A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL[1]

 

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Tais obras, quaisquer que sejam seus funcionamentos causas e conseqüência, têm infinito mérito  e dão grande crédito aos talentos deste homem mui engenhoso e útil, que terá o mérito de onde quer que vá fazer com que os homens pensem... Livre-se desta indiferença estúpida, sonolenta e preguiçosa,  desta negligência indolente  que prende os homens aos mesmos caminhos de seus antepassado, sem indagação sem raciocínio e sem ambição e com certeza você estará jazendo o bem. Que seqüência de idéias que espírito de aplicação. que massa e poder de esforço brotaram em lodos os caminhos da vida das obras de homens como Brindley, Walt, Priestley, ArkwrighI... Em que caminho da vida pode estar um homem que não se sinta estimulado ao ver a máquina a vapor de WaII?

Arthur Young, Viagens na Inglaterra e no País de Gales

 

Desta vala imunda a maior corrente da indústria humana flui para fertilizar o mundo todo. Deste esgoto imundo jorra ouro puro. Aqui a humanidade atinge o seu mais completo desenvolvimento e sua maior brutalidade aqui a civilização faz milagres e o homem civilizado torna-se quase um selvagem.

  1. de Toqueville a respeito de Manchester em 1835

 

I

 

Comecemos com a revolução industrial, isto é, com a Inglaterra. Este, à primeira vista, é um ponto de partida caprichoso, pois as repercussões desta revolução não se fizeram sentir de uma maneira óbvia e inconfundível - pelo menos fora da Inglaterra - até bem o final do nosso período; certamente não antes de 1830, provavelmente não antes de 1840 ou por essa época. Foi somente na década de 1830 que a literatura e as artes começaram a ser abertamente obcecadas pela ascensão da sociedade capitalista, por um mundo no qual todos os laços sociais se desintegravam exceto os laços entre o ouro e o papel-moeda (no dizer de Carlyle). A Comédie Humaine de Balzac, o mais extraordinário monumento literário dessa ascensão, pertence a esta década. Até 1840 a grande corrente de literatura oficial e não oficial sobre os efeitos sociais da revolução industrial ainda não começara a fluir: os Blue Books e as averiguações estatísticas na Inglaterra, o Tableau de I'état physique et moral des ouyriers de Villermé, a obra de Engels A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra o trabalho de Ducpetiaux na Bélgica, e dezenas e dezenas de observadores surpresos ou assustados da Alemanha à Espanha e EUA. Só a partir da década de 1840 é que o proletariado, rebento da revolução industrial, e o comunismo, que se achava agora ligado aos seus movimentos sociais - o espectro do Manifesto Comunista -, abriram caminho pelo continente. O próprio nome de revolução industrial reflete seu impacto relativamente tardio sobre a Europa. A coisa existia na Inglaterra antes do termo. Os socialistas ingleses e franceses - eles próprios um grupo sem antecessores - só o inventaram por volta da década de 1820, provavelmente por analogia com a revolução política na França.

Ainda assim, seria de bom alvitre considerá-la primeiro, por duas razões. Primeiro, porque de fato ela "explodiu" - usando a expressão como um axioma - antes que a Bastilha fosse assaltada; e, segundo, porque sem ela não podemos entender o vulcão impessoal da história sobre o qual nasceram os homens e acontecimentos mais, importantes de nosso período e a complexidade desigual de seu ritmo.

O que significa a frase "a revolução industrial explodiu"? Significa que a certa altura da década de 1780, e pela primeira vez na história da humanidade, foram retirados os grilhões do poder produtivo das sociedades humanas, que daí em diante se tornaram capazes da multiplicação rápida, constante, e até o presente ilimitada, de homens, mercadorias e serviços. Este fato é hoje tecnicamente conhecido pelos economistas como a "partida para o crescimento auto-sustentável". Nenhuma sociedade anterior tinha sido capaz de transpor o teto que uma estrutura social pré-industrial, uma tecnologia e uma ciência deficientes, e consequentemente o colapso, a fome e a morte periódicas, impunham à produção. A "partida" não foi logicamente um desses fenômenos que, como os terremotos e os cometas, assaltam o mundo não técnico de surpresa. Sua pré-história na Europa pode ser traçada, dependendo do gosto do historiador e do seu particular interesse, até cerca do ano 1000 de nossa era, se não antes, e tentativas anteriores de alçar vôo, desajeitadas como as primeiras experiências dos patinhos, foram exaltadas com o nome de "revolução industrial" - no século XIII, no XVI e nas últimas décadas do XVII. A partir da metade do século XVIII, o processo de acumulação de velocidade para partida é tão nítido que historiadores mais velhos tenderam a datar a revolução industrial de 1760. Mas uma investigação cuidadosa levou a maioria dos estudiosos a localizar como decisiva a década de 1780 e não a de 1760, pois foi então que, até onde se pode distinguir, todos os índices estatísticos relevantes deram uma guinada repentina, brusca e quase vertical para a "partida". A economia, por assim dizer, voava.

Chamar este processo de revolução industrial é lógico e está em conformidade com uma tradição bem estabelecida, embora tenha sido moda entre os historiadores conservadores - talvez devido a uma certa timidez face a conceitos incendiários - negar sua existência e substituí-la por termos banais como "evolução acelerada”. Se a transformação rápida, fundamental e qualitativa que se deu por volta da década de 1780 não foi uma revolução, então a palavra não tem qualquer significado prático. De fato, a revolução industrial não foi um episódio com um princípio e um fim. Não tem sentido se perguntar quando se “completou”, pois sua essência foi a de que a mudança revolucionária se tornou norma deste então. Ela ainda prossegue; quando muito podemos perguntar quando as transformações econômicas chegaram longe o bastante para estabelecer uma economia substancialmente industrializada, capaz de produzir, em termos amplos, tudo que desejasse dentro dos limites das técnicas disponíveis, uma "economia industrial amadurecida" para usarmos o termo técnico. Na Grã-Bretanha, e portanto no mundo, este período de industrialização inicial provavelmente coincide quase que exatamente com o período de que trata este livro, pois se ele começou com a "partida" na década de 1780, pode-se dizer com certa acuidade que terminou com a construção das ferrovias e da indústria pesada na Grã-Bretanha na década de 1840. Mas a revolução mesma, o "ponto de partida", pode provavelmente ser situada, com a precisão possível em tais assuntos, em certa altura dentro dos 20 anos que vão de 1780 a 1.800: contemporânea da Revolução Francesa, embora um pouco anterior a ela.

Sob qualquer aspecto, este foi provavelmente o mais importante acontecimento na história do mundo, pelo menos desde a invenção da agricultura e das cidades. E foi iniciado pela Grã Bretanha. É evidente que isto não foi acidental. Se tivesse que haver uma disputa pelo pioneirismo da revolução industrial no século XVIII, só haveria de fato um concorrente a dar a largada: o grande avanço comercial e industrial de Portugal à Rússia, fomentado pelos inteligentes e nem um pouco ingênuos ministros e servidores civis de todas as monarquias iluminadas da Europa, todos eles tão preocupados com o crescimento econômico quanto os administradores de hoje em dia. Alguns pequenos Estados e regiões de fato se industrializaram de maneira bem impressionante, como por exemplo a Saxônia e a diocese de Liège, embora seus complexos industriais fossem muito pequenos e localizados para exercer a mesma influência revolucionária mundial dos complexos britânicos. Mas parece claro que até mesmo antes da revolução a Grã-Bretanha já estava, no comércio e na produção per capita, bastante à frente de seu maior competidor em potencial, embora ainda comparável a ele em termos de comércio e produção totais.

Qualquer que tenha sido a razão do avanço britânico, ele não se deveu à superioridade tecnológica e cientifica. Nas ciências naturais os franceses estavam seguramente à frente dos ingleses, vantagem que a Revolução Francesa veio acentuar de forma marcante, pelo menos na matemática e na física, pois ela incentivou as ciências na França enquanto que a reação suspeitava delas na Inglaterra. Até mesmo nas ciências sociais os britânicos ainda estavam muito longe daquela superioridade que fez - e em grande parte ainda faz - da economia um assunto eminentemente anglo-saxão; mas a revolução industrial colocou-os em um inquestionável primeiro lugar. O economista da década de 1780 lia Adam Smith, mas também - e talvez com mais proveito - os fisiocratas e os contabilistas fiscais franceses, Quesnay, Turgot, Dupont de Nemours, Lavoisier, e talvez um ou dois italianos. Os franceses produziram inventos mais originais, como o tear de Jacquard ( 1804) - um aparelho mais complexo do que qualquer outro projetado na Grã-Bretanha - e melhores navios. Os alemães possuíam instituições de treinamento técnico, como a Bergakademie prussiana, que não tinham paralelo na Grã-Bretanha, e a Revolução Francesa criou um corpo único e impressionante, a Ecole Polytechnique. A educação inglesa era uma piada de mau gosto, embora suas deficiências fossem um tanto compensadas pelas duras escolas do interior e pelas universidades democráticas, turbulentas e austeras da Escócia calvinista, que lançavam uma corrente de jovens racionalistas, brilhantes e trabalhadores, em busca de uma carreira no sul do país: James Watt, Thomas Telford, loudon McAdam, James Mill. Oxford e Cambridge, as duas únicas universidades inglesas, eram intelectualmente nulas, como o eram também as sonolentas escolas públicas, com a exceção das Academias fundadas pelos Dissidentes" (Dissenters) que foram excluídas do sistema educacional (anglicano). Até mesmo as famílias aristocráticas que desejavam educação para seus filhos confiavam em tutores e universidades escocesas. Não havia qualquer sistema de educação primária antes que o Quaker Lancaster (e, depois dele, seus rivais anglicanos) lançasse uma espécie de alfabetização em massa, elementar e realizada por voluntários, no princípio do século XIX, incidentalmente selando para sempre a educação inglesa com controvérsias sectárias. Temores sociais desencorajavam a educação dos pobres.

Felizmente poucos refinamentos intelectuais foram necessários para se fazer a revolução industrial. Suas invenções técnicas foram bastante modestas, e sob hipótese alguma estavam além dos limites de artesãos que trabalhavam em suas oficinas ou das capacidades construtivas de carpinteiros, moleiros e serralheiros: a lançadeira, o tear, a fiadeira automática. Nem mesmo sua máquina cientificamente mais sofisticada, a máquina a vapor rotativa de James Watt (1784), necessitava de mais conhecimentos de física do que os disponíveis então há quase um século - a teoria adequada das máquinas a vapor só foi desenvolvida ex post facto pelo francês Carnot na década de 1820 - e podia contar com várias gerações de utilização, prática de máquinas a vapor, principalmente nas minas. Dadas as condições adequadas, as inovações técnicas da revolução industrial praticamente se fizeram por si mesmas, exceto talvez na indústria química. Isto não significa que os primeiros industriais não estivessem constantemente interessados na ciência e em busca de seus benefícios práticos.

 

Mas as condições adequadas estavam visivelmente presentes na Grã-Bretanha, onde mais de um século se passara desde que o primeiro rei tinha sido formalmente julgado e executado pelo povo e desde que o lucro privado e o desenvolvimento econômico tinham sido aceitos como os supremos objetivos da política governamental. A solução britânica do problema agrário, singularmente revolucionária, já tinha sido encontrada na prática. Uma relativa quantidade de proprietários com espírito comercial já quase monopolizava aterra, que era cultivada por arrendatários empregando camponeses sem terra ou pequenos agricultores. Um bocado de resquícios, verdadeiras relíquias da antiga economia coletiva do interior, ainda estava para ser removido pelos Decretos das Cercas (Enclosure Acts) e as transações particulares, mas quase praticamente não se podia falar de um "campesinato britânico" da mesma maneira que um campesinato russo, alemão ou francês. As atividades agrícolas já estavam predominantemente dirigidas para o mercado; as manufaturas de há muito tinham-se disseminado por um interior não feudal. A agricultura já estava preparada para levar a termo suas três funções fundamentais numa era de industrialização: aumentar a produção e a produtividade de modo a alimentar uma população não agrícola em rápido crescimento; fornecer um grande e crescente excedente de recrutas em potencial para as cidades e as indústrias; e fornecer um mecanismo para o acúmulo de capital a ser usado nos setores mais modernos da economia. (Duas outras funções eram provavelmente menos importantes na Grã-Bretanha: a criação de um mercado suficientemente grande entre a população agrícola - normalmente a grande massa do povo -e o fornecimento de um excedente de exportação que contribuísse para garantir as importações de capital.) Um considerável volume de capital social elevado - o caro equipamento geral necessário para toda a economia progredir suavemente –j á estava sendo criado, principalmente na construção de uma frota mercante e de facilidades portuárias e na melhoria das estradas e vias navegáveis. A política já estava engatada ao lucro. As exigências específicas dos homens de negócios podiam encontrar a resistência de outros interesses estabelecidos; e, como veremos, os proprietários rurais haviam de erguer uma última barreira para impedir o avanço da mentalidade industrial entre 1795 e 1846. No geral, todavia, o dinheiro não só falava como governava. Tudo que os industriais precisavam para serem aceitos entre os governantes da sociedade era bastante dinheiro.

O homem de negócios estava sem dúvida engajado no processo de conseguir mais dinheiro, pois a maior parte do século XVIII foi para grande parte da Europa um período de prosperidade e de cômoda expansão econômica; o verdadeiro pano de fundo para o alegre otimismo do dr. Pangloss, de Voltaire. Pode-se muito bem argumentar que mais cedo ou mais tarde esta expansão, acompanhada de uma pequena inflação, teria empurrado algum pais através do portal que separa a economia pré-industrial da industrial. Mas o problema não é tão simples. A maior parte da expansão industrial do século XVIII não levou de fato e imediatamente, ou dentro de um futuro previsível, a uma revolução industrial, isto é, à criação de um "sistema fabril" mecanizado que por sua vez produz em quantidades tão grandes e a um custo tão rapidamente decrescente aponto de não mais depender da demanda existente, mas de criar o seu próprio mercado. Por exemplo, a indústria de construções, ou as inúmeras indústrias de pequeno porte produtoras de objetos de metal para uso doméstico - alfinetes, vasilhas, facas, tesouras etc. -, na Inglaterra central e na região de Yorkshire, expandiram-se grandemente neste período, mas sempre em função do mercado existente. Em 1850, embora tivessem produzido bem mais do que em 1750, o fizeram substancialmente de maneira antiquada. O que era necessário não era um tipo qualquer de expansão, mas sim o tipo especial de expansão que produziu Manchester ao invés de Birmingham.

Além disso, as revoluções industriais pioneiras ocorreram em uma situação histórica especial, em que o crescimento econômico surge de um acúmulo de decisões de incontáveis empresários e investidores particulares, cada um deles governado pelo primeiro mandamento da época, comprar no mercado mais barato e vender no mais caro. Como poderiam eles descobrir que o lucro máximo devia ser detido com a organização da revolução industrial e não com atividades comerciais mais conhecidas (e mais lucrativas no passado)? Como poderiam saber, o que ninguém sabia até então, que a revolução industrial

produziria uma aceleração Impar na expansão dos seus mercados? Dado que as principais bases sociais de uma sociedade industrial tinham sido lançadas, como quase certamente já acontecera na Inglaterra de fins do século XVIII, duas coisas eram necessárias: primeiro, uma indústria que já oferecesse recompensas excepcionais para o fabricante que pudesse expandir sua produção rapidamente, se necessário através de inovações simples e razoavelmente baratas, e, segundo, um mercado mundial amplamente monopolizado por uma única nação produtora.

