Sobre a mestiçagem no Brasil

Darcy Ribeiro

 

Queridos amigos, gostei desse convite de vir aqui à USP, que para mim é a casa de Florestan Fernandes, de Egon Schaden, de Gioconda Mussollini, de Philipson, lingüista genial que aqui esteve; foi essa a geração que esteve aqui comigo na década de 1940.

Gostaria de conversar com vocês sobre um tema que me interessa fundamentalmente. Como antropólogo, estudei duas das tantas antropologias que existem. Uma delas foi a etnologia indígena, à qual me dediquei dez anos. Fiquei dois anos com os índios do Pantanal, os Kadiwéu, depois mais dois anos com os Urubus-Kaapor do Pará e Maranhão, e mais uns seis anos andando por toda parte, estudando, vendo povos diferentes.

Neste momento estou relendo meus diários de campo de 1949 e 1950, à beira do rio Gurupi, para serem publicados pela Companhia das Letras. É uma leitura muito gostosa; eu havia pensado em publicar uma monografia falando da religião, da arte, da mitologia dos índios, mas depois vi que era tolice, pois o diário é muito mais expressivo. O diário convida o leitor para caminhar mil quilômetros a pé comigo no meio da mata, tocando em dezenas de aldeias e surpreendendo a cara de cada uma naquele momento da vida dela, em que pode estar ocorrendo um casamento, uma morte, um batizado. Assim eu podia ver muito mais coisas diferentes do que se eu ficasse parado num lugar só.

Mas o mais gostoso para mim nessa revisão é conviver comigo mesmo, com aquele Darcy que existiu com 28 anos. Eu tinha um bigode que os índios gostavam de pegar. É bom lembrar certas cenas descritas ali. Por exemplo, chego numa aldeia que nunca tinha visto nem tocado num homem branco. Não sou tão peludo, mas mesmo assim os índios achavam engraçado os pêlos na minha perna. Descobriram depois outras coisas formidáveis: por exemplo, que a planta do meu pé é uma coisa delicada, e queriam fazer cócegas. Descobriram também uma coisa muito incômoda que eu tinha: um molar de ouro. Aí metiam a mão na minha boca para ver se era um dente de pedra que eu tinha lá. E outras coisas assim, como esta: eu levava comigo um cozinheiro preto, grande sujeito, grande amigo, e os índios várias vezes o lavaram no rio para ver se ele era preto mesmo, pois acreditavam que ele estava pintado.

Bem, foi um gozo para mim ser etnólogo e conviver com os índios, foram anos bonitos. Ao sair de São Paulo muitos amigos meus disseram que era um suicídio, que aqui eu estava ganhando bem, podia fazer a vida, ter êxito, e que ir para a mata... Os idiotas não imaginavam, e nem eu sabia ainda, mas aqueles seriam os anos mais bonitos da minha vida, os da convivência com os índios. E hoje não sei nem porque demorei tanto tempo para tomar essa decisão.

Vi muitas coisas notáveis, como, por exemplo, o talento indígena para a solidariedade, para a convivência solidária, amiga. Nunca vi um índio dar um pescoção no outro; você convive durante anos com dezenas de tribos e não vê uma única briga. É um talento que eles têm, que cria um ambiente agradável.

Outra coisa notável, que depois vi teorizada em livros, é uma vontade veemente de perfeição: uma índia faz um cesto, ou um índio faz uma flecha, com muito mais perfeição do que seria necessário para a cesta ou a flecha exercerem sua função. A cesta é o retrato de quem a fez; quem olha a cesta lê caligraficamente que é de fulana, e pela cesta pode ver se é uma mulher relaxada ou criativa.

Bem, aí caí com um novo câncer na UTI. Não recomendo a vocês a UTI; é muito ruim, é uma casa da morte. Eu estava apavorado, louco para fugir da UTI, com duas preocupações: viver e escrever esse livro. Vejam, eu tinha escrito seis outros livros, publicados em 194 edições. É a obra teórica mais ampla que o Brasil produziu, e a única teoria antropológica nossa que foi traduzida para todas as principais línguas ocidentais. E ter feito todo aquele esforço para tornar o Brasil explicável e não escrever sobre o Brasil - isso me frustrava muito. O certo é que consegui fugir da UTI e fui para Maricá com meu sobrinho, e foi isso que me salvou. Mandei minha assessora levar o computador para lá, e em vinte e tantos dias refiz os textos que havia e compus esse livro, O Povo Brasileiro, em que tento apresentar uma teoria do Brasil.

 

 

Nesse livro consegui ter independência mental para pensar o Brasil, o povo brasileiro, o fazimento do povo brasileiro. E há algumas coisas que ressaltaram desde logo, coisas sabidas mas que nunca haviam sido teorizadas.

