A Revolução Francesa

 

(Do livro: A era das Revoluções: 1789 – 1848, Ed. Paz e Terra, pág. 83 a 113, Ano 2003)

 

Eric J. Hobsbawm

 

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Um inglês que não se sinta cheio de estima e admiração pela maneira sublime com que está agora se efetuando uma das mais Importantes Revoluções que o mundo jamais viu deve estar morto para todos os sentidos da virtude e da liberdade; nenhum de meus patrí­cios que tenha tido a sorte de presenciar as ocorrências dos últimos três dias nesta grande cidade fará mais que testemunhar que minha linguagem não é hiperbólica.

The Morning Post (21 de julho de 1789) sobre a queda da Bastilha

Brevemente as nações esclarecidas colocarão em julgamento aqueles que têm até aqui governado os seus destinos. Os reis fugi­rão para os desertos, para a companhia dos animais selvagens que a eles se assemelham; e a Natureza recuperará os seus direitos.

Saint-Just; Sur La Constitution de Ia France, Discours pro­noncé à la Convention, 24 de abril de 1793

 

 

Se a economia do mundo do século XIX foi formada principal­mente sob a influência da revolução industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa. A Grã-Bretanha forneceu o modelo para as ferrovias e fábricas, o explosívo econômico que rompeu com as estruturas socioeconô­micas tradicionais do mundo não europeu; mas foi a França que fez suas revoluções e a elas deu suas idéias, a ponto de bandeiras tricolo­res de urn tipo ou de outro terem-se tornado o emblema de pratica­mente todas as nações emergentes, e a política européia (ou mesmo mundial) entre 1789 e 1917 foi em grande parte a luta a favor e con­tra os príncípios de 1789, ou os ainda mais incendiários de 1793. A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e radical­ democrática para a maior parte do mundo. A França deu o primeiro grande exemplo, o conceito e o vocabulário do nacionalismo. A Fran­ça forneceu os códigos legais, o modelo de organização técnica e cien­tífica e o sistema métrico de medidas para a maioria dos países. A ideologia do mundo moderno atingiu as antigas civilizações que ti­nham até então resistido as idéias européias inicialmente através da influência francesa. Esta foi a obra da Revolução Francesa.(A)

 

(A) Esta diferença entre as influências britânica e francesa não deve ser levada muito longe. Nenhum dos dois centros da revolução dupla confinou sua influência a qualquer campo da atividade humana, e os dois eram antes complementares que competitivos. Entretanto, até mesmo quando ambos convergiam mais claramente - como no socialismo, que foi quase simultaneamente inventado e batizado nos dois países -, convergiam a partir de direções um tanto diferentes.

 

 

 

O final do século XVIII, como vimos, foi uma época de crise para os velhos regimes da Europa e seus sistemas econômicos, e suas últimas décadas foram cheias de agitações políticas, às vezes chegan do a ponto da revolta, e de movimentos coloniais em busca de auto­nomia, às vezes atingindo o ponto da secessão: não só nos EUA (1776-83) mas também na Irlanda (1782-4), na Bélgica e em Liège (1787-90), na Holanda (1783-7), em Genebra e até mesmo - con­forme já se discutiu - na Inglaterra (1779). A quantidade de agita­ções políticas é tão grande que alguns historiadores mais recentes fa­laram de uma "era da revolução democrática", em que a Revolução Francesa foi apenas um exemplo, embora o mais dramático e de maior alcance e repercussão.

 

Na medida em que a crise do velho regime não foi puramente um fenômeno francês, há algum peso nestas observações. Igualmen­te, pode-se argumentar que a Revolução Russa de 1917 (que ocupa uma posição de importância análoga em nosso século) foi meramen­te o mais dramático de toda uma série de movimentos semelhantes, tais como os que - alguns anos antes de 1917 - finalmente puse­ram fim aos antigos impérios turco e chinês. Ainda assim, há aí um equívoco. A Revolução Francesa pode não ter sido um fenômeno isolado, mas foi muito mais fundamental do que os outros fenôme­nos contemporâneos e suas conseqüências foram portanto mais pro­fundas. Em primeiro lugar, ela se deu no mais populoso e poderoso Estado da Europa (não considerando a Rússia). Em 1789, cerca de um em cada cinco europeus era francês. Em segundo lugar, ela foi, diferentemente de todas as revoluções que a precederam e a segui­ram, uma revolução social de massa, e incomensuravelmente mais radical do que qualquer levante comparável. Não é um fato mera­mente acidental que os revolucionários americanos e os jacobinos britânicos que emigraram para a França devido a suas simpatias po­líticas tenham sido vistos como moderados na França. Tom Paine era um extremista na Grã-Bretanha e na América; mas em Paris ele es­tava entre os mais moderados dos girondinos. Resultaram das revo­luções americanas, grosseiramente falando, países que continuaram a ser o que eram, somente sem o controle político dos britânicos, es­panhóis e portugueses. O resultado da Revolução Francesa foi que a era de Balzac substituiu a era de Mme. Dubarry.

Em terceiro lugar, entre todas as revoluções contemporâneas, a Revolução Francesa foi a única ecumênica. Seus exércitos partiram para revolucionar o mundo; suas idéias de fato o revolucionaram. A revolução americana foi um acontecimento crucial na história ame­ricana, mas (exceto nos países diretamente envolvidos nela ou por ela) deixou poucos traços relevantes em outras partes. A Revolução Francesa é um marco em todos os países. Suas repercussões, ao con­trário daquelas da revolução americana, ocasionaram os levantes que levaram à libertação da América Latina depois de 1808. Sua influên­cia direta se espalhou até Bengala, onde Ram Mohan Roy foi inspi­rado por ela a fundar o primeiro movimento de reforma hindu, pre­decessor do moderno nacionalismo indiano. (Quando visitou a Inglaterra em 1830, ele insistiu em viajar num navio francês para demonstrar o entusiasmo que tinha pelos princípios da Revolução.) A Revolução Francesa foi, como se disse bem, "o primeiro grande movimento de idéias da cristandade ocidental que teve qualquer efeito real sobre o mundo islâmico"' e isto quase que de imediato. Por volta da metade do século XIX, a palavra turca vatan, que até então simplesmente descrevia o local de nascimento ou a residência de um homem, tinha começado a se transformar, sob sua influên­cia, em algo parecido com patrie, o termo "liberdade", antes de 1800 sobretudo uma expressão legal que denotava o oposto de "escravidão", tinha começado a adquirir um novo conteúdo políti­co. Sua influência direta é universal, pois ela forneceu o padrão para todos os movimentos revolucionários subseqüentes, suas lições (in­terpretadas segundo o gosto de cada um) tendo sido incorporadas ao socialismo e ao comunismo modernos. (B)

 

(B) Com isto não queremos subestimar a influência da revolução americana. Sem dúvida ela ajudou a estimular a Revolução Francesa, e, num sentido mais estreito, forneceu modelos constitucionais - competindo e às vezes se alternando com a Revolução Francesa - para vários Estados latino-americanos e a inspiração para movimentos democrático-radicais de tempos em tempos.

A Revolução Francesa é assim a revolução do seu tempo, e não apenas uma, embora a mais proeminente, do seu tipo. E suas origens devem portanto ser procuradas não meramente em condições gerais da Europa, mas sim na situação específica da França. Sua peculiarida­de é talvez melhor ilustrada em termos internacionais. Durante todo o século XVIII a França foi o maior rival econômico da Grã-Bretanha. Seu comércio externo, que se multiplicou quatro vezes entre 1720 e 1780, causava ansiedade; seu sistema colonial foi em certas áreas (como nas índias Ocidentais) mais dinâmico que o britânico. Mesmo assim a França não era uma potência como a Grã-Bretanha, cuja po­lítica externa já era substancialmente determinada pelos interesses da expansão capitalista. Ela era a mais poderosa, e sob vários aspectos a mais típica, das velhas e aristocráticas monarquias absolutas da Euro­pa. Em outras palavras, o conflito entre a estrutura oficial e os interes­ses estabelecidos do velho regime e as novas forças sociais ascendentes era mais agudo na França do que em outras partes.