Estas considerações se aplicam em certos aspectos a todos os países nessa época. Por exemplo, em todos eles a dianteiro no crescimento industrial foi tomada por fabricantes de mercadorias de consumo de massa - principalmente, mas não exclusivamente, produtos têxteis - porque o mercado para tais mercadorias já existia e os homens de negócios podiam ver claramente suas possibilidades de expansão. Sob outros aspectos, entretanto, eles se aplicam somente à Grã-Bretanha, pois os industriais pioneiros enfrentaram os problemas mais difíceis. Uma vez iniciada a industrialização na Grã-Bretanha, outros países podiam começar a gozar dos benefícios da rápida expansão econômica que a revolução industrial pioneira estimulava. Além do mais, o sucesso britânico provou o que se podia conseguir com ela, a técnica britânica podia ser imitada, o capital e a habilidade britânica podiam ser importados. A indústria têxtil saxônica, incapaz de criar seus próprios inventos, copiou os modelos ingleses, às vezes com a supervisão de mecânicos ingleses; os ingleses que tinham um certo gosto pelo continente, como os Cockerill, estabeleceram-se na Bélgica e em várias partes da Alemanha. Entre 1789 e 1848, a Europa e a América foram inundadas por especialistas, máquinas a vapor, maquinaria para processamento e transformação do algodão e investimentos britânicos.

A Grã-Bretanha não gozava dessas vantagens. Por outro lado, possuía uma economia bastante forte e um Estado suficientemente agressivo para conquistar os mercados de seus competidores. De fato, as guerras de 1738-1815, a última e decisiva fase do secular duelo anglo-francês, virtualmente eliminaram do mundo não europeu todos os rivais dos britânicos, exceto até certo ponto os jovens EU A. Além do mais, a Grã-Bretanha possuía uma indústria admiravelmente ajustada à revolução industrial pioneira sob condições capitalistas e uma conjuntura econômica que permitia que se lançasse à indústria algodoeira e à expansão colonial.

 

II

 

A indústria algodoeira britânica, como todas as outras indústrias algodoeiras, tinha originalmente se desenvolvido como um subproduto do comércio ultramarino, que produzia sua matéria-prima (ou melhor, uma de suas matérias-primas, pois o produto original era o fustão, uma mistura de algodão e linho) e os tecidos indianos de algodão, ou chita que conquistaram os mercados que os fabricantes europeus tentariam ganhar com suas imitações. Inicialmente eles não foram muito bem sucedidos, embora melhor capacitados a reproduzir competitivamente as mercadorias grosseiras e baratas do que as finas e elaboradas. Felizmente, entretanto, o velho e poderoso interesse estabelecido do comércio lanífero periodicamente assegurava proibições de importação de chitas indianas (que o interesse puramente mercantil da Companhia das Índias Orientais procurava exportar da Índia nas maiores quantidades possíveis), dando assim uma chance aos substitutos da indústria algodoeira nativa. Mais barato que a lã, o algodão e as misturas de algodão conquistaram um mercado doméstico pequeno porém útil. Mas suas maiores chances de expansão rápida estavam no ultramar.

O comércio colonial tinha criado a indústria algodoeira, e continuava a alimentá-la. No século XVIII ela se desenvolvera perto dos maiores portos coloniais: Bristol, Glasgow e, especialmente, Liverpool, o grande centro do comércio de escravos. Cada fase deste comércio desumano, mas sempre em rápida expansão, a estimulava. De fato, durante todo o período de que trata este livro, a escravidão e o algodão marcharam juntos. Os escravos africanos eram comprados, pelo menos em parte, com produtos de algodão indianos, mas, quando o fornecimento destas mercadorias era interrompido pela guerra ou uma revolta na Índia ou arredores, entrava em jogo a região de Lancashire. As plantações das Índias Ocidentais, onde os escravos eram arrebanhados, forneciam o grosso do algodão para a indústria britânica, e em troca os plantadores compravam tecidos de algodão de Manchester em apreciáveis quantidades. Até pouco antes da "partida", quase o total das exportações de algodão da região de Lancashire ia para os mercados americano e africano. Mais tarde a região de Lancashire viria apagar sua dívida com a escravidão preservando-a; pois depois da década de 1790 as plantações escravagistas do sul dos Estados Unidos foram aumentadas e mantidas pelas insaciáveis e vertiginosas demandas das fábricas de Lancashire, às quais forneciam o grosso da sua produção de algodão bruto.

A indústria algodoeira foi assim lançada, como um planador, pelo em puxo do comércio colonial ao qual estava ligada; um comércio que prometia uma expansão não apenas grande, mas rápida e sobretudo imprevisível, que encorajou o empresário a adotar as técnicas revolucionárias necessárias para lhe fazer face. Entre 1750 e 1769, a exportação britânica de tecidos de algodão aumentou mais de dez vezes. Assim, a recompensa para o homem que entrou primeiro no mercado com as maiores quantidades de algodão era astronômica e valia os riscos da aventura tecnológica. Mas o mercado ultramarino, e especialmente as suas pobres e atrasadas "áreas subdesenvolvidas", não só se expandia de forma fantástica de tempos em tempos, como também o fazia constantemente sem um limite aparente. Sem dúvida, qualquer pedaço dele, considerado isoladamente, era pequeno pelos padrões industriais, e a competição de diferentes "economias adiantadas" o fez ainda menor. Mas, como já vimos, supondo que qualquer uma das economias adiantadas conseguisse, por um período suficientemente longo, monopolizar todos ou quase todos os seus setores, então suas perspectivas seriam realmente ilimitadas. Foi precisamente o que conseguiu a indústria algodoeira britânica, ajudada pelo agressivo apoio do governo nacional. Em termos de vendas, a revolução industrial pode ser descrita, com a exceção dos primeiros anos da década de 1780, como a vitória do mercado exportador sobre o doméstico: por volta de 1814, a Grã-Bretanha exportava cerca de quatro jardas de tecido de algodão para cada três usadas internamente, e, por volta de 1850, treze para cada oito. E dentro deste mercado exportador em expansão, por sua vez, os mercados colonial e semicolonial, por muito tempo os maiores pontos de vazão para os produtos britânicos, triunfaram. Durante as guerras napoleônicas, quando os mercados europeus foram grandemente interrompidos pelas guerras e bloqueios econômicos, isto era bastante natural. Mas até mesmo depois das guerras, eles continuaram a se afirmar. Em 1820, a Europa, mais uma vez aberta às livres importações da ilha, adquiriu 128 milhões de jardas de tecidos de algodão britânicos; a América, fora os EU A, a África e a Ásia adquiriram 80 milhões; mas por volta de 1840 a Europa adquiriu 200 milhões de jardas, enquanto as áreas "subdesenvolvidas" adquiriram 529 milhões.

Pois dentro destas áreas a indústria britânica tinha estabelecido um monopólio por meio de guerras, revoluções locais e de seu próprio domínio imperial. Duas regiões merecem particular atenção. A América Latina veio realmente depender de importações britânicas durante as guerras napoleônicas, e, depois que se separou de Portugal e Espanha, tornou-se quase que totalmente dependente economicamente da Grã-Bretanha, sendo afastada de qualquer interferência política dos seus possíveis competidores europeus. Por volta de 1820, as importações de tecidos de algodão ingleses feitas por este empobrecido continente já equivaliam a mais de um quarto das importações européias do mesmo produto britânico; por volta de 1840, adquiriu o equivalente quase à metade do que importou a Europa. As Índias Orientais haviam sido, como vimos, o exportador tradicional de tecidos de algodão, encorajada pela Companhia das Índias Orientais. Mas como o interesse industrial estabelecido prevaleceu na Grã-Bretanha, os interesses mercantis da Índia Oriental (para não mencionar os dos próprios indianos) foram empurrados para trás.

A Índia foi sistematicamente desindustrializada e passou de exportador a mercado para os produtos de algodão da região de Lancashire: em 1820, o subcontinente adquiriu somente 11 milhões de jardas; mas por volta de 1840 já adquiria 145 milhões. Isto não era meramente uma extensão gratificante dos mercados de Lancashire. Era um grande marco na história mundial. Pois desde a aurora dos tempos a Europa tinha sempre importado mais do Oriente do que exportado para lá; porque havia pouca coisa que o Oriente necessitava do Ocidente em troca das especiarias, sedas, chitas, jóias etc. que lhe enviava. Os panos de algodão da revolução industrial inverteram pela primeira vez esta relação, que tinha até então se mantido em equilíbrio por uma mistura de exportações de lingotes e roubo. Somente os auto-suficientes e conservadores chineses ainda se recusavam a comprar o que o Ocidente, ou as economias controladas pelo Ocidente, oferecia, até que entre 1815 e 1842 comerciantes ocidentais, auxiliados pelas canhoneiras ocidentais, descobrissem uma mercadoria ideal que podia ser exportada em massa da Índia para o Extremo Oriente: o ópio.

O algodão, portanto, fornecia possibilidades suficientemente astronômicas para tentar os empresários privados a se lançarem na aventura da revolução industrial e também uma expansão suficientemente rápida para torná-la uma exigência. Felizmente ele também fornecia as outras que a tornaram possível. Os novos inventos que o revolucionaram -a máquina de fiar, o tear movido a água, a fiadeira automática e, um pouco mais tarde, o tear a motor - eram suficientemente simples e baratos e se pagavam quase que imediatamente em termos de maior produção. Podiam ser instalados, se necessário peça por peça, por homens que começavam com algumas libras emprestadas, já que os homens que controlavam as maiores fatias da riqueza do século XVIII não estavam muito inclinados a investir grandes somas na indústria. A expansão da indústria podia ser facilmente financiada através dos lucros correntes, pois a combinação de suas vastas conquistas de mercado com uma constante inflação dos preços produzia lucros fantásticos. "Não foram os 5 ou 10%", diria mais tarde um político inglês, com justiça, “mas as centenas ou os milhares por cento que fizeram as fortunas de Lancashire." Em 1789, um ex-ajudante de um vendedor de tecidos, como Robert Owen, podia iniciar com um empréstimo de 100 libras em Manchester; por volta de 1809, ele comprou a parte de seus sócios nas fábricas de New Lanark por 84 mil libras em dinheiro vivo. E seu sucesso nos negócios foi relativamente modesto. Deve-se lembrar que por volta de 1800 menos de 15% das famílias britânicas tinham uma renda superior a 50 libras por ano, e, destas, somente um-quarto ganhava mais de 200 libras por ano.

Mas a indústria do algodão tinha outras vantagens. Toda a sua matéria-prima vinha do exterior, e seu suprimento podia portanto ser expandido pelos drásticos métodos que se ofereciam aos brancos nas colônias- a escravidão e a abertura de novas áreas de cultivo -em vez dos métodos mais lentos da agricultura européia; nem era tampouco atrapalhada pelos interesses agrários estabelecidos da Europa. A partir da década de 1790, O algodão britânico encontrou seu suprimento, ao qual permaneceram ligadas suas fortunas até a década de 1860, nos novos estados sulistas dos EUA. De novo, em pontos cruciais da indústria (notadamente na fiação), o algodão sofreu uma escassez de mão-de-obra eficiente e barata, e foi portanto levado à mecanização. Uma indústria como a do linho, que inicialmente tinha chances bem melhores de expansão colonial do que o algodão, passou a sofrer com o correr do tempo da própria facilidade com que a produção não mecanizada e barata podia ser expandida nas empobrecidas regiões camponesas (principalmente na Europa Central, mas também na Irlanda) onde basicamente havia florescido. Pois a maneira óbvia de se expandir a indústria no século XVIII, tanto na Saxônia e na Normandia, como na Inglaterra, não era construir fábricas, mas sim o chamado sistema "doméstico", no qual os trabalhadores - em alguns casos, antigos artesões independentes, em outros, antigos camponeses com tempo de sobra nas estações estéreis do ano - trabalhavam a matéria-prima em suas próprias casas, com ferramentas próprias ou alugadas, recebendo-a e entregando-a de volta aos mercadores que estavam a caminho de se tornarem patrões. De fato, tanto na Grã-Bretanha como no resto do mundo economicamente progressista, o grosso da expansão no período inicial da industrialização continuou a ser deste tipo. Até mesmo na indústria algodoeira, processos do tipo tecelagem eram expandidos pela criação de multidões de teares manuais domésticos para servir aos núcleos de fiações mecanizados, sendo que o primitivo tear manual era um dispositivo mais eficiente que a roca. Em toda parte a tecelagem foi mecanizada uma geração após a fiação, e em toda parte, incidentalmente, os teares manuais foram morrendo vagarosamente, ocasionalmente se rebelando contra seu terrível destino, quando a indústria não mais necessitava deles.

 

III

 

A perspectiva tradicional que viu a história da revolução industrial britânica primordialmente em termos de algodão é portanto correta. A primeira indústria a se revolucionar foi a do algodão, e é difícil perceber que outra indústria poderia ter empurrado um grande número de empresários particulares rumo à revolução. Até a década de 1830, o algodão era a única indústria britânica em que predominava a fábrica ou o "engenho" (o nome derivou-se do mais difundido estabelecimento pré-industrial a empregar pesada maquinaria a motor); a princípio (1780-1815), principalmente na fiação, na cardação e em algumas operações auxiliares, depois (de 1815) também cada vez mais na tecelagem. As "fábricas" de que tratavam os novos Decretos Fabris eram, até a década de 1860, entendidas exclusivamente em termos de fábricas têxteis e predominantemente em termos de engenhos algodoeiros. A produção fabril em outros ramos têxteis teve desenvolvimento lento antes da década de 1840, e em outras manufaturas seu desenvolvimento foi desprezível. Nem mesmo a máquina a vapor, embora aplicada a numerosas outras indústrias por volta de 1815, era usada fora da mineração, que a tinha empregado pioneiramente. Em 1830, a “indústria” e a "fábrica" no sentido moderno ainda significavam quase que exclusivamente as áreas algodoeiras do Reino Unido.

Com isto não se pretende subestimar as forças que introduziram a inovação industrial em outras mercadorias de consumo, notadamente outros produtos têxteis, alimentos e bebidas, cerâmica e outros produtos de uso doméstico. grandemente estimuladas pelo rápido crescimento das cidades. Mas, para começar, estas indústrias empregavam muito menos pessoal: nenhuma se aproximava sequer remotamente do milhão e meio de pessoas empregadas diretamente na indústria algodoeira ou dela dependentes em 1831. Em segundo lugar, seu poder de transformação era muito menor: a cervejaria, que era em muitos aspectos um negócio técnica e cientificamente muito mais avançado e mecanizado, e que se revolucionou muito antes da indústria algodoeira, pouco afetou a economia à sua volta, como pode ser provado pela grande cervejaria Guinness em Dublin, que deixou o resto de Dublin e da economia irlandesa (embora não o paladar local) idênticos ao que eram antes de sua construção. As exigências que se derivaram do algodão - mais construções e todas as atividades nas novas áreas industriais, máquinas, inovações químicas, eletrificação industrial, uma frota mercante e uma série de outras atividades -foram bastantes para que se credite a elas uma grande proporção do crescimento econômico

da Grã-Bretanha até a década de 1830. Em terceiro lugar, a expansão da indústria algodoeira foi tão vasta e seu peso no comércio exterior da Grã-Bretanha tão grande que dominou os movimentos de toda a economia. A quantidade de algodão em bruto importada pela Grão Bretanha subiu de 11 milhões de libras-peso em 1785 para 588 milhões em 1850; a produção de tecidos, de 40 milhões para 2,025 bilhões de jardas. Os produtos de algodão constituíam entre 40 e 50% do valor anual declarado de todas as exportações britânicas entre 1816 e 1848. Se o algodão florescia, a economia florescia, se ele caía, também caía a economia. Suas oscilações de preço determinavam a balança do comércio nacional. Só a agricultura tinha um poder comparável, e no entanto estava em visível declínio.

Não obstante, embora a expansão da indústria algodoeira e da economia industrial dominada pelo algodão zombasse de tudo o que a mais romântica das imaginações poderia ter anteriormente concebido sob qualquer circunstância I., seu progresso estava longe de ser tranquilo, e por volta da década de 1830 e princípios de 1840 produzia grandes problemas de crescimento, para não mencionarmos a agitação revolucionária sem paralelo em qualquer outro período da história britânica recente. Esse primeiro tropeço geral da economia capitalista industrial reflete-se numa acentuada desaceleração no crescimento, talvez até mesmo um declínio, da renda nacional britânica nesse período. Essa primeira crise geral do capitalismo não foi puramente um fenômeno britânico.