Em primeiro lugar, vejam o desencontro, o grande desencontro. Imaginem a cena: a praia cheia de índios gritando e chamando, e mais índios chegando, todos nus, pintados, adornados com suas plumas, se namorando, aquela confusão. E olhando aquela coisa incrível, que levou muito tempo para chegar: os barcos que vinham do oceano. Nunca tinham visto barcos tão grandes, com as velas estufadas, e quando os barcos vinham chegando eles pensavam: "É Maíra" - o deus deles - "que mandou! É o povo de Maíra chegando".

Sim, porque aquelas naus oceânicas que estavam chegando eram trinta, cinqüenta vezes maiores que os maiores barcos deles. E quando chegam perto, há duas visões. O europeu que está lá olha para o litoral - e como todo europeu que chegou depois, olha vendo a indianidade. As meninas nuas, quer comparar? Muito mais bonitas que as de Lisboa, as vergonhas todas à mostra, estufadas. As descrições todas são formidáveis, todos eles - Colombo, Vespúcio, Pero Vaz de Caminha - todos se encantaram com aquela humanidade nova.

Isso teve um efeito tremendo sobre a mente humana: lavou-a de uma velha idéia judaica de que os antepassados dos homens eram anacoretas bíblicos, que viviam no deserto comendo raiz amarga. Então foi surgindo uma etnologia recíproca, através da qual um ia figurando o outro. Na Europa, a ela correspondeu a imagem do Bom Selvagem. E o mundo se entusiasmou tanto que em 1516 Thomas Morus, que aliás não era político, escreveu A Utopia; ou seja, a coragem de pensar o mundo como projeto vem de Thomas Morus, e vem desse encontro com esse mundo tão diferente. É a idéia de que a sociedade é construível como um projeto humano. Depois disso, toda literatura que vai dar em Rousseau do Bom Selvagem, que vai dar em Montesquieu, que vai dar nos Enciclopedistas, que vai dar na Revolução Francesa - essa linha nova de pensamento - irrompe pela Europa.

Esse é o efeito do índio sobre o europeu que chega, e que também provoca discussões tremendas. Tanto Colombo como Vespúcio perguntam ao Papa: "Esse povo que encontramos, não será o Paraíso Perdido? Por que esse povo tão bonito, tão inocente, as florestas sempre verdes?". O Papa então cria uma comissão de teólogos para ver se aquilo era verossímil. As perguntas eram enormes: eles receberam a palavra de Cristo? Não, provavelmente não. Então, nem têm notícia do pensamento religioso? Nesse caso são inocentes, incapazes de pecar. E então, se morrerem, vão para o limbo? Ou será que nem vão para o limbo? Toda uma série de discussões assim se processa naquele momento.

O principal de tudo isso é o seguinte: a visão européia sobre o mundo indígena provoca uma renovação de todo o pensamento europeu. E a visão do índio era o contrário. Pensem: o índio que via, via o quê? Gente que surgia barbada - nunca tinham visto um homem barbudo, como um português. É um troço feio, é um macaco. E mais: escalavrados e feridos de escorbuto, infectos e fedorentos, porque não tomavam banho há meses. E os índios punham os dedos nas ventas, no convívio com aquele pessoal horrível que vem chegando e desembarca. "Mas não mata não, porque deve ser o povo de Maíra!" "Mas Maíra mandou seus diabos para cá, são os diabos de Maíra!" Depois que eles tomaram banho, melhoraram. Mas ocorre então uma coisa tremenda: é que essa gente estranha trazia facão, machado, tesoura, e também espelho, miçanga. E quem viu um machado de ferro, como pode continuar a trabalhar com um machado de pedra, que não corta, esmaga? Quem já viu uma faca não pode mais prescindir disso. Assim, aquela gente se tornou indispensável para prover os novos bens, de que eles se tornaram extremamente dependentes; e a notícia correu por toda a parte.

E o Brasil foi também ocupado pelas galinhas e cachorros que os portugueses deixaram, pois esses animais encantaram os índios; e como se reproduzem muito, antes de o branco chegar a um lugar, lá já havia cachorros e galinhas.