As novas forças sabiam muito precisamente o que queriam. Turgot, o economista fisiocrata, lutou por uma exploração eficiente da terra, por um comércio e uma empresa livres, por uma adminis tração eficiente e padronizada de um único território nacional ho­mogêneo, pela abolição de todas as restrições e desigualdades sociais que impediam o desenvolvimento dos recursos nacionais e por uma administração e taxação racionais e imparciais. Ainda assim, sua ten­tativa de aplicação desse programa como primeiro-ministro no pe­ríodo 1774-6 fracassou lamentavelmente, e o fracasso é característi­co. Reformas desse tipo, em doses modestas, não eram incompatíveis

com as monarquias absolutas nem tampouco mal recebidas. Pelo contrário, uma vez que as fortaleciam, tiveram, como já vimos, uma ampla difusão nessa época entre os chamados "déspotas esclareci­dos". Mas na maioria dos países de "despotismo esclarecido" essas re­formas ou eram inaplicáveis, e portanto meros floreios teóricos, ou então improváveis de mudar o caráter geral de suas estruturas políti­co-sociais; ou ainda fracassaram em face da resistência das aristocra­cias locais e de outros interesses estabelecidos, deixando o país recair em uma versão um pouco mais limpa do seu antigo Estado. Na França elas fracassaram mais rapidamente do que em outras partes, pois a resistência dos interesses estabelecidos era mais efetiva. Mas os resultados deste fracasso foram mais catastróficos para a monarquia; e as forças da mudança burguesa eram fortes demais para cair na ina­tividade. Elas simplesmente transferiram suas esperanças de uma monarquia esclarecida para o povo ou a "nação".

Não obstante, uma generalização desta ordem não nos leva muito longe na compreensão de por que a Revolução eclodiu quan­do eclodiu, e por que tomou aquele curso notável. Para isso, é mais útil considerarmos a chamada "reação feudal" que realmente forne­ceu a centelha que fez explodir o barril de pólvora da França.

As 400 mil pessoas aproximadamente que, entre os 23 milhões de franceses, formavam a nobreza, a inquestionável "primeira linha" da nação, embora não tão absolutamente a salvo da intromissão das linhas menores como na Prússia e outros lugares, estavam bastante seguras. Elas gozavam de consideráveis privilégios, inclusive de isenção de vá­rios impostos (mas não de tantos quanto o clero, mais bem organiza­do), e do direito de receber tributos feudais. Politicamente sua situação era menos brilhante. A monarquia absoluta, conquanto inteiramente aristocrática e até mesmo feudal no seu ethos, tinha destituído os no­bres de sua independência política e responsabilidade e reduzido ao mínimo suas velhas instituições representativas "estados” e parlements. (C)

 

 

(C) "estates" no original. Em inglês britânico, a palavra estate designa, quer os bens excepcionais que definem um "status", que uma "ordem" ou "classe" so­cial do Antigo Regime (cf. "Terceiro Estado"), quer uma Corte ou Assembléia (nesse caso, ao plural, cf. "Os Estados Gerais") - trata-se portanto aqui das As­sembléias ou Cortes da Nobreza.

 

O fato continuou a se agravar entre a mais alta aristocracia e entre a no­blesse de robe mais recente, criada pelos reis para vários fins, principal­mente financeiros e administrativos; uma classe média governamental enobrecida que expressava tanto quanto podia o duplo descontenta­mento dos aristocratas e dos burgueses através das assembléias e cortes de justiça remanescentes. Economicamente as preocupações dos no­bres não eram absolutamente desprezíveis. Guerreiros e não profissio­nais ou empresários por nascimento e tradição - nobres eram até mesmo formalmente impedidos de exercer um ofício ou profissão -, eles dependiam da renda de suas propriedades, ou, se pertencessem à minoria privilegiada de grandes nobres ou cortesãos, de casamentos milionários, pensões, presentes ou sinecuras da corte. Mas os gastos que exigia o status de nobre eram grandes e cada vez maiores, e suas rendas caíam - já que eram raramente administradores inteligentes de suas fortunas, se é que de alguma forma as conseguiam administrar. A inflação tendia a reduzir o valor de rendas fixas, como aluguéis.

Era portanto natural que os nobres usassem seu bem principal, os privilégios reconhecidos. Durante todo o século XVIII, na Fran­ça corno em tantos outros países, eles invadiram decididamente os postos oficiais que a monarquia absoluta preferira preencher com homens da classe média,` politicamente inofensivos e tecnicamente competentes. Por volta da década de 1780, eram necessários quatro graus de nobreza até para comprar uma patente no exército, todos os bispos eram nobres e até mesmo as intendências, a pedra angular da administração real, tinham sido retomadas por eles. Conseqüen­temente, a nobreza não só exasperava os sentimentos da classe média por sua bem-sucedida competição por postos oficiais, mas também corroia o próprio Estado através da crescente tendência de assumir a administração central e provinciana. De maneira semelhante, eles - e especialmente os cavalheiros provincianos mais pobres que tinham poucos outros recursos - tentaram neutralizar o declínio de suas rendas usando ao máximo seus consideráveis direitos feudais para extorquir dinheiro (ou mais raramente, serviço) do campesinato. Toda uma profissão, a dos feudistas,F nasceu para reviver os direitos obsoletos desse tipo ou então para aumentar ao máximo o lucro dos existentes. Seu mais celebrado membro, Gracchus Babeuf, viria a se tornar o líder da primeira revolta comunista da história moderna, em 1796. Conseqüentemente, a nobreza não só exasperava a classe média mas também o campesinato.

A situação desta classe enorme, compreendendo talvez 80% de todos os franceses, estava longe de ser brilhante. De fato os campo­neses eram em geral livres e não raro proprietários de terras. Em quantidade efetiva, as propriedades nobres cobriam somente 1/5 da terra, as propriedades do clero talvez cobrissem outros 6%, com va­riações regionais? Assim é que na diocese de Montpellier os campo­neses já possuíam de 38% a 40% da terra, a burguesia de 18% a 19%, os nobres de 15% a 16% e o clero de 3% a 4%, enquanto 1/5 era de terras comuns. Na verdade, entretanto, a grande maioria não tinha terras ou tinha uma quantidade insuficiente, deficiência esta aumentada pelo atraso técnico dominante; e a fome geral de terra foi intensificada pelo aumento da população. Os tributos feudais, os dí­zimos e as taxas tiravam uma grande e cada vez maior proporção da renda do camponês, e a inflação reduzia o valor do resto. Pois só a minoria dos camponeses que tinha um constante excedente para vendas se beneficiava dos preços crescentes; o resto, de uma manei­ra ou de outra, sofria, especialmente em tempos de má colheita, quan­do dominavam os preços de fome. Há pouca dúvida de que nos 20 anos que precederam a Revolução a situação dos camponeses tenha piorado por essas razões.

Os problemas financeiros da monarquia agravaram o quadro. A estrutura fiscal e administrativa do reino era tremendamente ob­soleta, e, como vimos, a tentativa de remediar a situação através das reformas de 1774-6 fracassou, derrotada pela resistência dos interes­ses estabelecidos encabeçados pelos parlements. Então a França en­volveu-se na guerra da independência americana. A vitória contra a Inglaterra foi obtida ao custo da bancarrota final, e assim a revo­lução americana pôde proclamar-se a causa direta da Revolução Francesa. Vários expedientes foram tentados com sucesso cada vez menor, mas sempre longe de uma reforma fundamental que, mobi­lizando a considerável capacidade tributável do país, pudesse enfren­tar uma situação em que os gastos excediam a renda em pelo menos 20% e não havia quaisquer possibilidades de economias efetivas. Pois embora a extravagância de Versailles tenha sido constantemen­te culpada pela crise, os gastos da corte só significavam 6% dos gas­tos totais em 1788. A guerra, a marinha e a diplomacia constituíam 1/4, e metade era consumida pelo serviço da dívida existente. A guer­ra e a dívida - a guerra americana e sua dívida - partiram a espi­nha da monarquia.

A crise do governo deu à aristocracia e aos parlements a sua chance. Eles se recusavam a pagar pela crise se seus privilégios não fossem estendidos. A primeira brecha no fronte do absolutismo foi uma "assembléia de notáveis" escolhidos a dedo, mas assim mesmo rebeldes, convocada em 1787 para satisfazer as exigências governa­mentais. A segunda e decisiva brecha foi a desesperada decisão de convocar os Estados Gerais, a velha assembléia feudal do reino, en­terrada desde 1614. Assim, a Revolução começou como uma tenta­tiva aristocrática de recapturar o Estado. Esta tentativa foi mal cal­culada por duas razões: ela subestimou as intenções independentes do "Terceiro Estado" - a entidade fictícia destinada a representar todos os que não eram nobres nem membros do clero, mas de fato dominada pela classe média - e desprezou a profunda crise socio­econômica no meio da qual lançava suas exigências políticas.

A Revolução Francesa não foi feita ou liderada por um partido ou movimento organizado, no sentido moderno, nem por homens que estivessem tentando levar a cabo um programa estruturado. Nem mesmo chegou a ter "líderes" do tipo que as revoluções do século XX nos têm apresentado, até o surgimento da figura pós-revolucionária de Napoleão. Não obstante, um surpreendente consenso de idéias ge­rais entre um grupo social bastante coerente deu ao movimento revo­lucionário uma unidade efetiva. O grupo era a "burguesia'; suas idéias eram as do liberalismo clássico, conforme formuladas pelos "filósofos" e "economistas" e difundidas pela maçonaria e associações informais. Até este ponto os "filósofos" podem ser, com justiça, considerados res­ponsáveis pela Revolução. Ela teria ocorrido sem eles; mas eles prova­velmente constituíram a diferença entre um simples colapso de um velho regime e a sua substituição rápida e efetiva por um novo.