Suas mais sérias consequências foram sociais: a transição da nova economia criou a miséria e o descontentamento, os ingredientes da revolução social. E, de fato, a revolução social eclodiu na forma de levantes espontâneos dos trabalhadores da indústria e das populações pobres das cidades, produzindo as revoluções de 1848 no continente e os amplos movimentos cartistas na Grã-Bretanha. O descontentamento não estava ligado apenas aos trabalhadores pobres. Os pequenos comerciantes, sem saída, a pequena burguesia, setores especiais da economia eram também vítimas da revolução industrial e de suas ramificações. Os trabalhadores de espírito simples reagiram ao novo sistema destruindo as máquinas que julgavam ser responsáveis pelos problemas; mas um grande e surpreendente número de homens de negócios e fazendeiros ingleses simpatizava profundamente com estas atividades dos seus trabalhadores luditas porque também eles se viam como vítimas da minoria diabólica de inovadores egoístas. A exploração da mão-de-obra que mantinha sua renda a nível de subsistência, possibilitando aos ricos acumularem os lucros que financiavam a industrialização (e seus próprios e amplos confortos), criava um conflito com o proletariado. Entretanto, um outro aspecto desta diferença de renda nacional entre pobres e ricos, entre o consumo e o investimento, também trazia contradições com o pequeno empresário. Os grandes financistas, a fechada comunidade de capitalistas nacionais e estrangeiros que embolsava o que todos pagavam em impostos -cerca de 8% de toda a renda nacional -, eram talvez ainda mais impopulares entre os pequenos homens de negócios, fazendeiros e outras categorias semelhantes do que entre os

trabalhadores, pois sabiam o suficiente sobre dinheiro e crédito para sentirem uma ira pessoal por suas desvantagens. Tudo corria muito bem para os ricos, que podiam levantar todos os créditos de que necessitavam para provocar na economia uma deflação rígida e uma ortodoxia monetária depois das guerras napoleônicas: era o pequeno que sofria e que, em todos os países e durante todo o século XIX, exigia crédito fácil e financiamento flexível. Os trabalhadores e a queixosa pequena burguesia, prestes a desabar no abismo dos destituídos de propriedade, partilhavam portanto dos mesmos descontentamentos. Estes descontentamentos por sua vez uniam-nos nos movimentos de massa do "radicalismo", da "democracia" ou da "república", cujos exemplares mais formidáveis, entre 1815 e 1848, foram os radicais britânicos, os republicanos franceses e os democratas jacksonianos americanos.

Do ponto de vista dos capitalistas, entretanto, estes problemas sociais só eram relevantes para o progresso da economia se, por algum terrível acidente, viessem a derrubar a ordem social. Por outro lado, parecia haver certas falhas inerentes ao processo econômico que ameaçavam seu objetivo fundamental: o lucro. Se a taxa de retorno do capital se reduzisse. a zero, uma economia em que os homens produziam apenas para ter lucro diminuiria o passo até um "estágio estacionário" que os economistas pressentiam e temiam.

Destas, as três falhas mais óbvias eram o ciclo comercial de boom e depressão, a tendência de diminuição da taxa de lucro e (o que vinha a dar no mesmo) a escassez de oportunidades de investimento lucrativo. A primeira não era considerada séria, exceto pelos críticos do capitalismo como tal, que foram os primeiros a investigá-la e a considerá-la parte integrante do processo econômico capitalista e como sintoma de suas contradições inerentes. As crises periódicas da economia, que levavam ao desemprego, quedas na produção, bancarrotas etc., eram bem conhecidas. No século XVIII elas geralmente refletiam alguma catástrofe agrária (fracassos na colheita etc.) e já se provou que no continente europeu os distúrbios agrários foram a causa primordial das maiores depressões até o final de nosso período. As crises periódicas nos pequenos setores manufatureiros e financeiros da economia eram também conhecidas, na Grã-Bretanha pelo menos desde 1793. Depois das guerras napoleônicas, o drama periódico do boom e da depressão - em 1825-6, em 1836-7, em 1839-42, em 1846-8 – dominou claramente a vida econômica da nação em tempos de paz. Por volta da década de 1830, uma época crucial no período histórico que estudamos, mais ou menos se reconhecia que as crises eram fenômenos periódicos regulares, ao menos no comércio e nas finanças. Entretanto, os homens de negócios comumente consideravam que as crises eram causadas ou por enganos particulares - p. ex. superespeculação nas bolsas americanas - ou então por interferência externa nas tranqüilas atividades da economia capitalista. Não se acreditava que elas refletissem quaisquer dificuldades fundamentais do sistema.

O mesmo não ocorria com a decrescente margem de lucros, que a indústria algodoeira ilustrava de maneira bastante clara. Inicialmente esta indústria beneficiou-se de imensas vantagens. A mecanização aumentou muito a produtividade (isto é, reduziu o custo por unidade produzida) da mão-de-obra, que de qualquer forma recebia salários abomináveis já que era formada em grande parte por mulheres e crianças. Dos 12 mil trabalhadores nas indústrias algodoeiras de Glasgow em 1833, somente 2 mil ganhavam uma média de mais de 11 shillings por semana. Em 131 fábricas de Manchester os salários médios eram de menos de 12 shillings, e somente em 21 eram mais altos 19, E a construção de fábricas era relativamente barata: em 1846, uma fábrica inteira de tecelagem, com 410 máquinas, incluindo o custo do terreno e dos prédios, podia ser construída Por aproximadamente 11 mil libras 20. Mas acima de tudo o maior gasto, relativo à matéria-prima, foi drasticamente diminuído pela rápida expansão do cultivo do algodão no sul dos EU A depois da invenção do descaroçador de algodão de Eli Whitney, em 1793. Se acrescentarmos que os empresários gozavam do benefício de uma inflação sobre o lucro (isto é, a tendência geral dos preços de serem mais altos quando vendiam seus produtos do que quando os faziam), compreenderemos porque as classes manufatureiras se sentiam animadas.

Depois de 1815, estas vantagens começaram a diminuir cada vez mais devido à redução da margem de lucros. Em primeiro lugar, a revolução industrial e a competição provocaram uma queda dramática e constante no preço dos artigos acabados mas não em vários custos de produção. Em segundo lugar, depois de 1815, a situação geral dos preços era de deflação e não de inflação, ou seja, os lucros, longe de um impulso extra, sofriam um leve retrocesso. Assim, enquanto em 1784 o preço de venda de uma libra-peso de fio duplo fora de 10 shillings e 11 pence e o custo da matéria-prima 2 shillings (margem: 8 shillings e 11 pence), em 1812 seu preço era de 2 shillings e 6 pence e o custo da matéria-prima 1 shilling e 6 pence (margem de 1 shilling), caindo em 1832 respectivamente para 11 1/4 pence e 7 1/2 pence, reduzindo a 4 pence a margem para outros custos e lucros 22. Claro, a situação, que era geral em toda a indústria, tanto a britânica como as outras, não era muito trágica. "Os lucros ainda são suficientes", escreveu em 1835 o historiador e campeão do algodão, em mais do que um eufemismo, "para permitir um grande acúmulo de capital na manufatura." Assim como as vendas totais cresceram vertiginosamente, também cresceram os lucros totais mesmo em suas taxas decrescentes. Tudo o que se precisava era uma expansão astronômica e contínua. Não obstante, parecia que o encolhimento das margens de lucro tinha que ser contido ou ao menos desacelerado. Isto não podia ser feito através do corte nos custos. E, de todos os custos, os salários - que McCulloch calculou em três vezes o montante anual da matéria-prima - eram os mais comprimíveis.

Eles podiam ser comprimidos pela simples diminuição, pela substituição de trabalhadores qualificados, mais caros, e pela competição da máquina com a mão-de-obra que reduziu o salário médio semanal dos tecelões manuais em Bolton de 33 shillings em 1795 e 14 shillings, em 1815 para 5 shillings e 6 pence (ou mais precisamente, uma renda líquida de 4 shillings 1 1/2 pence) em 1829-34. E de fato os salários caíram brutalmente no período pós-napoleônico. Mas havia um limite fisiológico nessas reduções, caso contrário os trabalhadores morreriam de fome, como de fato aconteceu com 500 mil tecelões manuais. Somente se o custo de vida caísse podiam também os salários cair além daquele limite. Os fabricantes de algodão partilhavam ponto de vista de que o custo de vida era mantido artificialmente alto pelo monopólio da propriedade fundiária, piorado ainda pelas pesadas tarifas protetoras que um Parlamento de proprietários de terra tinha assegurado às atividades agrícolas britânicas depois das guerras - as Leis do Trigo (Corn-Lall's). Essa legislação protecionista tinha ainda a desvantagem adicional de ameaçar o crescimento essencial das exportações britânicas. Pois se o resto do mundo ainda não industrializado era impedido de vender seus produtos agrícolas, como poderia pagar pelas mercadorias manufaturadas que só a Grã-Bretanha podia - e tinha para - fornecer? O mundo empresarial de Manchester tornou-se portanto o centro da oposição, cada vez mais desesperada e militante, aos proprietários de terras em geral e às Leis do Trigo em particular, constituindo a coluna vertebral da Liga Contra as Leis do Trigo de 1838-46. Mas as Leis só foram abolidas em 1846 e sua abolição não levou imediatamente a uma queda no custo de vida, sendo duvidoso que antes da era das ferrovias e dos navios a vapor mesmo importações livres de alimentos o tivessem feito baixar.

A indústria estava assim sob uma enorme pressão para que se mecanizasse (isto é, baixasse os custos através da diminuição da mão-de-obra), racionalizasse e aumentasse a produção e as vendas, compensando com uma massa de pequenos lucros por unidade a queda nas margens. Seu sucesso foi variável. Como vimos, o crescimento real da produção e das exportações foi gigantesco; bem como, depois de 1815, a mecanização das ocupações até então manuais ou parcialmente mecanizadas, notadamente a tecelagem. Isto tomou a forma principalmente de uma adoção geral da maquinaria já existente ou ligeiramente melhorada, ao invés de uma revolução tecnológica adicional. Embora a pressão por uma inovação técnica aumentasse significativamente - havia 39 patentes novas na fiação e em outros processos da indústria do algodão em 1800-20,51 na década de 1820,86 na década de 1830 e 156 na de 1840 - a indústria algodoeira britânica se achava tecnicamente estabilizada por volta da década de 1830. Por outro lado, embora a produção por trabalhador tivesse aumentado no período pós-napoleônico. isto não se deu em uma" escala revolucionária. A aceleração realmente substancial das operações da indústria iria ocorrer na segunda metade do século.

Havia uma pressão semelhante sobre o índice de rentabilidade do capital, que a teoria contemporânea tendeu a identificar com o lucro. Mas esta consideração leva-nos à fase seguinte do desenvolvimento industrial - a construção de uma indústria básica de bens de capital.

 

IV

 

É evidente que nenhuma economia industrial pode-se desenvolver além de um certo ponto se não possui uma adequada capacidade de bens de capital. Eis por que, até mesmo hoje, o mais abalizado índice isolado para se avaliar o potencial industrial de qualquer país é a quantidade de sua produção de ferro e aço. Mas é também evidente que num sistema de empresa privada, o investimento de capital extremamente dispendioso que se faz necessário para a maior parte deste desenvolvimento não é assumido provavelmente pelas mesmas razões que a industrialização do algodão ou outros bens de consumo. Para estes já existe um mercado de massa. ao menos potencialmente: mesmo os homens mais primitivos usam camisas ou equipamentos domésticos e alimentos. O problema resume-se meramente em como colocar um mercado suficientemente vasto de maneira suficientemente rápida ao alcance dos homens de negócios. Mas não existe um mercado desse tipo, por exemplo, para pesados equipamentos de ferro ou vigas de aço. Ele só passa a existir no curso de uma revolução industrial e os que colocaram seu dinheiro nos altíssimos investimentos exigidos até por metalúrgicas bem modestas (em comparação com enormes engenhos de algodão) são antes especuladores, aventureiros e sonhadores do que verdadeiros homens de negócios. De fato, na França, uma seita de aventureiros desse tipo. que especulavam em tecnologia. os saint-simonianos agia como principal propagadora do tipo de industrialização que necessitava de pesados investimentos a longo prazo.

Estas desvantagens aplicavam-se particularmente à metalurgia e especialmente à do ferro. Sua capacidade aumentou graças a algumas inovações simples como a pudelagem - e a laminação na década de 1780, mas a demanda civil da metalurgia permanecia relativamente modesta, e a militar, embora compensadoramente vasta graças a uma sucessão de guerras entre 1756 e 1815, diminuiu vertiginosamente depois de Waterloo. Certamente não era grande o bastante para fazer da Grã-Brelanha um enorme produtor de ferro. Em 1790, a produção britânica suplantou a da França em somente 40%, se tanto, e mesmo em 1800 era consideravelmente menor que a metade de toda a produção do continente, chegando, segundo padrões posteriores, apenas a diminuta quantidade de 250 mil toneladas. Na verdade, a produção britânica de ferro,- comparada à produção mundial, tendeu a afundar nas décadas seguintes.

Felizmente essas desvantagens afetavam menos a mineração, que era principalmente a do carvão, pois o carvão tinha a vantagem de ser não somente a principal fonte de energia industrial do século XIX, como também um importante combustível doméstico, graças em grande parte à relativa escassez de florestas na Grã-Bretanha. O crescimento das cidades, especialmente de Londres, linha causado uma rápida expansão da mineração do carvão desde o final do século XVI. Por volta de princípios do século XVIII, a indústria do carvão era substancialmente uma moderna indústria primitiva, mesmo empregando as mais recentes máquinas a vapor (projetadas para fins semelhantes na mineração de metais não-ferrosos, principalmente na Cornuália) nos processos de bombeamento. Portanto, a mineração do carvão quase não exigiu nem sofreu uma importante revolução tecnológica no período que focalizamos. Suas inovações foram antes melhorias do que transformações da produção. Mas sua capacidade já era imensa e, pelos padrões mundiais, astronômica. Em 1800, a Grã-Bretanha deve ter produzido perto de 10 milhões de toneladas de carvão, ou cerca de 90% da produção mundial. Seu competidor mais próxImo, a França, produziu menos de um milhão.

Esta imensa indústria, embora provavelmente não se expandindo de forma suficientemente rápida rumo a uma industrialização realmente maciça em escala moderna, era grande o bastante para estimular a invenção básica que iria transformar as indústrias de bens de capital: a ferrovia. Pois as minas não só necessitavam de máquinas a vapor em grande quantidade e de grande potência, mas também de meios de transporte eficientes para trazer grandes quantidades de carvão do fundo das minas até a superficie e especialmente para levá-las da superfície aos pontos de embarque. A linha férrea ou os trilhos sobre os quais corriam os carros era uma resposta óbvia; acionar estes carros por meio de máquinas era tentador; acioná-los ainda por meio de máquinas móveis não parecia muito impossível. Finalmente, os custos do transporte terrestre de grandes quantidades de mercadoria eram tão altos que provavelmente os donos de minas de carvão localizadas no interior perceberam que o uso desse meio de transporte de curta distância podia ser estendido lucrativamente para longos percursos. A linha entre o campo de carvão de Durham e o litoral (Stockton-Darlington 1825) foi a primeira das modernas ferrovias. Tecnologicamente, a ferrovia é filha das minas e especialmente das minas de carvão do norte da Inglaterra. George Stephenson começou a vida como maquinista" em Tyneside, e durante anos todos os condutores de locomotivas foram recrutados nesse campo de carvão.

Nenhuma outra inovação da revolução industrial incendiou tanto a imaginação quanto a ferrovia, como testemunha o fato de ter sido o único produto da industrialização do século XIX totalmente absorvido pela imagística da poesia erudita e popular. Mal tinham as ferrovias provado ser tecnicamente viáveis e lucrativas na Inglaterra (por volta de 1825-30) e planos para sua construção já eram feitos na maioria dos países do mundo ocidental, embora sua execução fosse geralmente retardada. As primeiras pequenas linhas foram abertas nos EUA em 1827, na França em 1828 e 1835, na Alemanha e na Bélgica em 1835 e até na Rússia em 1837. Indubitavelmente, a razão é que nenhuma outra invenção revelava para o leigo de forma tão cabalo poder e a velocidade da nova era; a revelação fez-se ainda mais surpreendente pela incomparável maturidade técnica mesmo das primeiras ferrovias. (Velocidades de ate 60 milhas..: 96 quilômetros - por hora, por exemplo, eram perfeitamente praticáveis na década de 1830, e não foram substancialmente melhoradas pelas posteriores ferrovias a vapor .) A estrada de ferro, arrastando sua enorme serpente emplumada de fumaça, à velocidade do vento, através de países e continentes, com suas obras de engenharia, estações e pontes formando um conjunto de construções que fazia as pirâmides do Egito e os aquedutos romanos e até mesmo a Grande Muralha da China empalidecerem de provincianismo, era o próprio símbolo do triunfo do homem pela tecnologia.

