Vídeo Também é Aula: aspectos teóricos e práticos

 

Prof. César Augusto Nunes

 

Há dez anos atrás comecei a montar uma videoteca e a trabalhar com documentários.

Meus objetivos iniciais eram: ilustrar as aulas, torná-las diversificadas e interessantes; lançar mão de um instrumento perante o qual o aluno passava horas seguidas a TV; escapar do "lousa, giz e saliva". Algum tempo depois, passei a trabalhar também com filmes de ficção.

Aqui, importa uma primeira observação, apesar de passar a idéia de um reflexo científico, exato, da realidade, o documentário também é produto de uma montagem, que em si já é uma interpretação, e o texto também é fruto de uma visão do mundo. As obras teóricas, em geral, não estabelecem uma distinção tão nítida entre os dois gêneros, o documentário e o filme de ficção.

O documentário ou filme tem que ser preparado: assisti-lo previamente, anotar os aspectos importantes que ele possui, de acordo com seus objetivos, estando atento para todas as possibilidades que ele oferece. Um documentário ou um filme oferecem, não raro, muitas possibilidades de trabalho. Montar esquemas, retirar frases ou pensamentos significativos do documentário ou filme, intercalar frases ou pensamentos retirados de obras, textos ou do próprio professor, muitas vezes contraditórios com o filme ou documentário, importante para o debate na aula e com a obra de arte.

É necessário também que o professor faça uma pesquisa prévia para observar se o documentário possui informações incorretas, lacunas, omissão de informações, etc. No caso de filmes, essa pesquisa prévia se coloca com mais intensidade. Por exemplo: não é possível trabalhar filmes sobre épocas ou acontecimentos históricos sem que o professor leia livros ou artigos, com riqueza de informações e detalhes, sobre essas épocas ou acontecimentos. É claro que nem sempre o professor terá condições de fazer uma pesquisa que esgote o assunto, mas ele deverá ter essa preocupação. Como é possível e mesmo importante que o professor selecione filmes que ele trabalhará anos seguidos, essa tarefa torna-se mais fácil. Aqui eu integro um componente que me parece fundamental do professor, ou seja, o seu caráter de pesquisador.

O vídeo não pode simplesmente ser jogado para o aluno. Ele tem que estar profundamente ligado ao conteúdo que você trabalhou ou vai trabalhar. Com o tempo, eu passei a ter mais de um documentário ou filme para cada conteúdo que ensino e posso até selecionar o mais adequado para os alunos e para os objetivos. O vídeo também não é um momento para "relaxar",para o simples entretenimento ou para "matar aula", visão que por vezes persiste e até acontece, quando não planejada adequadamente.É claro, no entanto, que nunca se deve esquecer uma dimensão fundamental da arte que é a diversão e que representa um atrativo para o aluno.

É necessário, primeiro, introduzir o vídeo, isto é, situar o que se vai ver e procurar despertar o interesse dos alunos. Essa introdução pode e deve ser criativa. Segundo, é necessário interromper a exibição toda vez que forem necessários comentários, explicações, interpretações, para que o aluno compreenda aspectos fundamentais do que ele está vendo, ou para chamar a sua atenção para aspectos que ele não observou, ou não observaria espontaneamente, ou ainda, quando se percebe que o grau de concentração está diminuindo.

Os documentários e filmes, embora não sejam uma panacéia para a interdisciplinaridade, podem e devem ser utilizados por dois ou mais professores de disciplinas diferentes. O importante é que os professores observem se há aspectos significativos relacionados com a sua matéria e estabeleçam uma preparação e estratégia conjuntas para o trabalho. Mesmo um filme aparentemente banal como O Outro Lado da Nobreza permite uma abordagem conjunta pelos professores de Português, Inglês, Ciências e História: aspectos da narrativa e relatório escrito dos alunos, aspectos da língua inglesa, História da Inglaterra no século XVII, Revolução Científica do século XVII e Iluminismo, doenças causadas por microrganismos ( bactérias, em especial), História da Medicina, desequilíbrio ecológico na sociedade atual, saneamento básico, doenças transmitidas por ratos, o preconceito contra o doente mental e os aidéticos, Ética, etc.

É possível abordar de forma bastante interessante os temas transversais através de documentários e filmes. Professores de duas ou mais disciplinas podem trabalhar um tema ou temas transversais, sem prejuízo da abordagem de temas diretamente relacionados com suas disciplinas, no mesmo documentário ou filme. As possibilidades são múltiplas e riquíssimas. Penso ter dado uma pequena demonstração no exemplo acima.