Em sua forma mais geral, a ideologia de 1789 era a maçônica, expressa com tão sublime inocência na Flauta Mágica de Mozart (1791), uma das primeiras grandes obras de arte propagandísticas de uma época em que as mais altas realizações artísticas pertence­ram tantas vezes à propaganda. Mais especificamente, as exigências do burguês foram delineadas na famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Este documento é um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não um manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária. "Os homens nascem e vivem livres e iguais perante as leis", dizia seu pri­meiro artigo; mas ela também prevê a existência de distinções so­ciais, ainda que "somente no terreno da utilidade comum". A pro­priedade privada era um direito natural, sagrado, inalienável e inviolável. Os homens eram iguais perante a lei e as profissões esta­vam igualmente abertas ao talento; mas, se a corrida começasse sem bandicaps, era igualmente entendido como fato consumado que os corredores não terminariam juntos. A declaração afirmava (como contrário à hierarquia nobre ou absolutismo) que "todos os cidadãos têm o direito de colaborar na elaboração das leis"; mas "pessoalmen­te ou através de seus representantes". E a assembléia representativa que ela vislumbrava como o órgão fundamental de governo não era necessariamente uma assembléia democraticamente eleita, nem o re­gime nela implícito pretendia eliminar os reis. Uma monarquia constitucional baseada em uma oligarquia possuidora de terras era mais adequada à maioria dos liberais burgueses do que a república democrática que poderia ter parecido uma expressão mais lógica de suas aspirações teóricas, embora alguns também advogassem esta causa. Mas, no geral, o burguês liberal clássico de 1789 (e o liberal de 1789-1848) não era um democrata mas sim um devoto do constitu­cionalismo, um Estado secular com liberdades civis e garantias para a empresa privada e um governo de contribuintes e proprietários.

Entretanto, oficialmente esse regime expressaria não apenas seus interesses de classe, mas também a vontade geral do "povo", que era por sua vez (uma significativa identificação) "a nação francesa". O rei não era mais Luís, pela Graça de Deus, Rei de França e Navar­ra, mas Luís, pela Graça de Deus e do direito constitucional do Es­tado, Rei dos franceses. "A fonte de toda a soberania", dizia a Decla­ração, "reside essencialmente na nação". E a nação, conforme disse o Abade Sieyès, não reconhecia na terra qualquer direito acima do seu próprio e não aceitava qualquer lei ou autoridade que não a sua - nem a da humanidade como um todo, nem a de outras nações. Sem dúvida, a nação francesa, como suas subseqüentes imitadoras, não concebeu inicialmente que seus interesses pudessem se chocar com os de outros povos, mas, pelo contrário, via a si mesma como mau~ guradora ou participante de um movimento de libertação geral dos povos contra a tirania. Mas de fato a rivalidade nacional (por exem­plo, a dos homens de negócios franceses com os ingleses) e a subor­dinação nacional (por exemplo, a das nações conquistadas ou liber­tadas em face dos interesses da grande nation) estavam implícitas no nacionalismo ao qual a burguesia de 1789 deu sua primeira expres­são oficial. "O povo" identificado com "a nação" era um conceito re­volucionário; mais revolucionário do que o programa liberal-burguês que pretendia expressá-lo. Mas era também uma faca de dois gumes.

Visto que os camponeses e os trabalhadores pobres eram anal­fabetos, politicamente simples ou imaturos, e o processo de eleição, indireto, 610 homens, a maioria desse tipo, foram eleitos para repre sentar o Terceiro Estado. A maioria da assembléia era de advogados que desempenhavam um papel econômico importante na França provinciana; cerca de 100 representantes eram capitalistas e homens de negócios. O Terceiro Estado tinha lutado acirradamente, e com sucesso, para obter uma representação tão grande quanto a da no­breza e a do clero juntas, uma ambição moderada para um grupo que oficialmente representava 95% do povo. E agora lutava com igual determinação pelo direito de explorar sua maioria potencial de votos, transformando os Estados Gerais numa assembléia de depu­tados que votariam individualmente, ao contrário do corpo feudal tradicional que deliberava e votava por "ordens" ou "estados", uma situação em que a nobreza e o clero podiam sempre derrotar o Ter­ceiro Estado. Foi aí que se deu a primeira vitória revolucionária. Cerca de seis semanas após a abertura dos Estados Gerais, qs Co­muns, ansiosos por evitar a ação do rei, dos nobres e do clero, cons­tituíram-se eles mesmos, e todos os que estavam preparados para se juntarem a eles nos termos que ditassem, em Assembléia Nacional com o direito de reformar a constituição. Foi feita uma tentativa contra-revolucionária que os levou a formular suas exigências prati­camente nos termos da Câmara dos Comuns inglesa. O absolutismo atingia seus estertores, conforme Mirabeau, um brilhante e desacre­ditado ex-nobre, disse ao rei: "Majestade, vós sois um estranho nesta assembléia e não tendes o direito de se pronunciar aqui".

O Terceiro Estado obteve sucesso, contra a resistência unifica­da do rei e das ordens privilegiadas, porque representava não apenas as opiniões de uma minoria militante e instruída, mas também as de forças bem mais poderosas: os trabalhadores pobres das cidades, e especialmente de Paris, e em suma, também, o campesinato revolucio­nário. O que transformou uma limitada agitação reformista em uma revolução foi o fato de que a conclamação dos Estados Gerais coin­cidiu com uma profunda crise socioeconômica. Os últimos anos da década de 1780 tinham sido, por uma complexidade de razões, um período de grandes dificuldades praticamente para todos os ramos da economia francesa. Uma má safra em 1788 (e 1789) e um inver­no muito difícil tornaram aguda a crise. As más safras faziam sofrer o campesinato, pois significavam que enquanto os grandes produto­res podiam vender cereais a preços de fome, a maioria dos homens em suas insuficientes propriedades tinha provavelmente que se ali­mentar do trigo reservado para o plantio ou comprar alimentos àqueles preços, especialmente nos meses imediatamente anteriores à nova safra (maio-julho). Obviamente as más safras faziam sofrer também os pobres das cidades, cujo custo de vida - o pão era o principal alimento - podia duplicar. Fazia-os sofrer ainda mais, porque o empobrecimento do campo reduzia o mercado de manu­faturas e portanto também produzia uma depressão industrial. Os pobres do interior ficavam assim desesperados e envolvidos em dis­túrbios e banditismo; os pobres das cidades ficavam duplamente de­sesperados, já que o trabalho cessava no exato momento em que o custo de vida subia vertiginosamente. Em circunstâncias normais, te­ria ocorrido provavelmente pouco mais que agitações cegas. Mas em 1788 e 1789 uma convulsão de grandes proporções no reino e uma cam­panha de propaganda e eleição deram ao desespero do povo uma perspectiva política. E lhe apresentaram a tremenda e abaladora idéia de se libertar da pequena nobreza e da opressão. Um povo turbulen­to se colocava por trás dos deputados do Terceiro Estado.

A contra-revolução transformou um levante de massa em po­tencial em um levante efetivo. Sem dúvida era natural que o velho regime oferecesse resistência, se necessário com força armada, embo­ra o exército não fosse mais totalmente de confiança. (Só sonhado­res irrealistas suporiam que Luís XVI pudesse ter aceito a derrota e imediatamente se transformado em um monarca constitucional, mesmo que ele tivesse sido um homem menos desprezível e estúpi­do do que era, casado com uma mulher menos irresponsável e com menos miolos de galinha, e preparado para escutar conselheiros me­nos desastrosos.) De fato a contra-revolução mobilizou contra si as massas de Paris, já famintas, desconfiadas e militantes. O resultado mais sensacional de sua mobilização foi a queda da Bastilha, uma prisão estatal que simbolizava a autoridade real e onde os revolucio­nários esperavam encontrar armas. Em tempos de revolução nada é mais poderoso do que a queda de símbolos. A queda da Bastilha, que fez do 14 de julho a festa nacional francesa, ratificou a queda do des­potismo e foi saudada em todo o mundo como o princípio de liber­tação. Até mesmo o austero filósofo Emanuel Kant, de Koenigsberg, de quem se diz que os hábitos eram tão regrados que os cidadãos da­quela cidade acertavam por ele os seus relógios, postergou a hora de seu passeio vespertino ao receber a notícia, de modo que convenceu a cidade de Koenigsberg de que um fato que sacudiu o mundo tinha deveras ocorrido. O que é mais certo é que a queda da Bastilha levou a revolução para as cidades provincianas e para o campo.