De fato, sob um ponto de vista econômico, seu grande custo era sua principal vantagem. Sem dúvida, no final das contas, sua capacidade para abrir países até então isolados do mercado mundial pelos altos custos de transporte, assim como o enorme aumento da velocidade e da massa de comunicação por terra que possibilitou aos homens e às mercadorias, vieram a ser de grande importância. Antes de 1848, as ferrovias eram economicamente menos importantes: fora da Grã-Bretanha porque as ferrovias eram poucas; na Grã-Bretanha porque, devido a razões geográficas, os problemas de transporte eram muito mais fáceis de resolver do que em países com enormes territórios. Mas, na perspectiva dos estudiosos do desenvolvimento econômico a esta altura era mais importante o imenso apetite das ferrovias por ferro e aço, carvão, maquinaria pesada, mão-de-obra e investimentos de capital. Pois propiciava justamente a demanda maciça que se fazia necessária para as indústrias de bens-de-capital se transformarem tão profundamente quanto a indústria algodoeira. Nas primeiras duas décadas das ferrovias ( 1830.50), a produção de ferro na Grã-Bretanha subiu de 680 mil para 2.250.000 toneladas, em outras palavras, triplicou. A produção de carvão, entre 1830 e 1850, também triplicou de 15 milhões de toneladas para 49 milhões. Este enorme crescimento deveu-se prioritariamente à ferrovia, pois em média cada milha de linha exigia 300 toneladas de ferro só para os trilhos. Os avanços industriais, que pela primeira vez tornaram possível a produção em massa de aço, decorreriam naturalmente nas décadas seguintes.

A razão para esta expansão rápida, imensa e de fato essencial estava na paixão aparentemente irracional com que os homens de negócios e os investidores a tiraram-se à construção de ferrovias. Em 1830 havia cerca de algumas dezenas de quilômetros de ferrovias em todo o mundo - consistindo basicamente na linha Liverpool-Manchester. Por volta de 1840 havia mais de 7 mil quilômetros, por volta de 1850 mais de 37 mil. A maioria delas foi projetada numas poucas explosões de loucura especulativa conhecidas como as "coqueluches ferroviárias" de 1835-7 e especialmente de 1844-7; e a maioria foi construída em grande parte com capital, ferro, máquinas e tecnologia britânicos. Estas explosões de investimento parecem irracionais, porque de fato poucas ferrovias eram muito mais lucrativas para o investidor do que outras formas de empresa, a maioria produzia lucros bem modestos e muitas nem chegavam a dar lucro: em 1855, a rentabilidade média do capital aplicado nas ferrovias britânicas era de apenas 3,7%. Sem dúvida, os agentes financeiros, especuladores e outros se saíram muito bem, mas não o investidor comum. E ainda assim, por volta de 1840, 28 milhões de libras foram esperançosamente investidas em ferrovias e, por volta de 1850, 240 milhões de libras.

Por quê? O fato fundamental na Grã-Bretanha nas primeiras duas gerações da revolução industrial foi que as classes ricas acumulavam renda tão rapidamente e em tão grandes quantidades que excediam todas as possibilidades disponíveis de gasto e investimento. (O excedente anual aplicável na década de 1840 foi calculado em cerca de 60 milhões de libras.) Sem dúvida, as sociedades aristocráticas e feudais teriam conseguido gastar uma parte considerável desse excedente em uma vida desregrada, prédios luxuosos e outras atividades não econômicas. Até mesmo na Grã-Bretanha, o sexto Duque de Devonshire, cuja renda normal era realmente principesca, conseguiu deixar para seu herdeiro dívidas de 1 milhão de libras em meados do século XIX (que ele pagou tomando emprestado mais 1 milhão e 500 mil libras e especulando sobre os valores de terrenos.)  Mas o grosso das classes médias, que constituíam o principal público investidor, ainda era dos que economizavam e não dos que gastavam, embora haja muitos sinais de que por volta de 1840 eles se sentissem suficientemente ricos tanto para gastar como para investir. Suas esposas se transformaram em "madames" instruídas pelos manuais de etiquetas que se multiplicavam neste período, suas capelas começaram a ser reconstruídas em I estilos grandiosos e caros, e começaram mesmo a celebrar sua glória coletiva construindo monstruosidades cívicas como esses horrendos town halls imitando os estilos gótico e renascentista, cujo custo exato e napoleônico os historiadores municipais registraram com orgulho.

Uma moderna sociedade de bem-estar social (welfare) ou socialista teria sem dúvida distribuído alguns destes vastos acúmulos para fins sociais. No período que focalizamos nada era menos provável. Virtualmente livres de impostos, as classes médias continuaram portanto a acumular em meio a um populacho faminto, cuja fome era o reverso daquela acumulação. E como não eram camponeses, satisfeitos em socar suas economias em meias de lã ou convertê-las em braceletes de ouro, tinham que encontrar investimentos lucrativos. Mas onde? As indústrias existentes, por exemplo, tinham-se tornado demasiadamente baratas para absorver mais que uma fração do excedente disponível para investimento: mesmo supondo que o tamanho da indústria algodoeira fosse duplicado, o custo do capital absorveria só uma parte dele. Era necessário uma esponja bastante grande para absorver tudo.

O investimento estrangeiro era uma possibilidade óbvia. O resto do mundo - para começar, basicamente velhos governos em busca de uma recuperação das guerras napoleônicas e novos governos tomando emprestado, com seus costumeiros ímpetos e liberalidades, para fins indeterminados - estava muito ansioso por empréstimos ilimitados. O investidor inglês emprestava prontamente. Mas os empréstimos aos sul-americanos, que pareciam tão promissores na década de 1820, e aos norte-americanos, que acenavam na década de 1830, transformaram-se freqüentemente em pedaços de papel sem valor: de 25 empréstimos a governos estrangeiros concedidos entre 1818 e 1831, 16 (correspondendo acerca da metade dos 42 milhões de libras esterlinas a preços de emissão) estavam sem pagamento em 1831. Em teoria, estes empréstimos deviam ter rendido aos investidores 7 ou 9% de juros, quando, na verdade, em 1831, rendiam uma média de apenas 3,1%. Quem não se sentiria desencorajado por experiências como a dos empréstimos a 5% feitos aos gregos em 1824 e 1825 e que só começaram a pagar juros na década de 1870? Logo, é natural que o capital investido no exterior booms especulativos de 1825 e 1835- 7 procurasse uma aplicação aparentemente menos decepcionante.

John Francis, observando a mania de 1851, assim descreveu o homem rico: ele "via o acúmulo da riqueza, com o qual um povo industrializado sempre sobrepuja os métodos comuns de investimento, empregado de forma legítima e justa. O dinheiro que em sua juventude tinha sido gasto em empréstimos de guerra e, em sua maturidade, nas minas sul-americanas, estava agora construindo estradas, empregando mão-de-obra e incrementando os negócios, A absorção de capital (pela ferrovia) era no mínimo uma absorção, se mal sucedida, no país que a efetuava. Contrariamente às minas estrangeiras e aos empréstimos estrangeiros, não podia ser exaurida ou ficar totalmente sem valor".

Se uma outra forma de investimento doméstico podia ter sido encontrada - por exemplo, na construção - é uma questão acadêmica para a qual a resposta permanece em dúvida. De fato, o capital encontrou as ferrovias, que não podiam ter sido construídas tão rapidamente e em tão grande escala sem essa torrente de capital, especialmente na metade da década de 1840. Era uma conjuntura feliz, pois de imediato as  ferrovias resolveram virtualmente todos os problemas do crescimento econômico.

 

V

 

Traçar o ímpeto da industrialização é somente uma parte da tarefa deste historiador. A outra é traçar a mobilização e a transferência de recursos econômicos, a adaptação da economia e da sociedade necessárias para manter o novo curso revolucionário.

O primeiro e talvez mais crucial fator que tinha que ser mobilizado e transferido era o da mão-de-obra, pois uma economia industrial significa um brusco declínio proporcional da população agrícola (isto é, rural) e, um brusco aumento da população não agrícola (isto é, crescentemente urbana), e quase certamente, (como no período em apreço) um rápido aumento geral da população, o que portanto implica, em primeira instância, um brusco crescimento no fornecimento de alimentos, principalmente da agricultura doméstica - ou seja, uma “revolução agrícola".

O rápido crescimento das cidades e dos agrupamentos não agrícolas na Grã-Bretanha tinha há muito tempo estimulado naturalmente a agricultura, que felizmente é tão ineficiente em suas formas pré-industriais que melhorias muito pequenas - como uma racional atençãozinha à criação doméstica, ao revezamento das safras, à fertilização e à disposição dos terrenos de cultivo, ou a adoção de novas safras - podem produzir resultados desproporcionalmente grandes. Essa mudança agrícola tinha precedido a revolução industrial e tornou possível os primeiros estágios de rápidos aumentos populacionais, e o ímpeto naturalmente continuou, embora as atividades agrícolas britânicas tivessem sofrido pesadamente com a queda que se seguiu aos preços anormalmente altos das guerras napoleônicas. Em termos de tecnologia e de investimento de capital, as mudanças de nosso período foram provavelmente bastante modestas até a década de 1840, o período em que se pode dizer que a ciência e a engenharia agrícolas atingiram a maturidade. O vasto aumento na produção, que capacitou as atividades agrícolas britânicas na década de 1830 a fornecer 98% dos cereais consumidos por uma população duas a três vezes maior que a de meados do século XVIII foi obtido pela adoção geral de métodos descobertos no início do século XVIII, pela racionalização e pela expansão da área cultivada.

Tudo isto, por sua vez, foi obtido pela transformação social e não tecnológica: pela liquidação (com o "Movimento das Cercas") do cultivo comunal da Idade Média com seu campo aberto e seu pasto comum, a cultura de subsistência e de velhas atitudes não comerciais em relação à terra. Graças à evolução preparatória dos séculos XVI a XVIII, esta solução radical única do problema agrário, que fez da Grã-Bretanha um país de alguns grandes proprietários, um número moderado de arrendatários comerciais e um grande número de trabalhadores contratados, foi conseguida com um mínimo de problemas, embora intermitentemente sofresse a resistência não só dos infelizes camponeses pobres como também da pequena nobreza tradicionalista do interior. O "sistema Speenhamland" de ajuda aos pobres, espontaneamente adotado por juízes-cavalheiros em vários condados durante e depois da fome de 1795, foi analisado como a última tentativa sistemática para salvaguardar a velha sociedade rural contra a corrosão do vínculo monetário. As Leis do Trigo, com as quais o interesse agrário buscava proteger as atividades agrícolas contra a crise posterior a 1815, eram em parte um manifesto contra a tendência de se tratar a agricultura como uma indústria igual a qualquer outra, a ser julgada pelos critérios de lucro. Mas estas reações contra a introdução final do capitalismo no interior estavam condenadas e foram finalmente derrotadas na onda do avanço radical da classe média depois de 1830, pelo novo Decreto dos Pobres de 1834 e pela abolição das Leis do Trigo em 1846.

Em termos de produtividade econômica, esta transformação social foi um imenso sucesso; em termos de sofrimento humano, uma tragédia, aprofundada pela depressão agrícola depois de 1815, que reduziu os camponeses pobres a uma massa destituída e desmoralizada. Depois de 1800, até mesmo um campeão tão entusiasmado do progresso agrícola e do “movimento das cercas" como Arthur Young ficou abalado com seus efeitos sociais. Mas do ponto de vista da industrialização, esses efeitos também eram desejáveis; pois uma economia industrial necessita de mão-de-obra, e de onde mais poderia vir esta mão-de-obra senão do antigo setor não industrial? A população rural doméstica ou estrangeira (esta sob a forma de imigração, principalmente irlandesa) era a fonte mais óbvia, suplementada pela mistura de pequenos produtores e trabalhadores pobres. Os homens tinham que ser atraídos para as novas ocupações, ou - como era mais provável forçados a elas, pois inicialmente estiveram imunes a essas atrações ou relutantes em abandonar seu modo de vida tradicional. A dificuldade social e econômica era a arma mais eficiente; secundada pelos salários mais altos e a liberdade maior que havia nas cidades. Por várias razões, as forças capazes de desprender os homens de seu passado sócio-histórico eram ainda relativamente fracas em nosso período, em comparação com a segunda metade do século XIX. Foi necessária uma catástrofe realmente gigantesca como a fome irlandesa para produzir o tipo de emigração em massa (um milhão e meio de uma população total de 8,5 milhões em 1835-50) que se tornou comum depois de 1850. Não obstante, essas forças eram mais fortes na Grã-Bretanha que em outras partes. Se não o fossem, o desenvolvimento industrial britânico poderia ter sido tão dificultado como o foi o da França pela estabilidade e relativo conforto de seu campesinato e de sua pequena burguesia, que destituíram a indústria da necessária injeção de mão-de-obra.

Conseguir um número suficiente de trabalhadores era uma coisa; outra coisa era conseguir um número suficiente de trabalhadores com as necessárias qualificações e habilidades. A experiência do século XX tem demonstrado que este problema é tão crucial e mais difícil de resolver do que o outro. Em primeiro lugar, todo operário tinha que aprender a trabalhar de uma maneira adequada à indústria, ou seja, num ritmo regular de trabalho diário ininterrupto, o que é inteiramente diferente dos altos e baixos provocados pelas diferentes estações no trabalho agrícola ou da intermitência autocontrolada do artesão independente. A mão-de-obra tinha também que aprender a responder aos incentivos monetários. Os empregadores britânicos daquela época, como os sul-africanos de hoje em dia, constantemente reclamavam da "preguiça" do operário ou de sua tendência para trabalhar até que tivesse ganho um salário tradicional de subsistência semanal, e então parar. A resposta foi encontrada numa draconiana disciplina da mão-de-obra (multas, um código de '.senhor e escravo" que mobilizava as leis em favor do empregador etc.), mas acima de tudo na prática, sempre que possível, de se pagar tão pouco ao operário que ele tivesse que trabalhar incansavelmente durante toda a semana para obter uma renda mínima. Nas fábricas onde a disciplina do operariado era mais urgente, descobriu-se que era mais conveniente empregar as dóceis (e mais baratas) mulheres e crianças: "de todos os trabalhadores nos engenhos de algodão ingleses em 1834-47, cerca de um-quarto eram homens adultos, mais da metade era de mulheres e meninas, e o restante de rapazes abaixo dos 18 anos. ) Outra maneira comum de assegurar a disciplina da mão-de-obra, que refletia o processo fragmentário e em pequena escala da industrialização nesta fase inicial, era o subcontrato ou a prática de fazer dos trabalhadores qualificados os verdadeiros empregadores de auxiliares sem experiência. Na indústria algodoeira, por exemplo, cerca de dois-terços dos rapazes e um-terço das meninas estavam assim "sob o emprego direto de trabalhadores" e eram portanto mais vigiados, e fora das fábricas propriamente ditas tais acordos eram ainda mais comuns. O subempregador, é claro, tinha um incentivo financeiro direto para que seus auxiliares contratados não se distraíssem.