O trabalho com documentários e filmes não exclui, pelo contrário integra, outros componentes do trabalho pedagógico, como, por exemplo: a) o uso da lousa para esquemas, frases e anotações, que o professor poderá fazer antes ou ao longo da exibição, ou ao final; b) dependendo da necessidade do documentário ou filme, a utilização de um mapa; c) o uso de textos relacionados com o documentário ou filme e não só o livro didático; d) o uso de artigos e reportagens de jornal. Por exemplo: o ano passado foi lançado o filme O Resgate do Soldado Ryan, ao mesmo tempo o Caderno "Mais!" da Folha de São Paulo trouxe quatro artigos polêmicos comentando o filme. Nada mais natural do que orientar os alunos para que assistissem ao filme, ainda não havia sido lançado em vídeo, o que já aconteceu, fizessem um relatório integrando criticamente os comentários do jornal e uma pesquisa sobre o Dia D e a Segunda Guerra com base em enciclopédias e livros. O ano passado fiz esse trabalho com quatro oitavas séries, este ano repeti com dez terceiros colegiais.

Em relação ao documentário, o filme possui algumas vantagens. As mais importantes são o envolvimento emocional dos alunos e o interesse em saber como termina. O envolvimento emocional faz parte da própria magia do cinema e da sua "ilusão de realidade". Através desse envolvimento emocional e do interesse em acompanhar o filme até o fim, é possível levar o aluno a interessar-se e a trabalhar os assuntos relacionados com o filme. O fato de ser mais fácil envolver emocionalmente o aluno com o filme, não quer dizer que isso não seja possível com um documentário. Há muitos documentários em que é possível obter isso. Não há como não levar as crianças a recusar a nossa era atômica ao verem as crianças de Chernobyl, documentário que permite uma abordagem por História, Ciências, Geografia (Ética e Cidadania), no mínimo.

Por outro lado o envolvimento emocional do aluno é tudo e quando ele "sofre" com a perspectiva, por exemplo, de que a protagonista de O Nome da Rosa poderá ser queimada, junto com a angústia do protagonista, é o momento adequado não só para mostrarmos uma intolerante sociedade medieval, mas principalmente para fazê-lo sentir a intolerância, e a negação da vida no pisotear da liberdade na nossa própria sociedade. É o momento adequado para fazê-lo sentir a morte dos milhões de "diferentes" e não só "Em Nome de Deus" nos nossos tristes tempos. Todo professor já sentiu o brilho no olhar dos alunos e o quanto aí a educação se faz e se torna vida. Não acredito em Educação sem emoção.

No que diz respeito ao discurso cinematográfico, é importante que o professor se preocupe em ir assimilando os vários elementos dessa linguagem, colocando-os para os alunos sempre que for possível.

É fundamental discutir que por traz do filme de ficção ou do documentário existe alguém que fala e que esse alguém na maioria das vezes não aparece. George Lucas não produz apenas uma inocente e maravilhosa diversão com o seu Guerra nas Estrelas, mas reproduz igualmente a sua visão elitista sobre o governo dos homens. Por trás da emoção maravilhosa de um pai que protege seu filho em qualquer circunstância do "A Vida é Bela", nos temos que nos perguntar: Eram assim mesmo os campos de concentração nazistas? É possível, mesmo nas mais terríveis circunstâncias, protegermos o nosso rebento da terrível crueldade humana e fazê-lo viver um conto de fadas? A força do pensamento positivo tudo pode? Spielberg rompe com os filmes tradicionais de Hollywood nas imagens tremendamente realistas sobre o desembarque do Dia D, mas não rompe com a visão patriótica desses mesmos filmes.

Assim, estaremos incorporando a arte não só como diversão em nossas aulas, mas como reflexão.

Ao incorporarmos a discussão sobre o discurso cinematográfico em nossas aulas com vídeo, estaremos dando aos alunos elementos para que reflitam criticamente não só sobre os filmes a que assistem, mas também sobre a linguagem televisiva.

Quem já não se irritou profundamente de ver que os alunos e pais assistem acriticamente os "Ratinhos" da vida, ou os apresentadores maravilhosos, a destilar puro veneno ideológico, ou os nossos telejornais apresentarem-se como " o espelho do mundo, no qual você confia", slogan propagandeado pelo Jornal O Estado de São Paulo há alguns anos atrás, uma verdadeira jóia da pretensa neutralidade e objetividade jornalísticas.