Cheguei uma vez a uma tribo indígena e me perguntaram "Você come isso?" - lá estava cheio de galinha. Falei: "Como e gosto". Ele disse então "Mas nós não comemos". "Então para que vocês criam?", perguntei. "É porque o galo canta bonito!" [risos]. Vocês percebem que a visão do mundo é diferente, são povos diferentes. Mas os índios tinham de encontrar um modo, e o modo que encontraram de obter esses objetos foi dentro da tradição indígena: é a instituição do cunhadismo. Quando chegava um estranho na aldeia, davam a ele uma mulher. Isso eles aplicaram: começaram a levar uma moça de cada aldeia. E como não havia comando geral para os índios em região nenhuma, pois cada aldeia era uma unidade autônoma, cada aldeia levava uma moça para o branco que se aproximasse mais deles. E como muitas aldeias levavam muitas moças, surgiu o cunhadismo. Quando um branco recebia essa moça, passava a ter cunhados, que eram os irmãos dela. Pelo sistema de parentesco classificatório, todos eram cunhados; e, com isso, o branco podia aliciar todos os homens de várias aldeias para cortar pau-de-tinta, levar nas costas e carregar uma nau. Uma nau dava 3.000 dólares, ou coisa assim, e era impossível pagar salário àquela gente. Portanto, foi o cunhadismo que permitiu estabelecer um parentesco, prover esses cunhados de facas, de miçangas.

Depois de algum tempo, porém, essa gente já tinha tudo o que queria e não estava tão estimulada. É quando surge a outra etapa, a do açúcar: era necessário aprisionar o índio como escravo para a produção de açúcar, e assim se estabeleceu uma guerra aberta. Mas vejam: no período anterior, o que há? Cada homem recebendo muitas mulheres. Os espanhóis foram mais cuidadosos: chegaram a fazer listas; um espanhol de Assunção teve oitenta mulheres. Pelos meus cálculos, o avô de vocês, João Ramalho, fundador da paulistanidade, não tinha menos de trinta mulheres índias. Fala-se de João Ramalho e Bartira, mas Bartira era coisa de jesuíta; levaram uma índia, deram a João Ramalho e fizeram uma cerimoniazinha. E o filho era dele, mas ele, pela importância que tinha, devia ter umas trinta mulheres. As descrições dele são poucas, mas deixam ver que Santo André era um covil de criminosos, uma coisa terrível. Os jesuítas descrevem isso: cada qual com muitas mulheres e muitos filhos, todos reproduziam em todas; era um carnaval.

Assim, o cunhadismo multiplica fantasticamente a população e dá origem a uma coisa nova, que se chama "mameluco". O filho da índia prenhada por um branco, quem era? Não era europeu nem indígena; era um ser que os jesuítas apelidaram de mameluco.

Aliás, "mameluco" é uma palavra para o menino criado na casa árabe. Os árabes tinham casa de criação de cavalo e casa de criação de gente. Tomavam meninos de dois anos de idade e os criavam; se era muito bruto, capavam e servia como eunuco; se era bom cavaleiro, guerreiro, podia ser um janízaro ou xipaio. Mas os que revelassem talento para exercer o mando alcançavam a alta condição de mameluco. Este era devolvido ao seu povo para administrá-lo; tinha, então, a cara de seu povo, mas a alma árabe.

 

 

Este apelido é a designação que o padre Montoya, autor da Conquista Espiritual, dá aos mamelucos paulistas, relatando o padecimento das missões jesuíticas paraguaias assaltadas pelos bandeirantes. Lá, acabaram com 300 mil índios catequizados pelas Missões. Isso é coisa dos paulistas também, a Bandeira.

É difícil hoje fazer uma idéia de uma Bandeira. Às vezes eram duas mil pessoas andando e acampando, como uma cidade. De vez em quando faziam uma roça para comer, depois caminhavam mais três, quatro meses. Assim puderam percorrer distâncias enormes e ofereceram combate prenhando gente. Os homens para o trabalho, e as mulheres, todas as que podiam trazer. Essas cidades móveis trouxeram um número enorme de mulheres; não há cálculo. Para formar o primeiro milhão de brasileiros, quantas mulheres índias foram prenhadas? Talvez duzentas mil, para um número muito menor de europeus.

Vemos então essa coisa espantosa: como Portugal, com apenas um milhão de habitantes, consegue dominar esse mundo enorme? Primeiro, com o cunhadismo; depois, pela ação do bandeirante. E o bandeirante, quem é? É o mameluco parido por uma índia, que não se identificava com a mãe, mas falava a língua da mãe. Até 1700 supõe-se que em São Paulo se falava tupi-guarani, ou nheengatu, como no Paraguai.

Assim, essa gente que surgia aqui falava a língua indígena. E mais uma coisa muito importante: tornava-se herdeira de mais de dez mil anos de adaptação ecológica, em que os índios haviam classificado a natureza. Um índio sabe o nome de cada bichinho; não chama nada nem ninguém de bicho, nem chama árvore de pé-de-pau; sabe o nome de cada uma. Eles estão há dez mil anos aqui, nós chegamos ontem. E o mameluco se torna herdeiro dessa sabedoria indígena. Por exemplo, vi os índios cultivarem suas roças comuns com 45 ou 50 tipos de plantas diferentes, e mais umas 40 fora, como árvores domesticadas. E nós perguntamos: quantas plantas, nós que temos a natureza mais rica do mundo, domesticamos? Nenhuma! E os índios nos deram quarenta e tantas.