 

Era bem mais dificil recrutar ou treinar um número suficiente de trabalhadores qualificados ou tecnicamente habilitados, pois que poucas habilidades pré-industriais tinham alguma utilidade na moderna indústria, embora, é claro, muitas ocupações, como a construção, continuassem praticamente inalteradas. Felizmente, a vagarosa semi-industrialização da Grã-Bretanha nos séculos anteriores a 1789 tinha produzido um reservatório bastante grande de habilidades adequadas tanto na técnica têxtil quanto no manuseio dos metais. Assim é que, no continente, o serralheiro, ou chaveiro, um dos poucos artesãos acostumados a um trabalho de precisão com metais, tornou-se o ancestral do montador-fresador e por vezes deu-lhe o nome, enquanto que na Grã-Bretanha o construtor de moinhos e o "operador de máquinas" ou “maquinista" (já comum nas minas e à sua volta) foi quem desempenhou este papel. Não é um mero acidente que a palavra inglesa engineer descreva tanto o trabalhador qualificado em metal quanto o desenhista ou planejador; pois o grosso do pessoal técnico de um nível mais alto podia ser, e era, recrutado entre estes homens com qualificações mecânicas e autoconfiantes. De fato, a industrialização britânica apoiava-se neste fornecimento não planejado das qualificações mais altas, enquanto a indústria continental não podia fazê-lo. Isto explica a chocante negligência com a educação técnica e geral neste país, cujo preço seria pago mais tarde.

Ao lado desse problema de fornecimento de mão-de-obra, os de fornecimento de capital eram insignificantes. Inversamente à maioria dos outros países europeus, não havia escassez de capital aplicável na Grã-Bretanha. A maior dificuldade era que os que controlavam a maior parte desse capital no século XVIII - proprietários de terra, mercadores, armadores, financistas etc. - relutavam em investi-lo nas novas indústrias, que portanto freqüentemente tinham que ser iniciadas com pequenas economias ou empréstimos e desenvolvidas pela lavra dos lucros. A escassez de capital local fez com que os primitivos industriais - especialmente os homens que se fizeram por si mesmos (self-made-men) -fossem mais duros, mais parcos e mais ávidos, e seus trabalhadores portanto proporcionalmente mais explorados; mas isto refletia o fluxo imperfeito do excedente de investimento nacional e não sua inadequação. Por outro lado, os ricos do século XVIII estavam preparados para investir seu dinheiro em certas empresas que beneficiavam a industrialização; mais notadamente nos transportes (canais, facilidades portuárias, estradas e mais tarde também nas ferrovias) e nas minas, das quais os proprietários de terras tiravam royalties mesmo quando eles próprios não as gerenciavam.

Nem havia qualquer dificuldade quanto à técnica comercial e financeira pública ou privada. Os bancos e o papel-moeda, as letras de câmbio, apólices e ações, as técnicas do comércio ultramarino e atacadista, assim como o marketing, eram bastante conhecidos e os homens que os controlavam ou facilmente aprendiam a fazê-lo eram em números abundante. Além do mais, por volta do final do século XVIII, a política governamental estava firmemente comprometida com a supremacia dos negócios. Velhas leis em contrário (tais como o código social dos Tudor) tinham de há muito caído em desuso e foram finalmente abolidos - exceto quando envolviam a agricultura - em 1813 - 35. Na teoria, as leis e as instituições comerciais e financeiras da Grã-Bretanha eram ridículas e destinadas antes a obstaculizar do que a ajudar o desenvolvimento econômico; por exemplo, elas tornavam necessária a promulgação de caros "decretos privados" do Parlamento toda vez que se desejasse formar uma sociedade anônima. A Revolução Francesa forneceu aos franceses - e, através de sua influência, ao resto do continente - mecanismos muito mais racionais e eficientes para tais propósitos. Na prática, os britânicos se saíram perfeitamente bem e, de fato, consideravelmente melhor que seus rivais.

Deste modo bastante empírico, não planificado e acidental construiu-se a primeira economia industrial de vulto. Pelos padrões modernos, ela era pequena e arcaica, e seu arcaísmo ainda marca a Grã-Bretanha de hoje. Pelos padrões de 1848, ela era monumental, embora também chocasse bastante, pois suas novas cidades eram mais feias e seu proletariado mais pobre do que em outros países. A atmosfera envolta em neblina e saturada de fumaça, na qual as pálidas massas operárias se movimentavam, perturbava o visitante estrangeiro. Mas essa economia utilizava a força de um milhão de cavalos em suas máquinas a vapor, produzia dois milhões de jardas (aproximadamente 1.800 mil metros) de tecido de algodão por ano em mais de 17 milhões de fusos mecânicos, recolhia quase 50 milhões de toneladas de carvão, importava e exportava 170 milhões de libras esterlinas em mercadorias em um só ano. Seu comércio era duas vezes superior ao de seu mais próximo competidor, a França, e apenas em 1780 a havia ultrapassado. Seu consumo de algodão era duas vezes superior aos dos EUA, quatro vezes superior ao da França. Produzia mais da metade do total de lingotes de, ferro do mundo economicamente desenvolvido e consumia duas vezes mais por habitante do que o segundo país mais industrializado (a Bélgica), três vezes mais que os EUA, e quatro vezes mais que a França. Cerca de 200 a 300 milhões de libras de investimento de capital britânico - um-quarto nos EUA, quase um-quinto na América Latina - traziam dividendos e encomendas de todas as partes do mundo). Era, de fato, a "oficina do mundo".

E tanto a Grã-Bretanha quanto o mundo sabiam que a revolução industrial lançada nestas ilhas não só pelos comerciantes e empresários como através deles, cuja única lei era comprar no mercado mais barato e vender sem restrição no mais caro, estava transformando o mundo. Nada poderia detê-la. Os deuses e os reis do passado eram impotentes diante dos homens de negócios e das máquinas a vapor do presente.

 

 

Revolução Industrial[2]

 

A industrialização na Grã-Bretanha teve início por volta de 1760. As causas desse processo não devem ser creditadas unicamente à superioridade tecnológica e científica, mas também a condições favoráveis que já existiam no país antes do século XVIII.

A consolidação da monarquia parlamentar alterou profundamente os rumos da economia britânica. O lucro privado e o desenvolvimento industrial tornaram-se prioridades para as iniciativas governamentais.

Na agricultura, a modernização dos processos de produção e colheita eram urgentes. Beneficiados pelas Leis de Cercamento das áreas comunais, promulgadas desde o século XVI, os proprietários particulares investiram capital na melhoria da produção. O movimento de cercamento ou demarcação (Enclosure Acts), retomado com vigor entre 1760 e 1830, foi responsável pela expropriação maciça dos camponeses e pela transformação da terra em mercadoria, um bem lucrativo monopolizado por grupos privados. Utilizava-se o sistema de arrendamento, com a contratação de camponeses ou pequenos proprietários, que se dedicavam a uma produção efetivamente voltada para o mercado. As transformações das propriedades e da exploração agrícola disponibilizaram uma mão-de-obra numerosa, que pôde ser aproveitada no trabalho das minas e na produção manufatureira.

O mercado consumidor da nascente indústria britânica foi, no principio. a própria Grã-Bretanha, uma vez que os fabricantes se preocuparam em produzir mercadorias socialmente úteis, tais como produtos da indústria de cerâmica para a construção ou utilidades domésticas como alfinetes. vasilhas. facas, tesouras, tecidos. produtos alimentares e outras. Posteriormente. o Estado incentivou uma política econômica mais agressiva e partiu para a conquista de mercados fora de seus limites territoriais. acelerando a arrancada imperialista.

A produção lanígera e a algodoeira foram responsáveis pela multiplicação das manufaturas têxteis e pela supremacia britânica no setor. A indústria da lã estava ligada à economia camponesa, associada desde muitas gerações à criação de ovelhas.Já a indústria algodoeira vinculava-se ao comércio ultramarino, tanto pelo fornecimento de matérias-primas (como o fustão. mistura de linho com algodão, e a chita, dos mercados orientais). como pelo: aproveitamento do algodão cultivado em algumas áreas coloniais inglesas da América.

No curso da Revolução Industrial desenvolveu-se a indústria de base, representada principalmente pela metalurgia e, em especial. pela siderurgia. Sua demanda estava ligada ao setor militar. em menor escala, e posteriormente às ferrovias. construídas durante o primeiro quartel do século XIX e responsáveis pelo transporte de mercadorias e de um enorme contingente de pessoas.

O desenvolvimento do setor de transportes ferroviários só se tornou possível graças à pudlagem (processo de diminuição do teor de carbono de um sistema composto) e à mineração do carvão, utilizado como fonte de energia para a indústria. uso doméstico e importante combustível para as locomotivas. O domínio desses processos permitiu que a burguesia britânica acumulasse bens de capital. fundamentais para a consolidação da economia industrial.

Cabe destacar o setor técnico-científico. que alguns historiadores apontam como um dos fatores determinantes do avanço britânico no setor industrial. Trata-se de um tema polêmico. uma vez que não existe uma unanimidade quanto a superioridade tecnológica e científica da Grã-Bretanha.

A industrialização na Grã-Bretanha foi muito mais do I que o fruto de uma revolução técnica e científica. Ela representou uma mudança social profunda na medida em que transformou a vida dos homens. sem se preocupar com os custos sociais e ambientais dessa mudança.     

Uma das primeiras transformações diz respeito ao próprio significado da palavra trabalho. O que antes significava dor, humilhação e pobreza passou a designar fonte de propriedade. riqueza, produtividade e até mesmo a expressão da condição humana. O trabalho passou a dignificar o homem e a qualificá-lo, tornando-se um indicador de posição social.

Outro aspecto relevante é o controle técnico do processo de produção, que passou para as mãos do capitalista, no momento em que se instituiu a divisão e o parcelamento do trabalho. O resultado foi a alienação crescente do trabalhador, cada vez mais afastado do produto final do seu esforço. Em outras palavras, o trabalhador perdeu a visão global do processo de produção.

 

Alienação: por alienação entende-se a noção de que nossas próprias potencialidades enquanto seres humanos são realizadas ou assumidas por outras entidades. O termo foi utilizado por Marx, primeiramente, para indicar a projeção de poderes humanos nos deuses, Posteriormente, ele o empregou para referir-se a perda de controle do trabalhador sobre a natureza e o produto do seu trabalho.

 

A "robotização do trabalhador" foi também um aspecto gerado pela Revolução Industrial. O operário especializou-se em servir uma máquina, transformando-se em autômato destinado a desempenhar atividades cotidianas cansativas e monótonas. E um autômato mais vulnerável aos acidentes de trabalho devido à própria monotonia de suas atividades.

Se por um lado o uso contínuo de máquinas diminuiu a necessidade de mão-de-obra, por outro levou os industriais a buscarem o trabalho feminino e infantil como opção para baratear o custo da produção. A industrialização rapidamente englobou todos os membros do grupo familiar, submetendo-os ao capital.

Certas funções femininas, como as tarefas domésticas, o aleitamento e a educação das crianças foram quase totalmente suprimidos, causando um considerável descontrole familiar. Sem contar que os salários das mulheres e das crianças eram bem menores do que os dos homens.

Paul Mantoux, um estudioso da manufatura no século XVIII, primeira fase da Revolução Industrial, relata que o trabalho das crianças era muitas vezes preferido, devido à sua docilidade, à maior facilidade no aprendizado, à submissão no cumprimento das ordens e aos salários menores que recebiam.

A cidade também mudou de fisionomia, em virtude da concentração de grandes multidões nas áreas fabris. Até o início da industrialização, eram centros comerciais de dimensões relativamente reduzidas, voltadas para a administração, o comércio e todo tipo de prestação de serviços. Nelas viviam funcionários públicos. artesãos, mercadores etc.

Nos núcleos urbanos transformados pela indústria, os pobres habitavam bairros populosos ou cortiços com péssimas condições sanitárias. A burguesia optou pelos bulevares, alamedas largas, para construir suas casas suntuosas e caras, porém funcionais, na medida em que o mundo burguês procurava basear-se na praticidade e na beleza.

 

A moral burguesa

 

Em termos de sexualidade, a moral burguesa nos séculos XVIII e XIX apresentou um duplo comportamento, bem próximo ao que ainda pode ser percebido em algumas sociedades contemporâneas: castidade para as mulheres solteiras e fidelidade para as casadas; muitas mulheres para os jovens burgueses solteiros e o adultério tolerável para os casados. Mas nada poderia colocar em risco a estabilidade da família ou da propriedade burguesa. Valia a máxima: "a mãe dos meus filhos é diferente".

Ao longo do século XIX, a classe média – formada pelos profissionais liberais, pequenos proprietários (homens de negócios) e funcionários públicos - cresceu e prosperou. O mundo burguês se abriu para aqueles que possuíam talento e certo grau de escolaridade. Suas casas não eram somente o lugar que abrigava o núcleo familiar; eram também "o repouso do guerreiro" e o local de onde o empreendedor operava, sob o olhar de admiração da mulher e dos filhos, embevecidos pela sua capacidade de produzir riquezas e conforto.

Para a massa expropriada restaram os bairros pobres, desprovidos de saneamento básico, iluminação e outros serviços públicos. Esse contexto contribuiu para o surgimento de críticas à condição degradante do trabalhador e de movimentos operários de intensidades diferentes.

 

A reação do trabalhador

 

A expropriação da massa de trabalhadores gerou uma sucessão de lutas, diretas ou indiretas, contra a propriedade e o capital representados pela burguesia industrial. No século XVIII ocorreram formas violentas de protestos, como a inundação de minas, a queima de colheitas e destruição de máquinas por trabalhadores urbanos e rurais. Tais ações foram designadas por alguns historiadores pelo termo ludismo.

De acordo com Norberto Bobbio, ludismo foi o nome usado para designar movimentos operários de protesto que se desenvolveram no final do século XVIII e início do século XIX, com o propósito de buscar melhorias salariais e conter a mecanização do ciclo produtivo, principalmente no setor têxtil.

            Os movimentos luditas eclodiram nos condados ingleses de Nottingham, Lancaster e York. Em Nottingham dominou o aspecto de reivindicação salarial, em Yorkshire  mostrou-se fortemente politizado numa perspectiva antigovernamental, contrária à centralização de Londres, e em Lancashire apresentou-se mais organizado e militarizado.

O processo de resistência dos operários às máquinas nas não representou algo irrefletido ou cego, um ato contra a evolução tecnológica. Foram iniciativas contra a alienação do trabalho ao capital, um modo de afirmar seu poder sobre os instrumentos de produção.A destruição do maquinário constituía o último recurso na defesa de um estilo de vida mais folgado e autônomo. Os luditas tinham a máquina como refém.

 

A Carta do Povo

 

Os cartistas ingleses das décadas de 1830 e 1840 foram os primeiros a incorporar as idéias de democracia, igualdade e coletivismo a um amplo e significativo movimento de

trabalhadores. Esse movimento teve suas origens no Reform Act de 1832, que conferiu o direito de voto à maioria dos homens adultos da classe média e a quase todos os pequenos proprietários e rendeiros rurais. Mas uma grande massa de trabalhadores agrícolas e industriais continuou excluída do sufrágio.

Afastado da arena pública, o proletariado urbano da Grã-Bretanha reclamava participação efetiva nas eleições, porém enfrentou forte resistência do Parlamento. Diante de tal situação, muitos trabalhadores alistaram-se com entusiasmo ao movimento cartista.

Organizado em 1838 por Feargus O'Connor e William Lovett, o cartismo tem origem numa petição conhecida como Carta do Povo, apresentada ao Parlamento. Seu programa constava de seis pontos importantes: sufrágio universal masculino; igualdade de direitos eleitorais; voto secreto; legislaturas anuais; abolição do censo eleitoral (requisitos de propriedade) para os membros da Câmara dos Comuns; remuneração das funções parlamentares.

Em 1848, os líderes cartistas prepararam uma marcha de operários, que deveria contar com 500 mil homens, para a apresentação de uma petição aos parlamentares. Os organizadores imaginavam que o número de manifestantes forçaria o Parlamento a conceder as reformas.

Entretanto, no dia marcado para a apresentação, 10 de abril de 1848, uma chuva torrencial esvaziou o movimento. Apenas a décima parte dos operários compareceu à marcha. Mas o espírito do cartismo sobreviveu: com exceção da exigência de legislaturas anuais, os demais pontos do programa foram incorporados posteriormente pela sociedade britânica.

 

A expansão tecnológica não se encerrou com a Revolução Industrial. Na sociedade capitalista atual, ela ainda é vista como um dos fatores que dividem o mundo entre "desenvolvido" e "subdesenvolvido".