As revoluções camponesas são movimentos vastos, disformes, anônimos, mas irresistíveis. O que transformou uma epidemia de in­quietação camponesa em uma convulsão irreversível foi a combinação dos levantes das cidades provincianas com uma onda de pânico de massa, que se espalhou de forma obscura mas rapidamente por grandes regiões do país: o chamado Grande Medo (Grande Peur), de fins de julho e princípio de agosto de 1789. Três semanas após o 14 de julho, a estrutura social do feudalismo rural francês e a máquina estatal da França Real ruíam em pedaços. Tudo o que restou do po­derio estatal foi uma dispersão de regimentos pouco confiáveis, uma Assembléia Nacional sem força coercitiva e uma multiplicidade de administrações municipais ou provincianas da classe média' que lo­go montaram "Guardas Nacionais" burguesas seguido o modelo de Paris. A classe média e a aristocracia imediatamente aceitaram o ine­vitável: todos os privilégios feudais foram oficialmente abolidos em­bora, quando a situação política se acalmou, fosse fixado um preço rígido para sua remissão. O feudalismo só foi finalmente abolido em 1793. No final de agosto, a revolução tinha também adquirido seu manifesto formal, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cida­dão. Em contrapartida, o rei resistiu com sua costumeira estupidez, e setores revolucionários da classe média, amedrontados com as im­plicações sociais do levante de massa, começaram a pensar que era chegada a hora do conservadorismo.

Em resumo, a principal forma da política revolucionária bur­guesa francesa e de todas as subseqüentes estava agora bem clara. Esta dramática dança dialética dominaria as gerações futuras. Repe tidas vezes veremos moderados reformadores da classe média mobi­lizando as massas contra a resistência obstinada ou a contra-revolu­ção. Veremos as massas indo além dos objetivos dos moderados rumo a suas próprias revoluções sociais, e os moderados, por sua vez, dividindo-se em um grupo conservador, daí em diante fazendo causa comum com os reacionários, e um grupo de esquerda, determinado a perseguir o resto dos objetivos moderados, ainda não alcançados, com o auxílio das massas, mesmo com o risco de perder o controle sobre elas. E assim por diante, com repetições e variações do mode­lo de resistência - mobilização de massa - inclinação para a es­querda - rompimento entre os moderados - inclinação para a di­reita - até que o grosso da classe média passe daí em diante para o campo conservador ou seja derrotado pela revolução social. Na maioria das revoluções burguesas subseqüentes, os liberais modera­dos viriam a retroceder, ou transferir-se para a ala conservadora, num estágio bastante inicial. De fato, no século XIX vemos de modo crescente (mais notadamente na Alemanha) que eles se tornaram ab­solutamente relutantes em começar uma revolução, por medo de suas incalculáveis conseqüências, preferindo um compromisso com o rei e a aristocracia. A peculiaridade da Revolução Francesa é que uma facção da classe média liberal estava pronta a continuar revolu­cionária até o, e mesmo além do, limiar da revolução antiburguesa eram os jacobinos, cujo nome veio a significar "revolução radical" em toda parte.

 

Por quê? Em parte, é claro, porque a burguesia francesa não tinha ainda para temer, como os liberais posteriores, a terrível me­mória da Revolução Francesa. Depois de 1794, ficaria claro para os moderados que o regime jacobino tinha levado a revolução longe de­mais para os objetivos e comodidades burgueses, exatamente como ficaria claro para os revolucionários que "o sol de 1793", se fosse nas­cer de novo, teria que brilhar sobre uma sociedade não burguesa. Por outro lado, os jacobinos podiam sustentar o radicalismo porque em sua época não existia uma classe que pudesse fornecer uma solução social coerente como alternativa à deles. Esta classe só surgiu no curso da revolução industrial, com o "proletariado" ou, mais preci­samente, com as ideologias e movimentos baseados nele. Na Revo­lução Francesa, a classe operária - e mesmo esta é uma designação imprópria para a massa de assalariados contratados, mas fundamen­talmente não industriais - ainda não desempenhava qualquer papel independente. Eles tinham fome, faziam agitações e talvez sonhas­sem, mas por motivos práticos seguiam os líderes não proletários. O campesinato nunca fornece uma alternativa política para ninguém; apenas, de acordo com a ocasião, uma força quase irresistível ou um obstáculo quase irremovível. A única alternativa para o radicalismo burguês (se excetuarmos pequenos grupos de ideólogos ou militan­tes impotentes quando destituídos do apoio das massas) eram os "sansculottes", um movimento disforme, sobretudo urbano, de tra­balhadores pobres, pequenos artesãos, lojistas, artífices, pequenos empresários etc. Os sansculottes eram organizados, principalmente nas "seções" de Paris e nos clubes políticos locais, e forneciam a prin­cipal força de choque da revolução - eram eles os verdadeiros ma­nifestantes, agitadores, construtores de barricadas. Através de jorna­listas como Marat e Hébert, através de porta-vozes locais, eles também formularam uma política, por trás da qual estava um ideal social contraditório e vagamente definido, que combinava o respei­to pela (pequena) propriedade privada com a hostilidade aos ricos, trabalho garantido pelo governo, salários e segurança social para o homem pobre, uma democracia extremada, de igualdade e de liber­dade, localizada e direta. Na verdade, os sansculottes eram um ramo daquela importante e universal tendência política que procurava ex­pressar os interesses da grande massa de "pequenos homens" que existia entre os pólos do "burguês" e do "proletário", freqüentemen­te talvez mais próximos deste do que daquele porque eram, afinal, na maioria pobres. Esta tendência pode ser observada nos Estados Unidos (sob a forma de uma democracia jeffersoniana e jacksonia­na, ou populismo), na Grã-Bretanha (radicalismo), na França (com os antecessores dos futuros "republicanos" e radicais-socialistas), na Itália (com os mazzinianos e os garibaldinos) e em toda parte. Na maioria das vezes, ela costumou se colocar, nas épocas pós-revolucio­nárias, como uma ala esquerdista do liberalismo da classe média, mas relutante em abandonar o antigo princípio de que não há ini­migos na esquerda, e pronta, em tempos de crise, a se rebelar contra "a muralha de dinheiro", "os monarquistas econômicos" ou "a cruz de ouro que crucifica a humanidade". Mas o movimento dos sans­culottes também não forneceu nenhuma alternativa real. O seu ideal, um passado dourado de aldeões e pequenos artesãos ou um fu­turo dourado de pequenos fazendeiros e artífices não perturbados por banqueiros e milionários, era irrealizável. A história se movia silenciosamente contra eles. O máximo que podiam fazer - e isto eles conseguiram em 1793-4 - era erguer obstáculos à sua passagem, os quais dificultaram o crescimento econômico francês daquela época até quase a atual. De fato, o sansculotismo foi um fenômeno tão de­samparado que seu próprio nome está praticamente esquecido, ou só é lembrado como sinônimo do jacobinismo que lhe deu liderança no Ano II.

 

II

 

Entre 1789 e 1791, a vitoriosa burguesia moderada, atuando através do que tinha a esta altura se transformado na Assembléia Constituinte, tomou providências para a gigantesca racionalização e reforma da França, que era seu objetivo. A maioria dos empreendi­mentos institucionais duradouros da revolução data deste período, assim como os seus mais extraordinários resultados internacionais, o sistema métrico e a emancipação pioneira dos judeus. Economica­mente as perspectivas da Assembléia Constituinte eram inteiramente liberais: sua política em relação aos camponeses era o cerco das terras comuns e o incentivo aos empresários rurais; para a classe trabalha­dora, a interdição dos sindicatos; para os pequenos artesãos, a aboli­ção dos grêmios e corporações. Dava pouca satisfação concreta ao povo comum, exceto, a partir de 1790, com a secularização e venda dos terrenos da Igreja (bem como dos terrenos da nobreza emigran­te) que tinha a tripla vantagem de enfraquecer o clericalismo, forta­lecer o empresário rural e provinciano e dar a muitos camponeses uma retribuição mensurável por suas atividades revolucionárias. A Constituição de 1791 rechaçou a democracia excessiva através de um sistema de monarquia constitucional baseada num direito de voto censitário dos "cidadãos ativos" reconhecidamente bastante amplo. Esperava-se que os passivos honrassem sua denominação.

Na verdade, isto não aconteceu. Por um lado, a monarquia, embora a esta altura fortemente apoiada por uma poderosa facção burguesa ex-revolucionária, não podia se conformar com o novo re gime. A corte sonhava e conspirava por uma cruzada de primos reais que banisse a canalha governante de plebeus e restituísse o ungido de Deus, o mui católico rei da França, a seu lugar de direito. A Consti­tuição Civil do Clero (1790), uma má concebida tentativa de des­truir não a Igreja, mas a lealdade romana absolutista da Igreja, levou a maioria do clero e de seus fiéis à oposição, e ajudou a levar o rei à desesperada e afinal suicida tentativa de fugir do país. Ele foi recap­turado em Varennes (junho de 1791) e daí em diante o republica­nismo tornou-se uma força de massa; pois os reis tradicionais que abandonam seus povos perdem o direito à lealdade. Por outro lado, a incontrolada economia de livre empresa dos moderados acentuou as flutuações no nível dos preços dos alimentos e conseqüentemen­te a militância dos pobres das cidades, especialmente em Paris. O preço do pão registrava a temperatura política de Paris com a exati­dão de um termômetro e as massas de Paris eram a força revolucio­nária decisiva: não por mero acaso, a nova bandeira nacional france­sa foi uma combinação do velho branco real com as cores vermelha e azul de Paris.

