de coartação, confinamento, despotencialização da vida considerada; no segundo caso, avalia-se o quanto determinados processos são adaptativos, capazes de garantir, em maior ou menor grau, a sobrevivência.
É importante ressaltar que a genealogia, ao fazer a crítica dos valores morais, não funda uma nova moral, como pode eventualmente parecer a algum olhar menos arguto. Considerar ruins os valores que despotencializam, enfraquecem e empobrecem a vida não significa submetê-la a um crivo, selecionando uma parte boa e uma parte má, como fazia a moral. Trata-se, sem dúvida, de uma seleção, mas de outro tipo e com outra finalidade: proteger a vida contra todos os valores que, por operarem um tipo de seleção moral, a enfraquecem e a empobrecem.
O termo ruim da avaliação genealógica não é equivalente ao termo mau da avaliação moral. Ruim, nesse caso, significa aquele valor que faz da fraqueza, da incompetência, da impotência, uma virtude, ou seja, ruim é aquele valor que exalta o fraco. Mau, na avaliação moral, significa malvado, cruel, indigno, execrável. São coisas distintas.
Ao tomar a vida como critério maior, a genealogia sabe valorizar todas as suas formas, mesmo nos casos-limite, nos quais ela se encontra tão intoxicada de valores morais que mal se conseguem visualizar os traços de sua potência. Mesmo esses casos a genealogia os avalia como encarnando o único tipo de vida possível naquelas circunstâncias, discriminando aí os recursos pelos quais a potência vital procura se preservar, a despeito de todas as condições desfavoráveis.
Ética x Moral - Ao tentar criar um abrigo para a vida, defendendo-a a qualquer preço, a genealogia nietzschiana acaba por se, fundar como uma ética, fazendo jus à etimologia do termo grego éthos, que originalmente significava abrigo, morada. Ocorre aí algo sui generis no universo filosófico: a diferenciação e oposição entre dois termos normalmente interligados e postos numa mesma direção - moral e ética.
Segundo Gilles Deleuze no referencial nietzschiano tais termos podem ser considerados antônimos: a moral designando aquela forma de avaliação degeneradora da vida; a ética, ao contrário, designando o sentido assumido pela genealogia nietzschiana, ao tentar restaurar aquilo que a moral deteriorou. É verdade que essa discriminação entre os dois termos nunca foi realizada dessa forma tão explícita pelo filósofo alemão, o que não significa que não sejam dignas de consideração as ponderações feitas por Deleuze nessa direção.
A vontade de potência - O conceito central da ética nietzschiana, também fruto de múltiplos mal-entendidos, denomina-se vontade de potência ou vontade de poder, conforme as duas traduções que normalmente são dadas ao alemão Wille zur Macht. Podemos dizer que, dentro da perspectiva genealógica, vontade de potência e vida são sinônimos; entretanto, a filosofia nietzschiana desdobra-se também numa cosmologia, e no interior dessa cosmologia o conceito tem uma abrangência maior, uma vez que inclui o mundo inorgânico.
Apesar de todas as dificuldades que cercam essas questões, vamos tentar definir, aqui, o significado de vontade de potência. O conceito é formado por dois termos: vontade e potência, ligados pela preposição de.
Em primeiro lugar, convém não tomar o termo vontade com o sentido que ele adquiriu na psicologia contemporânea, como faculdade da mente humana. Ele descreve aí um conjunto de forças impessoais, anônimas, sempre em luta, envolvidas em movimentos de expansão, exaltação, apropriação, transmutação, operando uma contínua destruição e criação de formas.
O segundo termo, potência ou poder, indica justamente aquilo que constitui a vontade e que, do seu âmago, pulsa, luta e se desdobra, em busca de expansão, exaltação. Nesse sentido, a vontade não é carente de potência. Aliás, não é carente de nada; no dizer de Heidegger, a vontade quer a si mesma, seu crescimento, sua superação, e a potência só é potência à medida que continua a ordenar-se mais potência, permanentemente a caminho de si mesma, em contínuo devir.
Finalmente, convém esclarecer, seguindo as indicações de Gilles Deleuze, que o poder ou potência de que se fala aqui é um poder criador: criador de vida, criador de mundo, criador de subjetividades, ou, num só termo, criador de valores. Nesse sentido, o conceito adquire uma abrangência que transpassa todo o universo. Como diz Nietzsche (l978: 397): "Esse mundo é a vontade de potência - e nada além disso!". E também vós sois essa vontade de potência - e nada além disso!".
Talvez a melhor expressão poética da vontade de potência (na sua sinonímia com a vida) nos seja dada por Chico Buarque, em sua música Vida:
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Vida, minha vida, Olha o que é que eu fiz. Deixei a fatia Mais doce da vida Na mesa dos homens De vida vazia. Mas vida, Ali quem sabe Eu fui feliz. [...I Luz, quero luz, Sei que além das cortinas São palcos azuis, E infinitas cortinas |
Com palcos atrás. Arranca, vida, Estufa, veia, E pulsa, pulsa, pulsa, Pulsa, pulsa mais. Mais, quero mais, Nem que todos os barcos Recolham ao cais, Que os faróis da costeira Me lancem sinais. Arranca, vida, Estufa, vela, Me leva, leva longe, Longe, leva mais... |