Se, por um lado, o desenvolvimento tecnológico trouxe inovações importantes para a sociedade como os avanços na medicina, nas telecomunicações, nos transportes e na produção de bens de consumo, por outro trouxe também o chamado "desemprego estrutural". Milhares de trabalhadores, no mundo inteiro, estão sendo substituídos por máquinas ou por operários multifuncionais - isto é, por aqueles que desempenham múltiplas funções no sistema produtivo. Mais uma vez, grupos sociais inteiros vão sendo historicamente colocados à margem dos benefícios gerados pelo desenvolvimento econômico.

 

 

O que é imperialismo?[3]

 

Entre 1870 e 1914, a Europa ocidental e os Estados Unidos arquitetaram a conquista política, econômica e cultural da África, Ásia, Oceania e América Latina. Repartiram o mundo entre si e organizaram poderosos impérios coloniais que tinham em comum o desenvolvimento da acumulação capitalista.

A média de expansão territorial, durante esse período, foi de 560 000 km2 por ano.

Esse período ficou conhecido como imperialista, e as causas dessa expansão foram diversas. No entanto, todas se relacionam com o desenvolvimento do capitalismo industrial nos países imperialistas.

Efetivamente, o desenvolvimento capitalista desses países, associado a um crescimento demográfico que se processava desde o século XVIII, significou uma transformação acelerada na estrutura econômica e nos hábitos sociais desses países. O desenvolvimento industrial ampliou a demanda de matérias-primas, muitas das quais se

produziam em condições mais vantajosas fora da Europa e dos Estados Unidos, e, ao mesmo tempo, o aumento na produção de artigos industriais ampliou a necessidade de mercados exteriores que consumissem os excedentes. Por outro lado, o crescimento das

populações urbanas fez aumentar a demanda de alimentos, cuja produção na Europa havia diminuído pelo êxodo rural ou simplesmente porque se tornara mais barato comprá-los em mercados externos.

A esse conjunto de processos denominou-se imperialismo comercial, uma vez que foi o comércio de matérias-primas, alimentos e bens manufaturados que estimulou os países industrializados a penetrar, controlar e dominar vastas regiões do mundo.

Contudo, o imperialismo tinha outras máscaras e razões mais sutis e menos transparentes. A conquista militar e política de milhões de seres humanos de outras raças e culturas era induzida pela exportação de capitais que não rendiam juros suficientes na Europa. Essa forma de penetração é conhecida como imperialismo financeiro, comandado por poderosos monopólios de banqueiros, investidores e industriais.

Em 1902, o economista inglês John A. Hobson abria o jogo ao escrever:

O fator econômico mais importante, a grande distância dos demais, do imperialismo é a influência que tem nos investimentos. O crescente cosmopolitismo do capital constituiu-se na mudança econômica mais notável que se registrou nas últimas gerações. Todas as nações industrialmente desenvolvidas trataram de colocar uma grande parte de seu capital fora dos limites de sua própria área política, em países estrangeiros ou em colônias, e de receber uma renda cada vez mais alta por este investimento.

E mais adiante arremata:

A riqueza destes grupos financeiros, a magnitude de suas operações e suas ramificações organizativas espalhadas por todo o mundo convertem-nos em elementos decisivos e fundamentais na marcha da política imperial. Têm mais interesses do que

ninguém nas atividades imperialistas e os maiores meios de impor sua vontade às decisões políticas nas nações.

Anos depois, outros autores retomaram as idéias de Hobson e tomaram-nas mais precisas. Lênin, em um famoso livro publicado em 1916, O imperialismo, etapa superior do capitalismo, definia esse processo histórico da seguinte forma:

O imperialismo é um capitalismo na fase de desenvolvimento, quando tomou corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, quando ganhou significativa importância a exportação de capitais, quando se iniciou a partilha do mundo pelos

trustes internacionais e terminou a repartição de toda a terra entre os países capitalistas mais importantes.

Isso significava prognosticar um período de guerras e revoluções como consequência da luta entre os países imperialistas, entre os monopólios internacionais, pelos mercados externos e por melhores condições para arrancar lucros maiores.

De fato, os grandes trustes internacionais, muitos dos quais dariam origem às grandes empresas multinacionais de hoje em dia, nasceram em fins do século XIX. Antes de 1914, existiam 122 trustes de origem americana, 60 ingleses e 167 franceses, alemães e suíços.

Particularmente, os monopólios que associavam grandes industriais e poderosos bancos foram um fenômeno característico da economia americana e alemã dessa época, e, de forma menos Intensa, na Grã-Bretanha e na França.

Além do mais, em todos esses países existia um grande excedente de capitais para ser exportado. Em 1885, os quatro maiores investidores mundiais - em ordem de importância, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Estados Unidos - haviam colocado no exterior 2 681 milhões de libras esterlinas. Em 1914, essa cifra foi para 7659 milhões.

Um empresário americano, em 1898, dizia:

Quem escreve isto não é um advogado do imperialismo por sentimentalismo, mas não teme sê-lo se isso significa que os Estados Unidos defenderão seu direito a mercados livres em todos os velhos países que estão se abrindo para os recursos excedentes dos países capitalistas e obtendo por isto os benefícios da civilização moderna. Que esta política leve consigo o governo direto dos arquipélagos semi-selvagens pode ser objeto de discussão, mas do ponto de vista econômico há uma opção; entrar, de alguma

forma, na competição, empregando capitais e empresas norte-americanas nestes países [...].

Além desses fatores de ordem econômica, outros de natureza político-estratégica, diplomática e nacionalista intervêm na expansão imperialista.

A idéia de que um país deve transformar-se em uma potência mundial não está ligada à própria natureza do capitalismo como sistema mundial, mas também se vinculou ao pensamento político de certos governantes, grupos de intelectuais e políticos nacionalistas em geral. Essa idéia de potência mundial tinha muito a ver com o prestígio da nação, o equilíbrio político europeu e a influência que a nação podia e devia exercer no mundo.

Desde 1870, quando a Itália e a Alemanha acabavam de unificar-se politicamente, a concorrência internacional e as relações entre os países haviam se tornado mais complexas. Surgem, nesse período, grandes blocos de poder. Os Estados, levados a uma concorrência política crescente com os vizinhos, estabelecem alianças para evitar o isolamento. A primeira aliança internacional foi a austro-alemã de 1879, que se transformou em Tríplice Aliança em 1882, com o ingresso da Itália. A França, totalmente isolada, buscou seus próprios aliados: primeiro a Rússia, com a qual firmou uma aliança em 1894, e em seguida, em 1904, a Grã-Bretanha. Finalmente, o acordo anglo-russo, de 1907, fez surgir a Entente Cordiale. Os blocos beligerantes da Primeira Guerra Mundial estavam formados.

Esse jogo político significou que qualquer mudança de posição, de poder, dentro e fora da Europa, prejudicaria o vizinho.

Nesse sentido, a formação de um império colonial por parte de um país foi vista como instrumento de força e prestígio que podia romper o equilíbrio entre as potências. Um exemplo claro disso, como veremos mais adiante, foi a disputa do Egito entre Grã-Bretanha e França.

Enfim, para muitos governantes, políticos e militares a condição de potência implicava a necessidade de ter colônias, protetorados, bases navais em todos os continentes, única forma de proteger os conacionais, não apenas dos governos desses lugares, como também da ação das outras potências ocidentais.

O temor de que uma potência estrangeira ameaçasse uma possessão colonial estimulava a conquista de uma fronteira mais extensa. Esse elemento, que alguns historiadores chamaram de um "acumulativo processo preventivo", esteve muito presente na expansão britânica sobre a Índia, como será visto, detalhadamente, mais adiante.

Por outro lado, a condição de potência mundial estava ligada à possibilidade de controlar matérias estratégicas tais como cobre, ferro, borracha, petróleo, etc. Também é necessário lembrar outras motivações que, parcialmente, constituem outras tantas explicações do processo de colonização mundial. Assim, foi notória a visão de que a colonização era uma missão civilizadora de uma raça superior, a branca. Essa convicção baseava-se na superioridade que o europeu e o americano viam em suas instituições políticas, na organização da sociedade, no desenvolvimento industrial. Ao mesmo tempo, essa imagem era estimulada por doutrinas marcadamente racistas, como a elaborada pelo filósofo inglês H. Spencer, conhecida por "darwinismo social". Segundo essa filosofia, a teoria da evolução de Darwin podia ser aplicada perfeitamente à evolução da sociedade. Assim como existia uma seleção natural entre as espécies, ela também existia na sociedade. A luta pela sobrevivência entre os animais correspondia à concorrência capitalista; a seleção natural nada mais era que a livre troca dos produtos entre os homens; a sobrevivência do mais capaz, do mais forte era demonstrada pela forma criativa com que os gigantes da indústria engoliam os competidores mais fracos, em seu caminho para o enriquecimento. O sucesso dos negócios demonstrava habilidade superior de adaptação às mudanças; o fracasso indicava capacidade inferior. Por essas razões, a intervenção do Estado era prejudicial, que interrompia o processo pelo qual a natureza impessoal premiava o forte e eliminava o fraco.

Em outras palavras, se a luta pela existência resultava na sobrevivência e no predomínio dos animais e das plantas mais capazes, como afirmava Darwin, uma luta semelhante se produzia entre as raças humanas e as nações, com idênticos resultados. Essa dura concorrência em âmbito internacional, que justificava a conquista e a destruição de sociedades inferiores, era feita em nome do progresso.

Um autor da época, Edmond Desmolins, escrevendo sobre o conflito com os bôeres da região do Cabo, na África, formula a questão da seguinte forma:

Quando uma raça se mostra superior a outra nas manifestações da vida nacional, de modo inevitável, termina por dominar a vida política e impor; de modo permanente, sua superioridade. Seja que esta superioridade se reafirme por meios pacíficos, seja pela força das armas, chega um momento em que fica estabelecida oficialmente. Afirmei que esta lei é a única que explica a história da raça humana e as revoluções dos impérios e que, além disso, esclarece e justifica a apropriação, pelos europeus, dos territórios da Ásia, África e Oceania, e todo o processo de nosso desenvolvimento colonial.

Escrevendo sobre a vida e as façanhas de Hubert Hervey, alto funcionário da British South African Chartered Co., o conde Grey acaba concluindo que o branco, e particularmente o inglês, é o único que sabe governar, o que lhe outorga direitos indiscutíveis para dominar as raças de cor, evidentemente inferiores:

Provavelmente todo mundo estará de acordo que um inglês tem direito a considerar que sua forma de entender o mundo e a vida é melhor que a de um hotentote ou um maori e ninguém se oporá, em princípio, a que a Inglaterra faça o possível para impor a estes selvagens os critérios e modos de pensar ingleses, posto que são melhores e mais elevados. Há alguma probabilidade, por remota que seja, de que num futuro previsível possa desaparecer o abismo que agora separa os brancos dos negros? Pode haver alguma dúvida de que o homem branco deve impor e imporá sua civilização superior sobre as raças de cor?

No entanto, como os darwinistas sociais estabeleceram, não o branco é superior ao homem de cor, como tem o direito indiscutível de apoderar-se de tudo o que o negro, o índio e o amarelo não sabem usar convenientemente. Esse princípio é usado em nome da humanidade, e não se discutem os meios. A natureza foi injusta porque repartiu de forma desigual os recursos, deixando em mãos de povos inferiores riquezas que os povos mais capacitados não podem aproveitai É justo que tal estado de coisas se prolongue indefinidamente?

Essa é a pergunta que se formula um dos mais intransigentes defensores do imperialismo francês, Albert Sarrault, respondendo que, em nome da humanidade, essa injustiça não pode ser admitida. A desigualdade criada pela natureza deve ser eliminada em nome da humanidade, ainda que isso crie a desigualdade entre os homens.

Em um livro publicado em 1931, Grandeza y servidumbres coloniales, Sarrault expôs seus argumentos com fria e cega convicção. Vejamos alguns trechos:

Em nome do direito de viver da humanidade, a colonização, agente da civilização, deverá tomar a seu encargo a valorização e a circulação das riquezas que possuidores fracos detenham sem benefício para eles próprios e para os demais. Age-se assim para o bem de todos. A Europa não abandonará, absolutamente, sua autoridade colonial. Ela está no comando e no comando deve permanecer. Eu nego com todas minhas forças e repudio com toda a energia de meu coração todas as tendências que procuram, tanto para a Europa como para meu país, o despejo da tutela ocidental nas colônias.

Representantes da Igreja defenderam esse princípio de "direito de colonização", que na realidade é um "direito à violência" contra o mais fraco. E isso não é surpreendente, pois a teologia espanhola do século XVI formulou toda uma teoria para justificar a conquista dá América. Alguns dos princípios formulados por Francisco de Vitoria em Relecciones teológicas, particularmente o da "guerra justa", serão retomados por leigos e eclesiásticos da época do imperialismo moderno.

Por exemplo, as seguintes palavras do reverendo padre Miller, transcritas por um católico defensor do imperialismo francês, Folliet, doutor em filosofia tomista:

A humanidade não deve, nem pode aceitar mais que a incapacidade, a negligência, a preguiça dos povos selvagens deixem indefinidamente sem emprego as riquezas que Deus lhes confiou, com a missão de utilizá-las para o bem de todos. Se forem encontrados territórios mal-administrados por seus proprietários, é direito das sociedades- prejudicadas por esta administração defeituosa - tomar o lugar destes administradores incapazes e explorar em benefício de todos, os bens dos quais eles não sabem tirar partido.

Poder-se-ia pensar que essas idéias não passavam de simples curiosidades arqueológicas européias, mas, em um país tão novo como os Estados Unidos, a visão racista da colonização foi alimento nacional. Ali, a doutrina do Destino Manifesto, inspirada no darwinismo social, serviu para justificar todo o expansionismo do século XIX,

primeiro contra os índios, para conquistar as terras do Oeste, depois para construir um império econômico e político no ultramar.

A doutrina era uma espécie de sentimento com vistas a um objetivo final, com a proteção da Divina Providência. Em 1885, o pastor Josiah Strong escreveu que os anglo-saxãos estavam encarregados pela divindade de ser os guardiões. da espécie humana e que Deus os havia preparado para a guerra final entre as raças. Os anglo-saxões deviam estender-se sobre toda a superfície terrestre, começando pelo México, pela América Central e do Sul.

O historiador John Fiske endossava essas idéias em um ensaio intitulado Manifesto Destino de 1885. Como veremos mais adiante, esse princípio racial da expansão colonial foi levado à prática pelo aventureiro norte-americano William Walker, que, em 1855, conquistou a Nicarágua, Honduras e El Salvador para cumprir os desígnios ou o destino de uma raça superior. Walker fundamentou sua saga com as seguintes palavras tomadas de seus escritos doentios:

Só os néscios falam de estabelecer relações duráveis sem o emprego da força entre a raça americana pura, tal como existe nos Estados Unidos, e a raça mestiça hispano-índia, tal como se encontra no México e na América Central. A história do mundo não oferece uma visão tão utópica como a de uma raça inferior submetendo-se mansa e pacifica mente à influência dominadora de um povo superior.

Poder-se-á dizer que uma minoria trabalhou com essas idéias e que a maioria dos europeus e americanos lhes foi indiferente, mas o que o imperialismo fez na África, Ásia e América Latina constitui a prova mais irrefutável de que aqueles teóricos interpretaram acertadamente o sentir cotidiano de qualquer branco que vivia em Londres, Paris ou Nova Iorque. Bastou que alguma dessas personagens chegasse a esses continentes, como soldado, funcionário, comerciante ou simples turista, para sentir-se interpretado por aquelas extravagantes teorias.

A globalização ou integração dos mercados de vários países é uma prática econômica também ligada à internacionalização do capital. Sua origem remonta aproximadamente a 1870, quando tiveram início as ondas de investimento de capitais no exterior. A expansão econômica global foi interrompida temporariamente em 1929, devido à crise da Bolsa de Nova York. Ganhou novo impulso, porém, em decorrência da Segunda Guerra Mundial.