A eclosão da guerra agravou a situação; isto quer dizer que ela ocasionou uma segunda revolução em 1792, a República Jacobina do Ano li, e, conseqüentemente, Napoleão. Em outras palavras, ela transformou a história da Revolução Francesa na história da Europa.

Duas forças levaram a França a uma guerra geral: a extrema di­reita e a esquerda moderada. O rei, a nobreza francesa e a crescente emigração aristocrática e eclesiástica, acampados em várias cidades da Alemanha Ocidental, achavam que só a intervenção estrangeira poderia restaurar o velho regime. (Observação: Cerca de 300 mil franceses emigraram entre 1789 e 1795)

Esta intervenção não foi muito fa­cilmente organizada, dadas as complexidades da situação internacio­nal e a relativa tranqüilidade política de outros países. Entretanto, era cada vez mais evidente para os nobres e os governantes por direi­to divino de outros países que a restauração do poder de Luís XVI não era meramente um ato de solidariedade de classe, mas uma pro­teção importante contra a difusão de idéias perturbadoras vindas da França. Conseqüentemente, as forças para a reconquista da França concentraram-se no exterior.

Ao mesmo tempo, os próprios liberais moderados, e principal­mente um grupo de políticos que se aglomerava em torno dos depu­tados do departamento mercantil de Gironda, eram uma força beli cosa. Isto se devia, em parte, ao fato de que toda revolução genuína tende a ser ecumênica. Para os franceses, bem como para seus nume­rosos simpatizantes no exterior, a libertação da França era simples­mente o primeiro passo para o triunfo universal da liberdade, uma atitude que levou facilmente à convicção de que era dever da pátria da revolução libertar todos os povos que gemiam debaixo da opres­são e da tirania. Havia entre os revolucionários, moderados e extre­mistas, uma paixão generosa e genuinamente exaltada em difundir a liberdade; uma inabilidade genuína para separar a causa da nação francesa daquela de toda a humanidade escravizada. O movimento francês, assim como todos os outros movimentos revolucionários, viriam a aceitar este ponto de vista, ou a adaptá-lo, daí até pelo menos 1848. Todos os planos para a libertação européia até 1848 gi­ravam em torno de um levante conjunto dos povos, sob a liderança dos franceses, para derrubar a reação européia; e, depois de 1830, outros movimentos de revolta nacional e liberal, como o italiano e o polonês, também tenderam a ver suas nações em certo sentido como o Messias destinado por sua própria liberdade a iniciar os planos libertários de todos os outros povos.

Por outro lado, considerada menos idealisticamente, a guerra também ajudaria a solucionar numerosos problemas domésticos. Era tentador e óbvio atribuir as dificuldades do novo regime às conspi rações dos emigrantes e dos tiranos estrangeiros, e lançar contra eles os populares descontentes. Mais especificamente, os homens de ne­gócios argumentavam que as perspectivas econômicas incertas, a desvalorização da moeda e outros problemas só podiam ser remedia­dos se a ameaça de intervenção fosse dissipada. Eles e seus ideólogos deviam pensar, com uma olhadela na experiência britânica, que a su­premacia econômica era filha da agressividade sistemática. (O sécu­lo XVIII não foi um século em que o homem de negócios bem-su­cedido estivesse absolutamente casado com a paz.) Além do mais, como logo se veria, a guerra podia ser feita para dar lucros. Por todas estas razões, a maioria da nova Assembléia Legislativa, exceto uma pequena ala direitista e uma pequena ala esquerdista sob o comando de Robespierre, pregava a guerra. Por estas razões também, quando a guerra chegou, as conquistas da revolução viriam a combinar a li­bertação, a exploração e a digressão política.

A guerra foi declarada em abril de 1792. A derrota, que o povo (bem plausivelmente) atribuiu à sabotagem e à traição real, trouxe a radicalização. Em agosto-setembro, a monarquia foi derrubada, a Re pública estabelecida e uma nova era da história humana proclamada, com a instituição do Ano 1 do calendário revolucionário, pela ação armada das massas sansculottes de Paris. A heróica idade de ferro da Revolução Francesa começou entre os massacres dos prisioneiros po­líticos, as eleições para a Convenção Nacional - provavelmente a mais notável assembléia na história do parlamentarismo - e a con­clamação para a resistência total aos invasores. O rei foi feito prisio­neiro e a invasão estrangeira sustada por um nada dramático duelo de artilharia em Valmy.

As guerras revolucionárias impõem sua própria lógica. O parti­do dominante na nova Convenção era o dos girondinos, belicosos no exterior e moderados em casa, um corpo de oradores parlamentares com charme e brilho que representava os grandes negócios, a burgue­sia provinciana e muita distinção intelectual. Sua política era inteira­mente impossível, pois somente Estados em campanhas militares li­mitadas e com forças regulares estabelecidas poderiam ter esperanças de manter a guerra e os problemas domésticos em compartimentos estanques, como faziam exatamente nesta época as senhoras e cava­lheiros britânicos dos romances de Jane Austen. A revolução não es­tava em uma campanha limitada nem tinha forças estabelecidas, pois sua guerra oscilava entre a vitória total da revolução mundial e a der­rota total, que significava a total contra-revolução, e seu exército - o que sobrou do velho exército francês - era incapaz e inseguro. Du­mouriez, o maior general da República, logo desertaria para o inimi­go. Somente métodos revolucionários sem precedentes poderiam vencer uma guerra dessas, mesmo que a vitória viesse a significar sim­plesmente a derrota da intervenção estrangeira. De fato, tais métodos foram encontrados. No decorrer de sua crise, a jovem República Francesa descobriu ou inventou a guerra total: a total mobilização dos recursos de uma nação através do recrutamento, do racionamen­to e de uma economia de guerra rigidamente controlada, e da virtual abolição, em casa e no exterior, da distinção entre soldados e civis. Só foi em nossa própria época histórica que se manifestaram as tre­mendas implicações desta descoberta. Uma vez que a guerra revolu­cionária de 1792-4 permaneceu por muito tempo um episódio ex­cepcional, a maioria dos observadores do século XIX não conseguiu entendê-la, mas quando muito observar (e mesmo isso foi esquecido até a opulência do fim da era vitoriana) que as guerras levam a revo­luções e que as revoluções vencem guerras de outro modo invencíveis. Somente hoje em dia podemos ver quanto do que se passou na Re­pública Jacobina e no "Terror" de 1793-4 faz sentido apenas nos ter­mos de um moderno esforço de guerra total.

Os sansculottes saudaram um governo revolucionário de guer­ra, e não apenas porque corretamente defendiam que só assim a con­tra-revolução e a intervenção estrangeira podiam ser derrotadas, mas também porque seus métodos mobilizavam o povo e traziam a jus­tiça social mais para perto. (Eles desprezavam o fato de que nenhum esforço efetivo de guerra moderna é compatível com a democracia direta, voluntária e descentralizada que acalentavam.) Os girondinos, por outro lado, temiam as conseqüências políticas da combina­ção de uma revolução de massa com a guerra que eles provocaram. Nem estavam preparados para competir com a esquerda. Eles não queriam julgar ou executar o rei, mas tinham que competir com seus rivais, "a Montanha" (os jacobinos), por este símbolo de zelo revolu­cionário; a Montanha ganhou prestígio, não a Gironda. Por outro lado, os girondinos queriam realmente expandir a guerra para uma cruzada ideológica geral de libertação e para um desafio direto ao grande rival econômico, a Grã-Bretanha. Neste particular, tiveram sucesso. Por volta de março de 1793, a França estava em guerra con­tra a maior parte da Europa e tinha dado início a anexações estran­geiras (legitimadas pela recém-inventada doutrina do direito francês às "fronteiras naturais"). Mas a expansão da guerra, principalmente quando ela ia mal, só fortaleceu a esquerda, a única que poderia vencê-la. Batendo em retirada e derrotada taticamente, a Gironda foi finalmente levada a ataques mal calculados contra a esquerda, que logo se transformariam em uma revolta Provinciana organizada con­tra Paris. Um rápido golpe dos sansculottes derrubou-a em 2 de junho de 1793. Tinha chegado a República Jacobina.