Vejam então que a fórmula de adaptação do homem ao trópico não podia ser o português vir aqui plantar cevada; aqui o negócio é o milho. A sobrevivência foi dada através dessa herança que o mameluco recebe de sua mãe. Ou seja, esse mestiço castigador do gentio materno, caçando índios por toda a parte, era um descendente dos índios; e era um brasileiro comum, gente com a minha cara, com a sua cara, a cara comum brasileira. Nunca ninguém me confundiu com grego, nem com português ou espanhol. Uma vez, na Suíça, me perguntaram se eu era persa. E esse moreno brasileiro é descendente daquela gestação prodigiosa de mestiços, mamelucos paridos pelas mulheres indígenas.

Mas essa gente era ninguém, porque não sendo europeu nem índio, não era nada. O que eram eles? E eles tinham de sair dessa "ninguendade" para procurar uma identidade, para inventar a sua própria identidade, que viria a ser brasileira.

Algo similar ocorre com os negros. Para cada batelada de negros trazidos da África, traziam uma moleca de onze, doze anos, que valia tanto quanto dois trabalhadores parrudos, pois vinha para o gozo do patrão e do capataz. Assim, veio uma quantidade enorme de molecas, que são prenhadas pelos senhores e parem filhos mulatos - que também não eram ninguém. Sim, pois o africano não era, visivelmente, indígena; português também não era. Então era o quê? Era o que não existia ainda, era o que viria a ser o brasileiro.

Mas vejam, o que eu quero assinalar é a imensa importância disso que Bolívar chamou de um gênero humano novo. Nós, que não somos nem europeus, nem indígenas, nem africanos, nem nada - o que somos? Somos um gênero humano novo, uma civilização que vai se apresentar ao mundo como outra coisa que o mundo ainda não viu; e creio que é uma coisa melhor, porque tem mais humanidade incorporada.

Às vezes me irrita a atitude que se apresenta lá em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, de uns europeuzinhos malucos, que chegaram aqui na passagem do século e viraram gado humano exportado. Estavam na mesma situação de todos os brasileiros hoje: a população excedia a necessidade de mão-de-obra da economia. Então, a solução para o Brasil é exportar brasileiros; como os europeus exportaram 60 milhões, nós importamos sete milhões, e cinco milhões se fixaram aqui. Gente jogada na miséria como gado humano, mas que aqui tiveram tanto êxito, nos ajudaram tanto, tiveram um papel tão importante para o Brasil, modernizaram o Brasil; mas ficam com essa atitude besta de não dar confiança para o brasileiro comum e para o Brasil. Não sabem que, quando chegaram, o país estava todo dividido, marcado; e eram as províncias mais bonitas da terra. A independência já estava feita, e o povo pagou para eles virem. Por outro lado, muitos têm uma atitude aberta, cooperativa, generosa.

Ouvi um imbecil aqui de São Paulo me dizer que o ideal dele era arranjar dinheiro para mandar os nordestinos de volta para o nordeste, pagando seis vezes o salário e a passagem. E pensar que essa gente vem para São Paulo à toa; são os melhores, os mais fortes de lá, os "Lulas" que fizeram cursinho e vieram para cá. Essa atitude é muito ruim, e muito ignorante também.

Daí vem um fato muito importante: você tenta fazer uma teoria do Brasil, um corpo de explicações para o brasileiro ver como ele foi construído e que lugar têm esses contingentes - que importância grande teve esse contingente europeu que chegou na passagem do século, implantou-se aqui e fez aqui uma coisa muito bonita. E evidentemente, essa atitude que se vê em Santa Catarina, separatista ou de desprezo pelo resto do país, é uma atitude de muita ignorância.

Por isso creio que meu livro pode ajudar os brasileiros a melhorarem a explicação de si mesmos. A antropologia é a ciência do humano; e nossa antropologia é uma barbarologia, que eu vi: estudos bárbaros, a que a pessoa se dedica anos e anos. Vai lá e passa meio ano gigolando, gigolando; ou então vai estudar os loucos do hospício, as crianças, os doidos, os gays; ou seja, é uma antropologia do exótico e do bárbaro. No entanto, o tema da antropologia são vocês, com suas caras, somos nós, é o povo brasileiro. A antropologia deve existir aqui para nos explicar. Os americanos não precisam disso, porque eles sabem que não são eles, que são uma coisinha que a Inglaterra pôs lá. É um transplante tentando melhorar, mas é uma porcaria, não é como nós. Tenho dito.

(No Site da Estação Ciência – ano 1997)