É fundamental no trabalho com vídeo sempre um retorno, de preferência escrito, por parte do aluno. Nunca o vídeo deve apenas ser assistido pelo aluno sem nenhum compromisso. Por outro lado, também não basta dizer aos alunos que anotem o que considerarem mais importante. É necessário nas questões, frases, pensamentos, introduções criativas, intervenções, etc., que o professor coloca ao trabalhar o vídeo, orientá-los quanto ao acompanhamento e à reflexão que eles devem ter. Com o tempo eles se acostumam e já sabem até o que se espera deles. Claro, a orientação do professor não deve tolher a autonomia de visão dos alunos ao assistirem a um filme. Aliás, essa autonomia muitas vezes nos surpreende maravilhosamente, quando eles observam aspectos que nós mesmos observamos, ou mesmo fazem intervenções bastante críticas, ou seja mobilizam a sua experiência de vida para o diálogo com o filme e para com o professor, elemento importantíssimo para que a educação ocorra, como todos sabem.

Existem múltiplas formas de avaliação que podem ser utilizadas para o trabalho com vídeo e o professor deve buscar aquela ou aquelas que se ajustam melhor aos seus objetivos. Na maioria das vezes, prefiro os relatórios em grupo, que são preparados após o debate geral e as colocações finais após a exibição do vídeo, depois orientados na aula seguinte em que eles se reúnem em pequenos grupos para comparar suas anotações, discutir e integrar criticamente os textos de apoio, com redação própria, para finalizar os relatórios. Além disso, é possível avaliar suas anotações individuais ou relatórios individuais, sua participação nos debates e observações, e mesmo incorporar elementos dos vídeos e do trabalho com os vídeos nas provas.

Um dos aspectos teóricos importantes de um filme, é que ele sempre está voltado para o momento em que é feito. O cineasta é sempre, conscientemente ou não, um homem do seu tempo e mesmo temáticas históricas ou de ficção científica, possuem sempre um vínculo com o presente. Esse vínculo com o presente é sempre importantíssimo para a discussão e, muitas vezes, fundamental para o desnudamento ideológico e político da obra.

Além dos elementos que coloquei neste texto como dedicação, pesquisa, preparação prévia, etc., que devem, acredito, fazer parte do trabalho do professor, gostaria de incluir também uma bibliografia comentada para o trabalho com vídeo. A dimensão dialética do trabalho prático é importantíssima no meu modo de ver. Não acredito em práticas sem reflexão teórica e vice-versa.

Bibliografia Comentada e Recomendada

 

  1. No Escurinho do Cinema , IN : Revista Nova Escola. N 114, agosto de 1998, Fundação Victor Civita.
  2. Essa matéria conta com a participação de Elias Thomé Saliba, professor da USP, e de Marialva Monteiro, professora do CINEDUC, que discorrem sobre alguns aspectos teóricos da linguagem cinematográfica e do trabalho com filmes na escola. Além disso, a matéria relata importantes experiências práticas do trabalho com filmes em Escolas de Ensino Fundamental, em trabalhos conjuntos de professores de diferentes disciplinas, dando, ainda, exemplos práticos de filmes que foram utilizados.

  3. Era uma vez o Cinema. Edições Melhoramentos. Esse pequeno livro deve estar disponível nas salas de leitura pois faz parte do PNLD 99. Trata-se de um livro maravilhoso em concepção interativa e extremamente agradável destinado às crianças. Traça uma história do cinema e coloca aspectos fundamentais da linguagem cinematográfica, incluindo os efeitos especiais computadorizados. Pode e deve ter sua leitura indicada para os alunos.
  4. BERNARDET, Jean Claude. O Que é Cinema. Nova Cultural - Brasiliense. Coleção Primeiros Passos. São Paulo, 1985. O autor é um consagrado crítico e professor de cinema. Coloca neste livro para iniciantes aspectos fundamentais da história do cinema e das principais estéticas cinematográficas, discutindo também a linguagem cinematográfica e sua ideologia.
  5. FURHAMAR, Leife e Isaksson, Folke. Cinema e Política. Tradução : Julio Cesar Montenegro, Ed. Paz e Terra, RJ, 1975. Os autores discutem neste livro aspectos da linguagem cinematográfica relacionada a seu "conteúdo político consciente ou inconsciente, escondido ou declarado". Ou seja, trata-se dos conteúdos ideológicos políticos presentes, em maior ou menor escala, nos filmes. O livro traça também a história do cinema e da propaganda política, discute a estética e a linguagem cinematográficas. Além disso, analisa o conteúdo político e a estética de vários filmes clássicos feitos em várias épocas do cinema e em vários regimes políticos: Estados Unidos, Alemanha Nazista, ex- União Soviética, etc..
  6. XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico. Ed. Paz e Terra, RJ, 1977. Este livro trata de forma bastante aprofundada e complexa a linguagem e a estética cinematográficas. Trata-se de uma obra muito mais destinada a cursos superiores de comunicação na área de cinema, mas pode ser lido por quem deseje uma compreensão aprofundada da arte cinematográfica.