 

III

 

Quando o leigo instruído pensa na Revolução Francesa, são os acontecimentos de 1789, mas especialmente a República Jacobina do Ano II, que vêm à sua mente. O empertigado Robespierre, o gi gantesco e dissoluto Danton, a gélida elegância revolucionária de Saint-Just, o gordo Marat, o Comitê de Salvação Pública, o tribunal revolucionário e a guilhotina são as imagens que vemos mais clara­mente. Os próprios nomes dos revolucionários moderados que sur­gem entre Mirabeau e Lafayette (1789) e os líderes jacobinos (1793) desapareceram da memória de todos, exceto dos historiadores. Os girondinos são lembrados apenas como um grupo, e talvez por causa das mulheres politicamente sem importância mas românticas que es­tavam ligadas a eles - Mine. Roland ou Charlotte Corday. Quem, fora do campo especializado, nem conhece sequer os nomes de Bris­sot, Vergniaud, Guadet e do resto? Os conservadores criaram uma imagem duradoura do Terror, da ditadura e da histérica e desenfrea­da sanguinolência, embora pelos padrões do século XX, e mesmo pelos padrões das repressões conservadoras contra as revoluções so­ciais, tais como os massacres que se seguiram à Comuna de Paris de 1871, suas matanças em massa fossem relativamente modestas: 17 mil execuções oficiais em 14 meses . Os revolucionários, especial­mente na França, viram-na como a primeira república do povo, ins­piração de toda a revolta subseqüente. Pois esta não era uma época a ser medida pelos critérios humanos cotidianos.

Isto é verdade. Mas para o francês da sólida classe média que estava por trás do Terror, ele não era nem patológico nem apocalíp­tico, mas primeiramente e sobretudo o único método efetivo de preservar seu país. Isto a República Jacobina conseguiu, e seu em­preendimento foi sobre-humano. Em junho de 1793, 60 dos 80 departamentos franceses estavam em revolta contra Paris; os exér­citos dos príncipes alemães estavam invadindo a França pelo norte e pelo leste; os britânicos atacavam pelo sul e pelo oeste: o país achava-se desamparado e falido. Quatorze meses mais tarde, toda a França estava sob firme controle, os invasores tinham sido expul­sos, os exércitos franceses por sua vez ocupavam a Bélgica e estavam perto de começar um período de 20 anos de quase ininterrupto e fácil triunfo militar. Ainda assim, por volta de março de 1794, um exército três vezes maior que o anterior era mantido pela metade do custo de março de 1793, e o valor da moeda francesa (ou melhor, do papel-moeda - assignats - que a tinha amplamente substituí­do) era mantido razoavelmente estável, em contraste marcante com o passado e o futuro. Não é de admirar que Jeanbon St. André, o membro jacobino do Comitê de Salvação Pública que, embora fosse um firme republicano, mais tarde se tornaria um dos mais efi­cientes prefeitos de Napoleão, olhasse para a França imperial com desdém quando ela cambaleava sob as derrotas de 1812-3. A Repú­blica do Ano II tinha enfrentado com sucesso crises piores e com menos recursos. (D)

(D) "Vós sabeis que espécie de governo (saiu vitorioso)?... Um governo da Convenção. Um governo de jacobinos apaixonados, com bonés vermelhos, roupas grosseiras de lã e tamancos de madeira, que viviam de pão puro e cerve ja barata e dormiam em colchões atirados sobre o chão de seus locais de reu­nião, quando estavam demasiadamente cansados para se levantar e continuar com as deliberações. Eu fui um deles, cavalheiros. E aqui, como nos aposentos do Imperador em que estou a ponto de entrar, glorifico este fato." Citado em J. Savant, Les Prefets de Napoléon (1958), 111-2.

 

Para estes homens, como de fato para a maioria da Convenção Nacional que no fundo deteve o controle durante todo este período, a escolha era simples: ou o Terror, com todos os seus defeitos do ponto de vista da classe média, ou a destruição da Revolução, a desintegra­ção do Estado nacional e provavelmente - já não havia o exemplo da Polônia? - o desaparecimento do país. Muito provavelmente, exceto pela desesperada crise da França, muitos deles teriam preferido um re­gime menos ferrenho e certamente uma economia controlada com menos rigor: a queda de Robespierre levou a uma epidemia de descon­trole econômico, fraudes e corrupção que incidentalmente culminou numa inflação galopante e na bancarrota nacional de 1797. Mas, mesmo do ponto de vista mais estreito, as perspectivas da classe média francesa dependiam das de um Estado nacional centralizado, forte e unificado. E, de qualquer forma, poderia a Revolução que tinha pra­ticamente criado os termos "nação" e "patriotismo", em seus sentidos modernos, abandonar a grande natíon?

A primeira tarefa do regime jacobino foi mobilizar o apoio da massa contra a dissidência dos notáveis e girondinos provincianos e preservar o já mobilizado apoio da massa dos sansculottes de Paris, algumas de cujas exigências por um esforço de guerra revolucionário - recrutamento geral (o levée en masse), terrorismo contra os "trai­dores" e controle geral dos preços (o "maximum") - coincidiam de qualquer forma com o senso comum jacobino, embora suas outras exigências viessem a se mostrar problemáticas. Uma nova constitui­ção um tanto radicalizada, e até então retardada pela Gironda, foi proclamada. De acordo com este nobre documento, todavia acadê­mico, dava-se ao povo o sufrágio universal, o direito de insurreição, trabalho ou subsistência, e - o mais significativo - a declaração oficial de que a felicidade de todos era o objetivo do governo e de que os direitos do povo deveriam ser não somente acessíveis, mas também operantes. Foi a primeira constituição genuinamente de­mocrática proclamada por um Estado moderno. Mais concretamen­te, os jacobinos aboliram sem indenização todos os direitos feudais remanescentes, aumentaram as oportunidades para o pequeno com­prador adquirir as terras confiscadas dos emigrantes e - alguns meses mais tarde - aboliram a escravidão nas colônias francesas, a fim de estimular os negros de São Domingos a lutarem pela Repú­blica contra os ingleses. Estas medidas obtiveram os mais amplos re­sultados. Na América, ajudaram a criar o primeiro grande líder revo­lucionário independente, Toussaint-Louverture. (E)

 

(E) O fracasso da França napoleônica em retomar o Haiti foi uma das prin­cipais razões para a liquidação de todo o remanescente Império Americano da França, que foi vendido pelo Termo de Compra da Louisiana (em 1803) aos EUA. Assim, uma conseqüência extra da difusão do jacobinismo na América foi a transformação dos EUA numa potência de dimensões continentais.

 

Na França, estabeleceram essa cidadela inexpugnável de pe­quenos e médios proprietários camponeses, pequenos artesãos e lo­jistas, economicamente retrógrados, mas apaixonadamente devota dos à Revolução e à República, que tem dominado a vida do país desde então. A transformação capitalista da agricultura e da peque­na empresa, a condição essencial para um rápido desenvolvimento econômico, foi reduzida a um rastejo, e com ela a velocidade da ur­banização, a expansão do mercado doméstico, a multiplicação da classe trabalhadora e, conseqüentemente, o ulterior avanço da revo­lução proletária. Tanto os grandes negócios quanto os movimentos trabalhistas foram longamente condenados a permanecer fenômenos minoritários na França, ilhas cercadas por um oceano de donos de mercearia vendedores de cereais, pequenos proprietários camponeses e donos de cafés (cf. capítulo 9).

O centro do novo governo, representando uma aliança de ja­cobinos e sansculottes, inclinou-se, portanto, claramente para a es­querda. Isto se refletiu no reconstruído Comitê de Salvação Pública, que rapidamente se transformou no efetivo Ministério da Guerra francês. O Comitê perdeu Danton, um revolucionário poderoso, dissoluto e provavelmente corrupto, mas imensamente talentoso e mais moderado que aparentava (tinha sido ministro na última administração real), e ganhou Maximilien Robespierre, que se tornou seu membro mais influente. Poucos historiadores têm sido desapaixona­dos a respeito deste advogado fanático, frio e afetado, com seu senso um tanto excessivo de monopólio privado da virtude, porque ele ainda encarna o terrível e glorioso Ano 11 a respeito do qual ninguém é neutro. Ele não era uma pessoa agradável; até mesmo os que acham que ele estava certo tendem hoje em dia a preferir o brilhante rigor matemático daquele arquiteto de paraísos espartanos, o jovem Saint­Just. Não foi também um grande homem, e sim muitas vezes limi­tado. Mas é o único indivíduo projetado pela Revolução (com a ex­ceção de Napoleão) sobre o qual se desenvolveu um culto. Isto porque, para ele, como para a história, a República Jacobina não era um instrumento para ganhar guerras, mas sim um ideal: o terrível e glorioso reino da justiça e da virtude, quando todos os bons cidadãos fossem iguais perante a nação, e o povo tivesse liquidado com os trai­dores. Jean Jacques Rousseau (cf. adiante capítulo 13-IV) e a crista­lina convicção de justiça deram-lhe sua força. Ele não tinha poderes ditatoriais formais nem mesmo um cargo, sendo simplesmente um membro do Comitê de Salvação Pública, que era por sua vez um me­ro subcomitê da Convenção - o mais poderoso, embora jamais todo-poderoso. Seu poder era o do povo - as massas parisienses: seu terror, o delas. Quando elas o abandonaram, ele caiu.