Além dos fatores político-econômicos propulsores do neocolonialismo, é necessário discutir outras justificativas teóricas que deram suporte à investida das potências ocidentais sobre a África e a Ásia. Dentre elas, destaca-se o "darwinismo social", que defendia a idéia de que a teoria da evolução de Darwin podia ser aplicada à evolução da sociedade. De acordo com Darwin, em cada espécie existe uma permanente concorrência entre seus membros; as plantas e animais mais aptos transmitem suas características genéticas favoráveis a maior número de descendentes.

Ocorre, desse modo, uma seleção natural das espécies. Por sua vez, o darwinismo social pregava que na luta pela vida só sobreviveriam as raças e as nações "mais capazes". Daí a visão de que O neocolonialismo seria uma missão civilizadora de uma raça superior, a branca, representada sobretudo pelo europeu e norte-americano. Esta visão racista da neocolonização acabou consolidando o direito à violência contra os povos neocolonizados.

Até o início do século XIX, os únicos redutos europeus existentes na África resumiam-se às regiões litorâneas de Angola, Moçambique e Guiné, ocupadas por Portugal desde o século XVI, e ao Cabo, ao sul do continente. Este era uma antiga colônia de protestantes holandeses (os bôeres), ocupada pelos ingleses em 1806 devido ao seu valor estratégico, durante o confronto com Napoleão, e transferida para a soberania britânica em 1814, por decisão do Congresso de Viena.

A nova conquista da África ocorreu entre os anos de 1830 e 1880, e de modo muito mais violento e traumático do que no período anterior, uma vez que a partilha entre as potências não respeitou a unidade linguística e cultural preexistente.

A conquista da Argélia, possessão otomana governada por uma elite turca e árabe, iniciada em 1830 e completada em 1857 pelos franceses, teve como pretexto a ação de piratas argelinos no Mediterrâneo. No plano econômico, a expansão francesa na região assegurava grandes lucros aos grupos privados. No plano político, visava recuperar o prestígio internacional da França,abalado pelas derrotas napoleônicas.

O império francês na África se completaria a partir das conquistas da Tunísia, África Ocidental Francesa (Guiné, Senegal, Daomé, Níger, Costa do Marfim,Alto Volta e Mali), África Equatorial Francesa (Gabão, Congo, Chade e República Centro-Africana), Marrocos e Madagascar.

A Grã-Bretanha reiniciou sua investida no continente africano com o estabelecimento de um protetorado no Egito. Depois apossou-se do Sudão, Rodésia, Uganda, Quênia, Zanzibar, Somália e África Oriental Inglesa. Na África Ocidental, os ingleses se estabeleceram em Gâmbia, Serra Leoa, Costa do Ouro e Nigéria.

Em 1876 o rei belga Leopoldo II ( 1835-1909) tomou posse, como domínio pessoal, do território da bacia do Rio Congo, aproximadamente dez vezes maior que seu país.

Em 1908, a região pertencente ao monarca foi assumida pelo governo belga, retirando qualquer ingerência do rei, considerado responsável pelo morticínio na região.

A crueldade e ganância dos exploradores são marcas de todos os processos de colonização. Os belgas, por exemplo, cometeram diversas atrocidades no Congo, como torturas, mutilações, assassinatos em massa. A foto do século XIX mostra um congolês olhando membros decepados de sua filha pequena pela milícia da Companhia de Exploração Anglo-Belga em Nsala, Congo.

"Ouvi de alguns homens brancos e de alguns soldados as mais repulsivas histórias. O antigo homem branco (eu me sinto envergonhado de minha cor todas as vezes em que penso nele) se postava na porta do armazêm para receber a borracha dos pobres-coitados trêmulos, que, depois de semanas de privações nas florestas, tinham ousado chegar com o que foram capazes de coletar. Quando um homem trazia menos que a porção apropriada, o homem branco encolerizava-se e, tomando um rifle de um dos guardas, fuzilava-o na hora.

Raramente a quantidade de borracha aumentava, mas um ou mais eram fuzilados na porta do armazêm 'para fazer os sobreviventes trazerem mais da próxima-vez'. Homens que tentavam fugir do país e tinham sido apanhados foram trazidos para a estação e enfileirados

um atrás do outro e uma bala albini era disparada atravês deles. 'Uma pena desperdiçar cartuchos nesses miseráveis', dizia ele." (CARROL Ir., Harry. The development of civilization. In: Nova York, Scot Foreman, 1966.)

Unificadas somente na segunda metade do século XIX, a Alemanha e a Itália atrasaram-se na corrida imperialista. Coube à Alemanha a África Oriental Alemã, formada por Tanganica e Ruanda-Burundi.Tal fato frustrou o projeto britânico de estabelecer uma ligação ferroviária norte-sul, do Cairo à Colônia do Cabo, que cortasse exclusivamente território sob domínio britânico. Na África Ocidental, os alemães ocuparam o Camerum, Togo e o Sudeste Africano Alemão, atual Namíbia. Os italianos, por sua vez, instalaram possessões na Somália, Eritréia, Líbia e Etiópia.

A Conferência de Berlim, em 28 de fevereiro de 1885, formulou "as regras do jogo" na partilha da África. O princípio básico era: para reclamar um território, um país europeu tinha de ocupá-lo .Isso acabou permitindo um desenfreado número de anexações que se tornaram conhecidas como "corrida de obstáculos", pois cada nação européia saía em disparada para se apoderar do maior número possível de territórios.

Entre 1830 e 1880, as principais potências européias, juntamente com os Estados Unidos e o Japão, desenvolveram políticas imperialistas na Ásia. Muito antes disso, porém,

as riquezas desse vasto continente fascinavam os ocidentais.

No início do século XIX, a presença portuguesa em Macau (China), Timor (Indonésia), Goa, Damão e Diu (índia); a espanhola nas Filipinas; e a holandesa em Java Indonésia), Sumatra e em outras ilhas davam testemunho de uma primeira onda de expansão européia na Ásia no alvorecer da Era Moderna, bem anterior à arrancada imperialista.

Desde o século XVIII que a índia, terra das especiarias, era mercado essencial para os tecidos de algodão e as exportações metalúrgicas britânicas. Na década de 1750, a Companhia das índias Orientais britânica reforçou sua presença no subcontinente indiano graças às campanhas de um brilhante soldado, Robert Clive ( 1725-1774), que derrotou príncipes nativos aliados aos franceses nas batalhas de Arcot ( 1751) e Plassey ( 1757).

Esses conflitos entrelaçaram-se com a Guerra dos Sete Anos ( 1756-1763), entre ingleses e franceses. Derrotados na índia e em outras frentes de combate, os franceses viram seus adversários tornarem-se senhores do subcontinente indiano.

Entre 1784 e 1858, a quase totalidade do território esteve submetida à Companhia das índias Orientais britânica, que controlava a região por meio de alianças com os príncipes locais. A companhia praticava o comércio, coletava impostos e comandava tropas nativas conhecidas como cipaios. A partir de 1848, a introdução de novas estruturas econômicas -como o pagamento de um imposto individual em dinheiro e a redução das tarifas alfandegárias para as importações -abalaram os costumes locais e liquidaram a indústria manufatureira têxtil indiana, incapaz de concorrer com os produtos britânicos.

A reação veio com a grande Revolta dos Cipaios. A rebelião, que ocorreu entre 1857 e 1858, foi um levante popular que aliou soldados mulçumanos, hindus e príncipes, conscientes de que a verdadeira ameaça às autoridade indianas eram os britânicos. O movimento foi duramente reprimido pelos britânicos e serviu-lhes de pretexto para tomar em mãos o controle político do subcontinente. Em 1876, a índia passou a integrar o Império Britânico e a rainha Vitória ( 1819-1901 ) recebeu o título de imperatriz da Índia.

Desde 1603, o Japão era governado pelo sistema de xogunato. O xogum era uma espécie de primeiro-ministro hereditário que concentrava todos os poderes, tornando o imperador uma figura decorativa. Tal modelo foi abalado no início da década de 1850, quando as potências ocidentais, lideradas pelos Estados Unidos, pressionaram e exigiram a abertura dos portos japoneses, reforçada pela assinatura de tratados comerciais conhecidos como "Tratados Desiguais".

Resignados com a investida ocidental,a partir de 1860, os japoneses começaram a enviar jovens à Europa e aos Estados Unidos, para cursarem universidades de ciência e tecnologia modernas. O conhecimento técnico adquirido no Ocidente permitiu aos japoneses impulsionar seu processo de industrialização.

Paralelamente, o Japão passou a reestruturar seu Exército e sua Marinha. Já em 1868,com apoio - do Exército, o governo foi restaurado em nome do imperador Meiji (1852-1912), que iniciou uma série de reformas objetivando retirar o país de sua condição de atraso. O poder dos grandes senhores de terras foi substituído por um sistema de prefeituras controladas por uma burocracia central. Uma nobreza. um gabinete governamental e um parlamento bicameral deram base à nova organização política. Tais reformas tornaram-se conhecidas como Revolução Meiji.

A modernização econômica foi obtida graças aos investimentos na agricultura,ao aperfeiçoamento da indústria metalúrgica e à adoção de instituições como as sociedades anônimas e os bancos, responsáveis por um ambiente financeiro eficiente, Uma reforma tributária garantiu boas fontes de renda ao governo, que investia cerca de um terço no comércio e na indústria, além de subsidiar a construção naval.

O sistema nacional de educação atingiu noventa por cento das crianças em idade escolar, já que o objetivo do governo era formar mão-de-obra qualificada para incrementar o progresso do país. Essa revolução transformou o Japão em um exemplo de industrialização no mundo não-ocidental. Nas últimas décadas do século XIX, o país já participava da corrida imperialista ao lado das grandes potências ocidentais. Em 1894-1895, a vitória do Império do Sol Nascente numa guerra com a China resultou na independência da Coréia - que passou da área de influência chinesa para a japonesa - e na entrega aos nipônicos de territórios como a Ilha de Formosa (Taiwan).

Dez anos depois, a vitória japonesa na guerra com a Rússia confirmou a entrada de uma potência asiática no clube fechado dos Estados imperialistas.

A China sempre representou um atraente mercado consumidor e fornecedor de produtos cobiçados pelos ocidentais como a seda, o chá, as porcelanas e o artesanato de luxo. Não obstante, o comércio com a região era raro e difícil, até porque os chineses viam os ocidentais como bárbaros e ignorantes e não se interessavam pelas suas mercadorias.

No início do século XIX a situação mudou. Comerciantes ingleses descobriram um produto cujo consumo podia ser incentivado entre os chineses: o ópio. Tradicionalmente empregado como remédio, o ópio passou a ser usado como droga, afetando a saúde do povo. Em represália, o governo chinês proibiu o comércio legal e combateu o contrabando com severas penas, até que as autoridades confiscaram uma carga inglesa e jogaram-na ao mar.

Alegando prejuízos à propriedade privada, o governo inglês iniciou uma série de retaliações que terminaram em conflitos conhecidos como Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860). Na primeira, os chineses foram derrotados pelos britânicos, e na segunda, por uma aliança anglo-francesa. O resultado dessas guerras foi a assinatura de tratados que beneficiavam os interesses europeus.

Pelo Tratado de Nanquim ( 1842),a China teve de abrir cinco de seus portos ao livre comércio e entregar a Ilha de Hong Kong aos ingleses. Pelo Tratado de Tientsin (1858), os chineses admitiram a livre importação do ópio, abriram dez novos portos ao comércio europeu e permitiram a atuação de missionários cristãos no país, entre outras concessões.

Não tardou para que outras potências seguissem o exemplo da Inglaterra. Em 1844, franceses e norte-americanos obtiveram concessões comerciais e privilégios para seus cidadãos. Em 1860, a Rússia teve reconhecida sua soberania sobre territórios siberianos tradicionalmente disputados pela China. E o Japão, que entrou tarde na corrida mas venceu os chineses na guerra de 1894-1895, conseguiu o controle de portos, além de anexar ou ocupar extensões do território chinês. Tal conjuntura desencadeou uma crise que se prolongou por várias décadas, até a reunificação da China continental pelas tropas de Mao Tsé-tung ( 1893-1976) e o advento da República Popular da China.

Entre 1900 e 1901, surgiu um movimento contra a dominação ocidental na China que ficou conhecido como Guerra dos Boxers. Nacionalistas chineses insatisfeitos com a presença estrangeira no país deram início a uma série de atentados, que acabaram gerando uma guerra. Um exército internacional composto por europeus, norte-americanos e japoneses sufocou a rebelião. Os chineses foram condenados apagar uma indenização e a permitir a presença de tropas estrangeiras estacionadas em seu território.

Entre 1858 e 1862, os franceses estabeleceram uma colônia na Península da Indochina com o nome de Cochinchina, correspondente ao sul do Vietnã. Nos trinta anos seguintes, Paris estendeu seu domínio sobre a região. Em 1863, o Camboja passou a ser um protetorado francês. O norte do Vietnã (Tonkim) e o centro do território vietnamita (Anã) também se tornaram protetorados em 1883, e o L aos, em 1893.

Além dos interesses econômicos na região, o governo francês tinha necessidade de possuir uma base naval no Oriente, que servisse como agente facilitador no comércio com a China, grande fornecedora de seda para a indústria têxtil francesa.

A América Latina não foi diretamente atingida pela fragmentação política proposta pelos países imperialistas, como ocorreu na África e na Ásia. Do ponto de vista econômico e político, ela já sofria ingerência de países capitalistas como Inglaterra, Estados Unidos, França e Alemanha, nos setores do comércio externo, exploração de minas, agricultura, vias de comunicação e de transporte.

Na primeira metade do século XIX, os Estados Unidos já haviam anexado territórios de colonização espanhola como o Texas, o Novo México e a Califórnia. A partir da segunda metade do século XIX, as intervenções deram-se em nome da Doutrina Monroe. Enunciada em 1823, a doutrina manifestava hostilidade a qualquer novo projeto de colonização ou de intervenção política de potências européias no continente, de acordo com o lema "A América para os americanos". Posteriormente, isto passou a significar que os Estados Unidos eram a única potência com o direito de interferir em qualquer ponto do hemisfério.

 

I Guerra Mundial (1914-1918)[4]

 

 

Os animais lutam, mas não fazem guerra. O homem é o único primata que planeja o extermínio dentro de sua própria espécie e o executa entusiasticamente e em grandes dimensões. A guerra é uma de suas invenções mais importantes; a capacidade de estabelecer acordos de paz é provavelmente uma conquista posterior. As mais antigas tradições da humanidade, seus mitos e lendas heróicas, falam sobretudo da morte e do ato de mata!:

(ENZENSBERGER, Hans Magnus. Guerra civil)

 

Uma conferência entre bósnios e croatas, patrocinada pelos Estados Unidos, tentou em fevereiro e março de 1994, sem resultados concretos, estabelecer um acordo de paz a fim de encerrar mais um capítulo da guerra civil iugoslava iniciada em 1991, quando a Eslovênia e a Croácia se separaram do país. Façamos uma retrospectiva do conflito:

- a Bósnia-Herzegovina localiza-se na península dos Balcãs. Até 1991, o país era o centro da Federação lugoslava, também formada pela Sérvia, Montenegro, Eslovênia, Croácia

e Macedônia;

-.a população iugoslava era composta por sete grupos étnicos, com cinco línguas e dois alfabetos, grupos que se misturavam como um mosaico, sendo poucas as áreas em que uma etnia era amplamente majoritária;

- em março de 1992, a maioria dos bósnios votou pela independência do país num plebiscito. Começava a guerra civil, porque os sérvios não admitiam a separação. Apoiados pelo exército da ex-Iugoslávia, Os sérvios passaram a expulsar outros povos das áreas que controlavam para torná-las "puras”

Em certa medida, a guerra civil na ex-Iugoslávia representa a continuação de um conflito que se iniciou há mais de oitenta anos: a Primeira Guerra Mundial. Hoje, sérvios, croatas, bósnios e muçulmanos convivem nos escombros daquele que foi o palco de um dos mais sangrentos episódios do mundo contemporâneo.