A tragédia de Robespierre e da República Jacobina foi que eles mesmos foram obrigados a afastar este apoio. O regime era uma aliança entre a classe média' e as massas trabalhadoras, mas voltado para a classe média. As concessões jacobinas e sansculottes eram to­leradas só porque, e na medida em que, ligavam as massas ao regime sem aterrorizar os proprietários; e dentro da aliança os jacobinos da classe média eram decisivos. Além do mais, as próprias necessidades da guerra obrigavam qualquer governo a centralizar e a disciplinar, à custa da livre democracia direta e local dos clubes e grêmios, as milícias ocasionais e as renhidas eleições livres em que floresciam os sansculottes. O mesmo processo que, durante a Guerra Civil Espa­nhola de 1936-9, fortaleceu os comunistas à custa dos anarquistas, fortaleceu os jacobinos do tipo de Saint-Just à custa dos sansculottes do tipo de Hébert. Por volta de 1794, o governo e a política eram monolíticos e dominados ferreamente por agentes diretos do Comi­tê ou da Convenção - através de delegados en mission - e por um amplo quadro de oficiais e funcionários jacobinos juntamente com organizações locais do partido. Por fim, as necessidades econômicas da guerra afastaram o apoio popular. Nas cidades, o controle de pre­ços e o racionamento beneficiavam as massas, mas o corresponden­te congelamento dos salários as prejudicava. No campo, o confisco sistemático de alimentos (que os sansculottes das cidades tinham sido os primeiros a advogar) afastou os camponeses.

As massas portanto recolheram-se ao descontentamento ou a uma passividade confusa e ressentida, especialmente depois do jul­gamento e execução dos hébertistas, os mais ardentes porta-vozes dos sansculottes. Enquanto isso, os defensores mais moderados da Revolução estavam alarmados com o ataque contra a oposição direi­tista, a esta altura encabeçada por Danton. Esta facção tinha forne­cido refúgio para numerosos escroques, especuladores, operadores do mercado negro e outros elementos corruptos embora acumulado­res de capital, e isso tão mais prontamente quanto o próprio Dan­ton incorporava a imagem do livre amante e gastador amoral, falsta­fiano, que sempre surge no início das revoluções sociais até que seja suplantado pelo rígido puritanismo que invariavelmente vem domi­ná-lo. Os Dantons da história são sempre derrotados pelos Robes~ pierres (ou por aqueles que fingem se portar como Robespierres), porque a dedicação rígida e estreita pode obter sucesso onde a boê­mia não o consegue. Entretanto, se Robespierre conquistou o apoio dos moderados por eliminar a corrupção, o que se apresentava afinal de contas no interesse do esforço de guerra, as ulteriores restrições à liberdade a à ação de ganhar dinheiro foram mais desconcertantes para o homem de negócios. Finalmente, nenhum grande corpo de opinião gostava das excursões ideológicas um tanto extravagantes do período - as sistemáticas campanhas de descristianização (devidas ao zelo dos sansculottes) e a nova religião cívica de Robespierre, a do Ser Supremo, cheia de cerimônias, que tentava contrapor-se aos ateus e levar a termo os preceitos do divino Jean Jacques. E o cons­tante silvo da guilhotina lembrava a todos os políticos que ninguém estava realmente a salvo.

Por volta de abril de 1794, tanto a direita quanto a esquerda tinham ido para a guilhotina, e os seguidores de Robespierre esta­vam portanto politicamente isolados. Somente a crise da guerra os mantinha no poder. Quando, no final de junho de 1794, os novos exércitos da República demonstraram sua firmeza derrotando deci­didamente os austríacos em Fleurus e ocupando a Bélgica, o fim es­tava perto. No Nono Termidor pelo calendário revolucionário (27 de julho de 1794), a Convenção derrubou Robespierre. No dia se­guinte, ele, Saint-Just e Couthon foram executados, e o mesmo ocorreu alguns dias depois com 87 membros da revolucionária Co­muna de Paris.

 

IV

 

O Termidor é o fim da heróica e lembrada fase da Revolução: a fase dos esfarrapados sansculottes e dos corretos cidadãos de bonés vermelhos que viam-se a si mesmos como Brutus e Cato, do perío do das frases generosas, clássicas e grandiloqüentes e também das mortais "Lyon n'est plus", "Dez mil soldados precisam de sapatos. Pegarás os sapatos de todos os aristocratas de Estrasburgo e os entre­garás prontos para o transporte até os quartéis amanhã às dez horas da manhã".' Não foi uma fase cômoda para se viver, pois a maioria dos homens sentia fome e muitos tinham medo, mas foi um fenô­meno tão terrível e irreversível quanto a primeira explosão nuclear, e toda a história tem sido permanentemente transformada por ela. E a energia que ela gerou foi suficiente para varrer os exércitos dos ve­lhos regimes da Europa como se fossem feitos de palha.

O problema com que se defrontava a classe média francesa no restante do que é tecnicamente descrito como o período revolucio­nário (1794-9) era como alcançar a estabilidade política e o avanço econômico nas bases do programa liberal de 1789-91. A classe mé­diaK jamais conseguiu desde então até hoje solucionar este proble­ma de forma adequada, embora a partir de 1870 conseguisse desco­brir na república parlamentar uma fórmula exeqüível para a maior parte do tempo. As rápidas alternâncias de regime - Diretório (1795-9), Consulado (1799-1804), Império (1804-14), a restaura­da Monarquia Bourbon (1815-30), a Monarquia Constitucional (1830-48), a República (1848-51), e o Império (1852-70) - foram todas tentativas para se manter uma sociedade burguesa evi­tando ao mesmo tempo o duplo perigo da república democrática jacobina e do velho regime.

A grande fraqueza dos termidorianos era que eles não desfru­tavam de nenhum apoio político (no máximo, tolerância), espremi­dos como estavam entre uma revivida reação aristocrática e os po bres sansculottes jacobinos de Paris, que logo se arrependeram da queda de Robespierre. Em 1795, projetaram uma elaborada consti­tuição de controles e balanços para se resguardarem de ambos, e as periódicas viradas para a direita e a esquerda os mantiveram em precário equilíbrio; mas cada vez mais tinham que depender do exército para dispersar a oposição. Era uma situação curiosamente semelhante à da Quarta República, e o resultado foi semelhante: o governo de um general. (F)

 

(F) A Quarta República francesa, incapaz de resolver a questão da Indepen­dência da Algéria, foi derrubada pelo "golpe do 13 de maio" (de 1958) pelo ge­neral de Gaulle, outrora chefe da Resistência (1940-1945) e criador da atual Quinta República.

 

 Mas o Diretório dependia do exército para algo mais do que a supressão de golpes e conspirações periódicas (várias em 1795, a de Babeuf em 1796, a do Frutidor em 1797, a do Floreal em 1798 e a da Pradaria em 1799). (G)

 

(G) Os nomes são os dos meses do calendário revolucionário

 

A inatividade era a única garantia segura de poder para um regime fraco e impopular, mas a classe média necessitava de iniciativa e de expansão. O exér­cito resolveu este problema aparentemente insolúvel. Ele conquis­tou; pagou-se a si mesmo; e, mais do que isto, suas pilhagens e con­quistas resgataram o governo. Teria sido surpreendente que, em conseqüência, o mais inteligente e capaz dos líderes do exército, Na­poleão Bonaparte, tivesse decidido que o exército podia prescindir totalmente do débil regime civil?

Este exército revolucionário foi o mais formidável rebento da República Jacobina. De um levée en masse de cidadãos revolucioná­rios, ele logo se transformou em uma força de combatentes profissio nais, pois não houve recrutamento entre 1793 e 1798, e os que não tinham gosto ou talento para o militarismo desertaram em massa. Portanto, ele reteve as características da Revolução e adquiriu as ca­racterísticas do interesse estabelecido, a típica mistura bonapartista. A Revolução deu-lhe sua superioridade militar sem precedentes, que o soberbo generalato de Napoleão viria a explorar. Ele sempre per­maneceu uma espécie de leva improvisada de soldados, no qual re­crutas mal treinados adquiriam treinamento e moral através de ve­lhos e cansativos exercícios, em que era desprezível a disciplina for­mal de caserna, em que os soldados eram tratados como homens e a regra absoluta de promoção por méritos (que significavam distinção na batalha) produziu uma hierarquia simples de coragem. Isto e o senso de arrogante missão revolucionária fizeram o exército francês independente dos recursos sobre os quais se apoiavam forças mais or­todoxas. Ele jamais construiu um sistema efetivo de suprimento, pois se apoiava nos campos. jamais foi amparado por uma indústria de ar­mamentos minimamente adequada a suas necessidades triviais; mas ele venceu suas batalhas tão rapidamente que necessitava de poucas armas: em 1806 a grande máquina do exército prussiano ruiu pe­rante um exército em que uma unidade militar inteira disparou so­mente 1.400 tiros de canhão. Os generais podiam confiar em uma coragem ofensiva ilimitada e em uma quantidade razoável de inicia­tiva local. Reconhecidamente, ele também tinha fraqueza a de suas origens. Com a exceção de Napoleão e pouquíssimos outros, seu ge­neralato e estado-maior eram pobres, pois o general revolucionário ou o marechal napoleônico era bem provavelmente um puro primei­ro-sargento ou uma espécie de oficial de companhia promovido an­tes por bravura e liderança do que por inteligência: o Marechal Ney, heróico, mas totalmente imbecil, era o tipo exato. Napoleão venceu batalhas; seus marechais sozinhos tendiam a perdê-las. Seu precário sistema de suprimento bastava nos países ricos e saqueáveis onde tinha sido desenvolvido: Bélgica, norte da Itália e Alemanha. Nos es­paços áridos da Polônia e da Rússia, como veremos, ele ruiu. A au­sência total de serviços sanitários multiplicava as baixas: entre 1800 e 1815 Napoleão perdeu 40% de suas forças (embora cerca de 1/3 pela deserção), mas entre 90% e 98% destas perdas eram de homens que morreram não no campo de combate mas sim devido a ferimentos, doenças, exaustão e frio. Em resumo, foi um exército que conquis­tou toda a Europa em curtas e vigorosas rajadas não apenas porque podia fazê-lo, mas porque tinha que fazê-lo.

Por outro lado, o exército era uma carreira como qualquer outra das muitas abertas ao talento pela revolução burguesa, e os que nele obtiveram sucesso tinham um interesse investido na estabilida­de interna como qualquer outro burguês. Foi isto que fez do exérci­to, a despeito de seu jacobinismo embutido, um pilar do governo pós-termidoriano, e de seu líder Bonaparte uma pessoa adequada para concluir a revolução burguesa e começar o regime burguês. O próprio Napoleão Bonaparte, embora cavalheiro de nascimento pelos padrões de sua bárbara ilha natal da Córsega, era um carreiris­ta típico daquela espécie. Nascido em 1769, ambicioso, descontente e revolucionário, subiu vagarosamente na artilharia, um dos poucos ramos do exército real em que a competência técnica era indispensá­vel. Durante a Revolução, e especialmente sob a ditadura jacobina que ele apoiou firmemente, foi reconhecido por um comissário local em um fronte de suma importância - por casualidade, um patrício da Córsega, fato que dificilmente pode ter abalado suas intenções - como um soldado de dons esplêndidos e muito promissor. O Ano 11 fez dele um general. Sobreviveu à queda de Robespierre, e um dom para o cultivo de ligações úteis em Paris ajudou-o em sua escalada após este momento difícil. Agarrou a sua chance na campanha italia­na de 1796, que fez dele o inquestionado primeiro soldado da Repú­blica, que agia virtualmente independente das autoridades civis. O poder foi meio atirado sobre seus ombros e meio agarrado por ele quando as invasões estrangeiras de 1799 revelaram a fraqueza do Di­retório e a sua própria indispensabilidade. Tornou-se primeiro côn­sul, depois cônsul vitalício e Imperador. E com sua chegada, como que por milagre, os insolúveis problemas do Diretório se tornaram solúveis. Em poucos anos a França tinha um Código Civil, uma con­cordata com a Igreja e até mesmo o mais significativo símbolo da es­tabilidade burguesa - um Banco Nacional. E o mundo tinha o seu primeiro mito secular.

Os leitores mais velhos ou os de países antiquados conhecem o mito napoleônico tal como ele existiu durante o século em que ne­nhuma sala da classe média estava completa sem o seu busto, e ta lentos panfletários podiam afirmar, mesmo como piada, que ele não era um homem mas um deus-sol. O extraordinário poder deste mito não pode ser adequadamente explicado nem pelas vitórias napoleô­nicas nem pela propaganda napoleônica, ou tampouco pelo próprio gênio indubitável de Napoleão. Como homem ele era inquestiona­velmente muito brilhante, versátil, inteligente e imaginativo, embo­ra o poder o tivesse tornado sórdido. Como general, não teve igual; como governante, foi um planejador, chefe e executivo soberbamen­te eficiente e um intelectual suficientemente completo para entender e supervisionar o que seus subordinados faziam. Como indivíduo parece ter irradiado um senso de grandeza, mas a maioria dos que deram esse testemunho, por exemplo, Goethe, viram-no no auge de sua fama, quando o mito já o tinha envolvido. Foi, sem sombra de dúvidas, um grande homem e - talvez com a exceção de Lênin - seu retrato é o que a maioria das pessoas razoavelmente instruídas, mesmo hoje, reconheceriam mais prontamente numa galeria de per­sonagens da história, ainda que somente pela tripla marca registrada do tamanho pequeno, do cabelo escovado para a frente sobre a testa e da mão enfiada no colete entreaberto. Talvez não tenha sentido fazer uma comparação dele, em termos de grandeza, com candida­tos a esse título no século XX.

Pois o mito napoleônico baseia-se menos nos méritos de Na­poleão do que nos fatos, então sem paralelo, de sua carreira. Os ho­mens que se tornaram conhecidos por terem abalado o mundo de forma decisiva no passado tinham começado como reis, como Ale­xandre, ou patrícios, como Júlio César, mas Napoleão foi o "peque­no cabo" que galgou o comando de um continente pelo seu puro ta­lento pessoal. (Isto não foi estritamente verdadeiro, mas sua ascensão foi suficientemente meteórica e alta para tornar razoável a descrição.) Todo jovem intelectual que devorasse livros, como o jovem Bona­parte o fizera, escrevesse maus poemas e romances e adorasse Rous­seau poderia, a partir daí, ver o céu como o limite e seu monograma enfaixado em lauréis. Todo homem de negócios daí em diante tinha um nome para sua ambição: ser - os próprios clichês o denunciam - um "Napoleão das finanças" ou da indústria. Todos os homens comuns ficavam excitados pela visão, então sem paralelo, de um homem comum que se tornou maior do que aqueles que tinham nascido para usar coroas. Napoleão deu à ambição um nome pessoal no momento em que a dupla revolução tinha aberto o mundo aos homens de vontade. E ele foi mais ainda. Foi um homem civilizado do século XVIII, racionalista, curioso, iluminado, mas também dis­cípulo de Rousseau o suficiente para ser ainda o homem romântico do século XIX. Foi o homem da Revolução, e o homem que trouxe

estabilidade. Em síntese, foi a figura com que todo homem que par­tisse os laços com a tradição podia-se identificar em seus sonhos. Para os franceses ele foi também algo bem mais simples: o mais bem-sucedido governante de sua longa história. Triunfou gloriosa­mente no exterior, mas, em termos nacionais, também estabeleceu ou restabeleceu o mecanismo das instituições francesas como exis­tem até hoje. Reconhecidamente, a maioria de suas idéias - talvez todas - foram previstas pela Revolução e o Diretório; sua contri­buição pessoal foi fazê-las um pouco mais conservadoras, hierárqui­cas e autoritárias. Mas seus predecessores apenas previram; ele reali­zou. Os grandes monumentos de lucidez do direito francês, os Códigos que se tornaram modelos para todo o mundo burguês, ex­ceto o anglo-saxão, foram napoleônicos. A hierarquia dos funcioná­rios - a partir dos prefeitos, para baixo -, das cortes, das universi­dades e escolas foi obra sua. As grandes "carreiras" da vida pública francesa, o exército, o funcionalismo público, a educação e o direito ainda têm formas napoleônicas. Ele trouxe estabilidade e prosperida­de para todos, exceto para os 250 mil franceses que não retornaram de suas guerras, embora mesmo para os parentes deles tivesse trazido a glória. Sem dúvida, os britânicos se viam como lutadores pela causa da liberdade contra a tirania; mas em 1815 a maioria dos ingleses era mais pobre do que o fora em 1800, enquanto a maioria dos france­ses era quase certamente mais rica, e ninguém, exceto os trabalha­dores assalariados cujo número era insignificante, tinha perdido os substanciais benefícios econômicos da Revolução. Há pouco misté­rio quanto à persistência do bonapartismo como uma ideologia de franceses apolíticos, especialmente dos camponeses mais ricos, de­pois da queda do ditador. Foi necessário um segundo Napoleão me­nor, entre 1851 e 1870, para dissipá-la.

Ele destruíra apenas uma coisa: a Revolução Jacobina, o sonho de igualdade, liberdade e fraternidade, do povo se erguendo na sua grandiosidade para derrubar a opressão. Este foi um mito mais po deroso do que o dele, pois, após a sua queda, foi isto e não a sua me­mória que inspirou as revoluções do século XIX, inclusive em seu próprio país.