 

ASSASSINATO DE FRANCISCO FERDINANDO: 28 DE JUNHO DE 1914

 

Em 1914 a Primei ra Guerra Mundial começava em Sarajevo, quando nacionalistas da Sérvia mataram num atentado o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro. Os sérvios, de origem eslava, acharam que o atentado seria útil para a "causa": a anexação ao Estado sérvio dos territórios eslavos dos Balcãs - Croácia e Eslovênia - então sob domínio austríaco.

A morte do arquiduque e de sua esposa deram aos austríacos o pretexto para invadir a Sérvia e a certeza da proteção da Alemanha. As alianças em vigor empurraram, entre 1 e 28 de agosto de 1914, Alemanha, França, Reino Unido, Rússia, Bélgica, Montenegro e Japão para a guerra.

Na verdade, naquele momento, qualquer incidente poderia levar as grandes potências a um confronto. A Europa tornara-se um barril de pólvora. O assassinato de Francisco Ferdinando, foi a fagulha que precipitou a explosão.

De que modo a Europa havia se tornado um barril de pólvora, a ponto de desdobrar um episódio do nacionalismo balcânico até transformá-Io num confronto mundial.

Entre 1815 e 1914, não ocorrera nenhum conflito que envolvesse diretamente as potências européias. Mas isso não impediu os governos de se lançar numa corrida armamentista para se equipar com os novos armamentos desenvolvidos em cada país pela "tecnologia da morte".Tais armas serviram à expansão imperialista européia. Foram "testadas" em terras da Ásia e da África, ajudando a submeter as populações locais ao domínio de Estados como a Grã-Bretanha e França, que construíram vastos impérios coloniais. Mas algumas potências como a Alemanha e a Itália, de unificação tardia, realizada na segunda metade do século XIX, haviam se atrasado na corrida imperialista e controlavam territórios menos extensos e menos ricos. Ambas estavam decididas a alcançar suas rivais -e, para isso, era fundamental dispor do equipamento bélico mais moderno.

Em outras palavras, a corrida armamentista não levou as nações européias diretamente à guerra, mas a favoreceu devido à conjuntura internacional. As rivalidades imperialistas contribuíram para que a indústria bélica se desenvolvesse, consideravelmente no período além de, associadas à corrida armamentista, gerarem uma divisão gradual da Europa em dois blocos, mediante uma política de alianças.

A Tríplice Aliança envolvia a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e a Itália. A aliança entre Alemanha e Áustria-Hungria se explicava pela necessidade de manter o equilíbrio interno do novo império alemão. A aproximação com a Itália estava diretamente ligada à unificação territorial tardia dos italianos e alemães e ao atraso destes povos na corrida imperialista.

O entendimento cordial ou Tríplice Entente (Entente Cordíale) envolvia ingleses, franceses e russos. A participação da França num bloco antigermânico pode ser explicada pela derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana de 1870 e a subsequente anexação ao Império Alemão das províncias francesas da Aisácia e da Lorena. A presença da Rússia pode ser explicada a partir do envolvimento da Áustria-Hungria (aliada da Alemanha) nos Balcãs, região de interesse do Império Russo.

No mosaico de povos iugoslavos (termo que significa "eslavos do sul") havia populações que habitavam a metade austrfaca do Império Austro-Húngaro (eslovenos, croatas, dálmatas}; outras habitavam a metade húngara (croatas, alguns sérvios} ou estavam submetidos à administração imperial conjunta (Bósnia-Herzegovina}; o restante formava pequenos reinos independentes (Sérvia, Bulgária e Montenegro} ou se encontrava sob controle turco (Macedônia}. O governo russo, que alegava ser o protetor de todos os povos eslavos, via com hostilidade a presença austríaca na região.

Diante desse quadro, não chegou a surpreender que o sentimento anti-alemão dos franceses e anti-austríaco dos russos resultasse, em 1880, na aliança franco-russa. A surpresa na formação do bloco foi a inclusão da Grã-Bretanha, adversária da França em quase todas as guerras européias, desde o século XVII. Além de secular, o antagonismo entre as duas potências vinha crescendo no século XIX devido à competição pelo primeiro lugar na corrida imperialista.

 

COMO SE EXPLICA A VINCULAÇÃO DOS INGLESES A FRANÇA E A RÚSSIA?

 

E m primeiro lugar, o "jogo" havia mudado, incorporado novos parceiros e alcançado amplitude mundial. Não se tratava mais da hegemonia na Europa, como no tempo de Napoleão. A rivalidade era global, e dela participavam potências americanas e asiáticas como os Estados Unidos e o Japão.

O próprio desenvolvimento do capitalismo ajudara a criar rivalidades novas. Já no início do século, a economia mundial deixara de ser um sistema girando em torno da Grã-Bretanha. Outros países industrializados disputavam aos britânicos os mercados consumidores, e nenhum concorrente era tão agressivo quanto os alemães. País de industrialização mais recente que a Grã-Bretanha, a Alemanha havia incorporado tecnologias mais avançadas. Assim, os produtos que fabricava não raro tinham qualidade superior à das manufaturas britânicas. A concorrência se estendia à esfera financeira: os empréstimos alemães às vezes eram mais vantajosos que os dos banqueiros britânicos.

A agilidade comercial, industrial e financeira dos alemães não era o aspecto mais preocupante para o Império Britânico. Nem tampouco a hegemonia alemã no continente, baseada no poderio do seu Exército. O que mais despertou os temores e o rancor dos britânicos foi a decisão do Império Alemão de se tornar uma potência naval, a partir da construção de uma poderosa esquadra de guerra. Com isso, a Alemanha deixava de ser uma concorrente para se tornar uma ameaça. Toda a estratégia britânica se baseava no domínio dos mares; eram os navios que ligavam a Grã-Bretanha, uma ilha de tamanho médio, a seus territórios coloniais nos quatro cantos do mundo. A frota alemã, embora bem menor que a britânica, reunia embarcações e armamentos mais modernos e tecnologicamente mais avançados. O governo e a população da Grã-Bretanha viram o crescimento acelerado da frota de guerra alemã como uma ameaça ao Império e às próprias Ilhas Britânicas.

Nessa conjuntura, e dada as rivalidades econômicas e políticas dos dois países, não é difícil de se imaginar por que a Grã-Bretanha considerou a Alemanha o mais provável e perigoso de seus adversários e decidiu se aliar aos franceses e russos.

Toda essa conjuntura política e econômica foi agravada por um outro fator não menos importante: o nacionalismo.

Na primeira metade do século XIX, na série de sublevações que culminou em 1848 na Primavera dos Povos, nacionalistas, liberais, republicanos e representantes do nascente movimento operário lutaram lado a lado contra o despotismo real. No final do século XIX, esse passado revolucionário fora descartado. Nesse momento, as pessoas se identificavam em termos emocionais com sua nação, podiam ser manipuladas por seus governos e mobilizadas politicamente. A nação era o novo "culto" patriótico das sociedades, elemento de união entre os cidadãos e o Estado; a propaganda nacionalista se fez a partir da escola, onde as crianças aprendiam a ser bons súditos e bons cidadãos. Isso gerou um novo tipo de movimento político, baseado no patriotismo exagerado, no temor e no ódio ao estrangeiro, na idealização da expansão territorial, na conquista e no próprio ato de guerra.

“As massas alemãs, francesas e inglesas, ao marchar para a guerra em 1914, o fizeram não como guerreiros e aventureiros, mas como cidadãos e civis. É este mesmo fato que, para governos que operam em sociedades democráticas,(demonstra a necessidade do patriotismo e igualmente a sua força. Apenas o sentimento de que a causa do Estado era genuinamente a sua poderia mobilizar com eficácia as massas; e em 1914 os ingleses, franceses e alemães sentiam isso.”

(HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios)

 

QUATRO ANOS DE DESTRUIÇÃO

 

Esperava-se que a guerra européia deflagrada em agosto de 1914 fosse curta, já que nenhum governo envolvido dispunha de um projeto econômico e militar de amplitude para uma conflagração prolongada. Mas o conflito durou quatro anos e três meses, obrigando os beligerantes a mudar suas estratégias. O que se apresentava como uma guerra de movimentos ampliou-se e acabou substituída por uma guerra de posições ou de trincheiras de difícil penetração.

Passo a passo, o conflito se tornou mundial. O sistema de alianças arrastou outros países à luta. Entre 1914 e 1916, Alemanha, Áustria, Rússia, França e Grã-Bretanha  envolveram no confronto suas colônias e áreas de influência da África e da Ásia. Em abril de 1917,.foi a vez do continente americano ser envolvido. A intervenção dos Estados Unidos na guerra está ligada ao rompimento do equilíbrio das forças beligerantes devido à saída da Rússia do front, por questões internas: a eclosão da revolução que derrubou o czar e resultou, meses depois, na tomada do poder pelos bolchevistas.

A guerra também se tornou total, mobilizando exércitos de milhões de homens. Para equipá-los, foi necessária uma enorme mobilização de recursos em suprimentos, munições e armas. Além do armamento convencional, os adversários utilizaram "armas" econômicas e psicológicas. Na guerra econômica, visavam atingir o inimigo nos setores de produção, impedindo ou dificultando a chegada de matérias-primas para suas fábricas. A guerra psicológica representou um meio de conseguir vantagens estratégicas: o cansaço, fruto da longa duração do conflito, e o desgaste moral tiveram enorme importância para a vitória dos aliados em 1918.

A PREPARAÇÃO DA PAZ

 

Em 1919, representantes dos países vencedores reuniram-se em Versalhes para elaborar um tratado de paz. Foi uma tarefa complexa e difícil, devido à natureza das questões a serem resolvidas e do grande número de aspirações e pontos de vista contraditórios que deveriam ser harmonizados.

Em 1918, o presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, já havia formulado um plano de paz, que ficou conhecido como "Os 14 pontos de Wilson". Foi recebido por algumas potências como "admirável, mas muito abstrato", por não levar em conta "determinadas realidades duras da situação" - em outras palavras, por não punir a Alemanha devido a sua responsabilidade no conflito.

Ao aceitarem a rendição, as autoridades alemãs estavam convictas de que a nação seria tratada de acordo com os princípios defendidos pelo presidente dos Estados Unidos. Mas isso não ocorreu. Assim, em 28 de junho de 1919, a Alemanha foi obrigada a assinar o Tratado de Versalhes, cujos termos frustravam suas expectativas. Eis alguns pontos impostos pelos vencedores: a Alsácia-lorena seria devolvida à França; a região do rio Reno seria totalmente desmilitarizada; as minas de carvão do Sarre passariam a ser exploradas pela França; as antigas colônias alemãs seriam cedidas à Grã-Bretanha e à França; O exército alemão seria reduzido a 100 mil soldados e o país não poderia constituir uma força aérea; os navios mercantes alemães com mais de 1.600 toneladas de capacidade passariam a

pertencer aos Aliados (especialmente à Grã-Bretanha e à França), bem como suas locomotivas, vagões e gado; como indenização, a Alemanha deveria pagar 269 milhões de marcos-ouro aos governos aliados, uma vez que reconhecia sua responsabilidade no conflito.

Embora o tratado fosse considerado humiIhante e injusto, a Alemanha não teve alternativa senão concordar com os termos impostos. Para a Itália, membro do bloco vitorioso – o país rompera sua aliança com a Alemanha e lutara na guerra junto aos aliados -, as condições de Versalhes também não foram satisfatórias, na medida em que não atenderam a suas pretensões imperialistas.

Outra questão associada ao Tratado de Versalhes foi a criação da Liga das Nações, organizada para garantir a paz mundial. Mas a entidade já nasceu falida, uma vez que dela não participaram Estados como a Alemanha e Rússia, de grande peso no cenário europeu e mundial.

Já o Tratado de Saint-Gennain, assinado também em 1919, desmembrou o Império Austro-Húngaro e retirou da Áustria sua saída para o mar. Além disso, forçou aquele país a reconhecer a independência da Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e Iugoslávia.

 

O FIM DA ERA EUROPÉIA

 

Disse o filósofo Hegel que (...) "só começamos a entender uma era quando as cortinas vão se fechar sobre ela" (...). É exatamente após o fim da guerra mundial que iremos perceber a decadência da Europa como foco das decisões mundiais. O poder político e econômico transferiu-se para outras mãos, notadamente para os Estados Unidos. Não obstante, estas transformações políticas seriam seguidas por transformações geopolíticas, demográficas, econômicas e sociais.

Em termos políticos, o período posterior à Primeira Guerra verá surgir partidos que irão propor soluções radicais à crise econômica, política e financeira na Europa.

O sistema democrático parlamentar parecia ser muito lento para resolver os problemas que as massas populares desesperadas desejavam ver solucionados com rapidez. A democracia parlamentar era acusada de gerar a crise e, ao mesmo tempo, de ser incapaz de resolvê-la.

Nesse contexto, os partidos políticos radicais aumentaram sua influência. Através da crítica dos valores liberais, eles conquistaram a confiança da população.

As transformações territoriais ou geopolíticas podem ser vistas a partir de um exame dos mapas da Europa antes e depois da guerra.

Mais de 20 milhões de pessoas morreram em consequência do primeiro conflito mundial, com a virtual dizimação, nos países envolvidos, da faixa etária entre vinte e quarenta anos. As perdas materiais foram terríveis; a Europa precisa reconstruir-se no meio dos escombros. A economia estava destroçada. E às perdas populacionais e econômicas somou-se uma destruição cultural de valor inestimável.

A guerra interrompeu uma revolução de valores, de aspirações e de comportamentos iniciados no final do século XIX. Numa síntese rápida, cortou a expansão do individualismo do mundo operário, as aspirações dos jovens, das mulheres e das vanguardas intelectuais e artísticas.

O alvorecer do século XX esboça, sob certo ponto de vista, uma outra modernidade. A expansão do mercado, o aumento da produção, a explosão de técnicas impulsionam uma redobrada intensidade do consumo e intercâmbio. Os cartazes publicitários excitam o desejo. As comunicações instigam a mobilidade. Trem, bicicleta, automóvel, estimulam a circulação de pessoas e coisas. Cartões-postais e telefonemas personalizam a informação. A capilaridade das modas diversifica as aparências. A foto multiplica a imagem de si. Um fogo de artifício de símbolos que, às vezes, dissimula a imobilidade do cenário.”

(PERRO1; Michelle. História da vida privada. São Paulo. Companhia das Letras, 1991. v. 4)

O mundo operário foi atingido exatamente no momento em que valorizava o lazer e reivindicava um espaço para si. Os movimentos de jovens, sobretudo o escotismo, viram-se brutalmente interrompidos. As aspirações femininas de novas profissões e liberdades também foram bloqueadas.

Segundo Michelle Perrot, a guerra fez soar o "fim do recreio" e ao mesmo tempo mobilizou as energias da juventude no momento em que esta foi chamada para cumprir seu dever, interrompendo, dessa forma, o fluxo da vida privada.

Em que pensam estes jovens que embarcam, aparentemente alegres, em uma guerra que conforme todos dizem será curta? Estes meninos entregues a jogos cuja crueldade ainda não conhecem? Estas mulheres, jovens, ou não, que agitam seus lenços, todas tomadas pela expressão necessária de um patriotismo com o qual não atinam. Que lenços, que amores são rompidos ? Que esperanças estilhaçadas ou oferecidas ? Que passado? E que futuro? Vidas miúdas, semelhantes e diferentes, por um instante convergem e se confundem em um só corpo que o movimento da história arrebata.

Uma estação, um trem; modernas figurações do destino.”

(PERRO1; Michelle. História da vida privada: da revolução francesa à primeira guerra. São Paulo, Companhia das Letras. 1991.)

 


 

[1] Texto extraído do livro: HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções – Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

[2] Texto extraído do livro MOTA, Myriam Becho e BRAICK, Patrícia Ramos. História – das cavernas ao terceiro milênio. São Paulo: Moderna, 2002.

[3] Texto extraído do livro: BRUIT, Héctor H. O imperialismo. São Paulo: São Paulo: Moderna, 1994.

[4] Extraído do livro: Braick, Patrícia Ramos e Mota, Myriam Becho. Historia das Cavernas ao Terceiro Milênio. São Paulo: Moderna, 2001.